quarta-feira, 4 de julho de 2012

Hoje, que seja o óbvio!


O dia 4 de julho é importante na história das Américas. Neste dia, aconteceu a Revolução Americana, a primeira das três que alteraram o curso do Ocidente e deram, de fato, inicio à modernidade. Sem discutir o mérito, a Revolução Americana serviu de base para alterações filosóficas, políticas, econômicas e sociais.

4 de julho é um dia também importante para uma nação fundada na periferia do império há pouco mais de 100 anos. A nação não possui território, mas atravessou este ano vários países como suas cruzadas. Caravanas com representantes de mais de 33 milhões de pessoas, de todas as classes, credos e religiões, que elegeram 11 sujeitos para promover uma revolução histórica em particular.

Completo, este ano, três décadas de Corinthians. Poderia me aposentar, mas o cargo de torcedor é vitalício. Confesso que me licenciei algumas vezes, por conta de desmandos de dirigentes e da presença de jogadores que mancharam a camisa do clube, alguns com títulos de nobreza, outros de passagem tão rápida como também insignificante.

Tornei-me torcedor por conta de um time comandado por um médico e acompanhado por um roqueiro, um caipira do interior paulista, um sujeito parido no Parque São Jorge, outro descendente de nordestinos e assim por diante. Sócrates, Casagrande, Zenon, Wladmir e Biro-Biro compunham, com outros colegas, a democracia corintiana, o movimento político mais importante dentro do futebol brasileiro, seja pelas circunstâncias históricas da redemocratização, seja porque nasceu dos atletas, tradicionalmente fantoches da cartolagem.

É claro que um garoto de oito anos passou a torcer pelo Corinthians porque o time ganhava campeonatos, mas o orgulho cresceu quando se descobriu que é possível pensar o futebol além da ganância de dirigentes, do egocentrismo de técnicos e dos vícios de cronistas esportivos.

Testemunhei também a geração de Marcelinho Carioca, Ricardinho, Rincón, Dida mostrar que o clube poderia vencer com medalhões. Foram dois anos gloriosos, de campeonatos nacionais, campanhas muito boas em Libertadores e o título mundial em 2000.

Mas o Corinthians parece se tornar mais genuíno quando escolhe sofrer com operários, sem estrelas narcísicas ou muitos jogadores de seleção brasileira. O time de 1977, que quebrou o tabu de 23 anos sem títulos, é um exemplo. O grupo que conquistou o primeiro Campeonato Brasileiro, em 1990, engrossa a fileira. Fora Neto e Ronaldo, os demais eram destaques do interior que alcançam o auge no clube. Wilson Mano, Fabinho e Tupãzinho, autor do gol do título, simbolizam a voz dos comuns.

Mesmo que não vença o Boca Juniors, o time atual do Corinthians será sempre lembrado. Conquistou um campeonato nacional e atingiu um estágio único. Mais do que títulos e estatísticas, este Corinthians entrou para a memória como uma identidade só, que se aproxima dos torcedores, outra identidade singular, que desfoca milhares de rostos nas arquibancadas ou nas ruas durante as comemorações. Este time faz jus ao grupo de operários que fundou o clube numa esquina anônima de São Paulo.

Hoje, basta que seja o Corinthians de todos os dias. Que corra pela obviedade! Cássio, o goleiro gigante, permanecerá sereno, coerente com os traços simples de seu rosto franksteniano. Os laterais Alessandro e Fabio Santos serão os coadjuvantes de outrora, dispostos a defender (e se defender) como se estivessem no último time da carreira.

Chicão e Leandro Castán, este antes de viajar para a Itália, serão os beques de fazenda que se espera deles. Que seus narizes estejam empinados para longe da grande área! Para trancar a defesa, Ralf e Paulinho manterão a rotina de cães de guarda, eventualmente invadindo o território alheio. Que Ralf despeje sangue novamente, como o fez contra o Santos e seus craques.

À frente, Danilo e Alex, antes contestados, acusados de paquidérmicos, serão mais uma vez essenciais para desequilibrar uma balança que teima em permanecer quase sempre em zero a zero. No ataque, Emerson e Jorge Henrique poderiam fazer apenas um gol cada, lógicos com a própria escassez, mas que se sujam na lama para atormentar a defesa adversária, felizmente o ponto mais fraco dos argentinos.

E, se houver necessidade, o menino com nome de gênio, de três gols em duas partidas importantes. Que Romarinho faça o gol do título, mesmo que seja o último de sua vida no clube.

O Corinthians tem vários motivos para ser campeão esta noite. E outras tantas razões para perder para os argentinos. Mas é bastante provável que fincará a bandeira de sua própria revolução se for fiel – assim como o é sua torcida – à sua história e a seus princípios, inclusive táticos e sentimentais. 

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