sexta-feira, 20 de abril de 2012

O menino e o uruguaio


Sou santista de nascimento, mas não de time de coração. Entenda, caro leitor, como uma vantagem em tempos de Centenário. Vantagem porque posso expressar minha relação com o Santos como um admirador, e não pela paixão que costuma cegar os enlouquecidos pelo futebol.

Minha relação com o Santos é cordial, serena e racional. Só perde para o amor pela Portuguesa Santista e pela simpatia com o Jabaquara. Testemunhei a ascensão e a queda vertiginosa da “burrinha” nos últimos anos, in loco, afogado na emoção da vitória e enterrado na frustração de três rebaixamentos.

O Santos foi, em termos sentimentais, um acompanhante no final da infância e durante a adolescência. Nesta fase, fui mais vezes à Vila Belmiro do que em qualquer outro estádio, exceção dos treinos diários em Ulrico Mursa ao longo de três anos e meio. E é neste intervalo que o Santos deixou de ser um vizinho racional para povoar sonhos e desejos de um moleque.

O que me levava ao Estádio Urbano Caldeira nas noites de quarta-feira ou nos domingos à tarde? Não era o tradicional jeito ofensivo de jogar do Santos. Não eram artilheiros como Serginho Chulapa ou meias excepcionais como Pita. Não eram os tradicionais rivais, que visitavam muito pouco a Vila Belmiro em meados dos anos 80.

Eu engolia a seco minhas preferências de torcedor, deixava o orgulho em coma e seguia para a Vila Belmiro com o objetivo de acompanhar qualquer partida, sempre sentado na arquibancada, atrás de um dos gols. Quando me sentava nas cadeiras cativas, transpirava a sensação contínua de ausência. O jogo estava incompleto, incoerente com minha ansiedade.

Estar atrás de um dos gols me permitia, por 45 minutos pelo menos, ver de perto, seguir todos os movimentos do goleiro Rodolfo Rodriguez, o melhor que já passou por aqui. O melhor porque não tenho idade para ter visto, sem o apoio da TV, Gilmar dos Santos Neves. Goleiros deste porte, aliás, só com nome e sobrenome, como se carregassem títulos de nobreza em suas luvas.

Adorava assistir Rodolfo Rodriguez em jogos desimportantes. Duelos contra times do interior pelo Paulistão. Palco de uma torcida só. Casa por hábito mais vazia. Assim, poderia me acomodar a metros do monstro de mãos gigantescas, corpo curvado, com velocidade e agilidade felinas.

Ali, atrás do gol, aprendia como se comandava uma defesa. O espanhol enrolado em português não facilitava o entendimento, mas a tradução nascia a seguir nas reações dos zagueiros, na construção imediata de uma muralha.

Vi Rodolfo Rodriguez pela primeira vez na TV, aos 10 anos. O Santos venceu a final do Campeonato Paulista de 1984, contra o Corinthians, por 1 a 0. O menino que jogava no time da escola absorveu, a seu modo, que ganhar começava lá atrás. O pé esquerdo de Serginho Chulapa significava o fim da linha, o último monte de terra que sepultou o maior rival no Morumbi.

Passei três anos ao lado de Rodolfo Rodriguez. Nunca me aproximei dele, mas jamais me esquecerei daquela noite de quarta-feira, chuvosa e fria. O menino de 12 anos ganhou dois presentes. Primeiro, um aceno depois de chamá-lo quando o Santos atacava o adversário.

O segundo foi um presente em forma de aula. Rodolfo expulsou o atacante Ricardo, do América, da grande área, depois de uma falta violenta cometida por ele. “Aqui você não entra mais”. Ricardo acabou substituído no segundo tempo, quando improvisava na meia-esquerda.

Mal sabia que, três anos depois, atuaria na mesma grande área, pela Portuguesa Santista, numa preliminar entre Santos e Inter de Limeira. Para o goleiro mediano de 16 anos, não sofrer gols na terra governada por Rodolfo Rodriguez significou sentar às escondidas, por um instante, no trono do rei.

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