terça-feira, 13 de novembro de 2012

A limpeza que não limpa


Priscilla Kovacs*

8 horas e meu despertador tocou. Aquele mesmo toque, aquela mesma hora. Seria mais um dia rotineiro, se eu não tivesse acordado decidida de que não, não seria como todos os outros. Decidi que faria uma limpa no meu quarto. Tiraria tudo que me trouxesse más lembranças, que não me servisse mais.

Comecei pela sua foto. Dali a pouco já estava separando aqueles livros velhos, que ao mesmo tempo em que me remetiam a recordações imensamente maravilhosas, traziam certa melancolia, certa tristeza. Eles me lembravam alguns sonhos perdidos e alguns caminhos imprevisíveis que, muitas vezes, nos são impostos.

Passei, então, àqueles numerosos estojos socados debaixo da escrivaninha, os quais eu nem lembrava mais que os tinha ali. Dentro deles, canetinhas, lápis de cor, giz de cera, lapiseiras… Era tanta diversidade que eu poderia abrir uma papelaria. Separei tudo, cuidadosamente, dentro daquela mochila, também velha e fora de uso, e deixei-a num canto. Decidi que ela seria de alguém que precisasse mais daquilo do que eu.

Parti para o computador. Também comecei pelas suas fotos, e depois fui para o meu e-mail. Fiquei surpresa ao, voltar para 2010, encontrar três mensagens suas. Foi um misto de risos, pela fofura que elas traziam, com saudade. Na verdade, eu não sabia o que sentir.

Então, continuei a limpeza toda e quando terminei de colocar tudo no seu devido lugar, apesar do ambiente que me parecia trazer muito mais paz, algo estranho se passava dentro de mim. Fiquei minutos olhando o nada. Várias cenas se passaram pela minha cabeça… Foi uma espécie de feedback.

Talvez todo esse ritual tenha me feito perceber que nenhum objeto jogado fora e nenhuma foto ou mensagem excluída conseguirão eliminar uma etapa de nossa vida. Certamente é bom se desfazer de coisas que já não te acrescentam nada ou que apenas estão acumulando pó. Mas isso não significa querer – e muitos menos conseguir - apagar momentos da memória. Aliás, ao longo do tempo que se passa ao lado de uma pessoa, é impossível que não se tenha vivido coisas maravilhosas, momentos inesquecíveis. Porque não guardá-los na nossa caixinha e deixar com que apenas eles tomem conta de nós quando aparece aquele ressentimento e angústia?

As pessoas têm essa mania de lembrar apenas das coisas ruins, de achar que depois que algo terminou (namoro, amizade, casamento…) não restaram coisas boas e passam a se martirizar pelo resto da vida. Basta abrirmos os olhos e enxergarmos o nosso mais profundo interior para percebermos que cada pessoa que passa por nós, independentemente do tempo que ela permaneça, deixa recordações boas e ruins, mas somos nós mesmos quem escolhemos quais guardar e lembrar. Portanto, que usemos bem esse livre arbítrio…

* Priscilla Kóvacs é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos (SP).

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