sexta-feira, 15 de junho de 2012

A política virtual (e real?)


Ostentar o título de pré-candidato a prefeito é tão ilusório quanto crer que as promessas de campanha serão cumpridas à risca. Os candidatos já colocaram o bloco na rua há meses, montaram escritórios, contrataram os especialistas, costuraram as alianças. Mas é preciso manter a compostura para não despertar a atenção da senhora de olhos vendados do Poder Judiciário.

Os prefeituráveis não apenas gastam sola de sapatos nas ruas ou calejam os dedos de tanto apertar as mãos dos novos amigos de campanha. Qualquer candidato que se preze montou um exército. Uma tropa virtual de amigos, contratados e simpatizantes para curtir, compartilhar e propagar todos os passos de quem pretende cercar o eleitor de todos os lados.

As redes sociais ficaram entupidas de fotos de missa, visitas a eventos culturais, participação em debates, todo tipo de estratégia para manter o candidato em evidência. Sem institucionalizar a campanha, é claro. Amigos virtuais fazem o serviço, com a artificial boa intenção, de reproduzir as mensagens, como um favor altruísta de quem reza por uma causa maior.

A ironia é que muitos dos políticos ainda não entenderam como as redes sociais funcionam. Patinam quando apostam no controle absoluto das mensagens. Mas balançam de verdade quando não compreendem que as redes sociais são capazes de aglutinar pessoas interessadas em fiscalizar o que os (pré)candidatos fazem em campanha ou no poder.

Um dos alvos das redes é o deputado federal Beto Mansur. Se quiser aumentar suas chances de chegar ao Paço Municipal, além do papel de visitante ilustre, Mansur precisa considerar as redes sociais como mecanismos de protestos e de indignação. Mais do que isso, como um instrumento que espalha informações como rastilho de pólvora e que mantém vivo e pulsante, tanto o passado remoto como o pretérito recente do candidato.

A decisão de votar contra o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) do Trabalho Escravo (438/2001) colocou o pré-candidato do PP na vitrine virtual.  A lista de deputados votantes se espalhou mais rápido pelo Facebook do que boato político na Câmara dos Deputados. Beto Mansur foi um dos 29 parlamentares que votaram contra a PEC, que prevê confisco de terras de fazendeiros que adotassem o trabalho escravo e a destinação da área para reforma agrária ou ao uso social urbano. Felizmente, a PEC foi aprovada com 360 votos.

A Internet, neste sentido, é voraz para remexer nos esqueletos escondidos no armário. Não há trancas e cadeados que segurem os recursos de compartilhamento de um Facebook, por exemplo. É inútil acusar adversários de uso político. A informação corre pelo eleitorado, moralmente indignado, ainda que irritadiço de ocasião.

No caso de Mansur, rapidamente circularam as lembranças sobre o processo que o deputado federal enfrenta no Superior Tribunal Federal (STF) pelas denúncias de trabalho escravo em uma de suas fazendas, em Goiás. O local foi alvo de fiscalização do Ministério do Trabalho há oito anos, menos de um mês antes da eleição de João Paulo Tavares Papa.

O incêndio virtual não representa, evidentemente, o único fator que decide uma eleição. Mas funciona, ao menos de forma indireta, como variável nas pesquisas eleitorais. E, no quesito mais importante delas, o deputado não caminha bem. Os índices de rejeição giram em torno de 30%, percentual comprometedor para o sonho do segundo turno.

Controlar a realidade da política no mundo virtual implica em procurar por alternativas de comunicação, que visem ultrapassar a imagem de bom moço que todos os candidatos desejam construir até outubro. As redes sociais estão além da exposição frívola da vida privada. Neste universo, a futilidade se transforma rapidamente em incêndio.  Basta um clique no botão Compartilhar. 

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