sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Roberto, Álvaro e talvez Francisco



Roberto e Álvaro não se conhecem. Não viveram na mesma cidade. Roberto – na verdade, Robert – era inglês. Migrou para o Brasil com a esposa, descendente de alemães. Ao chegar no Porto de Santos, resolveu ficar na cidade. Morou durante anos em uma chácara na Ponta da Praia, onde hoje seria o Aquário Municipal. 

Álvaro era médico e um peregrino por natureza. Nasceu em Vassouras, no Rio de Janeiro. Estudou medicina na Bahia. Em 1896, atravessou o Oceano Atlântico e desembarcou na França, onde estudou técnicas de raio-X com Madame Curie.

De volta ao Brasil, Álvaro fixou-se no Rio de Janeiro e se tornou pioneiro na radiologia e na radioterapia no país. Chegou a ser condecorado pelo então presidente da República Artur Bernardes. Mesmo um viajante de carteirinha, é bem provável que Álvaro jamais tenha visitado Santos.

Roberto, por sua vez, não tinha jeito nem vontade de viajar pelo mundo. Preferia a vida de uma cidade ainda impregnada pela atmosfera rural. Não fez grandes descobertas científicas ou recebeu medalhas de políticos de alto calibre. Mas isso não o torna menos importante que o colega carioca.

Roberto e Álvaro acabaram unidos por dois laços. O primeiro deles foi a política. São os políticos que decidem, por inúmeros motivos, quem merece a imortalidade geográfica. Quem merece viver a posteridade numa placa pendurada no poste da esquina.

Roberto Sandall e Álvaro Alvim viraram nomes de rua. A primeira fica na Ponta da Praia. Neste caso, homenagem dupla, pois a rua ao lado se chama Inglaterra, seu país de origem. Álvaro Alvim fica no Embaré e serve de ligação entre as avenidas Epitácio Pessoa e Pedro Lessa.

Outro laço é o Natal, que os tira do anonimato viário do resto do ano. Em dezembro, as duas ruas ganham status de vias congestionadas e de ponto de atração para turistas e nativos. A metamorfose acontece ao anoitecer, quando filas de carros e flashes de câmeras alteram a rotina pacata dos moradores.

A rua Roberto Sandall é composta por 14 prédios. Todos iluminam as entradas e as árvores. Alguns estendem a decoração para fachadas e apartamentos. A rua já ganhou prêmios pela identidade visual e é alvo de crônicas como esta há quase 20 anos.

A rua Álvaro Alvim se destaca pelas casas. São decorações independentes que, em conjunto, transformam a via numa alameda de luzes, personagens natalinos e cores além das tradicionais do período.

Na última semana, quando cruzei a rua, vi vários carros parados e pessoas reunidas na calçada. O primeiro pensamento foi: “houve um acidente.” Na iminência de ser absorvido pela curiosidade mórbida e pelo “antes ele do que eu”, me perguntei: “mas cadê as viaturas?”. O trânsito estava travado por conta das luzes natalinas em várias casas.

Santos poderia retomar os concursos de Natal, que premiavam as melhores decorações até alguns anos atrás. Mas as duas ruas deveriam ser proibidas de concorrer pela tradição e pelo notório saber. Caso contrário, os videntes do fim do mundo seriam capazes de acertar os vencedores.

Roberto e Álvaro costumam provocar inveja e admiração. “Por que minha rua não é assim?”. Talvez consumido pela dúvida, um religioso começou a se mexer. Frei Francisco Sampaio já mobilizou alguns vizinhos, donos de casas sobrepostas recém construídas. Eles investiram pesado nas mudanças de suas residências, principalmente perto do Canal 5. Ali, motoristas e pedestres começam a sair do transe e a olhar para os lados e para cima.

De fato, quem poderia resistir à pressão da fé, principalmente em tempos natalinos? Até os freis carregam uma pontinha de inveja.
 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Alugo-me para o Natal


Estimulado por um colega comerciante, esperançoso por vendas, e movido à compaixão por ver a tortura contra os Papais Noéis de shopping, resolvi entrar no mercado natalino. Mas não tenho o tino comercial do meu colega. Poderia encarar a fantasia vermelha, mas prefiro formas mais tradicionais de dieta. Então, somei uma pitada de empreendedorismo e detectei uma faixa da economia pouco explorada neste final de ano.

Resolvi me alugar para as festas. A mercadoria – no caso, eu, o personal Christmas friend – convive com você na ceia do dia 24 de dezembro, mais o almoço do dia seguinte. A comida é por sua conta. Meu trabalho é cumprir certas tarefas – ou trabalhos sujos – que você detesta, mas é obrigado a fazer nesta época do ano. É felicidade garantida ou a hipocrisia de volta.

Se estiver satisfeito, acerte uma taxa extra de 30% mais impostos, que o serviço é automaticamente estendido para o Reveillon e primeiro dia do ano seguinte. Se o trabalho não estiver a contento, basta que ambas as partes assinem a recisão contratual, sem multa ou quaisquer outros tipos de indenização.

O serviço inclui, por exemplo, tirar fotos com a família. Posso ser o parente distante, o amigo da última hora ou o namorado da sobrinha. Faço até coração com as mãos, se necessário.

O pacote prevê elogios ao pernil de todos os anos da sua sogra. Posso também conversar com o primo insuportável, que você encontra apenas uma vez por ano. Discutiremos futebol e virarei torcedor do time dele, exceto o Palmeiras. Natal não é dia de melancolia, como reza o protocolo.

Resolvo também o problema de presente. Se for amigo secreto, é mais fácil. Basta que você forneça informações básicas do sujeito sorteado. Ele ganhará um vale CD, DVD ou livro. Será compatível com a maioria, o que reduz a zero a chance de marmelada.

Se o cliente estiver sem tempo para comprar presentes para a mulher ou para o sogro, seus problemas acabaram. Lingerie branca para esquentar o Reveillon (deixe-a acreditar que 2013 será diferente depois sete ondas!) e vinho ou whisky estarão no pé na árvore de Natal antes que os convidados percebam. A procedência da bebida (e da lingerie) varia conforme o combo adquirido pelo freguês.

O pacote vem com trilha sonora. Cantaremos juntos as músicas natalinas da Simone. Depois, animarei as titias no especial do rei Roberto Carlos. Levarei a listagem das músicas – as mesmas todos os anos – e podemos chorar diante de tantas emoções.

Sua namorada tem 20 aninhos? Deseja se enturmar com sua filha adolescente? Dançamos “Gangnam Style” e cantamos as últimas do sertanejo universitário. Se precisar, posso te encontrar um dia antes para ensaiarmos as coreografias. O serviço não inclui funk ou bandas de rock coloridas.

Mediante taxa extra de insalubridade, tomamos conta – depois da uma da manhã – do tio cachaceiro. Falaremos mal dos políticos. Afinal, somos treinados para a escuta. Há kit de primeiros socorros, em caso de risco de coma alcoólico. Chamar a atenção atrapalha a imagem da empresa.

Serei invisível na lavagem de roupa suja, no final da festa. Bastidores de família ou queixas sexuais e financeiras serão tratados com discrição. O contrato estabelece cláusula de confidencialidade. Nada será revelado, publicado em Facebook ou veiculado em You Tube.

Como pagar pelo serviço? Você pode parcelar em três vezes no cartão ou via boleto bancário. Dependendo da sua condição socio-econômica, aceito vale refeição e cartões de ônibus como uma das prestações.

O primeiro pagamento seria apenas depois do Carnaval. Trabalhamos também nos quatro dias, incluindo a Quarta-feira de Cinzas. Mas aí o pacote é de outra natureza, mais íntimo. Como me especializei em confraternizações de final de ano, posso indicar outros sócios-consultores. Sem custo adicional, é claro.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Os maias estavam errados



Meu vizinho costuma manter a pose de normal. Mas, de perto, revela suas esquisitices. Ele é meu amigo em rede social, mas, quando cruza comigo nos corredores do prédio, parece que me vê pela primeira vez. Oi é coisa rara.

Nas duas últimas semanas, eu o encontrei três vezes. E ele sempre carregava sacolas de supermercado. Andava com pressa. Eu o ouvi alertar a faxineira. “A senhora deveria fazer o mesmo! Ninguém sabe o que vai acontecer depois daquele dia.”

Sem prestar muita atenção da primeira vez, imaginei que fosse algum dia de oferta, que garantiria a ceia de Natal mais barata. A faxineira, na casa dos 80 anos, sempre fala com orgulho que não perde uma oferta nos supermercados do bairro. Sempre acompanha os panfletos e compara preços. Na semana passada, economizou R$ 30 na quarta-feira, data de verduras, legumes e frutas.

As sacolas de supermercado do vizinho exigiam duas, três viagens do carro ao apartamento. Tinha jeito de compra do mês. Dois dias depois, saindo para o trabalho, quase esbarrei no sujeito com meia dúzia sacolas nas mãos. A mulher dele, suando em bicas, carregava outra meia dúzia.

O instinto fofoqueiro renasceu e me causou uma onda matemática, resumida no seguinte pensamento. “A família do cara deve ser grande, muita gente para vários perus de Natal.” O surto de abastecimento – confesso - não me incomodou por muito tempo. O episódio se tornara mais um na lista de bisbilhotices do prédio.

Até ontem, um sábado chuvoso. Desci para levar o lixo reciclável na garagem quando, embaixo de um pé d’água, avistei o vizinho com mais sacolas de supermercado. Na garagem, deu para ver o porta-malas lotado de caixas de leite, peças de frango, lataria, entre outros itens. Na escala fofoqueira, o parecer: “o cara montou um bunker. É hora de perguntar.”

Reduzi o passo para que o sujeito pudesse me enxergar. Assim, puxaria papo e mataria a curiosidade de um dia insosso. Quando ele agarrou a caixa de 12 litros de leite e pôs no ombro, aproveitei para cumprimentá-lo e perguntei:

— Muita gente para o Natal?

— Natal. É estoque para o fim do mundo. Vamos comemorar!

Ah! A expressão inútil de quem não sabe o que dizer. Lembrei-me daqueles malucos norte-americanos que apareceram no noticiário, preparando-se para o final dos tempos, previsto para 21 de dezembro. O que meu vizinho esperava? E eu? Entraria na fortaleza dele? Teria comida de graça por algum tempo? Ou deveria queimar o resto do limite do cartão de crédito e propor a ele uma comunidade isolada e seletiva?

O sujeito mudou minha opinião. Ele até poderia ser maluco, mas tinha bom humor. Seríamos vítimas do cataclisma, mas morreríamos com honras e com diversão. Tomei coragem e retomei a conversa com design de interrogatório.

— Tantas compras assim? Pretende ficar em casa após o fim do mundo?

— Claro que sim. Será a maior festança. Churrasco, cerveja, a parentada toda, amigos da antiga, netos, todo mundo reunido. É uma chance única. Sabe-se lá se teremos outra oportunidade de encher a cara com gosto. O que sobrar, a gente mata no Natal.

Opa, o vizinho queria hora extra. Apocalipse é um só, não tem chorinho, sobremesa ou rapidinha. Dia 21 acaba tudo, com previram os maias. Resta sonhar com as ruínas.

Eu morreria na Ilha das Palmas, lugar paradisíaco onde acontece a festa de confraternização do jornal para onde escrevo. Decidi ignorar a compra de presentes e os convites para amigos secretos. Vai que o boato vire verdade.

Olhei bem para o vizinho e a pergunta escorregou pela boca, de bate pronto:

— Natal? O senhor tem certeza de que sobrará alguma coisa depois do dia 21?

O sujeito largou a caixa de leite no chão, olhou para as mãos e fez as contas. Olhou de volta para mim e disse, com seriedade:

— Você acreditou nesta bobagem dos maias? O mundo acaba para mim dia 16 de dezembro, amanhã, às dez e meia da manhã.

Hoje, no horário do profeta que mora ao lado, compreendi a previsão. Exatamente nesta hora, o vizinho foi na janela e gritou:

— Acabou! Acabou! Campeão do mundo! Campeão do mundo! Vai, Curinthia! 

Fiquei com vergonha de não ter tocado a campainha dele para celebrar nossa chegada ao paraíso.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Morei dentro de uma obra de arte tediosa



Márcio Calafiori 

Cheguei em Brasília em julho de 1976. A cidade acabara de completar 16 anos. Sabe aquela garota linda e cruel? Era Brasília. Sempre que se fala nela, Oscar Niemeyer é logo lembrado. Nada mais justo e histórico. Nelson Rodrigues talvez dissesse: “Oscar Niemeyer tem mais história que Pedro Álvares Cabral.”

No entanto, a Brasília que conheci tem pouco a ver com ele. As curvas, as sinuosidades, as ondas do mar e as linhas graciosas naturalmente desenhadas pelas montanhas, as curvas femininas, ah, os seios, os seios...

Alguém aqui já morou em Brasília? Pois eu, sim. Três anos e meio. Para começar, vivi numa quadra de milicos, a SQN 103. Isso quer dizer: Super Quadra Norte, sendo 103 o número da quadra. Falava-se: “Moro na 103 Norte.”. Se alguém dissesse: “Moro na Super Quadra Norte 103” é porque acabara de chegar e, obviamente, estava completamente por fora.

Quando cheguei, a Asa Norte estava sendo construída ainda, pois Brasília, o plano original e artístico, a criação do mundo, começou pelo chamado Eixo Monumental — por tudo o que é bonito e criativo e histórico e moderno e ousado e sinuoso, com a assinatura do Niemeyer. Depois, veio a Asa Sul.

Deslocar-se da Norte para a Sul era como mudar de cidade nas asas de uma borboleta. A Sul tinha a assinatura do urbanista Lúcio Costa — o responsável pela elaboração do Plano Piloto, que toscamente o desenhou, de última hora, no formato das asas de uma borboleta, e não de um avião. Outra assinatura era a do paisagista Burle Max. É mole?

Era tão linda a Asa Sul, tão comovente, que me deixava mudo. Estar ali era como morar dentro de uma obra de arte. A outra parte da chamada obra de arte, a Asa Norte, era só tédio.

Em 1976, Brasília não pertencia mais a Niemeyer, Lúcio Costa ou Burle Max. A sua continuidade estava agora em outras mãos, em outro regime político, o dos militares. Eu soube depois: havia, sempre houve, uma disputa para que Brasília não fugisse ao plano original. Mas posso garantir: a Asa Norte, de 1976 a 1980, não tinha nada a ver com a Asa Sul. 

O esqueleto do Plano Piloto era ainda o de uma borboleta, mas a constituição das asas era de concepção diversa. A Norte que conheci era reta, quadrada, cinza. Era tão cinza, quadrada e reta que nem ao menos eu podia imaginar, segundo uma foto que recebi de um amigo vinte e cinco anos depois, que as árvores recém-plantadas nas beiradas das quadras imprimiriam um visual mais humano ao concreto. Não dava para prever isso, a não ser, talvez, que se tivesse alguma experiência de vida, o que não era o caso, tão tenra a nossa idade.

O que Niemeyer e Lúcio Costa imaginaram para Brasília não se concretizou, pelo menos naquele período. Hoje não sei. Mas a Brasília, com os poemas sinuosos do Niemeyer lá para as bandas do Eixo Monumental e da Asa Sul, estava então muito distante de nós, jovens e doidos da Asa Norte, que sem mais nem menos, filhos de funcionários públicos federais, fomos parar numa cidade disciplinada, ordenada, com cada coisa em seu lugar.

Uma cidade em que se o morador não tivesse carro — pois Brasília fora planejada não para ser percorrida a pé, mas para ser apreciada de carro — estaria fadado à paralisia. Era o nosso caso. Do Niemeyer que morreu agora faltando poucos dias para completar 105 anos, tínhamos apenas raiva e um impulso neurótico de sumir da obra de arte que projetou. Agora, preciso voltar a Brasília.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O cachorro mais infeliz do mundo


Márcio Calafiori*

Faz uns três meses os vizinhos do segundo andar do edifício ao lado resolveram criar um cachorro. Chegou bebê e foi deixado na área de serviço, trancado. De ínício, mais ou menos às 5h30, ele começava a chorar. Gritos agudos, uma faca perfurando os tímpanos. “Daqui a pouco ele vai parar”, eu pensava. Que nada! O animal se lamentava cada vez mais alto. 


São seis e quinze agora. O jeito é levantar, tomar banho, ir para a sala, ligar o rádio do computador e me distrair com alguma coisa. Por volta das sete horas, alguém abre a porta da área de serviço no segundo andar e o animal se aquieta. Parece óbvio, quer companhia.

Não gosto de reclamar de vizinhos. Não tenho sangue de barata, mas tento viver em paz. Por causa do cachorro-bebê mudei um pouco os hábitos. Passei a ir mais cedo para a padaria tomar café. No entanto, sair cedo de casa não é mais como antes. Por exemplo, vou até a farmácia da esquina da Afonso Pena e dou com o nariz na porta. “Só abre às oito”, alguém me avisa. “Nos bons tempos as farmácias abriam às seis”, comento um tanto quanto azedo. “Se abrir às seis, os caras assaltam”, ouço como resposta.

De volta para casa, passo por uma senhora que vem com o cachorro. O cão para e funga alguma coisa no chão. A mulher o repreende: “Lucas, eu já não te disse que não é pra ficar cheirando porcaria na rua?”. Outro dia, quase na mesma esquina, vinha uma moça com seis cães nas coleiras. Deve ser cuidadora. 

Um dos animais ergueu as patas dianteiras, talvez querendo brincar comigo. A moça puxou a coleira a tempo e deu uma bronquinha na cadela: “Ana, você precisa entender que não é todo mundo que quer o teu carinho. Aprende isso!”.

Tudo mudou. A farmácia não abre mais às seis da manhã e os cachorros são tratados como seres humanos. Menos o cão do prédio vizinho ao meu. Ele parou de chorar às 5h30. Mas agora chora intermitentemente várias vezes ao dia. Chora, chora, chora. Passa horas e horas sozinho em casa. Não estaria melhor ao lado da mãe, de quem foi retirado? Trancado, dá cabeçadas na porta da área de serviço. 

Às vezes, o bicho solta um uivo profundo e recomeça o choro. Só fica calado quando o pessoal da casa chega da faculdade. Os meus vizinhos são jovens, parecem formar uma república.

Agora há pouco o cachorro estava chorando. Não aguentei. Entrei no Google, procurei o telefone de alguma entidade protetora dos animais, encontrei um número em Santos e liguei. Só dava ocupado. Liguei para o 190. A policial me forneceu outro número. Liguei, chamou e nada. 

Ah, o controle de zoonoses deve ter um número quente! Por que não pensei nisso antes? Ligo, sou bem atendido, o rapaz do outro lado da linha me passa um número, mas já vai avisando: “Talvez não atenda.” Dito e feito. Mas a minha missão continua. Um dia o Thor vai parar de chorar. Por enquanto, o considero o cachorro mais infeliz do mundo.

* Márcio Calafiori é jornalista. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Boa noite, dona Amélia!


Márcio Calafiori* 

A senhora tem 70 anos. Nasceu em 22 de janeiro. É um pouco cedo para o inferno astral, que no caso só deveria começar em 22 de dezembro, os trinta dias que antecedem o aniversário. Seja como for, a aquariana que residia em um apartamento de classe média, de dois quartos grandes, naqueles prédios antigos, é a mais nova moradora de rua de Santos.

De primeira, conversando com ela, não a levei a sério. Eu vinha da padaria, e, sem mais nem menos, me abordou:

“O senhor acha justo alguém como eu morar na rua? Eu pareço uma mendiga?”.

Para falar a verdade, não. A senhora não parece uma mendiga. Veste-se esportivamente. Aliás, se fosse minha namorada, talvez entrássemos em conflito a respeito do short que usa, aquele de academia, a blusa decotada... A conversa dela é esquisita. Não, não me sinto incomodado, só quero me livrar, seguir em frente. Mas a senhora insiste:

“O apartamento é meu. Eu cantava... Depois trabalhei na Caixa... Foi o meu marido que trabalhou na prefeitura quem me deixou o apartamento. Agora me botaram na rua, não posso nem pegar as minhas roupas... Hoje tomei banho no chuveiro da praia, lavei os pés e as genitais”.

“Boa-noite”, eu disse.

No outro dia, no bar em frente, eu soube: se chama dona Amélia. Ficou catorze anos sem pagar o condomínio. Já era exaltada, dizia o que lhe vinha à cabeça. Teve um problema de família e em seguida passou a viver só, suspeitando de que a sua casa vivia repleta de vampiros. Por falta de pagamento no condomínio, R$ 200 por mês, teve o apartamento leiloado.

Na rua onde moro, no Boqueirão, em Santos, todo mundo a conhece. Alguns estão revoltados com a situação que enfrenta. Ela passa puxando um carrinho de feira, tenta entrar no prédio, mas trocaram a fechadura.

Dona Amélia tem a voz forte, é sergipana, foi cantora. Fala palavrão, é teimosa. Segundo ela, este é um país de vagabundos e ladrões, que só querem roubá-la. Pedi para conversarmos. Olhou-me desconfiada. Benzeu-me desenhando no ar alguns sinais, pois pareço um daqueles vampiros que quer sugá-la. De tudo o que consegui apurar é possível que a senhora talvez tenha finalmente compreendido, e só talvez, que se meteu numa grande encrenca.

“Não vou dar dinheiro praqueles bandidos, praquele síndico ladrão”, diz.

“Dona Amélia, a senhora prefere morar na rua do que pagar o condomínio?”.

“Todos no prédio querem me roubar. Já me roubaram tudo o que meu marido me deixou, só faltava esse apartamento. Eu tinha casas na Zona Noroeste, me roubaram. O meu apartamento não vou deixar...”

Contam-me os indignados no Bar do Robson que dona Amélia age estranhamente faz anos. Não fala coisa com coisa. Era a moradora mais antiga do prédio. Aí veio a execução.

“Será que ela rasga dinheiro?”, alguém pergunta.

Não sei dar respostas assim na lata. Mas depois de conversar com ela e arrancar, a muito custo, o seu nome completo (ela primeiro fez um sinal com os dedos querendo dizer que eu estava tentando chupar o seu sangue), acho que essa senhora rasga dinheiro, sim. Aqui no bairro, o seu apartamento deve valer pelo menos uns R$ 200 mil. Teria sido arrebatado por R$ 40 mil num leilão. Ela foi executada e ponto final. Não deve ser bem quista pelos vizinhos.

Em plena vigência do Estatuto do Idoso, a senhora passa em direção à esquina, puxando uma mochila com rodinhas. Usa cordões de ouro, pulseiras e relógio. Alerto-a de que assim poderá ser assaltada.

“Me assaltarem? Vem, tenta!”, me desafia.

Pergunto aonde vai.

“Vou procurar um lugar para dormir, de preferência perto de um shopping, onde posso usar o banheiro.”

“Boa noite, dona Amélia!”

P.S: Os amigos do Bar do Robson me informaram ontem que um caminhão veio buscar as coisas da dona Amélia e que ela teria sido acolhida por uma sobrinha, depois de passar mais de duas semanas morando na rua. O caso serve de alerta. Não pagar o condomínio está resultando em despejo.

Sim, tem gente que não paga o condomínio porque não quer; mas existem outras situações, até mesmo por desemprego ou doença, em que somos obrigados a adiar compromissos. A senhora sobre a qual falei não se encaixa em nenhuma dessas situações. O seu caso envolve outro tipo de problema, que mereceria um tratamento mais humano.

* Márcio Calafiori é jornalista. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

O gerente do supermercado


Frequento, desde criança, o mesmo supermercado. Confesso que desenvolvi uma relação de afetividade, diferente da maioria dos consumidores, que adora reclamar do atendimento. Alguns clientes – do perfil que só pedem pelo telefone, sem sair da poltrona – criticam até as promoções especiais, daquelas exclusivas e perto de casa.

O supermercado – é importante explicar que levei algum tempo para entender que se tratava de mera relação de negócios – entrou em crise de identidade. Em 2010, a empresa era líder em vendas, a direção era elogiada até pela imprensa local, os funcionários se revezavam no prêmio de melhor do mês.

O cenário se desenhava como uma repetição de 2002, quando o supermercado derrubou todos os concorrentes, com uma fórmula familiar, apelidada com o sobrenome do gerente, um sujeito do tipo sargentão, mas que parecia governar com senso de justiça. Ou, pelo menos, senso de oportunidade, quando colocou os empregados nas funções em que apresentavam melhores resultados. Até adotou o termo da moda, colaboradores, para mascarar a hierarquia rígida.

A partir de 2010, a empresa repetiu à exaustão o discurso de procurar novos horizontes. Demitiu toda a gerência e parte dos colaboradores. Contratou um profissional novato para aquele cargo, acostumado a lojas de grande movimento, mas sem a legitimidade da freguesia.

O novo gerente mexeu na estrutura de pessoal. Alguns empregados foram aposentados, outros perderam status de imprescindíveis, muitas caras novas submissas a um único trabalhador, com origem em Santos, e badalado no mercado. O gerente tinha a missão – mais a obrigação – de construir uma estratégia de vendas que colocasse a marca de novo na linha de frente. O supermercado não frequentava mais a lista dos dez melhores. Parecia mesmo um estabelecimento de bairro, de acordo com minha antiga imagem de criança.

O gerente sofreu muitas críticas, de fornecedores a clientes, da diretoria aos vizinhos, que não compreendiam como a marca não conseguia fazer cócegas na concorrência tradicional. O gerente apagava os incêndios com palavras firmes, sorrisos discretos, atendimento pontual e promessas de que dias melhores chegariam.

Em 2012, o supermercado foi envolvido numa crise. O dono do estabelecimento, sufocado por denúncias de mau uso de dinheiro, deixou o cargo depois de 27 anos, por pressão da família. Acabou substituído por seu Zé Maria, um senhor de 80 anos, subordinado de carreira.

Acostumado às sombras, seu José Maria sempre deu ordens de modo a evitar a vitrine. É um sujeito tarimbado, daqueles que sabem dar o bote na hora certa. Temeroso em entrar para a história como o novo diretor que afundou a marca, ele resolveu mudar os rumos da empresa.

Em quatro meses, seu Zé Maria fritou funcionários antigos e, principalmente, o gerente novo, Seu Menezes, gaúcho radicado em São Paulo. A demissão aconteceu depois que o supermercado derrotou a concorrência vizinha, rival de décadas no setor.

Mesmo com a vitória, todos os funcionários do administrativo também perderam seus empregos. Os fofoqueiros diziam que o substituto poderia ser de origem espanhola, lugar onde ficam os gigantes deste ramo da economia.

Seu Zé Maria não esperou pelas festas de final de ano, quando a casa fecha para balanço. Ele se sentia pressionado pela família, que lembra a velha máfia, mas fiéis seguidores das estratégias de marketing, ainda que não saibam direito o que é isso.

Seu Zé Maria aproveitou as brigas internas e anunciou em uma semana o novo gerente, Seu Felipe, o mesmo que levou o supermercado ao auge no bairro há 10 anos. Mais velho, ele enfrentou problemas nas três últimas companhias que trabalhou; a última quase faliu.

Seu Felipe vem acompanhado de um diretor, Seu Carlos Alberto, que trabalhou na empresa, entre idas e vindas, desde o início dos anos 70. O novo gerente chegou cantando de galo. Ele afirmou que é obrigação liderar o mercado novamente e que pretende convocar antigos funcionários, alguns talvez mais ansiosos com a aposentadoria do que com o trabalho duro.

O fato é que a marca nunca esteve tão em baixa. Virou um negócio a mais, que me tornou indiferente a seus produtos, muitos de procedência duvidosa, distribuídos nas prateleiras conforme o desejo dos intermediários. 

A turbulência do supermercado, o Verde e Amarelo, me colocou em dieta econômica. Mas a abstinência não será eterna. O vício deve renascer em dois anos. No fundo, sempre me prendo à esperança de que a seleção brasileira de futebol volte às origens.