terça-feira, 8 de maio de 2012

O operário-padrão


Luiz de Souza trabalha 16 horas por dia. Poderia ser escolhido como funcionário do mês e ganhar como prêmio uma foto pendurada nas dependências da empresa. Mas Luiz não entra nas empresas onde trabalha. Sempre as vê como espectador externo.

Se vivesse há 150 anos e morasse na Inglaterra, fatalmente Luiz estaria numa linha de produção fabril, com pouca chance de segurança no trabalho e sem direitos trabalhistas. Hoje, ele é quem faz segurança do patrimônio alheio, armado de celular e com preparo técnico baseado no bom senso.

Os direitos trabalhistas são parciais para ele porque um dos empregos, na verdade, é um bico. Bico sem adicional noturno ou por insalubridade. Se for dispensado, não terá aviso prévio, indenização ou baixa em carteira.

Em outros tempos, Luiz poderia se candidatar ao prêmio de operário-padrão? Não, pois sua atividade profissional não é considerada produtiva por muitos de seus clientes. Ele vive parado, em pé, no mesmo lugar. Como poderia produzir algo se o comparam a uma samambaia?

Luiz padece de invisibilidade. Até colegas não o cumprimentam. Lembram-se dele quando precisam de ajuda para carregar sacolas, mochilas e outras quinquilharias escolares. Muitos pais - e até os mesmos colegas – ainda assim não o agradecem. Não teria feito mais do que a obrigação.

Ele trabalha como segurança em uma empresa terceirizada, em Santos. A empresa o designou para atuar numa escola de elite. Excetuando o horário de almoço, Luiz permanece em pé, na frente da escola, 12 horas diárias. Ele não é o porteiro, que pode se sentar em um banquinho, uma mordomia para as circunstâncias. A função de segurança exige que esteja em pé, alinhado, e de gravata, a cereja de bolo do uniforme que o transforma na inexistência. 

O salário é quase um assalto, numa relação em que o funcionário se comporta como vítima voluntária. O valor é impraticável para sustentar a esposa e dois filhos. Pessoas quase fantasmas na vida dele. Luiz se hospeda na própria casa, onde aparece basicamente para dormir. Pelo menos tem direito ao café da manhã.

Depois da escola, ele tem uma hora de intervalo, período que aproveita para comer alguma coisa, se livrar da gravata e do uniforme, vestir camiseta, bermuda e tênis. A informalidade das roupas é coerente com a informalidade do segundo emprego.

Luiz, a partir das 20 horas, é segurança de um restaurante, localizado a uma quadra da escola. Para ele, o bico é vantajoso porque permite a economia de transporte, além do jantar gratuito todos os dias, ainda que seja sempre pizza. O segurança pode variar os sabores, mas precisa economizar nos pedaços, já que os quilos a mais teimam em se multiplicar.

No restaurante, são quatro horas de expediente, com folgas às segundas. Na escola, a folga acontece nos finais de semana, dias de maior movimento na pizzaria. Folga de um dia inteiro? Luiz faz contas para se lembrar de quando aconteceu. A resposta não vem acompanhada da certeza.   

Luiz nunca recebeu honrarias fotográficas ou remuneradas por desempenho. Jamais entrou na política de divisão de lucros das empresas que protege. Mal se dá conta que não será premiado por metas alcançadas e outros termos ilusórios do mundo corporativo.

Mas ele certamente se encaixa em um padrão. Ele é um trabalhador brasileiro, lembrado com certa dose de cinismo neste dia 1º de maio. Neste dia, as comemorações envolvem aparar a grama e cuidar do jardim do prédio em frente à escola. O jardineiro improvisado é a versatilidade de quem precisa de mais R$ 50 para aliviar as contas que cismam em subtrair todos os meses. 

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