terça-feira, 28 de agosto de 2012

O zagueiro que era a voz da torcida


Conversávamos, nos bastidores da Tarrafa Literária, eu, o jornalista André Argolo e o professor José Miguel Wisnik, um dos convidados para o festival de literatura de Santos. Lembrávamos do Estádio Municipal de São Vicente, o Mansueto Pierotti, local onde Wisnik jogou muitas peladas durante a infância, nos anos 50. As memórias destas partidas aparecem no livro Veneno Remédio, uma série de ensaios sobre o futebol e o Brasil.            

Virei-me para o André e perguntei: “Você se lembra daquela partida contra os vereadores de São Vicente?” Ele não se lembrava do amistoso, ocorrido há uns 12 anos. Dois dias depois, André me contou que se recordava vagamente do jogo (a memória costuma ser – entre amigos – um ato de gentileza) e me pediu para contar a história em detalhes.

Eis aqui o jogo mais importante da carreira dele, em termos de público e de contribuição cidadã.

O estádio Mansueto Pierotti estava lotado no domingo pela manhã. O time da Câmara Municipal de São Vicente enfrentaria um combinado de jornalistas. O estádio não estava cheio por conta da entrevista coletiva futebolística, mas por causa da final do campeonato varzeano da cidade. Políticos e jornalistas eram a preliminar. Só o amor ao futebol (ou ao jornalismo) para encarar um jogo contra políticos, tostando ao ar livre às dez da manhã e com um público que não estava ali exatamente para te ver.

Fui escalado para o gol, a única posição que dá para quebrar o galho. André ocupou a quarta zaga. Não importava se era destro. Ficaria do lado esquerdo da defesa, na posição que sobrava. Ao lado dele, na zaga central, Gerson, ex-jogador, um sujeito de um metro e noventa que mais parecia um segurança de boate. Os jornalistas precisavam de reforços e, de repente, ali nasceria um comentarista esportivo, o que justificaria a escalação do armário recém-aposentado.

André foi apresentado ao seu colega de miolo de defesa, que prometeu tomar conta de tudo. Melhor desta maneira, porque o quarto-zagueiro estreante costuma usar óculos, artefato proibitivo para ocasião. A ausência do equipamento talvez reduzisse sua visão de jogo, mas jamais atrapalharia a vontade de resolver aquele imbróglio com a classe política calunga.

Logo que o jogo começou, André definiu como decidiria a preliminar. Olhou para trás e me pediu: “Apenas aponte quem é vereador!”

Percebendo um novo cenário político, respondi sem entrar em detalhes: “os camisas 7 e 10”. Para preservar a identidade dos craques, seus nomes serão omitidos. Posso dizer que o primeiro é um jogador cigano. Foi situação, virou oposição, mudou de camisa de novo e chegou a ser secretário municipal.

O camisa 10, pelo contrário, sempre foi fiel ao técnico que comanda a cidade há 16 anos. Mas está com a carreira em baixa. Frequenta o banco de reservas. Ambos estão fora da Câmara Municipal. Jogam pela Prefeitura.

Aos 15 minutos, fase final de estudos das equipes, como repetem à exaustão os comentaristas e palpiteiros, o camisa 10 se aproximou da área com a bola dominada. Faltava somente o quarto-zagueiro adversário para sair na cara do gol.

O vereador-dono-da-bola não chegou a conhecer a grande área dos jornalistas. André, à moda dos defensores criados em fazendas, levantou o camisa 10 meio metro do chão. Gerson, seu companheiro de zaga, foi corporativista como seus oponentes legislativos e protegeu André da fúria dos assessores do vereador estatelado, a postos para zelar pela saúde de quem lhes pagava o salário de todo mês.

O juiz, talvez de olho numa candidatura, sacou o cartão amarelo e advertiu André pelo favor aos eleitores de São Vicente. O zagueiro ignorou o árbitro, virou-se para trás, olhou para o goleiro-jornalista, sorriu e fechou os dois punhos, como se acabasse de marcar um gol.

Aquele foi o lance mais importante da partida. O restante são fragmentos irrelevantes de minha memória e, como confio nela, não encontro maiores motivos para importuná-la. Não me lembro, por exemplo, se daquela falta saiu um gol. Sei que o camisa 10 – como líder da bancada – cobrou a infração.

O jogo terminou 3 a 0 para a Câmara Municipal. Uma correção histórica, caro leitor: foi 3 a 1, porque a rasteira que derrubou o vereador levantou a torcida, que comemorou pelo ato de justiça política.

Talvez soubessem que um zagueiro como ele estaria na seleção, se a campanha eleitoral fosse mais do que um jogo político, fosse um amistoso domingo pela manhã. 

Lobão, em ritmo acelerado



Lobão entrou no camarim como um corredor de cem metros rasos. Sorridente, simpático, porém agitado, ele cumprimentou a todos e emendou com a primeira história. Seus interlocutores mal respiravam entre uma risada e outra. Um episódio sobre o morro da Mangueira, o tráfico de drogas, o testemunho de uma execução em meados dos anos 80.

Em pé, em performance teatral, Lobão segurava a plateia do camarim com doses intercaladas de tragédia e comédia, deixando sempre o melhor para o capítulo seguinte, como bom novelista. Enriquecia os detalhes com exemplos como: “Todo mundo passou a chamar o sujeito de defunto. Não entendi. Perguntei o porquê e me disseram: ele tá morto. Só que ainda não sabe.”

Lobão se referia a um sujeito que usava um revólver 38 para controlar a bateria de uma escola de samba. Acabou executado depois do ensaio. Com direto à última oração. 

Lobão manteria o ritmo pelas três horas seguintes, no palco ou fora dele, no Theatro Guarany, em Santos. Como primeira atração da 4º Tarrafa Literária, festival internacional de literatura, o cantor algemou a atenção da plateia como um humorista em espetáculo solo.

Durante uma hora e meia, enfileirou “causos” sobre o Rio de Janeiro da década de 80, a relação com as drogas, escola de samba e a vida na prisão. A velocidade com que costurava as histórias era apenas entremeada pelas rápidas intervenções do mediador Matthew Shirts, um espectador privilegiado, que compartilhava gargalhadas com o público.

Comando Vermelho - Uma delas, por exemplo, envolveu a aquisição de uma carteira de motorista. Na verdade, Lobão ganhou a CNH de presente da liderança do Comando Vermelho. Parado pela polícia, pensou que seria preso mais uma vez. Os policiais checaram a carta e nada encontraram. Aí Lobão entendeu que o presente não era uma falsificação. “O Comando Vermelho me deu uma carteira quente.”

Lobão veio lançar sua biografia “50 anos a mil”, escrita em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli. O livro foi um sucesso editorial e revelou uma nova faceta do artista, também apresentador de TV. “Sempre fui escritor. Escrevo desde criança.”

O cantor deve lançar o segundo livro em março de 2013. O título provisório é “Manifesto do nada na terra do nunca”. Será uma coletânea de textos provocativos, característica marcante em todas as áreas de atuação dele. Como Lobão não consegue fazer uma coisa por vez, ele prepara um romance – de estreia – para lançar na sequência.

Aos 54 anos, em plena forma física, Lobão se veste como alguém adepto da vida roqueira. Camiseta preta e tênis de cano alto. Poderia ser redundante se o próprio negasse com veemência o rótulo de “cantor de rock”. “Fiz um disco de MPB, em 1995. Hoje, seria uma modernidade.”

Garoto classe média - Naquele momento, Lobão brigou com a indústria fonográfica, lançou um selo próprio e foi um dos pilares de uma campanha pela numeração do CDs como forma de controle sobre o direito autoral. Os CDs de Lobão eram, na ocasião, vendidos em bancas de jornal. Isto numa época em que a pirataria ainda era elemento frágil da cultura nacional.

Lobão repetiu, ao longo das conversas com o público, que sua biografia é a visão de um garoto de classe média. Passou a adolescência em conflito com a família, não completou o Ensino Médio e encontrou na música a veia para expor o que sentia. Neste sentido, ele se enxerga como roqueiro pela filosofia do gênero musical, e não pelas canções.

Mais velho, Lobão não se vê como alguém que perdeu a vitalidade. Prefere escolher as batalhas. Prefere contar sobre as feridas de guerra. Em ritmo de show, independentemente do tamanho da plateia.

Como o testemunho do motorista que o trouxe de São Paulo, no dia anterior. No camarim, logo após a entrada de Lobão no palco, o motorista comentou: “ele não parou de falar desde que entrou no carro.” E sorriu como quem dissesse: “será assim quando levá-lo de volta.” Sorte dele que a conversa tem todos os elementos de uma boa história. 

Obs.: Texto publicado, originalmente, no jornal Boqnews.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

De quem serão as luvas?



Onze homens e uma sentença: quem?
Os goleiros brasileiros, até a década de 90, costumavam ser contestados quando vestiam a camisa da seleção. A contestação era mais externa do que interna, embora houvesse conivência da crônica esportiva nacional. A avaliação mais comum envolvia, por exemplo, instabilidade e falhas técnicas, como saída de gol em cruzamentos. Na prática, os olhares sobre os goleiros compunham um misto de ignorância, critérios subjetivos e, principalmente, de referências insuficientes.

Costumávamos comparar os goleiros daqui com nossos vizinhos argentinos, uruguaios e paraguaios. Conhecíamos, de fato, a elite de lá; em essência, os que jogavam em suas seleções ou os que faziam sucessos em terras brasileiras. Casos como Cejas, Fillol, Rodolfo Rodrigues e Chilavert.

E olha que sempre tivemos goleiros seguros na seleção. Barbosa, Gilmar, Castilho, Manga, Leão, Carlos, Valdir Peres. Todos cometeram falhas eventuais. Dois deles são lembrados até hoje por isso. Valdir Peres, na estreia contra a União Soviética, em 1982. E Barbosa, já falecido, que dizia ter cumprido uma pena maior do que 30 anos, o limite no Código Penal brasileiro, por conta do Maracanazzo, na final da Copa de 1950.

A partir da década de 90, os goleiros brasileiros mudaram – gradualmente – a opinião generalizada sobre eles. O principal ponto de virada foi Taffarel, o melhor goleiro que vi jogar por aqui. Taffarel desbravou as terras italianas e abriu as portas para outros profissionais. Não jogou em times grandes no exterior, mas colaborou para alterar a percepção sobre estes profissionais, em clara evolução técnica, acentuada pela especialização nos treinamentos.

Atletas nacionais defendem (ou defenderam) as melhores equipes européias nos últimos 10 anos. Julio Cesar, na Inter de Milão; Dida, no rival Milan; Helton, no Porto; Gomes, no Totenham. Até goleiros um degrau abaixo também conseguiram espaço no futebol europeu. Exemplos como Doni, Julio Sérgio e Artur, na Roma; Rubinho, no Genoa; Neto, na Fiorentina; Diego Cavalieri, no Liverpool.

Hoje, a posição parece atravessar uma entressafra. Apresentamos quantidade, mas poucos se sobressaem. Os goleiros mais novos são muito bons, porém falta um jogador em excepcional, de caráter quase unânime. Enquanto isso, os mais antigos se aposentaram ou estão em vias de assinar o papel do INSS.

Voltamos à seleção brasileira. Mesmo com o mercado ainda aberto para os goleiros, o técnico Mano Menezes não consegue definir quem será o titular na próxima Copa do Mundo. Em dois anos, o técnico já utilizou um time inteiro de goleiros. 11 jogadores defenderam a seleção no período.

Nos Jogos Olímpicos, ele levou Rafael, do Santos, que se machucou e está longe de ser absoluto até na Vila Belmiro. Parte da torcida e da imprensa prefere a experiência e regularidade do reserva Aranha. Neto, da Fiorentina, era o reserva nas Olimpíadas e perdeu a posição durante o torneio para Gabriel.

Neto, aliás, também é suplente no clube italiano. Disputou quatro partidas na última temporada, com atuações irregulares. Gabriel, por sua vez, foi comprado pelo Milan sem ter disputado uma única partida pelo profissional do Cruzeiro. Ele ocupou a titularidade na seleção sub-20.

Com exceção da Inglaterra, as principais seleções possuem goleiros com passagem sólida e longeva titularidade. Mas o caso inglês se resume à ocupação das vagas nas grandes e médias equipes por atletas estrangeiros, o que atrapalhou a formação de novos jogadores para a posição.

Fora o treinamento específico, formar um goleiro é diferente das demais posições. O tempo de maturação é mais longo. A maioria assume a camisa 1 nos clubes por volta dos 25 anos. Na seleção brasileira, é comum o reserva ser preparado para assumir a posição uma ou até duas Copas do Mundo depois. Dida e Julio César são exemplos recentes.

Apesar de resistentes em reconhecer, ainda somos dependentes de Julio César. E isso nos coloca diante de uma encruzilhada. Ou torcemos para que ele recupere a boa fase, com a vantagem de que a idade pesa menos para um goleiro. Ou rezamos para que outro nome caia do céu. E que seja visto pelo técnico Mano Menezes.
 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O que acontece com Ganso?


O retorno de Ganso, inclusive com gol, ao time do Santos não apaga a fase ruim que atinge o jogador. Salvo alguns instantes que refrescam a memória, Ganso vive à voltas com contusões, atuações ruins, apatia fora de campo e, principalmente, brigas com dirigentes via imprensa.

Por duas vezes na semana passada, Ganso passou parte do treino da seleção brasileira sentado no banco. Não treinou faltas, pênaltis e finalizações. A ausência, mais do que alimentar especulações sobre a condição física do jogador, indicou o desfecho de uma Olimpíada em que o atleta ocupou o posto de coadjuvante, quase figuração. Tanto que acabou cortado – a primeira versão falava em deficiência técnica – do amistoso contra a Suécia, na última quarta-feira.

Ganso entrou no segundo tempo em apenas duas das seis partidas dos Jogos Olímpicos. Não jogou a final contra o México. As participações foram discretas para um jogador que parecia estar alheio ao que acontecia dentro de campo.

Os Jogos Olímpicos reforçam a decadência em duas temporadas, uma delas marcada por contusões. Em 2012, Ganso se tornou dispensável no Santos e reserva a seleção olímpica, que provavelmente será a base para a próxima Copa do Mundo. Muito pouco para quem ficou na lista extra de Dunga, enquanto muitos pediam sua inclusão no grupo que jogou na África do Sul.

Ganso parece um veterano, não pela experiência, mas pela lentidão ao longo do jogo. Chega a ser irritante o desligamento dele durante as partidas, como se participasse de uma pelada de casados e solteiros. O meia transmite a impressão de que se encontra em má forma física ou que não se recuperou adequadamente das últimas lesões.

O jogador do Santos desfila em compasso de espera. Não auxilia na marcação, regra básica para os armadores modernos, tampouco imprime velocidade quando sua equipe retoma a bola. Ganso parece esperar pela bola ideal, para dar o passe preciso que decidirá um jogo. É pouco para o que se deseja de alguém de alto nível técnico em 90 minutos.

Além do problema de desempenho, Ganso se deixa envolver pelos interesses de quem cuida de sua carreira. De tempos em tempos, troca carícias agressivas com o presidente do Santos. Não desmentiu quando esteve relacionado a negociações com o Internacional e, esta semana, com o São Paulo. Falta a ele – é duro levantar tal tese – o mesmo trabalho midiático de seu companheiro de time e de seleção.

Ao vê-lo atuar no passado recente, sinto-me triste. E esperançoso. Quem viu Ganso jogar em 2012, sabe sobre as pinturas que nascem da perna esquerda dele. Mas se alimentar somente das glórias de ontem é o caminho para desaparecer na dinâmica de negócios do futebol atual.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Batman, um animal globalizado



Os filmes de super-heróis nasceram para cumprir com fidelidade um esquema previsível de entretenimento. A trilogia de Batman, dirigida por Christopher Nolan, foi parida – com consciência ou não – para colocar política e sociedade contemporânea na agenda.

As doses de análise social cresceram ao longo dos três filmes e alcançaram o ápice em “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Um filme como este possibilita leituras múltiplas, quase que particularizadas. São várias camadas, como diria o ogro Shrek, que assinam várias linhas de discussão, da simples associação às histórias em quadrinhos até a mais complexa teoria sociológica.
Prefiro procurar o meio do caminho entre ambas, sem escorregar tanto no entretenimento puro como no academicismo burocrático. “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, ao diversificar vilões e personagens de apoio, nos dá de presente a perspectiva de uma obra atual, que transforma Gotham City em uma metáfora de Nova York, por exemplo.
O cenário da história, claro, poderia nos remeter a qualquer outra grande cidade do Ocidente, mas as origens norte-americanas não deixam escapar o passado recente de um país que ainda expele forças para se manter na hegemonia política e econômica internacional.
Batman, neste sentido, representa mais do que o justiceiro descontente com a criminalidade. Simboliza as forças de segurança inoperantes diante de um mal pulverizado, quase individualizado e comunicável por tecnologias móveis.
Bruce Wayne (Christian Bale, o melhor ator a vestir a roupa do morcego) é o retrato de quem se decepcionou com a estrutura política e social. O dinheiro dele não dá conta de amenizar os desvios deste sistema; ao contrário, somente o reforça. Wayne cansa de se contentar com pequenas vitórias isoladas, como a administração de um orfanato. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, ele aparece como um eremita, que se afastou por oito anos da máscara que o tornou herói anônimo, tão eficaz quanto contestado.
Wayne resiste em compreender que Batman jamais ocupou o centro das atenções como ser político. O mordomo Alfred (Michael Cane) é a voz da consciência, que não o poupa das verdades com contexto. Christian Bale e Michael Cane travam os melhores diálogos do filme; outro quesito em que “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” está bem acima da média.
Batman era, de fato, somente outro elemento na engrenagem, limitado a apagar incêndios pontuais, assim como o comissário Gordon (Gary Oldman), transformado em burocrata diante da política de segurança pública, que mascara uma cidade à beira da implosão social.
Aí entra o papel de Bane (Tom Hardy). Ele personifica o terror. É aquele sujeito de passado desconhecido, objetivo, brutal, selvagem na perspectiva dos moradores de Gotham City. Em certo ponto do filme, é classificado como terrorista. Bane traz, em sua máscara de focinheira, o temor de uma sociedade que só resolve seus conflitos pela violência e que se apavora diante do inimigo desconhecido e sem território. Mais do que isso, necessita de tutores para prolongar o estado de coisas.
Bane traveste, pelo contrário, o falso animal. Coloca em dúvida a liderança de Gotham City, ao desativar a Bolsa de Valores. Nada mais claro como crítica a Wall Street e a crise econômica, marcada pela voracidade capitalista.
Bane é a metáfora moderninha da luta de classes ao promover uma revolução dentro da cidade. Neste ponto, prevalece também o olhar norte-americano, de que as revoluções coletivas são caricaturas de um viés ditatorial. Gotham City, nas mãos de Bane, se torna uma ilha isolada, sob a ilusória descentralização de poder para demarcar o território da vilania. Seria uma Cuba globalizada?
O autoritarismo de Bane é reforçado por mais um exílio (desta vez, involuntário) de Batman, pelos julgamentos à revelia e assassinatos de desafetos do novo modelo de governo, além da criação de uma casta armada e embriagada pelo poder.
Nesta “luta de classes”, aparece a personagem de Selina Kyle, a Mulher-Gato, embora não seja chamada assim. Interpretada por Anne Hathaway, Selina é a Robin Hood da modernidade, com um discurso politizado de diferenças sociais. É claro que, por trás da retórica, está uma mulher sedutora, capaz de dobrar Batman com meia dúzia de palavras, que jamais descarta o prazer individual.
Outro personagem coadjuvante que merece atenção é o policial John Blake, interpretado por Joseph Gordon-Levitt. Ele é a representação do sonho americano. Orfão como Bruce Wayne, ele não teve o glamour em formato de dólares à disposição. Viveu no orfanato sustentado pela Fundação Wayne.
John Blake virou um policial de carreira meteórica, incorruptível e obcecado pelo trabalho. O estereótipo norte-americano repetido à exaustão no cinema. No filme, Bruce e John se aproximaram diante da crise provocada por Bane. De fato, um relacionamento que certamente renderá outros frutos no cinema.
“Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é tão rico que pode nos conduzir a outros caminhos além dos personagens em si. O filme aborda a questão da energia limpa, principalmente nas ações da milionária Miranda Tate (Marion Cotillard), que tenta se associar a Bruce Wayne. Ao andar pela estrada ambiental, a trama também vilaniza a energia nuclear, armamento sempre à beira do descontrole.
“Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” encerra a trilogia com profundidade, ainda que abra margem para outras produções. Christopher Nolan, que nega a politização da história em entrevistas, preparou um roteiro que foge à previsibilidade dos filmes de super-heróis. E, com isso, ressuscitou em Batman um caráter político que, diante da Gotham City nova-iorquina, coloca a trilogia como prato principal para pensar a globalização em que vivemos.
Politizado ou não, “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é entretenimento que vale quase três horas sentado na cadeira. É a versatilidade de uma obra que serve tanto para divertir como para pensar. Basta escolher qual a camada do cinto de utilidades.
Obs.: Texto publicado originalmente no site Cinezen