sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mais Peter Parker, menos Homem-Aranha



Apesar de escorregar de vez em quando, a indústria do cinema sabe onde pisa. Conhece bem o público médio e testa novos limites com a consciência de que as reações da audiência serão previsíveis. É o público médio que lota as salas e multiplica os lucros ao consumir os produtos licenciados pela marca.

O filme “O Espetacular Homem-Aranha” une dois sinais de como Hollywood se comunica com clareza. O mais simples deles é estender o retorno financeiro com as franquias de super-heróis nascidos nas histórias em quadrinhos. Recontar a vida de Peter Parker segue o destino desta linhagem de adaptações dos quadrinhos: mais uma trilogia, assim como os filmes da década passada.  

O segundo sintoma talvez seja o mais arriscado: recontar as mesmas tramas sem que as versões anteriores possam ser esquecidas pelo público acima de 20 anos. Agora, a proposta é explorar o público adolescente – egocêntrico a ponto de desprezar o passado cinematográfico –, além de alcançar os adolescentes tardios, jovens que se aproximam de crianças quando se sentem seguros diante de enredos conhecidos e repetitivos.

Para atender uma parte do público, infantilizado não apenas no cinema, a indústria adotou uma solução simples para refazer a origem do Homem-Aranha, em um prazo curto, sem escancarar a clonagem de roteiro. Contar a história de um ângulo diferente foi a saída para manter atraente o nascimento de um personagem.

O ângulo do filme dirigido por Marc Webb – conhecido pela comédia romântica “500 Dias com Ela” – foi acompanhar a linha de HQs Ultimate, que mantém os personagens presos na adolescência deles.

O filme tem como foco Peter Parker. O Homem-Aranha, na verdade, se fica relegado à coadjuvante do adolescente, antes nerd, hoje geek (para manter a coerência com os modismos e seus rótulos). Na nova versão, Parker continua sendo molestado na escola, mas anda de skate e atrai alguma atenção das mulheres pelas habilidades como fotógrafo.

O enredo se sustenta nas dúvidas, incertezas e na arrogância de um adolescente, interpretado por Andrew Garfield (A Rede Social). O ator de 29 anos funciona como alguém mais jovem e mantém sintonia com Emma Stone, no papel de Gwen Stacy. A sensação é de que este casal convence mais do que Tobey Maguire e Kirsten Durnst, que fez Mary Jane na trilogia anterior.

No entanto, a principal mudança deste filme é construir outra motivação para Peter Parker, diferente dos quadrinhos e das demais produções cinematográficas. Os pais dele, apenas mencionados na versão original, aparecem no início da história. As pesquisas genéticas de Richard Parker, interpretado por Campbell Scott, aguçam a curiosidade do adolescente e o aproximam de Kurt Connors, que se transformará no Lagarto.

Embora tenha relacionamento paternal com Tio Ben, Peter Parker sofre com o trauma da perda dos pais. O desaparecimento deles o motiva a investigar o trabalho científico de Richard, tema que indica que as relações com a ciência serão retomadas nas sequências cinematográficas.   

Outro sintoma de que Parker superou o herói mascarado está justamente na preservação da identidade dele. Peter Parker, sempre que pode, tira a máscara. Banaliza o mistério. Conta seu segredo para Gwen Stacy como se fosse um assunto trivial. As incertezas sobre a identidade ficam restritas ao adolescente em si, nem tanto ao papel que deve cumprir. Até a famosa frase “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” ganhou nova versão.

Ao contrário do filme de Sam Raimi, o vilão não disputa atenção dos espectadores, como foi o Duende Verde, de Willie Dafoe. Lagarto é feito por Rhys Ifans, ator inglês pouco conhecido do grande público. É uma tendência dos últimos filmes de super-heróis. Nada de Gene Hackman como Lex Luthor nos anos 70, Jack Nicholson ou Heath Ledger como o Coringa em dois séculos diferentes.

Por outro lado, o elenco de apoio é experiente e dá suporte ao protagonismo de Garfield. Martin Sheen faz Tio Ben; Sally Field, Tia May; Denis Leary, o capitão Stacy. Até os pequenos papéis são importantes. Thomas C. Howell, por exemplo, representa o operário cujo filho é salvo pelo Homem-Aranha. Como sempre, Stan Lee, um dos criadores do Homem-Aranha, faz uma ponta, mas – desta vez – é o momento mais cômico da história.

Os fãs de histórias em quadrinhos devem se irritar com as modificações da origem do herói, mas a indústria já indicou que as reações significam efeitos colaterais de fácil administração. Filmes como este desejam e alcançam um público que conhecem o personagem somente do mundo audiovisual.

Uma observação: como ritual da linha de filmes de super-heróis, há uma cena extra no meio dos letreiros finais. É ali que se confirma que haverá uma sequência, além de uma aproximação com a turma de “Os Vingadores”.  

Obs.: Texto publicado originalmente no site Cinezen.

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