quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O pecado preferido


As grandes tragédias sempre trazem consigo uma enxurrada de análises. Os culpados são perseguidos e incinerados, ainda que simbolicamente, em praça pública.

A tradição e as glórias reaparecem como lembretes de sangue para uma fase intitulada de vergonhosa. Velhos guerreiros, ídolos recentes, membros de várias patentes são convocados para enumerar as causas, especular sobre soluções tão óbvias quanto inúteis e sugerir estratégias para a próxima batalha, mesmo que os soldados sigam em agonia na trincheira do conflito anterior.

Torci para que o Palmeiras sobrevivesse ao bombardeio da zona do rebaixamento. E também gostaria de palpitar sobre os motivos da morte em vida pela segunda vez, em dez anos. De fato, o que se pode fazer – talvez valha para todos que escrevem – no momento é dar palpites. É tão óbvio quanto ser rebaixado por perder 20 de 36 partidas que jamais poderemos dar peso aos múltiplos fatores que conjugaram o fracasso.

Penso que o Palmeiras caiu para a série B por uma razão: vaidade. Na verdade, o pecado reúne (ou simboliza) todos os sintomas que constaram na evolução da doença.

A vaidade carrega a presunção dos dirigentes, omissos em tomar a culpa que lhes cabe, orgulhosos em pedir ajuda, estúpidos em passar por cima da guerra de facções que contamina o clube há anos.

A vaidade é quem seduz os treinadores, reizinhos nus à beira do campo, “professores” que se deleitam ao som da própria voz, em aulas inaudíveis ou ultrapassadas para estudantes pouco afeitos às lições.

A vaidade envolve como uma membrana os jogadores descompromissados com as tradições, inertes por salários irracionais, carrões e outros benefícios, que serão reproduzidos na próxima camisa a ser beijada no escudo, salvo exceções, no próximo ano.

A vaidade é quem consome os torcedores profissionais, aconchegados ao poder dos gabinetes e à truculência das arquibancadas, ogros em jurar violência e morte quando o time precisa de empurrões, mas de incentivos.

A vaidade é quem afunda a instituição, que se masturba com um título sobre adversários frágeis e mal se dá conta de suas próprias fragilidades diante de 38 batalhas semanais.

Quando testemunho a viagem do Palmeiras lentamente ao inferno, só consigo pensar no personagem de Al Pacino, no filme “Advogado do Diabo”. Numa das cenas, Pacino – que interpreta o próprio sete peles – resume a superficialidade humana diante do poder de sedução.

— Meu pecado preferido sempre foi a vaidade.

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