sábado, 1 de dezembro de 2012

O gerente do supermercado


Frequento, desde criança, o mesmo supermercado. Confesso que desenvolvi uma relação de afetividade, diferente da maioria dos consumidores, que adora reclamar do atendimento. Alguns clientes – do perfil que só pedem pelo telefone, sem sair da poltrona – criticam até as promoções especiais, daquelas exclusivas e perto de casa.

O supermercado – é importante explicar que levei algum tempo para entender que se tratava de mera relação de negócios – entrou em crise de identidade. Em 2010, a empresa era líder em vendas, a direção era elogiada até pela imprensa local, os funcionários se revezavam no prêmio de melhor do mês.

O cenário se desenhava como uma repetição de 2002, quando o supermercado derrubou todos os concorrentes, com uma fórmula familiar, apelidada com o sobrenome do gerente, um sujeito do tipo sargentão, mas que parecia governar com senso de justiça. Ou, pelo menos, senso de oportunidade, quando colocou os empregados nas funções em que apresentavam melhores resultados. Até adotou o termo da moda, colaboradores, para mascarar a hierarquia rígida.

A partir de 2010, a empresa repetiu à exaustão o discurso de procurar novos horizontes. Demitiu toda a gerência e parte dos colaboradores. Contratou um profissional novato para aquele cargo, acostumado a lojas de grande movimento, mas sem a legitimidade da freguesia.

O novo gerente mexeu na estrutura de pessoal. Alguns empregados foram aposentados, outros perderam status de imprescindíveis, muitas caras novas submissas a um único trabalhador, com origem em Santos, e badalado no mercado. O gerente tinha a missão – mais a obrigação – de construir uma estratégia de vendas que colocasse a marca de novo na linha de frente. O supermercado não frequentava mais a lista dos dez melhores. Parecia mesmo um estabelecimento de bairro, de acordo com minha antiga imagem de criança.

O gerente sofreu muitas críticas, de fornecedores a clientes, da diretoria aos vizinhos, que não compreendiam como a marca não conseguia fazer cócegas na concorrência tradicional. O gerente apagava os incêndios com palavras firmes, sorrisos discretos, atendimento pontual e promessas de que dias melhores chegariam.

Em 2012, o supermercado foi envolvido numa crise. O dono do estabelecimento, sufocado por denúncias de mau uso de dinheiro, deixou o cargo depois de 27 anos, por pressão da família. Acabou substituído por seu Zé Maria, um senhor de 80 anos, subordinado de carreira.

Acostumado às sombras, seu José Maria sempre deu ordens de modo a evitar a vitrine. É um sujeito tarimbado, daqueles que sabem dar o bote na hora certa. Temeroso em entrar para a história como o novo diretor que afundou a marca, ele resolveu mudar os rumos da empresa.

Em quatro meses, seu Zé Maria fritou funcionários antigos e, principalmente, o gerente novo, Seu Menezes, gaúcho radicado em São Paulo. A demissão aconteceu depois que o supermercado derrotou a concorrência vizinha, rival de décadas no setor.

Mesmo com a vitória, todos os funcionários do administrativo também perderam seus empregos. Os fofoqueiros diziam que o substituto poderia ser de origem espanhola, lugar onde ficam os gigantes deste ramo da economia.

Seu Zé Maria não esperou pelas festas de final de ano, quando a casa fecha para balanço. Ele se sentia pressionado pela família, que lembra a velha máfia, mas fiéis seguidores das estratégias de marketing, ainda que não saibam direito o que é isso.

Seu Zé Maria aproveitou as brigas internas e anunciou em uma semana o novo gerente, Seu Felipe, o mesmo que levou o supermercado ao auge no bairro há 10 anos. Mais velho, ele enfrentou problemas nas três últimas companhias que trabalhou; a última quase faliu.

Seu Felipe vem acompanhado de um diretor, Seu Carlos Alberto, que trabalhou na empresa, entre idas e vindas, desde o início dos anos 70. O novo gerente chegou cantando de galo. Ele afirmou que é obrigação liderar o mercado novamente e que pretende convocar antigos funcionários, alguns talvez mais ansiosos com a aposentadoria do que com o trabalho duro.

O fato é que a marca nunca esteve tão em baixa. Virou um negócio a mais, que me tornou indiferente a seus produtos, muitos de procedência duvidosa, distribuídos nas prateleiras conforme o desejo dos intermediários. 

A turbulência do supermercado, o Verde e Amarelo, me colocou em dieta econômica. Mas a abstinência não será eterna. O vício deve renascer em dois anos. No fundo, sempre me prendo à esperança de que a seleção brasileira de futebol volte às origens.

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