sábado, 30 de junho de 2012

Os coronéis caiçaras



Os coronéis ocupam as páginas da história do Brasil desde a sala de parto, no século XVI. É claro que tiveram outros nomes, como fidalgos e senhores de engenho. Mais do que possuir uma patente militar, ser coronel significa se embebedar no poder, muitas vezes sem limites.

O coronel se consolidou como símbolo da cultura brasileira a partir do olhar sobre o mundo rural, principalmente na região Nordeste. O coronel não seria somente uma liderança política, mas um déspota dos trópicos, acima da lei, o quarto (ou único) poder capaz de legislar, executar e julgar sobre quaisquer comportamentos dentro de seu domínio.

Os coronéis nascem ou constroem sobrenomes tradicionais, um guarda-chuva que protege toda uma árvore genealógica de manutenção autoritária. Familiares e parentes são os multiplicadores do poder coronelista, sempre bem posicionados em todos os setores da política, escolhidos por voto de cabresto, por voto voluntário ou por indicação mesmo.

A Baixada Santista produziu sua versão de coronelismo. Até porque hoje soa brega andar a cavalo, de chicote na mão e chapéu na cabeça. José Sarney e Jader Barbalho, por exemplo, já largaram a fantasia há muitos carnavais.

A versão caiçara do coronelismo é pós-moderna. Os coronéis se vestem bem, usam ternos de griffe, comem em restaurantes com pratos que custam um salário mínimo, viajam de avião fretado. Quando não o fazem, transitam em carros ou motos importadas. A imagem de esportista é fundamental para construir a pose de saudável, descontraído e outros adjetivos sinônimos.

Como a aparência representa uma das chaves do negócio, os coronéis caiçaras são eficientes em esconder as máscaras. No fundo, repetem as práticas dos tradicionais mestres do século passado. Uma das máscaras é não demonstrar desejo de abocanhar todo o bolo. Fatias – também conhecidas como cargos, inclusive eletivos - são distribuídas em meio a sorrisos, alianças de ocasião ou acordos com outros poderes.

Os coronéis de cavalos de ferro importados e passeios em Miami se esforçam, mas não ocultam a dependência química pelo poder. Se não podem ocupá-lo oficialmente, fabricam o sucessor. Se não for de mesmo sobrenome, que esteja no círculo de amizades. Lealdade é qualidade bem recompensada.

Na Baixada Santista, os coronéis delimitam, com harmonia, os territórios. Em eleições nacionais, disputam – sem assumir publicamente – o mesmo espaço.

Os coronéis pós-ditadura militar exercem liderança desde a década de 90. E se aproveitam da ilusão do provincianismo, marcado pela infantilidade de quem se considera progressista. Trata-se de um argumento insustentável diante da inércia política no Poder Executivo. Os sintomas se manifestam pelo revezamento de cargos ou pela simples perpetuação de uma dinastia familiar.

Santos, São Vicente e Praia Grande são exemplos de cidades que se curvaram aos mesmos grupos no comando político. Os discursos de progresso são idênticos; mudam as cores das camisas dos partidos. Cubatão e Guarujá fingem ser exceções. O primeiro viveu um revezamento entre dois prefeitos durante 16 anos. Quebrou as algemas, mas sente o cheiro de retorno, em cor vermelha, com a multiplicação de partidos sanguessugas em volta.

Guarujá engana os apressados, mas o noticiário policial não deixa mentir, com ex-prefeito preso e outros políticos assassinados. O faroeste também tem cenas em Cubatão, onde desavenças são resolvidas na bala.

Se os coronéis existem, é porque seus súditos os apoiam ou se mostram omissos. Em outubro, os eleitores têm dois caminhos: romper a porteira ou se comportar como ovelhas na busca por um pastor.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A crise dos 40 (aos 38!)


O texto abaixo foi escrito por Christiano Flexa. Mais do que um amigo, ele é um dos irmãos que não tive. A publicação se dá por um motivo: escrito com alma, é um texto que gostaria de ter feito. 
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Acho que eu deveria escrever isso aqui quando estivesse fazendo 40 anos, mas pra quem entrou na crise dos 25 aos 20 e na dos 30 aos 35, a crise dos 40 ao completar 38 já está até que bem atrasada.

E sabe o que eu posso dizer? Que a vida é boa pra cacete!

Beirando os 40 anos, eu não sou o típico sujeito que tem um pé-de-meia (com hífens mesmo, que a reforma ortográfica provavelmente descartou). Geralmente estou entalado em dívidas, tendo ficado mais tempo na minha vida adulta lidando com SPCs e Serasas do que com bom crédito na praça. Não tenho carro (nem carta), nenhum imóvel, nenhum "patrimônio" como os outros costumam chamar.

Não vou mentir, isso me chateia um pouco. Mas achar a vida ruim? Nem de longe!

Sempre sonhei em trabalhar para as editoras de HQ nos EUA, mas nunca conquistei isso (com boa parcela de culpa minha que me acuei na primeira tentativa aos 15/16 anos e achei que era um sonho distante demais). Escolhi, das tais profissões estabelecidas, uma carreira que, apesar de não ser aquela que sempre sonhei, me dá motivos para algum orgulho. Sou bom no que faço, e não pretendo ser modesto quanto a isso. Mas não serei arrogante de dizer que sou o melhor. Tem muita gente melhor do que eu, e não precisa ir muito longe, nem sou o melhor que eu poderia ser! Mas sou bom o bastante para me orgulhar e para merecer o respeito de quem me emprega. Respeito esse que poucos dos que exercem a mesma função que eu, ganhando 3 vezes mais, têm de seus empregadores na "cidade grande". E nessas, estou com quase 18 anos de profissão. 

Descobri outra paixão profissional quando já parecia consolidado no meu "day job", ensinando. Ensinar no sentido mais amplo da palavra, que inclui aprender. Aprendo com meus alunos, aprendo comigo mesmo e descubro que ainda tenho alguns truques na manga que nem eu mesmo sabia que estavam lá. E ensinar não é só passar matéria e cumprir programa educacional. E acompanhar o aluno, apoiar, ajudar, e OUVIR o aluno. É mostrar que ele pode. Quem sabe se todo professor fosse assim eles também encontrariam, como eu encontrei, alguém que, mesmo com metade da sua idade, te dá o feedback que você sempre esperou encontrar. Que você pode ver como um igual, que te mostra que o patamar não é estabelecido pela idade, mas pela cabeça. 

Não ganho tão bem, mas ganho o máximo que quem me paga pode pagar, e isso é dizer muito num mundo onde todo mundo (inclusive eu) prefere pagar o mínimo. Não sobra, as vezes falta, mas quando não sobra, as contas estão pagas, e quando falta, no fim sempre tem alguém que me ajude a me reerguer. 

Acho que porque, desde sempre, soube escolher as pessoas que me cercam. Ouço tanto falar de decepções, mas parando pra pensar, conto nos dedos de uma mão, com folga, as vezes que alguém me decepcionou.

Estou chegando aos 40 (ok, 38, mas sabe como é...) solteiro, sem filhos e "sozinho". E isso pesa, bate a falta de ter um alguém, mas me vejo na posição privilegiada de poder dizer que não vivi casos. Vivi amores. Sempre que estive com alguém, cuidei, tratei e vivi aquele amor como se fosse pra sempre (e eu sempre achava que era), olhando o futuro, sonhando junto. Nada contra viver casos... só que aprendi que isso não funciona pra mim. Comigo são amores, e lembro de cada um deles (não se espante com minha memória, que na verdade é uma grande merda, é que foram poucos, então fica mais fácil lembrar) com carinho e saudade, Até mesmo dos que nunca foram abertamente declarados ou se concretizaram. Me fizeram ver que eu ainda era capaz de acreditar no amor, de sentir e de sorrir por isso. E olha que não foi uma nem duas vezes que achei que tinha perdido isso.

Não tenho tudo o que quero e, agora sim, vou me permitir a arrogância de dizer que nem tenho tudo o que eu acho que mereço. Mas eu tenho muito do que eu preciso. E quando me faltou algo, raras foram as vezes em que não apareceu alguém que supriu essa falta.

Sou de ter amigos, mas sei que não sou muito frequente com eles. Sou de ficar em casa, na minha e isso me mantém meio distante deles. Mas só fisicamente, pois a grande maioria genuinamente me mostra que amizade não é frequência, é sintonia. E eu sinto essa sintonia mesmo com os amigos que ficam anos sem muito contato. O meu carinho por cada um deles, eu tenho de volta. E isso é que é amizade. 

Todo mundo diz que eu reclamo de tudo e reclamo mesmo... de prazos, de chatos, de faltas e sim, reclamo da vida. Mas são reclamações. É vazão à pressão. Deu vazão, passou. Porque a vida é boa, por mais incompleta que ela seja. Dor? Já tive tantas....das piores espécies. Daquelas que você acha que vai morrer! Mas ai você percebe que você não morreu, que chega um ponto em que você vive aquela dor porque você se acostumou a ela. E aí você segue em frente. E sofre com outras dores, mas já aprendeu que por mais que ela pareça capaz de te levar a morte, só parece, mas não vai.

Muitas vezes até eu penso que não vivo a vida como deveria. Deveria sair mais, trabalhar menos, viajar, "curtir" quando na verdade passo meus momentos de folga entre leituras, desenhos e seriados.... milhares de seriados. Aí vejo como me sinto bem assim, e vejo que na verdade não estou vivendo a vida como os outros acham que ela deve ser vivida. Estou vivendo a minha vida do meu jeito. Certo ou errado, quem sabe.

Ainda quero muitas coisas, e aos poucos, do meu jeito, vou tentando fazer com que elas aconteçam. Se demora mais é porque eu me preocupo com quem me cerca. Eu gosto de me preocupar com quem me cerca.

Sou ateu. Não tenho medo do inferno, de ser julgado por divindades. Mas sei que sou um sujeito bom. E sim, me orgulho disso (orgulho é pecado pra quem acredita em pecado). Sou uma boa pessoa porque fui criado para tentar ser sempre o meu melhor. 

Falta um pouco (MUITO POUCO) para os 40, mas eu diria, depois dessa revisão simples, mas até que bem completinha, que o saldo até aqui é positivo.

Agora? Agora eu vou é dormir que amanhã tem mais trabalho pela frente!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O que esperar do Corinthians?



O ex-jogador Tostão, melhor texto do jornalismo impresso no país, escreveu que o Corinthians é o time brasileiro que mais se assemelha ao futebol europeu. E acrescentou que o clube possui um dos melhores elencos do Brasil. Concordo com as posições do mestre, mas penso que é necessário refletir sobre alguns pontos para se evitar as generalizações inerentes às paixões pelo futebol ou aos diálogos professorais de balcão de padaria.

O Corinthians se parece com um time europeu na organização tática. Como o comercial de shampoo, parece, mas não é. O time não se aproxima da eficiência do Barcelona, claro, tampouco tem o elenco do Chelsea, para aqueles que resumem o futebol inglês à retranca.

Tite encontrou um jeito de jogar, independentemente da final com o Boca Juniors, conforme as peças que se encontravam à mão, com as limitações de um clube que representa, de fato, a entressafra atual do futebol brasileiro. Defender-se sempre é o lema de quem não foi contemplado com a criatividade.  

O time paulista é o que melhor se defende na atualidade. Ao contrário do que blefam dirigentes adversários, o Corinthians não possui nenhum jogador selecionável na defesa. Paulinho, talvez, se descartarmos algumas opções na Europa, como Ramires e Hernandes. Mas o mesmo argumento vale, por exemplo, para Arouca, do Santos.

A defesa é experiente e funciona bem pelo conjunto da obra. Todos são obedientes como peões do tabuleiro e parecem ter consciência de que dependem uns dos outros para a própria sobrevivência. Até porque nunca foram destaques em outros clubes de ponta.

A defesa parece ter ficado melhor com a troca de goleiro. É cedo para apostar fichas em Cássio, mas ele tem se mostrado bem mais seguro do que Julio Cesar. Até a torcida o acolheu com mais rapidez do que de costume. O saldo é que o Corinthians levou somente três gols em 12 partidas.

Mesmo com a defesa consistente, confesso que ver o time jogar é um exercício contínuo de ansiedade. Temo que a obsessão em não levar gols se transforme em freio de mão quando a barreira for quebrada. E que o time não reaja a tempo numa partida decisiva, embora tenha provado em várias ocasiões ser capaz de manter a serenidade quando está atrás no placar.

O Corinthians marca mais à frente do que quase todos os adversários. As três linhas de marcação, que começam com os jogadores de frente, atravancam o meio-campo e reduzem as chances de criação adversária. Neymar que o diga nas duas partidas pela Libertadores. Sempre dois ou três a sufocá-lo. O atacante do Santos teve que abandonar, em certos momentos, o lado esquerdo para respirar e criar.

O problema é que o Corinthians não possui outra maneira de se apresentar, inclusive porque não possui material humano para a versatilidade. Os meias são bons jogadores, mas caem na vala comum do momento atual no Brasil. Danilo é excelente para execução tática, ótimo para prender a bola quando o resultado é favorável, mas não pode se esperar dele arroubos de genialidade. Ele é o símbolo do time atual justamente por conta da regularidade.

Alex, por sua vez, entendeu que sangrar pelo grupo é a forma para mantê-lo entre os titulares. Atua de maneira parecida com Danilo, mas atraindo o jogo para o lado direito, com a diferença de que colabora nas bolas paradas.

Daí para frente, o Corinthians perde a grandeza. Os atacantes são comuns; a maioria deveria jogar em times de porte médio. Liédson poderia ser a exceção, mas as lesões o limitaram em termos físicos. Não se pode contar com ele todo o tempo.

Com este quadro, é possível remexer o óbvio e dizer que o Corinthians vai engrossar com o Boca Juniors. Fechar-se na defesa, apostar em contra-ataques e comemorar um empate na Argentina. Se isso acontecer, o torcedor deve rezar por uma vitória magra no Pacaembu. É o que pode se esperar do Corinthians, um time operário às últimas consequências. 

A velhice do PT



Até o final do mês, o PT realiza a convenção para a Prefeitura de Santos. Salvo um tsunami político, a deputada estadual Telma de Souza deve sair mais uma vez como candidata ao Poder Executivo. O problema é que, nesta eleição, o cenário se desenha de maneira diferente.
            
Nas três derrotas para a Prefeitura, Telma de Souza percorreu o mesmo caminho. A candidatura dela namorou, noivou e foi abandonada no altar, no segundo turno, pelo eleitorado. Telma sempre foi uma das protagonistas de um processo eleitoral polarizado, bem parecido com Santos e Corinthians.

Telma de Souza representava uma parcela da cidade, quase a metade de uma população, com um olhar preocupado com políticas sociais, por exemplo. Era o contraponto à Santos conservadora, que se encanta com promessas de progresso à la Revolução Industrial, no século XIX.

A diferença é que, nas derrotas, sempre houve esperança real e consistente de vitória. Na disputa com Papa, Telma chegou a ser prefeita até às 20h30 do dia da votação. Papa venceu por 1771 votos, a diferença mais apertada da história de Santos, o símbolo de um município rachado ao meio.

Com exceção do vexame do IBOPE que a elegeu com 10 pontos percentuais de vantagem sobre Papa, as pesquisas eleitorais sempre mostraram Telma de Souza na liderança desde o início da corrida. Os adversários a chamavam de cavalo paraguaio. Prefiro a ponderação de quem a considera um candidato que merece respeito pela coerência histórica.

Na eleição deste ano, o cenário é outro. Não há mais polarização. Há um trio em guerra de foice. Paulo Alexandre Barbosa é o primeiro a parir chances reais de vitória do PSDB, tradicional coadjuvante na cidade. Sergio Aquino, com Papa a seu lado, segue parado nos boxes, mas entrará na pista com o horário eleitoral gratuito. Quando associado ao atual prefeito, os índices de Aquino triplicam nas pesquisas, fora a baixa rejeição, fruto inclusive do desconhecimento da maior parte dos eleitores.

Descontando o deputado federal Beto Mansur, que corre como outsider, Telma de Souza completa a trindade. O problema é que a candidata do PT assiste a Paulo Alexandre disparar nas pesquisas e multiplicar alianças. Somado a isso, Telma cai desde janeiro, em todas as regiões da cidade.

É claro que ainda teremos mais três meses e meio de campanha. O quadro pode se alterar, e Telma passou por esta desagradável experiência em três ocasiões. Desconfio que, por trás disso, também pesa o envelhecimento do PT, não exatamente maturidade. O partido não se renovou nos últimos anos e, quanto mais longe do poder, piores serão as chances de reconquistá-lo.

O Partido dos Trabalhadores, na Baixada Santista, percorreu uma trilha contrária à região da Grande São Paulo. Lá, das 15 maiores cidades, nove são governadas pelo PT. Em algumas delas, as alianças em torno do partido envolvem outras 20 siglas. Parece São Vicente, a cidade sem oposição. É evidente que a Grande São Paulo é o berço do partido; seria quase uma heresia desconsiderar as origens históricas na região da capital.

Aqui, principalmente em Santos e São Vicente, o PT encolheu. Não me refiro a números, mas à força de contestação e à capacidade de incomodar o poder vigente. Em São Vicente, aliás, o PT se incorporou à dinastia do PSB.

Em Santos, o Partido dos Trabalhadores perdeu quadros históricos, seja por aposentadoria de mandato, como Sueli Morgado e Cassandra Maroni, seja por saída da legenda, como Mariângela Duarte. São mulheres que sempre perturbaram os alicerces do grupo que controla a cidade há 16 anos.


No PT, o que permaneceu foi o racha de múltiplas facções. É uma característica histórica da sigla em todo o país. Em Santos, infelizmente, o que era singularidade se transformou em muralha intransponível. Somente o termômetro das urnas indicará, via febre, se a infecção pode ser controlada.  

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um homem seguro


A punição para goleiros que falham

Goleiros são sujeitos carentes. A carência que nasce de uma posição solitária, peculiar e de responsabilidade única. Mais do que afeto, os goleiros precisam de reconhecimento. Reconhecimento que se traduz no olhar inicial de súplica dos zagueiros, quando falham, e de alívio ao perceberem que alguém os corrigiu lá atrás.

Mas o reconhecimento somente se completa quando os atacantes levam as mãos à cabeça e se entreolham como se dissessem: “Podemos jogar mais uma semana que nada passará por ele”.

A reação a esta linguagem, tanto dos defensores como adversários, é a confiança. O goleiro se sente seguro para se arriscar mais, para interromper a jogada, chegar inteiro nela. Nada de rebote. Apenas a decepção do atacante que saliva de boca cheia de desejo por mais uma bola.

O goleiro Cássio, do Corinthians, transpira segurança, principalmente nos jogos pela Libertadores. Com 1,95 metros, ele sepultou rapidamente o antecessor. Mostrou-se exemplar nos pontos falhos de Julio Cesar, que rebatia demais e tinha dificuldades com bolas altas. Cássio soube utilizar, inclusive, os 15 centímetros de vantagem na altura.  

É muito cedo para afirmar que ele será o titular do time por muito tempo. É prematuro cogitar também que será um ídolo do clube, este sim carente de um grande goleiro, daqueles que metem medo nos atacantes, desde Dida, há 10 anos.

Cássio comanda a melhor defesa do Corinthians na história da competição, ao menos em tradução numérica. Em 11 partidas, sofreu só dois gols. Cássio jogou cinco e ainda está invicto.

O goleiro corintiano começa a preencher, passo a passo, a cartilha de quem se manterá como titular. Goleiros de times grandes não podem falhar em partidas decisivas. Falhas gritantes são parte do currículo, mas em jogos sem maior importância, que permitem a redenção e provocam amnésia nos torcedores na partida seguinte.

Goleiros de equipes vencedoras escolhem a hora certa do milagre. Foi o que Cássio fez, na partida contra o Vasco, no Pacaembu. Mas, essencialmente, goleiros de primeiro nível jogam com regularidade em alto nível. È o que vem acontecendo com o goleiro corintiano. Não houve milagres na Vila Belmiro, mas uma série de boas defesas. Muitas delas sem rebote. Quando não era possível segurar uma bola, o escanteio era o destino adequado.

Cássio tem uma trajetória peculiar. Nome habitual das seleções de base, sempre pertenceu a grandes clubes, mas quase nunca jogou. Antes do Corinthians, 19 partidas como profissional, somando Grêmio e PSV, da Holanda. Veio para compor o banco de reservas de Julio Cesar e se tornou titular com apenas um jogo amistoso e quatro meses de clube.

Esta riqueza de detalhes será esquecida se o Corinthians não vencer a Libertadores. Mas será lembrada com exagero, inclusive, se acontecer o contrário. Se Cássio for coerente com seu passado recente, o time elimina o Santos na próxima quarta-feira, ainda que o ataque mantenha a rotatividade de atletas e a entressafra de gols.


O risco é alto porque decisões não admitem falhas. Mais do que isso, o futebol ignora carências e pune com rigor àqueles que comprometem em jogos singulares. Raramente, há uma segunda chance. Quando há, a conta é paga com juros dignos de agiotagem. Felipe, ex-Santos, Deola, banco no Palmeiras, e o próprio Julio Cesar, colega de Cassio no Corinthians, são cadáveres vivos da crueldade deste esporte, implacável com quem é carente de reconhecimento. 

A política virtual (e real?)


Ostentar o título de pré-candidato a prefeito é tão ilusório quanto crer que as promessas de campanha serão cumpridas à risca. Os candidatos já colocaram o bloco na rua há meses, montaram escritórios, contrataram os especialistas, costuraram as alianças. Mas é preciso manter a compostura para não despertar a atenção da senhora de olhos vendados do Poder Judiciário.

Os prefeituráveis não apenas gastam sola de sapatos nas ruas ou calejam os dedos de tanto apertar as mãos dos novos amigos de campanha. Qualquer candidato que se preze montou um exército. Uma tropa virtual de amigos, contratados e simpatizantes para curtir, compartilhar e propagar todos os passos de quem pretende cercar o eleitor de todos os lados.

As redes sociais ficaram entupidas de fotos de missa, visitas a eventos culturais, participação em debates, todo tipo de estratégia para manter o candidato em evidência. Sem institucionalizar a campanha, é claro. Amigos virtuais fazem o serviço, com a artificial boa intenção, de reproduzir as mensagens, como um favor altruísta de quem reza por uma causa maior.

A ironia é que muitos dos políticos ainda não entenderam como as redes sociais funcionam. Patinam quando apostam no controle absoluto das mensagens. Mas balançam de verdade quando não compreendem que as redes sociais são capazes de aglutinar pessoas interessadas em fiscalizar o que os (pré)candidatos fazem em campanha ou no poder.

Um dos alvos das redes é o deputado federal Beto Mansur. Se quiser aumentar suas chances de chegar ao Paço Municipal, além do papel de visitante ilustre, Mansur precisa considerar as redes sociais como mecanismos de protestos e de indignação. Mais do que isso, como um instrumento que espalha informações como rastilho de pólvora e que mantém vivo e pulsante, tanto o passado remoto como o pretérito recente do candidato.

A decisão de votar contra o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) do Trabalho Escravo (438/2001) colocou o pré-candidato do PP na vitrine virtual.  A lista de deputados votantes se espalhou mais rápido pelo Facebook do que boato político na Câmara dos Deputados. Beto Mansur foi um dos 29 parlamentares que votaram contra a PEC, que prevê confisco de terras de fazendeiros que adotassem o trabalho escravo e a destinação da área para reforma agrária ou ao uso social urbano. Felizmente, a PEC foi aprovada com 360 votos.

A Internet, neste sentido, é voraz para remexer nos esqueletos escondidos no armário. Não há trancas e cadeados que segurem os recursos de compartilhamento de um Facebook, por exemplo. É inútil acusar adversários de uso político. A informação corre pelo eleitorado, moralmente indignado, ainda que irritadiço de ocasião.

No caso de Mansur, rapidamente circularam as lembranças sobre o processo que o deputado federal enfrenta no Superior Tribunal Federal (STF) pelas denúncias de trabalho escravo em uma de suas fazendas, em Goiás. O local foi alvo de fiscalização do Ministério do Trabalho há oito anos, menos de um mês antes da eleição de João Paulo Tavares Papa.

O incêndio virtual não representa, evidentemente, o único fator que decide uma eleição. Mas funciona, ao menos de forma indireta, como variável nas pesquisas eleitorais. E, no quesito mais importante delas, o deputado não caminha bem. Os índices de rejeição giram em torno de 30%, percentual comprometedor para o sonho do segundo turno.

Controlar a realidade da política no mundo virtual implica em procurar por alternativas de comunicação, que visem ultrapassar a imagem de bom moço que todos os candidatos desejam construir até outubro. As redes sociais estão além da exposição frívola da vida privada. Neste universo, a futilidade se transforma rapidamente em incêndio.  Basta um clique no botão Compartilhar. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Selvagens contra a motocicleta


Os dois eram transformistas. Dentro de um carro, adquiriam contornos animalescos, como se tivessem ingerido a poção do médico que os conduziria à vida sem amarras para a monstruosidade. Terceirizavam a culpa, focalizada nos demais motoristas – pior se fossem mulheres, que ousavam largar o tanque cheio de roupa -, nos agentes de trânsito. Máquinas de multar, vomitavam. No excesso de semáforos, que travavam o tráfego. É para beneficiar motoboys e ciclistas, irresponsáveis, chiavam como um coro desafinado.


Como muitos de sua espécie, atravessavam a metamorfose da ilusão motorizada. Dirigiam carros populares, financiados a duras penas, em prazos que transformam crianças em adolescentes. Só faltavam os capacetes para o teletransporte ao autódromo mais próximo.

Não se viam como ratos de laboratório. Faziam os mesmos caminhos, sempre nos mesmos horários, condicionados ao alimento premiado pelo microondas assim que chegassem em casa. Perfeitas cobaias para os testes de comportamento urbano.

Às sextas-feiras, a poção fazia efeito em maior escala e velocidade. Embora a dosagem fosse a usual, o ambiente os alterava. No fundo, a motivação de 48 horas sem a rotina, por quem juravam publicamente amores eternos, felizes como os colantes estampados nos traseiros. Dos veículos.

Os irmãos de congestionamento não se conheciam. No habitat a céu aberto, ninguém se olha, dialoga ou se importa. A ordem é chegar, na neurose das marchas que gritam, nos gritos de quem precisa passar para economizar um segundo.

A última sexta-feira os uniu. Um beijo entre os dois homens selou o compromisso. Um beijo no asfalto, careta e insuficiente para ser rodriguiano, talvez exceto pelo flerte com a violência perversa e permissiva.

O beijo tinha gosto de sorriso metálico. De pára-choque de tinta prateada, a cor do momento. Um toque carinhoso que os fez encostar, parar seus casulos e descer para verificar o estrago. Nas suas mentes, pensamentos gêmeos de acionar seguro, tirar dinheiro do outro, elaborar boletim de ocorrência, conversar com policiais, tudo que poderia atrasar ainda mais o acesso à recompensa alimentar.

Ali, na selva, macho que é macho se impõe. Um deles, na casa dos 25 anos, engravatado a la gerência, saiu do carro 1.0 aos berros.

— Caralho! Caralho!

O outro motorista, um pouco mais velho, jeitão de surfista dinamarquês, adeptos das griffes floridas, mas alienígena de praia, quase saiu pela janela e respondeu de bate-pronto.

— Caralho é o caralho! Porra!

O mais jovem procurava por arranhões. Tinha certeza de que havia escutado uma batida surda. Talvez fosse uma surdez alucinatória, mas como ouvir vozes que não fossem as do rádio? Diálogos impertinentes com cronistas esportivos, discordâncias do apresentador do jornal da manhã, karaokê em movimento com as FMs de sertanejo universitário. Eram seus amigos imaginários desde a infância, desde os tempos de passageiro.

Não achava nenhum amassado ou riscado, mesmo que houvesse algum. Mas a plenária neandertal exigia a tréplica.

— Porra o caralho! Quem vai arrumar essa merda? Tá querendo mi fudê?

A rodinha começava a se formar. Alguns estavam assustados com poesia urbana. Outros riam do idioma estrangeiro orquestrado por gestos de maestro no clímax da sinfonia.

O mais velho reagiu dentro do script.

— Não me fode! Quem vai resolver esta merda? Caralho!

— Já disse, porra! Caralho é o caralho!

De dedos em ereção e empatados no discurso, os irmãos iriam resolver a questão familiar no braço. Quando a plateia sonhava com sangue de final de tarde, sem a mediação da TV, um motoboy – paranoico com a vigésima e última entrega do dia – pegou em doação o retrovisor de um dos carros.

Não deu tempo para identificar o terceiro elemento. As testemunhas não se lembram de quem era o carro sem uma das orelhas. Os dois motoristas, em reconhecimento mútuo da espécie, abriram mão do cargo de macho alfa e entraram em suas caixas.

Uma prima minha jura que ouviu, mas não se recorda qual deles deu a ordem de caça. Até desconfia que, no fundo, a dupla de predadores expeliu em uníssono.

— Caralho, vamos pegar esse porra!

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Jornalirismo.

sábado, 2 de junho de 2012

Os loucos e os cínicos


 

Santos, em muitos aspectos, se comporta como um sujeito de meia-idade que se agarrou aos pequenos confortos do cotidiano. Ele, que hoje cultiva um ar blasé para novidades, perdeu o vigor da juventude de modo que até os rastros da vida libertária foram adormecidos.

A Santos balzaquiana se tornou cínica. Com olhar presunçoso, indica que nada mais a surpreende. Nada mais a incomoda. Em caso de choque eminente, opta entre duas alternativas. Ou classifica o que testemunha como obviedade irritante ou ignora o que vê como se fosse um fenômeno distante do que viveu ou defendeu com a indignação dos jovens.

Um exemplo desta Santos que anestesiou a combatividade é a forma como lida e encara a questão da Saúde Mental. Santos, uma das pioneiras na luta anti-manicomial, se escravizou pela prática da redundância. E sucumbiu aos estigmas que marginalizam pacientes e até profissionais da área.

O Dia de Luta Anti-manicomial ainda sobrevive como catalisador de resistência contra o encarceramento de pessoas com problemas psiquiátricos, mas não fomenta sensibilidade entre os diversos setores da sociedade santista com poder efetivo de decisão política.

Santos conseguiu, no final dos anos 80, fechar a Casa de Saúde Anchieta, símbolo da transformação de homens em animais a partir de supostos desvios de conduta. A cidade virou referência na descentralização do atendimento a pacientes, o que colaborou com a redução do preconceito contra eles. O município abraçou também ações que aproximaram o tratamento e a reinserção social via arte, como o projeto Tam-Tam, que atraiu olhares internacionais a partir das respostas e da recuperação de pacientes.

Mais do que amadurecer, Santos envelheceu. E da pior maneira possível. O desenvolvimento econômico é a roupa nova que mantém a elegância e até o ar moderninho do sujeito de meia-idade. Mas não há guarda-roupa de grife que esconda a mentalidade conservadora. O mesmo sujeito que está na moda acusa o envelhecimento de espírito quando nos aproximamos dele e observamos com maior profundidade seu comportamento.

Santos estacionou na política de Saúde Mental. O assunto despejou a cidade na vala comum, que incorporou a mentalidade da faxina dos desviantes. É triste perceber que, em eventos ligados ao tema, os personagens sejam os mesmos, enclausurados na nostalgia das glórias do século passado.

As lutas e as batalhas vencidas se tornaram, de fato e de direito, símbolos históricos, mas a Santos envelhecida fez questão de mantê-las somente como artigo de museu. Foi incapaz de utilizá-las como referência para novos programas e, como sinal de falso amadurecimento, virou as costas para as conquistas como se fossem um arroubo juvenil de rebeldia sem causa.

Santos ficou cínica com seus loucos. Preferiu flertar com a regra geral, de limpeza social, de marginalização, de invisibilidade. O tema não comove o noticiário, não envolve a agenda pública, sequer atrai a atenção de candidatos (salvo exceções) em ano eleitoral, encantados como as promessas de riqueza imediata dos arranha-céus e do óleo do fundo do mar.

A loucura de uma cidade apagou a loucura real de seus habitantes. A doença mental hoje voltou a ser um tabu e, como tal, é encarada com sussurros, quando não predomina o silêncio. Popularizar termos de dicionários psiquiátricos no dia-a-dia, neste sentido, só reitera o rótulo, o que pouco esclarece um problema social latente. 


Nos tempos contemporâneos, as variações da loucura dão colorido a um modelo da vida urbana contaminado pela redução da humanidade. Desviar olhos e ouvidos para a multidão que entope consultórios ou vira cliente preferencial das pílulas da felicidade é o sintoma da tendência de suicídio social de uma cidade. Temo que, dependendo do grau e intensidade, nenhum especialista possa reverter o quadro.