sexta-feira, 27 de julho de 2012

O dono da grande área


Conversava com Coutinho sobre o Campeonato Brasileiro de Futebol na entrada da livraria Realejo, no Gonzaga, em Santos. Era aquele papo de aquecimento, antes da entrevista, quando entrou uma cliente, na faixa dos 45 anos. Ela olhou para mim e perguntou:

— Vocês têm livros infantis?

— É naquela prateleira ali, mas eu não trabalho aqui.

A cliente se desculpou e olhou para Coutinho, que respondeu antes de qualquer pergunta.

— Eu também não trabalho aqui!

Virou-se para mim e disse:

— Vamos sentar porque parecemos dois seguranças, de braços cruzados na porta.

A conversa diz muito sobre o ex-atacante do Santos. Coutinho é discreto e detesta ligar a sirene para alardear seus feitos como jogador. De raciocínio rápido, é daqueles sujeitos capazes de encerrar qualquer discussão com uma frase definitiva, sem a preocupação de ser politicamente correto.

O ex-jogador Tostão, por exemplo, escreveu que só viu dois gênios dentro da grande área: Coutinho e Romário. Coutinho, ao saber da opinião de Tostão, pensou por dois segundos e afirmou:

— Concordo sim. Mas eu trocaria um dos nomes. Tiraria Romário e colocaria Reinaldo, o do Atlético Mineiro. Foi quem mais se pareceu comigo, no toque e na rapidez. É mais do meu tempo!

O ex-atacante do Santos voltou aos holofotes por conta da biografia “Coutinho – o gênio da área”, escrita pelo jornalista Carlos Fernando Schinner. Em entrevista ao Boqnews, Coutinho falou sobre o livro, sobre as histórias de atleta e não se esquivou de avaliar o futebol atual, de Ganso a Neymar, da seleção brasileira à Espanha, melhor time da atualidade, nas palavras dele.


Boqnews: Logo no começo de sua história no Santos, você voltou para o interior. Era a pressão do seu pai?

Coutinho: Nunca quis voltar para o interior. Eu vim para Santos foragido porque meu pai não me deixava ir para lado nenhum. Estava tudo bem em Santos. Acharam que treinei bem, mas meu pai veio me buscar. Ele queria que eu estudasse. Voltei para o interior, mas a diretoria do Santos foi me buscar, desta vez com autorização do meu pai.

Boqnews: Como ficou a relação com seu pai depois da fama no Santos e na seleção brasileira? Ele mudou de opinião?

Coutinho: Ele não se convenceu. Naquela época, futebol era visto como coisa de vagabundo. Para namorar era difícil. Jogador de futebol era chamado de vagabundo. Meu pai não se entusiasmou muito com isso. Eu trouxe meus pais para cá, comprei casa e ficamos mais juntos. Não queria que ele trabalhasse, mas ele insistia, como quem diz que não gosta de usar o dinheiro do filho. Ele fez tanto por mim. A lógica foi fazer o mesmo pelos meus pais. Infelizmente, tanto meu pai como minha mãe desfrutaram muito pouco. Logo em seguida, faleceram.

Boqnews: Depois de se firmar no Santos, você foi morar na pensão da Dona Georgina, no canal 1, assim como muitos jogadores da sua geração. De que forma a pensão ajudou na sua formação?

Coutinho: No início, nós morávamos no campo do Santos, em cima do portão 7. Depois fomos para a pensão. Dona Georgina e seu Raimundo, falecidos, cuidaram de mim, do Dorval, do Pelé, como se fossem pais da gente. A gente respeitava um pouco os horários. (Coutinho sorri) A gente respeitava sim. Não havia tanto problema em ficar mais tarde na rua. Era mais calmo. Eu cumpria horário até porque treinávamos muito pela manhã. Dez da noite já estava dentro da pensão. Aí queriam que fôssemos para a rua porque nós começávamos a fazer bagunça. Foi uma família que cuidou da gente.

Boqnews: Mengálvio disse recentemente que uma diferença do futebol daquele período para hoje era a dificuldade em entrar no time. Os jogadores ficavam muitos anos como titulares. Ele brinca dizendo que só entrou no time porque Jair da Rosa Pinto se aposentou. Quando você chegou no Santos, tinha o Pagão. O tempo de espera era mais longo?

Coutinho: Eu peguei a equipe do Santos formada. Tinha sido campeã paulista em 1955 e 1956. Eu cheguei em 1957. Realmente era difícil, mas era um aprendizado. Aprendi muito com o Pagão, um jogador sensacional que teve a infelicidade de se machucar muito. Ficava na reserva dele e jogava 15, 20 minutos. Até que eu cresci e, numa excursão em 1958, voltei vice-artilheiro do time e comecei a tomar conta da posição. Briguei muito com o Pagão por conta da saída dele para o São Paulo. Não queria que saísse.

Boqnews: O que o Pagão te ensinou?

Coutinho: Ele me ensinou tudo. Futebol é prestar atenção, saber onde erra. Como dominar a bola, como driblar, como sair de frente com o goleiro. Jogadores de hoje, quando vão em direção ao goleiro, driblam para fora e perdem o ângulo. Aprendi a driblar para dentro com o Pagão e fiz isso perfeitamente bem. Você balança para fora, puxa a bola para dentro e fica com o gol aberto.

Boqnews: Sempre se falou muito da sua discrição em comemorar gols. Não dava socos no ar como Pelé, por exemplo. Mas você comemorou justamente com um soco no ar aquele gol contra o Boca Juniors, pela Libertadores. (O Santos venceu por 2 a 1, em 11 de setembro de 1963 e conquistou o bi-campeonato)

Coutinho: Foi um jogo diferente. Quando entrávamos em campo, Sanfilippo, centroavante do Boca Juniors, me deu uma cusparada. Pensei em dar um soco nele e o Zito me segurou. Olhei para ele e disse: “Não adianta nada. Vai perder.” Com um minuto de jogo, ele fez o gol. Na hora de dar a saída, ele olhou para mim querendo me gozar. E eu falei: “Não resolve nada. Vai perder.” E ganhamos o jogo. A vibração foi por isso. Mas o gol tem sempre a participação de alguém. Até em dois toques. O goleiro chuta e você marca. O goleiro te passou a bola. Hoje, não vejo graça nas dancinhas, no coraçãozinho que os jogadores fazem, subir no alambrado. Não vejo graça porque o jogador que passou a bola está esquecido. Acho desagradável porque o esporte é coletivo. Pelé dava soco no ar, mas abraçava alguém. Hoje, não vejo os caras se abraçarem. O gol parece que virou marketing para os atacantes.

Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe: 99 jogos juntos

Boqnews: A semelhança física com Pelé era uma estratégia de jogo?

Coutinho: Jogávamos com a capacidade que a gente tinha. Não tinha importância quem fizesse o gol. Importava que se fizesse o gol. O Santos nunca mais vai ter o que teve, no sentido de que todo mundo fazia gol. Quem estivesse em melhores condições completava a jogada. A semelhança era a inteligência de dois jogadores. Um olhava para o outro e sabia o que fazer.

Boqnews: O maior rival era o Corinthians?

Coutinho: Tinha o lance do Corinthians. O Corinthians pode estar em último lugar no campeonato que enche o estádio. Ou para aplaudir os jogadores ou para querer bater neles. E o Santos não! Era mais devagar. Hoje é diferente. Para nós, o Corinthians era alegria. Lotava o campo e, como estávamos geralmente com um ou dois pagamentos atrasados, na terça-feira estava todo mundo cheio de dinheiro. Jogava no domingo e recebia na terça.

Boqnews: Qual era o adversário mais difícil?

Coutinho: O Palmeiras. Era três por um. A gente ganhava três campeonatos, e o Palmeiras ganhava um. A gente atropelava São Paulo e Corinthians. A gente nunca foi tetra por causa do Palmeiras.

Boqnews: De todos os zagueiros, qual criava problemas?

Coutinho: Tinha os que queriam dar pontapé. E pontapé também sei dar. Brigava muito com Valdemar Carabina, do Palmeiras, e com o Vitor, do São Paulo. Do Corinthians, tinha o Ditão. A gente conversava o tempo todo, inclusive para combinar a cervejinha depois. Mas o de mais qualidade foi o Santa Maria, do Real Madrid. Também tinha o Djalma Dias.

Boqnews: Por que você não gostava de cobrar pênaltis e faltas?

Coutinho: Nunca gostei de cobrar pênaltis e faltas. Não tinha chute para isso. O batedor era o Pepe. Ou Pelé e Dalmo. Bati uma vez só, em um amistoso. O goleiro pegou com a maior facilidade do mundo. Fui lá e abracei o goleiro. O treinador Antoninho ficou invocado porque achou que eu tinha atrasado a bola para o goleiro. E teve outro pênalti no mesmo jogo. Eu peguei a bola e o Antoninho quase morreu no banco de reservas. Aí o Pepe bateu e fez o gol.

Boqnews: Você se lembra de que como foi a primeira convocação para a seleção brasileira? (Coutinho estreou, aos 17 anos, pela seleção em 9 de julho de 1960, na derrota para o Uruguai por 1 a 0, em Montevidéu. O jogo valia pela extinta Taça do Atlântico)

Coutinho: Foi mais uma sorte que eu dei. Foram convocados muitos jogadores do Santos. O ambiente era favorável. Mas você balança porque não está jogando por uma torcida, mas por um país. Realmente, você balança na hora do hino nacional. Eu acusei o golpe. Começa a pensar na família e todo mundo te ouvindo no rádio. Na época, era o rádio.



Boqnews: Como você se sentiu em relação à Copa de 1962? Era a sua Copa?

Coutinho: Estava numa fase excelente. Estava voando. Infelizmente, fiz um amistoso contra País de Gales, no Pacaembu. Eu me machuquei e viajei com a intenção de me recuperar no Chile. No entanto, não me recuperei e acabei sem jogar. E, chegando aqui, tive que operar o joelho. Foi uma tristeza muito grande. Era o Mundial. Foi a maior frustração da minha carreira. Tive uma boa passagem pela seleção, mas só me trouxe problemas. Só me machuquei.

Boqnews: A facilidade para engordar te atrapalhava?

Coutinho: Nunca me atrapalhou. Atrapalhava o treinador, que ficava no meu pé. Joguei muitos anos muito gordo. E nunca arrumei problema para o clube. A gente vencia. Magro ou gordo, não mudava meu comportamento dentro da área.

Boqnews: Como você analisa o futebol jogado hoje no Brasil?

Coutinho: Acho que começar o jogo, ver o espaço e estudar adversário, tudo bem. Mas hoje estão começando para caramba. Toda hora devolve a bola para o beque. Devolve a bola para o goleiro. Os goleiros estão jogando mais hoje do que ontem. Só chutão e vem escrito na bola: se vira! A bola chega quadrada.

Boqnews: Como você enxerga o Santos hoje, nesta fase de reformulação?

Coutinho: Tem que arrumar. Tem que contratar. Caso contrário, vão matar o Muricy Ramalho. Não existe jogar em função de um jogador ou dois. Só está saindo gente. Não chega ninguém. Santos não é time para lutar contra rebaixamento. Daqui a pouco, (os resultados) começam a pesar.

Boqnews: E o Neymar?

Coutinho: Neymar é diferenciado. Mas o Santos ficou dependente dele. Ele vai cansar. E tem a marcação. O Corinthians o marcou com dois jogadores. É complicado. O Neymar é excelente jogador, mas para jogar lá fora precisa ter um físico melhor. Para ficar em pé! Não vejo físico nele para aguentar lá fora. Não é bom negócio ainda ele sair do Brasil. Na seleção, por exemplo, falta jogador. Arouca não pode ficar de fora.

Boqnews: O que acontece com o Ganso?

Coutinho: Não faço ideia. Ele dá uma entrevista na hora do almoço e fala outra coisa no final da tarde. Não sei quem muda a cabeça dele. Dá a impressão de que ele anda tirando o pé.

Boqnews: O que você achou do Santos diante do Barcelona, no final do ano passado?

Coutinho: Não vi nada. Vi o Santos torcer para o Barcelona. O Barcelona é um time bom. Hoje não tem quem não fale, por exemplo, que a Espanha será campeã mundial. E a base da seleção é o Barcelona.


Boqnews: Casagrande, comentarista da Rede Globo, disse que, depois de ter parado de jogar, em 1994, nunca mais pensou em voltar, exceto quando o Corinthians derrotou o Boca Juniors na final da Libertadores deste ano. Você pensou em voltar alguma vez?

Coutinho: Nem pensar. Nem sonhar eu sonho. Nos últimos três anos, não estava mais a fim de jogar. Não tinha mais apetite. Mas não deixei ninguém decepcionado. No México, cheguei com 96 quilos. Para não desagradar ninguém, trabalhei três períodos e voltei aos meus 78 quilos. Fui terceiro artilheiro do campeonato. Parei antes de começar a dar vexame.

Obs.: Texto publicado originalmente no site do jornal Boqnews. 

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