domingo, 16 de dezembro de 2012

Os maias estavam errados



Meu vizinho costuma manter a pose de normal. Mas, de perto, revela suas esquisitices. Ele é meu amigo em rede social, mas, quando cruza comigo nos corredores do prédio, parece que me vê pela primeira vez. Oi é coisa rara.

Nas duas últimas semanas, eu o encontrei três vezes. E ele sempre carregava sacolas de supermercado. Andava com pressa. Eu o ouvi alertar a faxineira. “A senhora deveria fazer o mesmo! Ninguém sabe o que vai acontecer depois daquele dia.”

Sem prestar muita atenção da primeira vez, imaginei que fosse algum dia de oferta, que garantiria a ceia de Natal mais barata. A faxineira, na casa dos 80 anos, sempre fala com orgulho que não perde uma oferta nos supermercados do bairro. Sempre acompanha os panfletos e compara preços. Na semana passada, economizou R$ 30 na quarta-feira, data de verduras, legumes e frutas.

As sacolas de supermercado do vizinho exigiam duas, três viagens do carro ao apartamento. Tinha jeito de compra do mês. Dois dias depois, saindo para o trabalho, quase esbarrei no sujeito com meia dúzia sacolas nas mãos. A mulher dele, suando em bicas, carregava outra meia dúzia.

O instinto fofoqueiro renasceu e me causou uma onda matemática, resumida no seguinte pensamento. “A família do cara deve ser grande, muita gente para vários perus de Natal.” O surto de abastecimento – confesso - não me incomodou por muito tempo. O episódio se tornara mais um na lista de bisbilhotices do prédio.

Até ontem, um sábado chuvoso. Desci para levar o lixo reciclável na garagem quando, embaixo de um pé d’água, avistei o vizinho com mais sacolas de supermercado. Na garagem, deu para ver o porta-malas lotado de caixas de leite, peças de frango, lataria, entre outros itens. Na escala fofoqueira, o parecer: “o cara montou um bunker. É hora de perguntar.”

Reduzi o passo para que o sujeito pudesse me enxergar. Assim, puxaria papo e mataria a curiosidade de um dia insosso. Quando ele agarrou a caixa de 12 litros de leite e pôs no ombro, aproveitei para cumprimentá-lo e perguntei:

— Muita gente para o Natal?

— Natal. É estoque para o fim do mundo. Vamos comemorar!

Ah! A expressão inútil de quem não sabe o que dizer. Lembrei-me daqueles malucos norte-americanos que apareceram no noticiário, preparando-se para o final dos tempos, previsto para 21 de dezembro. O que meu vizinho esperava? E eu? Entraria na fortaleza dele? Teria comida de graça por algum tempo? Ou deveria queimar o resto do limite do cartão de crédito e propor a ele uma comunidade isolada e seletiva?

O sujeito mudou minha opinião. Ele até poderia ser maluco, mas tinha bom humor. Seríamos vítimas do cataclisma, mas morreríamos com honras e com diversão. Tomei coragem e retomei a conversa com design de interrogatório.

— Tantas compras assim? Pretende ficar em casa após o fim do mundo?

— Claro que sim. Será a maior festança. Churrasco, cerveja, a parentada toda, amigos da antiga, netos, todo mundo reunido. É uma chance única. Sabe-se lá se teremos outra oportunidade de encher a cara com gosto. O que sobrar, a gente mata no Natal.

Opa, o vizinho queria hora extra. Apocalipse é um só, não tem chorinho, sobremesa ou rapidinha. Dia 21 acaba tudo, com previram os maias. Resta sonhar com as ruínas.

Eu morreria na Ilha das Palmas, lugar paradisíaco onde acontece a festa de confraternização do jornal para onde escrevo. Decidi ignorar a compra de presentes e os convites para amigos secretos. Vai que o boato vire verdade.

Olhei bem para o vizinho e a pergunta escorregou pela boca, de bate pronto:

— Natal? O senhor tem certeza de que sobrará alguma coisa depois do dia 21?

O sujeito largou a caixa de leite no chão, olhou para as mãos e fez as contas. Olhou de volta para mim e disse, com seriedade:

— Você acreditou nesta bobagem dos maias? O mundo acaba para mim dia 16 de dezembro, amanhã, às dez e meia da manhã.

Hoje, no horário do profeta que mora ao lado, compreendi a previsão. Exatamente nesta hora, o vizinho foi na janela e gritou:

— Acabou! Acabou! Campeão do mundo! Campeão do mundo! Vai, Curinthia! 

Fiquei com vergonha de não ter tocado a campainha dele para celebrar nossa chegada ao paraíso.

3 comentários:

tenshilivis disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk muito bom

Por Trás do Jornal dos Jogos disse...

Marcão, você me enganou direitinho. Eu já ia dizer que antes do mundo acabar teríamos direito à segunda parcela do 13º, que sai dia 20, mas o fim do mundo, afinal, é o Corinthians!!! rsrsrsrrs Torci contra, mas esse é o seu terceiro título mundial. O primeiro foi em 1953, quando conquistou a Pequena Taça do Mundo! O DaCosta não sabia disso!!! rsrsrsrs(Calafiori).

Daniel S. disse...

"Por trás do Jornal dos Jogos", se for assim então o meu SPFC é 5x. Mas preferimos ficar com o que realmente é título de verdade.

Eu já sou um pouco radical qto ao texto, mas parabenizo por realmente ter me segurado a atenção até o final, o q para internet um texto longo é raro me prender.