sábado, 2 de junho de 2012

Os loucos e os cínicos


 

Santos, em muitos aspectos, se comporta como um sujeito de meia-idade que se agarrou aos pequenos confortos do cotidiano. Ele, que hoje cultiva um ar blasé para novidades, perdeu o vigor da juventude de modo que até os rastros da vida libertária foram adormecidos.

A Santos balzaquiana se tornou cínica. Com olhar presunçoso, indica que nada mais a surpreende. Nada mais a incomoda. Em caso de choque eminente, opta entre duas alternativas. Ou classifica o que testemunha como obviedade irritante ou ignora o que vê como se fosse um fenômeno distante do que viveu ou defendeu com a indignação dos jovens.

Um exemplo desta Santos que anestesiou a combatividade é a forma como lida e encara a questão da Saúde Mental. Santos, uma das pioneiras na luta anti-manicomial, se escravizou pela prática da redundância. E sucumbiu aos estigmas que marginalizam pacientes e até profissionais da área.

O Dia de Luta Anti-manicomial ainda sobrevive como catalisador de resistência contra o encarceramento de pessoas com problemas psiquiátricos, mas não fomenta sensibilidade entre os diversos setores da sociedade santista com poder efetivo de decisão política.

Santos conseguiu, no final dos anos 80, fechar a Casa de Saúde Anchieta, símbolo da transformação de homens em animais a partir de supostos desvios de conduta. A cidade virou referência na descentralização do atendimento a pacientes, o que colaborou com a redução do preconceito contra eles. O município abraçou também ações que aproximaram o tratamento e a reinserção social via arte, como o projeto Tam-Tam, que atraiu olhares internacionais a partir das respostas e da recuperação de pacientes.

Mais do que amadurecer, Santos envelheceu. E da pior maneira possível. O desenvolvimento econômico é a roupa nova que mantém a elegância e até o ar moderninho do sujeito de meia-idade. Mas não há guarda-roupa de grife que esconda a mentalidade conservadora. O mesmo sujeito que está na moda acusa o envelhecimento de espírito quando nos aproximamos dele e observamos com maior profundidade seu comportamento.

Santos estacionou na política de Saúde Mental. O assunto despejou a cidade na vala comum, que incorporou a mentalidade da faxina dos desviantes. É triste perceber que, em eventos ligados ao tema, os personagens sejam os mesmos, enclausurados na nostalgia das glórias do século passado.

As lutas e as batalhas vencidas se tornaram, de fato e de direito, símbolos históricos, mas a Santos envelhecida fez questão de mantê-las somente como artigo de museu. Foi incapaz de utilizá-las como referência para novos programas e, como sinal de falso amadurecimento, virou as costas para as conquistas como se fossem um arroubo juvenil de rebeldia sem causa.

Santos ficou cínica com seus loucos. Preferiu flertar com a regra geral, de limpeza social, de marginalização, de invisibilidade. O tema não comove o noticiário, não envolve a agenda pública, sequer atrai a atenção de candidatos (salvo exceções) em ano eleitoral, encantados como as promessas de riqueza imediata dos arranha-céus e do óleo do fundo do mar.

A loucura de uma cidade apagou a loucura real de seus habitantes. A doença mental hoje voltou a ser um tabu e, como tal, é encarada com sussurros, quando não predomina o silêncio. Popularizar termos de dicionários psiquiátricos no dia-a-dia, neste sentido, só reitera o rótulo, o que pouco esclarece um problema social latente. 


Nos tempos contemporâneos, as variações da loucura dão colorido a um modelo da vida urbana contaminado pela redução da humanidade. Desviar olhos e ouvidos para a multidão que entope consultórios ou vira cliente preferencial das pílulas da felicidade é o sintoma da tendência de suicídio social de uma cidade. Temo que, dependendo do grau e intensidade, nenhum especialista possa reverter o quadro.

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