terça-feira, 2 de outubro de 2012

A espera de um mundo sem preconceito


Por Juliana Duarte*

Estava no ponto de ônibus, à noite, voltando da Universidade e, enquanto esperava o transporte, sentei no banco. Ao meu lado, uma mulher estava com algumas sacolas e bolsas em sua mão, despreocupada com elas.

Alguns minutos depois, um garoto magricela e negro chegou ao ponto. Assim que o menino se aproximou, a mulher abraçou suas sacolas, protegendo-as em uma ação automática. E eu não fui a única a perceber sua cautela.

— Ei, tia! – disse o menino – Não sou ladrão, não.

Vendo que a reação havia sido imprópria, a mulher respondeu:

— E quem te chamou de ladrão, garoto?

O menino deu alguns passos para se distanciar da mulher, dizendo aos quatro ventos que a “tia” havia presumido que ele iria lhe roubar só por ser negro.

No momento, aquela cena me atingiu de uma forma inexplicável. Nós sabemos que o preconceito racial existe. A TV, os jornais e a internet sempre nos mostram casos desse crime. Porém, quando acontece ali, na nossa frente, o problema ganha uma proporção bem maior.

Na teoria, todos são contra o racismo. Todos, também, dizem ser livres de preconceitos. Mas, em um dia qualquer, em uma rua qualquer, ao ver um negro se aproximar, seguramos a bolsa com cautela, protegendo-a com toda a nossa força. Quando é um branco, não damos tanta importância. Afinal, o que mais esperamos dele? No máximo, uma piadinha sem graça ou uma olhar diferente.

E, entre tantas pessoas naquele ponto, o único que intimidou a mulher foi o garoto magro e negro. Um garoto que, talvez, estivesse o dia inteiro batalhando por um lugar neste mundo. Por um mundo onde pudesse perambular à noite, pegar seu ônibus e ir para sua casa sem passar por um constrangimento desses.

Mas é claro que nós temos nossos próprios preconceitos. Ou é com o garoto que escuta funk no ônibus, ou é com a menina que usa saia curta na escola. Ou até aquele ritmo musical que todos escutam. Porém, ouvir funk, usar saia curta ou gostar de uma música são escolhas. Ser negro, não. E o racismo está tão presente em nossa vida que, às vezes, nem percebemos.

Os negros têm sua importância para nossa história: eles sofreram ao longo dos anos com a tortura feita pelos brancos. E, em pleno século XXI, ainda tem uma mulher se agarrando às suas sacolas, em algum ponto de ônibus por aí, com medo de um garoto negro e magricela tirar-lhe o que seus braços e sua mente tentam proteger.

* Juliana Duarte é aluna de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos/SP.

Nenhum comentário: