domingo, 30 de setembro de 2012

Bom dia!


Por Cláudio Mascaro Júnior*

Devidamente trajado para ir à Universidade (regata, bermuda e chinelo), monto em minha bicicleta vermelha, com penas de pombo presas no guidão e o pneu dianteiro furado, e sigo em direção ao meu destino. Começo o caminho com naturalidade, sentindo o calor do sol penetrando minha pele e o vento forte umedecendo minha face.

— Bom dia! – digo para o primeiro homem que encontro. Ele utiliza roupas brancas e tem um ar de bondosa humildade.

— Um ótimo dia, meu filho! Deus o abençoe!

Como é bom ter uma resposta amigável de alguém que jamais vi anteriormente. Continuo o caminho, com uma ótima sensação de felicidade instantânea.

— Bom dia! – resolvo repetir a frase, com um sorriso esboçado no rosto, para uma senhora que estava observando o chão enquanto andava.

— Só se for pra você, imprestável!

Pelo jeito nem todos desejam ter um bom dia, mas com certeza cada um aprende com as próprias experiências.

Após determinado período de pedalada, encontro uma jovem, exalando beleza e aspecto incomparáveis, e decido expressar novamente a conhecida fala:

— Bom dia!

Não sai nenhuma palavra de sua boca, apenas um simpático olhar. Talvez a moça se achasse bonita demais para me direcionar a fala, ou apenas não queria perder tempo e energia com um desconhecido em uma rua qualquer. Mas eu percebi a alegria que tomou conta de seu ser. Espero, sinceramente, que ela tenha um bom dia.

No momento em que eu me sinto completamente descontraído, observando as árvores frondosas na calçada e os passarinhos cantando alegremente em seus ninhos, ouço alguém dizer:

— Bom dia!

Direciono a visão e encontro um mendigo sentado na calçada. Tinha a roupa e os dentes sujos, além de um sorriso e de simplicidade no rosto.

— Bom dia! – respondo, olhando em seus decididos olhos escuros.

— Tem um trocadinho por aí? Hoje eu gostaria de comprar um lanche na padaria...

— Claro! Saco a minha carteira e despejo aleatoriamente algumas moedas, entregando para o inédito mendicante. Presumo que ele fará maior proveito daquele dinheiro do que eu. Uma esmola realmente não custa nada.

* Cláudio Mascaro Júnior é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA).

sábado, 29 de setembro de 2012

A volta do vizinho que não foi

Por Eliana Bonfim*

Seu Barriga. Não, não se trata do personagem do programa do Chaves. Esse é o nome de um de meus antigos vizinhos, ou pelo menos o sobrenome. Na verdade, um apelido tão presente que se entende como extensão do nome.

Não conheço muitos deles onde moro. Não tenho tempo disponível para papear, mas o Senhor Barriga é desses sujeitos que se fazem conhecer. Figura inesquecível que vivia em crise com sua senhora, Dona Amélia. Seria irrelevante, não fosse o fato de que ele adorava ouvir músicas dos mais variados gêneros, em volume um tanto quanto alto, de preferência em horários inoportunos e, detalhe, sempre alcoolizado.

Além de ouvir, se atrevia a cantar também. Sem falar das muitas vezes em que chegava a casa aos berros, vociferando palavras de baixo calão contra a pobre mulher. Ou seja, era um chato.

Depois que sua esposa o deixou, vendeu a casa e, graças a Deus, mudou-se sei lá para onde. Pensava eu que nem mais andava por essas bandas. Qual não foi minha surpresa ao vê-lo dando depoimento no horário político de Bertioga?

Lá estava Barriga, com a barriga redonda, a boca banguela, o português horroroso, sem a sua senhora, sem lenço nem documento. E o pior, apoiando certo candidato que é melhor nem comentar.

Fiquei indignada e percebi que, meu vizinho, que tanto me importunou com suas maluquices, claro-, que perturbou tanto a coitada da Amélia, agora não satisfeito, resolveu trabalhar para incomodar toda a cidade. Confesso que já estou preocupada. Imagino se resolverem colocá-lo num desses carros de som cantando a música do então candidato. Seria o fim da cidade, uma vez que os moradores poderiam tomar a mesma decisão de Dona Amélia.

* Eliana Bonfim é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos.
** Obs.: Este texto foi produzido a partir da oficina "A crônica do dia a dia", ministrada na Unisanta, em 28 de setembro.

A pedra mágica


Assisti, na última semana, ao filme “Laje dos Sonhos”, dirigido por Raquel Pellegrini. O documentário foi exibido em duas sessões, no 10º Curta Santos – Festival de Cinema de Santos.

O filme conta, pela perspectiva de seus visitantes e protetores, a história da Laje de Santos, primeiro parque estadual marinho de São Paulo. O documentário é fruto de uma parceria com a ONG Instituto Laje Viva, que há uma década luta pela preservação do lugar.

“Laje dos Sonhos” é o maior e melhor filme de Raquel Pellegrini, uma das pioneiras da TV regional, no início da década de 90, e hoje respeitada profissional do mundo audiovisual, inclusive na formação de novos apaixonados pelo ofício no cenário universitário.

O filme reflete a maturidade de duas décadas da cineasta, mas principalmente a vertente de documentarista. Raquel dirigiu três documentários – incluindo o da laje – nos últimos cinco anos. Isso deu a ela – involuntariamente – um papel de memorialista da cultura litorânea via cinema.

Raquel contou, por exemplo, em “Cesário Bastos”, a história de um dos mais tradicionais colégios de Santos, hoje sede da Diretoria Regional de Ensino. Retratou também em “Tamboréu: um esporte genuinamente santista”, a trajetória dos praticantes a partir da chegada de imigrantes italianos em meados do século passado.

“Laje dos Sonhos” é a reconstrução pelas palavras de uma visita ao paraíso a 40 quilômetros da orla. Como uma pedra, no formato de baleia cachalote, hipnotiza homens e mulheres há quase 60 anos? E os torna escravos de um amor incondicional a ponto de formar uma legião de protetores?

O filme funciona como alívio visual e, mais do que isso, como contraste de uma cidade que, infelizmente, se vestiu de cinza, pela megalomania de alcançar o éden pela via vertical, acima de 30 andares.

A laje age como a prova viva de que a natureza nos aconselha, com a poesia subaquática, de que esta rota caiçara está equivocada. Seus mensageiros são as quase 200 espécies de peixes, mais golfinhos, tartarugas e raias mantas que, silenciosamente, esperaram pelas lentes de cinema para dar o recado. Bastava que uma memorialista traduzisse a essência dos sentimentos de gente que se ajoelhou diante da pedra mágica há décadas.

Entre os 20 depoimentos escolhidos, o filme tem três pontos altos. O primeiro é o choro urgente da jornalista Vera Leon, ao se lembrar da reportagem que produziu sobre a laje na década de 80, como uma cicatriz inerente à memória.

Comovente também é o mergulho do publicitário Alexei Schenin, que voltou à laje depois de mais de dez anos. Um acidente de moto o deixou praticamente sem os movimentos das pernas. As expressões faciais de Alexei retratam a ressurreição do menino que voou embaixo d`água, numa experiência singular, impossível de descrever aqui.

O terceiro personagem é o mergulhador que, após o descanso pós-pioneirismo, retornou ao santuário, em uma viagem antes submersa por 12 anos. O homem que simulou um naufrágio por compreender que uma ajudinha humana poderia melhorar a aparência daquela casa, abrigando peixes e corais. 

“Laje dos Sonhos” nos esfrega nos rosto, com imagens vivas, o risco que corremos diante das tentações (e das promessas) milagrosas de um progresso com gosto de óleo negro. Furtando as palavras da própria Raquel Pellegrini, o filme é “um mergulho, inclusive para quem nunca mergulhou.”

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Entre os grandes

Bruno Soares, um dos duplistas brasileiros

Por Natássia Massote*

Enfim, o Brasil volta a elite do tênis mundial após derrotar a Rússia pela Copa Davis neste final de semana. Os brasileiros carimbaram o retorno, depois de nove anos, ao vencerem o jogo de duplas. Mesmo já classificados, os tenistas não deram chance aos russos e ganharam os cinco confrontos.

Na sexta-feira, Rogério Dutra Silva marcou o primeiro ponto ao vencer Igor Andreev. O russo abandonou a partida com problemas físicos enquanto Rogerinho liderava o placar por 6-2/6-1. Na sequência, foi a vez de Thomaz Bellucci confirmar o favoritismo e derrotar Teymuraz Gabashvili por 6/3 4/6 6/0 7/6 (7/4).

No sábado, o time brasileiro garantiu a classificação para o Grupo Mundial com a vitória da dupla Marcelo Melo e Bruno Soares, que estão bem entrosados. Os tenistas brasileiros venceram Alex Bogomolov Jr. e Teymuraz Gabashvili por 3 sets a 0 (e 7/5 6/2 7/6 (9/7).

Já no domingo, mesmo sem maiores obrigações, o Brasil não deu chance a Rússia. Thomaz Bellucci e Rogerinho venceram e a equipe terminou invicta, uma esmagadora revanche sobre os russos, responsáveis pela eliminação do Brasil no ano passado.

Com um time desconhecido, reflexo da atual entresafra, a Rússia não resistiu ao saibro lento e ao calor, características muito bem conhecidas pelos brasileiros. Mesmo com o privilégio de jogar em casa, o Brasil já havia mostrado sua capacidade ao chegar muito perto da vitória em 2011. Na época, eram os russos que jogavam em condições favoráveis: contavam com Youzhny em casa e na quadra rápida coberta. Quando a situação se inverteu, a Rússia não ofereceu resistência à equipe brasileira, e não marcou sequer um ponto. Todos os méritos para time de João Zwetsch.

O Brasil agora aguarda o sorteio que definirá as chaves da Copa Davis em 2012. Embora não tenha time para se destacar, há possibilidade de permanecer no grupo. É preciso contar com a sorte e evitar os principais cabeças do torneio. Mesmo sendo impossível não enfrentar algum favorito pelo caminho, o Brasil tem chances contra outras equipes medianas e pode brigar com Cazaquistão, Áustria e Itália.

Há inúmeros fatores que alternam as possibilidades. Os adversários escalados, os pisos escolhidos e o país que recebe o confronto são determinantes. Entretanto, jogar contra alguns times em quaisquer condições encontram chances mínimas. Espanha, Argentina, República Tcheca, Sérvia ou Estados Unidos são amplamente favoritos.

De qualquer forma, a conquista do Brasil é uma vitória para o tênis nacional. O esporte, que já não é um dos mais incentivados do país, ainda vive nas sombras de Guga. A volta ao grupo Mundial mostra amadurecimento e evolução e destaca os pontos que precisam ser aprimorados. 

Lá em cima – A final da Copa Davis será entre Espanha e República Tcheca. Os espanhóis venceram os EUA enquanto os tchecos acabaram com o sonho argentino. A Espanha é a última campeã e o grande destaque da Davis nos últimos anos, mas a República Tcheca pode dar trabalho por ser mandante e pode contar com a ausência de Nadal, que se recupera de lesão.

* Natássia Massote é jornalista. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A vez de Andy



Por Natássia Massote*

E Andy Murray finalmente desencantou. Ao conquistar o US Open, o escocês superou seus fantasmas e, enfim, se firmou entre os grandes. Embora Murray figure há 5 anos como um dos protagonistas do circuito, o título de Grand Slam era o grande vazio de sua carreira. Após disputar quatro finais sem vencer, o tenista se libertou dessa pressão ao derrotar o sérvio Novak Djokovic, último campeão, com parciais de 7/6 (12-10), 7/5, 2/6, 3/6 e 6/2.

A final do último Slam do ano foi esquisita e, embora jogo disputado, o nível técnico ficou aquém da capacidade dos tenistas. No começo da partida, o vento causou insegurança nos jogadores, que se limitavam a troca de bolas sem riscos. Fato a se estranhar já que Djokovic e Murray se conhecem bem e não ficam receosos em tomar a atitude no ponto. Mesmo com as condições estranhas, Murray foi mais consistente e, apesar de oscilar para fechar games decisivos, se manteve firme para levar os dois primeiros sets.

Entretanto, do outro lado estava o sérvio, que não gosta de entregar partidas sem maiores dificuldades. Djokovic provou o seu respeitado foco mental ao empatar o jogo em sets, buscando ser mais agressivo, mas também contando com os apagões do escocês. No quinto set, enquanto muitos apostavam que Murray iria desabar emocionalmente, ele mostrou porque veio para ficar: saiu quebrando Djokovic duas vezes seguidas, que combalido e exausto fisica e psicologicamente, não conseguiu evitar a grande façanha do escocês.

A mudança de Murray vem sendo notada ao longo da temporada. Ainda que não houvesse dúvidas sobre sua espetacular capacidade e talento, ele sempre sofreu com o desequilíbrio emocional, protagonizando martírios dentro de quadra e sofrendo viradas inacreditáveis. Mesmo já conquistando oito Masters Series e 24 títulos, um jogador do gabarito dele merecia um Slam – o maior reconhecimento para um tenista.

E quem foi fundamental para a evolução de Murray foi o gélido Ivan Lendl . O escocês começou a ser mais agressivo, a confiar mais em si e a ter paciência nos jogos. Embora ainda fique mais confortável na defesa, Murray começa a explorar seu vasto arsenal técnico e a usá-lo com inteligência.

Com a medalha de ouro nas Olimpíadas em cima do suíço Roger Federer e o título do US Open sobre Djokovic – cabeças 1 e 2 –, Murray provou que pode vencer grandes títulos e brigar pela liderança. Porém, toda moderação é necessária. O escocês não é obrigado a provar nada e deve seguir com cautela e concentração num circuito cada vez mais equilibrado.

Este ano tivemos quatro vencedores diferentes nos Slams (Novak Djokovic – Australia Open/ Rafael Nadal – Roland Garros/ Roger Federer – Wimbledon / Andy Murray – US Open) – algo que não se via desde 2003. O resto de temporada vai ser apimentado e deve contar com a briga pela liderança do ranking e a disputa árdua entre os tops. Para quem estava acostumado com a dominância de Federer-Nadal-Djokovic, os próximos torneios da ATP prometem duelos interessantes.

O orgulho britânico/escocês

Se Andy Murray já agradou os gran-bretanhos  com a conquista das Olimpíadas, agora ele definitivamente os conquistou. Após fazer história nos Jogos de Londres, o tenista também marca o esporte com a conquista do US Open. A Inglaterra, o berço da modalidade, com tradição respeitável, não conquistava um Slam desde Fred Perry, em 1936 – amargos 76 anos. As coincidências entre os dois britânicos são surpreendentes:


Fred Perry
Andy Murray
Data de Nascimento
18/05/1909
15/05/1987
Signo
Touro
Touro
Primeiro Slam
Us Open
Us Open
Data da vitória do Primeiro Slam
10/09/1933
10/09/2012
Ranking durante o torneio
#3
#3
Ranking do oponente da final
#2
#2 – Novak Djokovic
Oponentes da final venceram o Australian Open do mesmo ano
Jack Crawford
Novak Djokovic
  
* Natássia Massote é jornalista.