sexta-feira, 27 de julho de 2012

O dono da grande área


Conversava com Coutinho sobre o Campeonato Brasileiro de Futebol na entrada da livraria Realejo, no Gonzaga, em Santos. Era aquele papo de aquecimento, antes da entrevista, quando entrou uma cliente, na faixa dos 45 anos. Ela olhou para mim e perguntou:

— Vocês têm livros infantis?

— É naquela prateleira ali, mas eu não trabalho aqui.

A cliente se desculpou e olhou para Coutinho, que respondeu antes de qualquer pergunta.

— Eu também não trabalho aqui!

Virou-se para mim e disse:

— Vamos sentar porque parecemos dois seguranças, de braços cruzados na porta.

A conversa diz muito sobre o ex-atacante do Santos. Coutinho é discreto e detesta ligar a sirene para alardear seus feitos como jogador. De raciocínio rápido, é daqueles sujeitos capazes de encerrar qualquer discussão com uma frase definitiva, sem a preocupação de ser politicamente correto.

O ex-jogador Tostão, por exemplo, escreveu que só viu dois gênios dentro da grande área: Coutinho e Romário. Coutinho, ao saber da opinião de Tostão, pensou por dois segundos e afirmou:

— Concordo sim. Mas eu trocaria um dos nomes. Tiraria Romário e colocaria Reinaldo, o do Atlético Mineiro. Foi quem mais se pareceu comigo, no toque e na rapidez. É mais do meu tempo!

O ex-atacante do Santos voltou aos holofotes por conta da biografia “Coutinho – o gênio da área”, escrita pelo jornalista Carlos Fernando Schinner. Em entrevista ao Boqnews, Coutinho falou sobre o livro, sobre as histórias de atleta e não se esquivou de avaliar o futebol atual, de Ganso a Neymar, da seleção brasileira à Espanha, melhor time da atualidade, nas palavras dele.


Boqnews: Logo no começo de sua história no Santos, você voltou para o interior. Era a pressão do seu pai?

Coutinho: Nunca quis voltar para o interior. Eu vim para Santos foragido porque meu pai não me deixava ir para lado nenhum. Estava tudo bem em Santos. Acharam que treinei bem, mas meu pai veio me buscar. Ele queria que eu estudasse. Voltei para o interior, mas a diretoria do Santos foi me buscar, desta vez com autorização do meu pai.

Boqnews: Como ficou a relação com seu pai depois da fama no Santos e na seleção brasileira? Ele mudou de opinião?

Coutinho: Ele não se convenceu. Naquela época, futebol era visto como coisa de vagabundo. Para namorar era difícil. Jogador de futebol era chamado de vagabundo. Meu pai não se entusiasmou muito com isso. Eu trouxe meus pais para cá, comprei casa e ficamos mais juntos. Não queria que ele trabalhasse, mas ele insistia, como quem diz que não gosta de usar o dinheiro do filho. Ele fez tanto por mim. A lógica foi fazer o mesmo pelos meus pais. Infelizmente, tanto meu pai como minha mãe desfrutaram muito pouco. Logo em seguida, faleceram.

Boqnews: Depois de se firmar no Santos, você foi morar na pensão da Dona Georgina, no canal 1, assim como muitos jogadores da sua geração. De que forma a pensão ajudou na sua formação?

Coutinho: No início, nós morávamos no campo do Santos, em cima do portão 7. Depois fomos para a pensão. Dona Georgina e seu Raimundo, falecidos, cuidaram de mim, do Dorval, do Pelé, como se fossem pais da gente. A gente respeitava um pouco os horários. (Coutinho sorri) A gente respeitava sim. Não havia tanto problema em ficar mais tarde na rua. Era mais calmo. Eu cumpria horário até porque treinávamos muito pela manhã. Dez da noite já estava dentro da pensão. Aí queriam que fôssemos para a rua porque nós começávamos a fazer bagunça. Foi uma família que cuidou da gente.

Boqnews: Mengálvio disse recentemente que uma diferença do futebol daquele período para hoje era a dificuldade em entrar no time. Os jogadores ficavam muitos anos como titulares. Ele brinca dizendo que só entrou no time porque Jair da Rosa Pinto se aposentou. Quando você chegou no Santos, tinha o Pagão. O tempo de espera era mais longo?

Coutinho: Eu peguei a equipe do Santos formada. Tinha sido campeã paulista em 1955 e 1956. Eu cheguei em 1957. Realmente era difícil, mas era um aprendizado. Aprendi muito com o Pagão, um jogador sensacional que teve a infelicidade de se machucar muito. Ficava na reserva dele e jogava 15, 20 minutos. Até que eu cresci e, numa excursão em 1958, voltei vice-artilheiro do time e comecei a tomar conta da posição. Briguei muito com o Pagão por conta da saída dele para o São Paulo. Não queria que saísse.

Boqnews: O que o Pagão te ensinou?

Coutinho: Ele me ensinou tudo. Futebol é prestar atenção, saber onde erra. Como dominar a bola, como driblar, como sair de frente com o goleiro. Jogadores de hoje, quando vão em direção ao goleiro, driblam para fora e perdem o ângulo. Aprendi a driblar para dentro com o Pagão e fiz isso perfeitamente bem. Você balança para fora, puxa a bola para dentro e fica com o gol aberto.

Boqnews: Sempre se falou muito da sua discrição em comemorar gols. Não dava socos no ar como Pelé, por exemplo. Mas você comemorou justamente com um soco no ar aquele gol contra o Boca Juniors, pela Libertadores. (O Santos venceu por 2 a 1, em 11 de setembro de 1963 e conquistou o bi-campeonato)

Coutinho: Foi um jogo diferente. Quando entrávamos em campo, Sanfilippo, centroavante do Boca Juniors, me deu uma cusparada. Pensei em dar um soco nele e o Zito me segurou. Olhei para ele e disse: “Não adianta nada. Vai perder.” Com um minuto de jogo, ele fez o gol. Na hora de dar a saída, ele olhou para mim querendo me gozar. E eu falei: “Não resolve nada. Vai perder.” E ganhamos o jogo. A vibração foi por isso. Mas o gol tem sempre a participação de alguém. Até em dois toques. O goleiro chuta e você marca. O goleiro te passou a bola. Hoje, não vejo graça nas dancinhas, no coraçãozinho que os jogadores fazem, subir no alambrado. Não vejo graça porque o jogador que passou a bola está esquecido. Acho desagradável porque o esporte é coletivo. Pelé dava soco no ar, mas abraçava alguém. Hoje, não vejo os caras se abraçarem. O gol parece que virou marketing para os atacantes.

Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe: 99 jogos juntos

Boqnews: A semelhança física com Pelé era uma estratégia de jogo?

Coutinho: Jogávamos com a capacidade que a gente tinha. Não tinha importância quem fizesse o gol. Importava que se fizesse o gol. O Santos nunca mais vai ter o que teve, no sentido de que todo mundo fazia gol. Quem estivesse em melhores condições completava a jogada. A semelhança era a inteligência de dois jogadores. Um olhava para o outro e sabia o que fazer.

Boqnews: O maior rival era o Corinthians?

Coutinho: Tinha o lance do Corinthians. O Corinthians pode estar em último lugar no campeonato que enche o estádio. Ou para aplaudir os jogadores ou para querer bater neles. E o Santos não! Era mais devagar. Hoje é diferente. Para nós, o Corinthians era alegria. Lotava o campo e, como estávamos geralmente com um ou dois pagamentos atrasados, na terça-feira estava todo mundo cheio de dinheiro. Jogava no domingo e recebia na terça.

Boqnews: Qual era o adversário mais difícil?

Coutinho: O Palmeiras. Era três por um. A gente ganhava três campeonatos, e o Palmeiras ganhava um. A gente atropelava São Paulo e Corinthians. A gente nunca foi tetra por causa do Palmeiras.

Boqnews: De todos os zagueiros, qual criava problemas?

Coutinho: Tinha os que queriam dar pontapé. E pontapé também sei dar. Brigava muito com Valdemar Carabina, do Palmeiras, e com o Vitor, do São Paulo. Do Corinthians, tinha o Ditão. A gente conversava o tempo todo, inclusive para combinar a cervejinha depois. Mas o de mais qualidade foi o Santa Maria, do Real Madrid. Também tinha o Djalma Dias.

Boqnews: Por que você não gostava de cobrar pênaltis e faltas?

Coutinho: Nunca gostei de cobrar pênaltis e faltas. Não tinha chute para isso. O batedor era o Pepe. Ou Pelé e Dalmo. Bati uma vez só, em um amistoso. O goleiro pegou com a maior facilidade do mundo. Fui lá e abracei o goleiro. O treinador Antoninho ficou invocado porque achou que eu tinha atrasado a bola para o goleiro. E teve outro pênalti no mesmo jogo. Eu peguei a bola e o Antoninho quase morreu no banco de reservas. Aí o Pepe bateu e fez o gol.

Boqnews: Você se lembra de que como foi a primeira convocação para a seleção brasileira? (Coutinho estreou, aos 17 anos, pela seleção em 9 de julho de 1960, na derrota para o Uruguai por 1 a 0, em Montevidéu. O jogo valia pela extinta Taça do Atlântico)

Coutinho: Foi mais uma sorte que eu dei. Foram convocados muitos jogadores do Santos. O ambiente era favorável. Mas você balança porque não está jogando por uma torcida, mas por um país. Realmente, você balança na hora do hino nacional. Eu acusei o golpe. Começa a pensar na família e todo mundo te ouvindo no rádio. Na época, era o rádio.



Boqnews: Como você se sentiu em relação à Copa de 1962? Era a sua Copa?

Coutinho: Estava numa fase excelente. Estava voando. Infelizmente, fiz um amistoso contra País de Gales, no Pacaembu. Eu me machuquei e viajei com a intenção de me recuperar no Chile. No entanto, não me recuperei e acabei sem jogar. E, chegando aqui, tive que operar o joelho. Foi uma tristeza muito grande. Era o Mundial. Foi a maior frustração da minha carreira. Tive uma boa passagem pela seleção, mas só me trouxe problemas. Só me machuquei.

Boqnews: A facilidade para engordar te atrapalhava?

Coutinho: Nunca me atrapalhou. Atrapalhava o treinador, que ficava no meu pé. Joguei muitos anos muito gordo. E nunca arrumei problema para o clube. A gente vencia. Magro ou gordo, não mudava meu comportamento dentro da área.

Boqnews: Como você analisa o futebol jogado hoje no Brasil?

Coutinho: Acho que começar o jogo, ver o espaço e estudar adversário, tudo bem. Mas hoje estão começando para caramba. Toda hora devolve a bola para o beque. Devolve a bola para o goleiro. Os goleiros estão jogando mais hoje do que ontem. Só chutão e vem escrito na bola: se vira! A bola chega quadrada.

Boqnews: Como você enxerga o Santos hoje, nesta fase de reformulação?

Coutinho: Tem que arrumar. Tem que contratar. Caso contrário, vão matar o Muricy Ramalho. Não existe jogar em função de um jogador ou dois. Só está saindo gente. Não chega ninguém. Santos não é time para lutar contra rebaixamento. Daqui a pouco, (os resultados) começam a pesar.

Boqnews: E o Neymar?

Coutinho: Neymar é diferenciado. Mas o Santos ficou dependente dele. Ele vai cansar. E tem a marcação. O Corinthians o marcou com dois jogadores. É complicado. O Neymar é excelente jogador, mas para jogar lá fora precisa ter um físico melhor. Para ficar em pé! Não vejo físico nele para aguentar lá fora. Não é bom negócio ainda ele sair do Brasil. Na seleção, por exemplo, falta jogador. Arouca não pode ficar de fora.

Boqnews: O que acontece com o Ganso?

Coutinho: Não faço ideia. Ele dá uma entrevista na hora do almoço e fala outra coisa no final da tarde. Não sei quem muda a cabeça dele. Dá a impressão de que ele anda tirando o pé.

Boqnews: O que você achou do Santos diante do Barcelona, no final do ano passado?

Coutinho: Não vi nada. Vi o Santos torcer para o Barcelona. O Barcelona é um time bom. Hoje não tem quem não fale, por exemplo, que a Espanha será campeã mundial. E a base da seleção é o Barcelona.


Boqnews: Casagrande, comentarista da Rede Globo, disse que, depois de ter parado de jogar, em 1994, nunca mais pensou em voltar, exceto quando o Corinthians derrotou o Boca Juniors na final da Libertadores deste ano. Você pensou em voltar alguma vez?

Coutinho: Nem pensar. Nem sonhar eu sonho. Nos últimos três anos, não estava mais a fim de jogar. Não tinha mais apetite. Mas não deixei ninguém decepcionado. No México, cheguei com 96 quilos. Para não desagradar ninguém, trabalhei três períodos e voltei aos meus 78 quilos. Fui terceiro artilheiro do campeonato. Parei antes de começar a dar vexame.

Obs.: Texto publicado originalmente no site do jornal Boqnews. 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A senhora das imagens

A atriz Mariana Terra

A psiquiatra Nise da Silveira, quando lembrada por jornalistas, normalmente é associada à criação do Museu do Inconsciente, no Rio de Janeiro, e ao trabalho terapêutico que aproximava os pacientes das artes plásticas. De fato, é seu maior legado, mas há outras mulheres em Nise. As outras faces da psiquiatra são o fio condutor da peça “Nise da Silveira – Senhora das Imagens”, em cartaz no Teatro Eva Herz, em São Paulo.

A peça, que infelizmente encerra temporada nesta sexta, dia 27, é um monólogo interpretado pela atriz carioca Mariana Terra. Mas não espere por uma exposição exclusiva da artista no palco. O diretor Daniel Lobo, também responsável pela dramaturgia, criou um espetáculo em caráter multimídia, com locução, trechos em vídeo e momentos de dança.

Para sustentar tantas linguagens, a peça conta com coreografia de Ana Botafogo, locução do ator Carlos Vereza (que faz a Voz do Inconsciente), e depoimentos em vídeo do poeta Ferreira Gullar e do diretor de teatro José Celso Martinez Côrrea.

As demais vozes funcionam, realmente, como alicerces, sem o uso indiscriminado ou um foguetório cênico. A peça é Mariana Terra. A atriz, literalmente, derrete no palco em uma hora e meia. Além da capacidade de atuação, Mariana precisa de preparo físico para dar conta de expelir a intensidade que foi a vida de Nise da Silveira. 



A atriz, cujo pai – também psiquiatra – conviveu com Nise, mostra versatilidade em dançar, viver múltiplos personagens que testemunharam momentos da médica e, inclusive, interagir com o público, na busca de depoimentos que complementem trechos do texto, com a doçura e a firmeza que simbolizavam a psiquiatra. Os diálogos com a plateia são outro espetáculo dentro do texto.

O Teatro Eva Herz, aconchegante em seus 160 lugares, funciona como meio de aproximação entre as fases da vida de Nise da Silveira e o público. A sensação, por vezes, é de vivenciar o cotidiano de um hospital psiquiátrico quando eletrochoques eram a grande novidade no tratamento dos pacientes. As laterais do teatro serviram de extensão do palco ao abrigarem reproduções de obras produzidas pelos artistas descobertos pela psiquiatra, que revolucionou o acompanhamento de pacientes no país.

O maior mérito da dramaturgia foi escapar do que costuma ser senso comum quando se fala em Nise da Silveira. A proposta, de fato bem sucedida, foi conduzir o espectador aos caminhos que levaram a psiquiatra a chegar na relação entre arte e tratamento.

“Nise da Silveira – Senhora da Imagens” começa na chegada dela ao Rio de Janeiro e transita pelas dificuldades em se tornar médica no Brasil na primeira metade do século passado. A peça explora com veemência o lado político de Nise, o que inclui a formação, a militância e, principalmente, a prisão durante a ditadura Vargas, quando conhece – por exemplo – o escritor Graciliano Ramos. 

Nise da Silveira

O espetáculo também esmiúça a aproximação intelectual dela com o psiquiatra suíço Carl Jung, sobre quem escreveu, e de quem atraiu a atenção pela inovação no tratamento.

Embora esteja em cartaz há seis meses, é uma pena que “Nise da Silveira – Senhora das Imagens” encerre a temporada na capital paulista. No ano passado, esteve em cartaz no Rio de Janeiro e foi considerada pela crítica um dos melhores espetáculos de 2011. De fato, a peça é como sua protagonista: sólida em derrubar muros de preconceitos contra doentes mentais; poética em cultivar a esperança para quem as paredes, simbólicas ou de tijolos, são a única visão do mundo lá fora.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Os vovôs visitam a China tropical



Viramos o mercado chinês. Não se trata de competir no setor de R$ 1,99 ou das falsificações, até porque os chineses são imbatíveis. É o futebol brasileiro que se parece cada mais com o chinês. Ou poderia ser com o mundo árabe. Quem sabe a Ucrânia?

Enquanto exporta jovens promessas, muitas deles sem experiência profissional, os clubes brasileiros se transformaram no refúgio para o último suspiro de atletas em decadência. Aí reside a diferença entre nós e os chineses. Eles reconhecem a fragilidade técnica e tentam aprender com a voz da experiência para entrar no circuito.

Nós, afogados na arrogância, nos iludimos (ou enganamos os apaixonados) que o mercado nacional é forte o suficiente para atrair jogadores como Seedorf, Fórlan, Zé Roberto, Dida, Deco, entre outros. Os clubes brasileiros ostentam dívidas criminosas, daquelas de torrar o patrimônio e ainda faltar dinheiro, para enganar imprensa e torcedores de que a pujança permite pagar salários compatíveis com a Europa e atrair grandes jogadores.

Seedorf, de 36 anos, Fórlan, de 33, e Zé Roberto, de 38, são de talento inegável, mas foram adquiridos pelas glórias do passado, e não pela capacidade presente. No caso de Seedorf, até o prefeito do Rio de Janeiro foi recebê-lo no aeroporto, em um misto de campanha eleitoral e complexo de vira-lata, conforme definiu Nelson Rodrigues.

Todos estes atletas, mais Dida e Deco, para repetir os exemplos, não tinham espaço em grandes clubes europeus. Enfrentavam a reserva e até o desemprego. Vieram para cá porque os salários realmente são atraentes, mesmo menores. Além disso, prevalecem as regalias extra-campo, a proximidade de casa ou dos vínculos familiares. Seedorf é casado com uma brasileira e fala português.

Deveríamos ter aprendido a lição com nossos próprios jogadores. Ronaldinho Gaúcho e Adriano já indicavam que o retorno nunca ocorre no auge. O retorno sempre nos contempla com a versão genérica do produto, como os chineses estão acostumados.

Os clubes brasileiros também se vangloriam de comprar jogadores dos países vizinhos. Realmente, o Brasil é o maior mercado da América do Sul. Mas de que isto vale em termos globais? Times argentinos de primeira divisão têm folha de pagamento menor do que o rendimento mensal de Neymar.

Adquirimos atletas de segunda linha até porque, como aqui, a elite se encontra na Europa, salvo as exceções repetidas à exaustão pelos ufanistas. A imprensa brasileira, tão egocêntrica quanto os dirigentes esportivos, mal conhece quem chega. Miralles e Rentería, no Santos; Barcos, no Palmeiras; Piris, no São Paulo; Ramirez, no Corinthians; Marcelo Moreno, no Cruzeiro e no Grêmio; os casos de desempenho discutível se amontoam para desmentir a primeira impressão.

O Brasil, de fato, conseguiu reverte – em termos estatísticos – o papel de exportador em 2012. No primeiro semestre, saíram pouco mais de 200 jogadores, e retornou o dobro de atletas. Mas a quantidade mascara uma realidade ilusória de empobrecimento do futebol local.

O torcedor, que não é bobo o tempo todo, responde com a queda na média de público nos últimos quatro anos. Por que pagar ingressos tão caros para um espetáculo sem garantias?

Vivemos ainda a cultura do desmanche, na qual empresários e cartolas se fartam de negociações. Santos e Corinthians são exemplos vivos desta prática. O time da Vila Belmiro se desfez de quatro atacantes e partiu para comprar jogadores de qualidade duvidosa, sem sucesso nos clubes anteriores. Apelou também para os vizinhos do Mercosul. Pato, que veio do Independiente para o Santos, é o homem da vez, tão desconhecido que o principal programa esportivo da TV aberta teve que fazer pesquisa na Internet para saber de quem se tratava.

O Corinthians mexeu em parte do time que venceu a Libertadores e trouxe estrangeiros quase anônimos por aqui. Ou alguém confia em Guerreiro, camisa 9 da seleção peruana, saco de pancadas das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo?

A seleção brasileira olímpica funciona como termômetro do mercado brasileiro e sua mentalidade de compra e venda. Com a chancela oficial dos dirigentes, os atletas foram expostos como produtos numa feira internacional. Exames médicos, assinaturas de contrato, especulações, o balcão de negócio é visto como natural por parte dos envolvidos. A situação se tornou tão escandalosa, que o zagueiro Thiago Silva abandonou a corriqueira discrição para justificar sua transferência do Milan para o Paris Saint-Germain.

Até quando os clubes brasileiros vão sustentar a conta? Até quando vão gastar o dinheiro dos outros, escravizados pelos chamados investidores? Até quando vamos fingir que não existe uma crise internacional que estilhaçou as contas de muitos clubes europeus, cientes de que cortar atletas em final de carreira poderia ser uma saída paliativa?

Considerar o mercado nacional como promissor é reproduzir a arrogância de quem se sustenta na fantasia de melhor futebol do planeta. E desdenha o 11º lugar no ranking da Fifa, que antes servia como símbolo da hegemonia quando estávamos em primeiro lugar.

Fingir que somos árabes, sem os petrodólares, ou chineses, sem a base de crescimento econômico-financeiro, é o mesmo que acreditar que atletas em final de estrada jogarão muitos anos por amor à camisa. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Além das camisas pretas



No Dia Mundial do Rock, não entendo a necessidade de colocar o som no último volume para irritar a vizinhança. Por que relembrar ícones como se estivéssemos em um velório? Ou cultivar ídolos ainda pulsantes como novidades. Ou ainda vestir uma camisa preta para desfilar na rua. A vontade não depende de um dia comemorativo. Acontece sem que se perceba. Se você premedita, transforma-se em pose e soa ridículo, infantilóide como um hit fabricado para jabás em FMs.  

Precisamos de mais rock and roll. Não exatamente da música em si, mas da atitude e dos valores que a cercam e a sustentam. Um ou outro artista ainda consegue – mesmo dentro da indústria cultural – quebrar barreiras, assustar por comportamentos julgados desviantes, enfrentar o conservadorismo. E parir melodia e letra como um ato político.

O rock que permeia hoje a grande mídia – ainda bem que os guetos resistem – é tão tradicional quanto ela, no sentido mais perverso do termo. Finge-se único, adéqua-se ao pensamento dominante, flerta com o politicamente correto, quase desprovido de opiniões e crítica. Na verdade, até apresenta pontos de vista, tão pasteurizados quanto leite de caixinha. Parafraseando o designer Wendell Penedo, em muitas situações, um cartaz de show merece ser lido de cabeça para baixo, porque nas letras miúdas estão as grandes atrações.

Tenho também a sensação – por vezes, prazerosa – de que parei no tempo. Ouço bandas que não mais existem. Ou cujo prazo de validade aponta para a idade do meu corpo gasto. Mas me divirto com meu próprio discurso, tão frágil quanto um sucesso do verão, de refrão-chiclete e movimentos previsíveis de quadris.  

Sinto-me vivo porque ainda fico de queixo caído com vocalistas, guitarristas, baixistas e bateristas que passaram dos 60 e poderiam ser meus pais, ainda que o CD deles sofra com ranhuras. Como fazer se pais não tocam em bandas nem saltam com fôlego de origem infinita? Sabedoria também se faz pela criação; não é prerrogativa biológica.  

O rock é um dos meus remédios psiquiátricos. Uma tarja preta de acordes que cura as feridas diárias ou apaga um dia simplesmente ruim. Apenas muda a dosagem. Sempre antídoto, jamais veneno. Pode ser um velho show de Bruce Springsteen no Madison Square Garden, em Nova Iorque. Ou do AC/DC dos anos 80 ao Homem de Ferro. Quem sabe os clipes cafonas do Kiss que me fazem rir 30 anos depois? Ou ver Freddy Mercury dominar o palco como se fosse a sala de casa?

Precisamos, em ritmo de emergência, nos reapropriar do rock. Não se trata de construir uma cruzada contra outros ritmos ou gêneros que nascem, crescem, se reproduzem e morrem, como a antiga lição de ciências para crianças. São passíveis de nossa ignorância, cientes de que representam filhos artificiais de um olhar tão mercadológico quanto efêmero.

Precisamos da energia adolescente que se forma quando há o primeiro contato com o rock. Necessitamos da ansiedade por liberdade, que morre lentamente enquanto colocamos os pés da mesa de centro, mais lentos, mais pesados e mais conformados.  

Reabastecer-se do rock é compreender o que ele significa. A resposta é individual, mas que parte de uma única semelhança. O rock extirpa o politicamente correto, praga que corrói a cultura contemporânea. Tumor que nos patrulha com a utopia do pensamento único.

O politicamente correto se espalhou pelo humor que restringe piadas políticas, pelo cinema que finge espanto com as práticas da alcova, pela música que banaliza e transforma sensualidade em fast-food de programa dominical de TV.

Para combatê-los, doses de deboche, cinismo, dúvida e sarcasmo, misturados com lirismo e crítica social. Em outras palavras, dois ou três acordes, guitarras gritantes, baquetas castigando pratos. E agora, peço licença, porque é hora de apertar o play e ouvir alguém vestido de preto, antes que venha a crise de abstinência.

Mais Peter Parker, menos Homem-Aranha



Apesar de escorregar de vez em quando, a indústria do cinema sabe onde pisa. Conhece bem o público médio e testa novos limites com a consciência de que as reações da audiência serão previsíveis. É o público médio que lota as salas e multiplica os lucros ao consumir os produtos licenciados pela marca.

O filme “O Espetacular Homem-Aranha” une dois sinais de como Hollywood se comunica com clareza. O mais simples deles é estender o retorno financeiro com as franquias de super-heróis nascidos nas histórias em quadrinhos. Recontar a vida de Peter Parker segue o destino desta linhagem de adaptações dos quadrinhos: mais uma trilogia, assim como os filmes da década passada.  

O segundo sintoma talvez seja o mais arriscado: recontar as mesmas tramas sem que as versões anteriores possam ser esquecidas pelo público acima de 20 anos. Agora, a proposta é explorar o público adolescente – egocêntrico a ponto de desprezar o passado cinematográfico –, além de alcançar os adolescentes tardios, jovens que se aproximam de crianças quando se sentem seguros diante de enredos conhecidos e repetitivos.

Para atender uma parte do público, infantilizado não apenas no cinema, a indústria adotou uma solução simples para refazer a origem do Homem-Aranha, em um prazo curto, sem escancarar a clonagem de roteiro. Contar a história de um ângulo diferente foi a saída para manter atraente o nascimento de um personagem.

O ângulo do filme dirigido por Marc Webb – conhecido pela comédia romântica “500 Dias com Ela” – foi acompanhar a linha de HQs Ultimate, que mantém os personagens presos na adolescência deles.

O filme tem como foco Peter Parker. O Homem-Aranha, na verdade, se fica relegado à coadjuvante do adolescente, antes nerd, hoje geek (para manter a coerência com os modismos e seus rótulos). Na nova versão, Parker continua sendo molestado na escola, mas anda de skate e atrai alguma atenção das mulheres pelas habilidades como fotógrafo.

O enredo se sustenta nas dúvidas, incertezas e na arrogância de um adolescente, interpretado por Andrew Garfield (A Rede Social). O ator de 29 anos funciona como alguém mais jovem e mantém sintonia com Emma Stone, no papel de Gwen Stacy. A sensação é de que este casal convence mais do que Tobey Maguire e Kirsten Durnst, que fez Mary Jane na trilogia anterior.

No entanto, a principal mudança deste filme é construir outra motivação para Peter Parker, diferente dos quadrinhos e das demais produções cinematográficas. Os pais dele, apenas mencionados na versão original, aparecem no início da história. As pesquisas genéticas de Richard Parker, interpretado por Campbell Scott, aguçam a curiosidade do adolescente e o aproximam de Kurt Connors, que se transformará no Lagarto.

Embora tenha relacionamento paternal com Tio Ben, Peter Parker sofre com o trauma da perda dos pais. O desaparecimento deles o motiva a investigar o trabalho científico de Richard, tema que indica que as relações com a ciência serão retomadas nas sequências cinematográficas.   

Outro sintoma de que Parker superou o herói mascarado está justamente na preservação da identidade dele. Peter Parker, sempre que pode, tira a máscara. Banaliza o mistério. Conta seu segredo para Gwen Stacy como se fosse um assunto trivial. As incertezas sobre a identidade ficam restritas ao adolescente em si, nem tanto ao papel que deve cumprir. Até a famosa frase “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” ganhou nova versão.

Ao contrário do filme de Sam Raimi, o vilão não disputa atenção dos espectadores, como foi o Duende Verde, de Willie Dafoe. Lagarto é feito por Rhys Ifans, ator inglês pouco conhecido do grande público. É uma tendência dos últimos filmes de super-heróis. Nada de Gene Hackman como Lex Luthor nos anos 70, Jack Nicholson ou Heath Ledger como o Coringa em dois séculos diferentes.

Por outro lado, o elenco de apoio é experiente e dá suporte ao protagonismo de Garfield. Martin Sheen faz Tio Ben; Sally Field, Tia May; Denis Leary, o capitão Stacy. Até os pequenos papéis são importantes. Thomas C. Howell, por exemplo, representa o operário cujo filho é salvo pelo Homem-Aranha. Como sempre, Stan Lee, um dos criadores do Homem-Aranha, faz uma ponta, mas – desta vez – é o momento mais cômico da história.

Os fãs de histórias em quadrinhos devem se irritar com as modificações da origem do herói, mas a indústria já indicou que as reações significam efeitos colaterais de fácil administração. Filmes como este desejam e alcançam um público que conhecem o personagem somente do mundo audiovisual.

Uma observação: como ritual da linha de filmes de super-heróis, há uma cena extra no meio dos letreiros finais. É ali que se confirma que haverá uma sequência, além de uma aproximação com a turma de “Os Vingadores”.  

Obs.: Texto publicado originalmente no site Cinezen.

A receita do político feliz


Políticos e burocratas são irmãos quase gêmeos. Às vezes, são tão parecidos que compartilham uma única pessoa. As diferenças de DNA costumam ser sutis. O funcionamento mental de ambos é quase igual, mas os objetivos podem seguir estradas distintas. 

A fraternidade é de sangue.  Políticos se protegem com burocratas. E os burocratas se escoram nas costas largas dos irmãos de cargo eletivo. Ambos cumprem à risca um dos clichês da cultura cartorial: criar empecilhos para vender benefícios.
            
A cultura cartorial, nascida nos tempos da colônia, se manifesta pela enrolação, fatiada em várias etapas. Enrolação é uma palavra que arranca políticos e burocratas de suas camuflagens. Por isso, eles precisam mascarar a inércia com o envolvimento direto, mas distante, das vítimas. Neste caso, nós!

O primeiro passo são as reuniões. Os encontros sufocam com tantos detalhes. As reuniões simbolizam excesso de trabalho. Na prática, as reuniões vão parir outras reuniões para revisar encontros anteriores, para redizer o que já foi falado, para reavaliar as decisões propagandeadas como definitivas.  

Quando fica explícita a inutilidade da reunião, nascem as comissões. Quanto mais melhor para atravancar o trabalho. As comissões podem fingir que investigam, encenar interesse por depoimentos, convocar especialistas do óbvio, apelar para outras reuniões. Mesmo que as comissões tenham boa vontade, o destino dos papéis produzidos é inevitável: as gavetas de alguma seção, de alguma secretaria. Ou armários com tranca para parecer sigiloso.

O ciclo da burocracia se mantém estável quando se fala em dinheiro. A falta dele aumenta a plateia da encenação. Para arrumar verbas, é emergencial acionar outras instâncias também interessadas em perpetuar o projeto. Novas reuniões serão agendadas e comissões, criadas. Mais gente para palpitar, novos endereços para visitar, convocação de outros especialistas, sugestão de novos caminhos e, se possível, de novos projetos que alterem o projeto inicial.

Se a ideia inicial for promissora, o golpe político-burocrático permitirá a concepção de dois novos estágios. O primeiro é a pseudo-inauguração, que conta com a desinformação alheia. A obra em si jamais chegará ao final, mas o que importa é a festa. A imagem de bom anfitrião e de realizador.

A pseudo-inauguração pode se materializar em uma pedra, placa, marco inicial ou terreno vazio, apesar de que muitos políticos e burocratas consideram estas táticas démodé, de fácil percepção de que ambos enganam. A novidade é a maquete, que sinalizaria que o projeto existe de fato e resultará em obra. Já resultou! A maquete é a obra em si, pouco importa se em escala reduzida.

O segundo estágio é o tempo de conclusão. De cara, prazos vagos. Depois, compromissos públicos são assumidos, com a certeza da amnésia política. Adiar até a próxima eleição. Em caso de obra inacabada, inaugura-se o que estiver pronto e se esconde a carcaça. Como explicou uma Prefeitura, esta semana, ao inaugurar um prédio incompleto. Não era inauguração, era “apresentação de uma edificação pronta”.

Com o político reeleito e o burocrata empregado por mais quatro anos, chega-se ao paraíso da lentidão. Ou o projeto é extinto, e a maquete será reciclada para o bem ambiental politicamente correto. Ou o projeto receberá novo nome, fará parte de nova secretaria, a fim de se perpetuar o ciclo.

Para rechear o discurso de procrastinação, há um vocabulário próprio. Neste idioma, prevalecem palavras e expressões como articulação, agregar valor, sustentabilidade, recursos, bem público e outras variações sinônimas.

Em tempos de campanha, o ciclo se reproduz em progressão geométrica. Multiplicam-se os desejos, dentro e fora do poder. O discurso é parecido, com a ligeira diferença de que os projetos ganham retoques particulares, mas prezam pela mesma megalomania e pela inoperância de quem promete além dos limites da função.  Seu candidato se encaixa no perfil? 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O dote



Casamentos sempre envolvem dotes. Entre camponeses, podia ser um saco de grãos, um porco ou uma galinha. Entre nobres, pedaço de terra, título ou reinado. Hoje, entre os ricos, o dote pode ser uma fazenda, um carro importado ou sociedade numa empresa. Entre os pobres, a compra de eletrodomésticos ou um quarto na casa da sogra.

A política também funciona por casamentos. Eles chamam de alianças, talvez para não se lembrar de que há prazo de validade eleitoral e de que divórcios são parte natural do acordo. Ao menos, a política é mais pragmática quando evita se afogar na ilusão do “felizes para sempre”.

Houve muito escândalo e furor de moralidade nos dias que antecederam o início “oficial” da campanha eleitoral. Muitos ficaram horrorizados com fotos emblemáticas de figurões, com trocas de cargos e, principalmente, com os casamentos firmados pelo tempo de exposição no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV.

O carnaval, por um lado, expõe a classe política a mais um vexame dentro da construção de imagem de contos de fada. No outro extremo, ratificar o tempo na TV como dote para subir ao altar – algumas vezes, em casamento comunitário – apenas confirma o cinismo que move parte do eleitorado, seja omissão, seja pela falsa ignorância.

A política, desde a Antiguidade, é permeada por namoros, noivados, abandonos no altar, casamentos bem sucedidos, traições, divórcios, viuvez e outros tipos de relacionamentos teoricamente afetivos. Por que hoje seria diferente? Em um país com 30 partidos, ainda é possível acreditar em ideologias puras? Nem os olhares extremistas escapam das tentações quando ascendem ao poder.

Por que nos assustamos com a foto de Lula e Maluf? Aliás, esqueçam Fernando Haddad. Ele está ali por acaso, como um papagaio do cenário. A memória curta e a desinformação fizeram parecer que os dois personagens provocaram reações como se a plateia estivesse diante do novo.

Todos sabemos que Maluf representa, no imaginário, aquele sujeito mulherengo com quem jamais uma moça “direita” se casará. Namorará por uns tempos, mas não poderá apresentá-la aos pais. Ele tem má fama na vizinhança, mas possui status, mesmo que a família esteja decadente.

É claro que, quem vive de status, sabe o quanto vale uma imagem. Lula caiu na armadilha e posou com Maluf. Qual é a novidade entre os vários casamentos feitos pelo PT e seu imperador? O que Michel Temer e o PMDB significam para a história recente da política nacional?

O PSDB ameaçou espernear, mas foram poucas as vozes que gritaram, até porque o partido também tentava passar uma conversa no cacique do PP. E há relacionamentos antigos entre os dois. Maluf apoiou Covas e Fernando Henrique Cardoso em eleições distintas. Em ambos os casos, existe material fotográfico de Maluf levantando o braço dos dois, “rumo à vitória”, como prega o clichê de campanha.

Além do choque da ilusão, muitos correram para eleger Luiza Erundina a heroína que recusou um dote para se manter intacta, como uma princesa que prefere se manter enclausurada na torre de marfim.  A política tem inúmeras nuances que derrubam, no primeiro round, quaisquer tentativas de entendê-la como um filme de Hollywood, no qual mocinhos e vilões são claramente delineados e se comportam com coerência linear até o desfecho da trama.

Erundina, para confundir, misturou princípios com imagem quando declinou do convite de ser candidata à vice-prefeita. Talvez ela tenha sentido constrangimento com a foto famosa, mas se referiu várias vezes a prejuízos da imagem, uma construção artificial.

Neste discurso de paladina, Erundina afirmou seguir o partido, que apoia com veemência a aliança. Fidelidade partidária soa como muleta diante do balaio de vira-casacas que marca a estrutura política brasileira. Alianças são casuais, por conta de dividendos comezinhos; jamais ocorrem por rigidez ideológica. A própria Erundina, por exemplo, teve que digerir Orestes Quércia em outras folias.

A eleição de 2012 não será diferente das demais. Cargos estão à venda, espaços políticos dentro do governo seguem sob barganha contínua. Talvez a mudança esteja no nível da desfaçatez, que conta – inevitavelmente – com a expressão de surpresa de quem, no fundo, opera do mesmo jeito no cotidiano e confirma o estilo de vida a cada dois anos nos botões da urna eletrônica.  

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Um corintiano em terapia


            
Assim que o jogo terminou, confesso que fiquei paralisado no sofá. Não consegui me levantar e ir à janela gritar contra os vizinhos que torciam pela desgraça alheia. 

Na semana anterior, o vizinho do prédio ao lado virara o inimigo invisível atrás da cortina. Era um santista que se transformara em argentino para se vingar. Ou para mascarar o despeito. Soltava palavrões a cada gol perdido pelo Boca Juniors e comemorara o 1 a 0 argentino.

Logo depois que Romarinho salvou uma nação, me peguei na janela, berrando em direção ao apartamento do prédio ao lado.

— Chupa! Chupa!

É claro que o ritual envolveu distanciamento seguro. Brigar por futebol, jamais. Só deu para testemunhar a cabeça do vizinho se movendo freneticamente, à procura de quem o xingara. Se ele descobriu, também é adepto da recíproca distância.

Ontem à noite, não repeti a dose, apesar de que a sala dele estava vazia. A vizinhança estava quieta. Eu fiquei quieto assim que o jogo acabou. Quase calado, não por consequência de quem mora em volta.

Não sentia vontade de pular, gritar, comemorar com entusiasmo. O alívio me colava no sofá. Mais do que contente, tirei um peso das costas.

A sensação de que o Corinthians venceria o campeonato começou a me preencher – e me incomodar – depois que o Santos foi eliminado. Moro em Santos desde que nasci. Sei o quanto significa uma cidade dividida. Era o principal adversário, não apenas pela rivalidade, mas também pela força e por ter alguém capaz de desmontar qualquer esquema tático eficiente.

Se a psicanálise nos leva à infância para desvendar traumas, então resolvi apanhar o ônibus rumo ao inconsciente. Despachar o Santos me fez voltar a 1987, quando tinha 13 anos. Naquele ano, o Corinthians terminou o primeiro turno do Campeonato Paulista em último lugar. O Santos, em primeiro. O que dizer todos os dias na escola, onde santistas se multiplicavam, com dedos apontados e dentes à mostra?

No segundo turno, o Corinthians terminou na liderança, o que o colocou em quarto lugar no geral. Assim, enfrentaria o líder nas semifinais. Quem? O Santos, de Rodolfo Rodriguez. Naquele tarde de domingo, senti pela primeira o perverso sabor da vingança. Corinthians 5 a 1, com quatro gols de Edmar. A escola, no dia seguinte, parecia um velório. O detalhe de que o Corinthians perdeu para o São Paulo na final, neste caso, é irrelevante.

Tirar o Santos da Libertadores nos traz o sabor de derrubar quem se pautava pela soberba. De ter ganho no ano anterior. De ter Neymar e Ganso. De minimizar a covardia de ser goleado pelo Barcelona. Mas de nada adiantaria se o Corinthians perdesse para o Boca Juniors.

O empate na primeira partida , na Argentina, estilhaçou o mito. Não perdemos em La Bombonera, contrariando a lei das probabilidades. O Corinthians equilibrou a partida em vários momentos. Empatou com o sofrimento tradicional, mas fortaleceu a sensação de que a Libertadores era possível. Bobagem pensar nas estatísticas como invencibilidade, desempenho dos argentinos no Brasil etc.

Nenhum ângulo matemático resolveria a ansiedade de temer pelo pior. Como confiar cegamente em um time que se defende com eficiência, mas ataca com dificuldades? E se o Boca Juniors encontrasse o gol primeiro? Traumas, nervosismo, uma crise de pânico que travaria a virada?

A sensação era ambígua. O temor rivalizava com o prazer de quem enxergava o jogo sob controle. Primeiro tempo de inércia coletiva. Ausência de sobressaltos. Paz de quem sobreviveu com a tensão de que o tempo fora encurtado pela metade. Pênaltis, jamais. Se a partida alcançasse este ponto, definitivamente perderíamos. Seria o castigo mais cruel. O mito de ter o fígado devorado pelo gavião diariamente.

Passei o segundo tempo encolhido no sofá. Curvado para frente. Não conseguia repousar minhas costas, mesmo depois do presente de Schiavi para Emerson. 2 a 0 era pouca diferença. Precisávamos matar o monstro e fechar a tampa do caixão, como disse Casagrande, o comentarista emocionado. Com 2 a 0, o Boca poderia ressuscitar como assassino de filme de terror clichê.

O segundo tempo me levou à sessão de auto-manicure. Todas as unhas estavam cortadas de modo imperfeito, mastigadas por quem tinha a ânsia de devorar o passado pela TV. Peguei-me olhando no cronômetro de dois em dois minutos. Ainda faltavam 15 para terminar. Com um gol, os argentinos poderiam nos encurralar. Cássio é seguro, mas não infalível.

O corpo se encolhera como se sofresse de náuseas. Não havia dor física, apenas um corpo recolhido pelo medo. Eles não poderiam falhar. Cada bola expelida para a arquibancada – ou mesmo para a lateral – assegurava que o jogo estava nas mãos.

Meus filhos, distraídos, jogavam bola pela sala. As crianças sentem primeiro. Mariana, na sabedoria de quase 10 anos, tentou ponderar:

— Pai, acabou! O Corinthians é campeão!

Cinco minutos viraram oito porque o zagueiro Caruzo insistia em querer brigar com Emerson. Nunca acreditei nele como atacante para o Corinthians e temia que devolvesse as provocações. A expulsão contra o Santos reacendia a cada bate-boca em portunhol. Mas é preciso reconhecer: devemos a ele!

O final do jogo me costurou ao tecido do sofá. Olhava para TV, ouvia as entrevistas, o hino, os cantos da torcida. Mal escutava o blábláblá do narrador. A premiação selava a vitória.

Não consegui pular. Quem sofre no deserto sempre desconfia do oásis a sua frente. Fui brincar com meus filhos. Silenciei sobre o que vi. A ferida estava cauterizada.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Hoje, que seja o óbvio!


O dia 4 de julho é importante na história das Américas. Neste dia, aconteceu a Revolução Americana, a primeira das três que alteraram o curso do Ocidente e deram, de fato, inicio à modernidade. Sem discutir o mérito, a Revolução Americana serviu de base para alterações filosóficas, políticas, econômicas e sociais.

4 de julho é um dia também importante para uma nação fundada na periferia do império há pouco mais de 100 anos. A nação não possui território, mas atravessou este ano vários países como suas cruzadas. Caravanas com representantes de mais de 33 milhões de pessoas, de todas as classes, credos e religiões, que elegeram 11 sujeitos para promover uma revolução histórica em particular.

Completo, este ano, três décadas de Corinthians. Poderia me aposentar, mas o cargo de torcedor é vitalício. Confesso que me licenciei algumas vezes, por conta de desmandos de dirigentes e da presença de jogadores que mancharam a camisa do clube, alguns com títulos de nobreza, outros de passagem tão rápida como também insignificante.

Tornei-me torcedor por conta de um time comandado por um médico e acompanhado por um roqueiro, um caipira do interior paulista, um sujeito parido no Parque São Jorge, outro descendente de nordestinos e assim por diante. Sócrates, Casagrande, Zenon, Wladmir e Biro-Biro compunham, com outros colegas, a democracia corintiana, o movimento político mais importante dentro do futebol brasileiro, seja pelas circunstâncias históricas da redemocratização, seja porque nasceu dos atletas, tradicionalmente fantoches da cartolagem.

É claro que um garoto de oito anos passou a torcer pelo Corinthians porque o time ganhava campeonatos, mas o orgulho cresceu quando se descobriu que é possível pensar o futebol além da ganância de dirigentes, do egocentrismo de técnicos e dos vícios de cronistas esportivos.

Testemunhei também a geração de Marcelinho Carioca, Ricardinho, Rincón, Dida mostrar que o clube poderia vencer com medalhões. Foram dois anos gloriosos, de campeonatos nacionais, campanhas muito boas em Libertadores e o título mundial em 2000.

Mas o Corinthians parece se tornar mais genuíno quando escolhe sofrer com operários, sem estrelas narcísicas ou muitos jogadores de seleção brasileira. O time de 1977, que quebrou o tabu de 23 anos sem títulos, é um exemplo. O grupo que conquistou o primeiro Campeonato Brasileiro, em 1990, engrossa a fileira. Fora Neto e Ronaldo, os demais eram destaques do interior que alcançam o auge no clube. Wilson Mano, Fabinho e Tupãzinho, autor do gol do título, simbolizam a voz dos comuns.

Mesmo que não vença o Boca Juniors, o time atual do Corinthians será sempre lembrado. Conquistou um campeonato nacional e atingiu um estágio único. Mais do que títulos e estatísticas, este Corinthians entrou para a memória como uma identidade só, que se aproxima dos torcedores, outra identidade singular, que desfoca milhares de rostos nas arquibancadas ou nas ruas durante as comemorações. Este time faz jus ao grupo de operários que fundou o clube numa esquina anônima de São Paulo.

Hoje, basta que seja o Corinthians de todos os dias. Que corra pela obviedade! Cássio, o goleiro gigante, permanecerá sereno, coerente com os traços simples de seu rosto franksteniano. Os laterais Alessandro e Fabio Santos serão os coadjuvantes de outrora, dispostos a defender (e se defender) como se estivessem no último time da carreira.

Chicão e Leandro Castán, este antes de viajar para a Itália, serão os beques de fazenda que se espera deles. Que seus narizes estejam empinados para longe da grande área! Para trancar a defesa, Ralf e Paulinho manterão a rotina de cães de guarda, eventualmente invadindo o território alheio. Que Ralf despeje sangue novamente, como o fez contra o Santos e seus craques.

À frente, Danilo e Alex, antes contestados, acusados de paquidérmicos, serão mais uma vez essenciais para desequilibrar uma balança que teima em permanecer quase sempre em zero a zero. No ataque, Emerson e Jorge Henrique poderiam fazer apenas um gol cada, lógicos com a própria escassez, mas que se sujam na lama para atormentar a defesa adversária, felizmente o ponto mais fraco dos argentinos.

E, se houver necessidade, o menino com nome de gênio, de três gols em duas partidas importantes. Que Romarinho faça o gol do título, mesmo que seja o último de sua vida no clube.

O Corinthians tem vários motivos para ser campeão esta noite. E outras tantas razões para perder para os argentinos. Mas é bastante provável que fincará a bandeira de sua própria revolução se for fiel – assim como o é sua torcida – à sua história e a seus princípios, inclusive táticos e sentimentais.