segunda-feira, 30 de abril de 2012

O jogo da greve



União Leiria e Feirense fariam um jogo desimportante pelo Campeonato Português. Mas o confronto entrou para história. Não houve quebra de recorde, registros de violência ou resultado anormal. Na verdade, espero que a partida seja lembrada pela importância trabalhista, como um estímulo para a discussão sobre as relações entre jogadores e clubes, como empregados e patrões.

O União Leiria não paga salários há quatro meses. O time está virtualmente rebaixado para a segunda divisão do campeonato. Diante do impasse, 16 atletas reincidiram contrato com o clube. Sobraram nove no elenco. Um deles teria ido ao estádio, mas se recusou a entrar em campo. O União Leiria enfrentou o Feirense com oito jogadores e, no banco de reservas, somente a comissão técnica.

A greve dos jogadores do União Leiria colocou na pauta as relações trabalhistas entre clubes e jogadores. No futebol, nem a palavra escrita é garantia de compromisso. Contratos são rompidos como se rasga papel higiênico no banheiro. Todos os envolvidos testam ignorar a legislação, cientes de quem podem escapar ilesos, com a complacência dos tribunais desportivos em geral e, por vezes, da própria Fifa.

Os clubes se tornaram, em todo o mundo, reféns voluntários de empresários, até porque também lucram com as transações. Ou seriam os dirigentes? Por conta das dívidas contraídas pelas agremiações, é até redundante considerar esta hipótese.

O jogador, tratado como mercadoria, é o único produto que sobe ou cai de preço sem a menor possibilidade de explicação econômica, pouco importa a teoria em se busque resposta.

Costumamos observar somente a cereja do bolo. Olhamos para os grandes clubes, para os negócios milionários, para o lado glamouroso do futebol. Se virarmos as lentes para o interior do Brasil, por exemplo, a profissão está sucateada. Os atletas recebem remuneração que, muitas vezes, mal ultrapassa um salário mínimo. Atuam como ciganos para conseguir jogar a temporada completa. O roteiro de viagem é estabelecido por quem administra os times e carrega a trupe atrás de campeonatos.

Um exemplo é a Portuguesa Santista, hoje na quarta divisão do Campeonato Paulista. A equipe, há nove anos, chegou às semifinais da elite, mas dava sinais de que havia repassado seu patrimônio humano a empresários.

Atualmente, para se manter na ativa, o clube assumiu de vez que as equipes serão formadas por pacotes de agentes, com alterações substanciais todos os anos, sem vínculos, sem identificação entre jogadores e agremiação, como a relação entre hospedeiro e vírus.

Neste sistema sem regulação, muitos jogadores encerram a carreira antes dos 30 anos, sem outra experiência profissional ou escolaridade suficiente para mudar de atividade. Terminam em sub-empregos dentro do próprio universo do futebol.

Entre os clubes, prevalece a farra financeira. O crédito parece inesgotável para sustentar uma festa de marketing que engana torcedores, enquanto o patrimônio do clube é colocado em risco como numa roleta de cassino. Até quando teremos salários astronômicos como falso sinônimo de pujança econômica?

Na Grécia, vários times quebraram, arrastados pela crise financeira global. Barcelona, Real Madrid, Manchester United, todos os grandes clubes europeus devem até o pescoço. Nada diferente dos times brasileiros, sejam pequenos, médios ou grandes.

O Flamengo, por exemplo, deve mais R$ 300 milhões. Se oferecer todo o patrimônio como garantia, ainda restará metade da dívida, segundo as estimativas mais otimistas.

Não há exceção entre os clubes das duas primeiras divisões do campeonato nacional. E não existe teto para gastos. Jogadores são contratados sem perspectiva ou planejamento financeiro. O atacante Adriano, por exemplo, só foi dispensado do Corinthians depois de 60 faltas a compromissos profissionais.

Depois de passar tanto a mão na cabeça de seu funcionário (ele não é colaborador, voluntário ou simpatizante; é empregado muito bem remunerado, por sinal), o clube ficou horrorizado que o jogador entrou na Justiça tentando arrancar mais dinheiro da instituição.

Recentemente, o Palmeiras passou vergonha ao buscar na Internet recursos financeiros para contratar Wesley. Os torcedores podem ser cegos de paixão, mas não são otários. O clube já indicou dificuldades para pagar o Werder Bremen, da Alemanha. No último mês, o déficit do departamento de futebol do clube foi de R$ 5 milhões, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

Greves são parte das relações trabalhistas e seria ótimo se a decisão dos atletas do União Leiria se multiplicasse. Cenas como esta vão expor o gigante de pés de barro que se tornou o futebol internacional.

Por enquanto, são atos isolados, como o dos jogadores do Vasco, que se recusaram a concentrar em hotéis no início do ano. O clube devia dois meses de salários mais o 13º. Na Argentina, atletas paralisam o campeonato por conta de vencimentos não pagos pelos times.

Se o futebol se considera negócio, e dirigentes batem no peito que gerenciam uma atividade profissional de fato, não seria incoerente cumprir a legislação trabalhista. Mas será que, nas disputas de poder, há interesse em investigar as caixas pretas? Quantos saíram algemados de seus clubes?

Enquanto a festa produzir ganhos para todas as partes, a promiscuidade das relações será parte da rotina. E os jogadores, mal preparados e informados, continuarão alienados, estéreis em se organizar como grupo profissional, mesmo que se mexa em seus bolsos.

Em tempo: o Feirense venceu por 4 a 0. Fez diferença?

domingo, 29 de abril de 2012

O troco


Neymar esbravejou depois do jogo contra o Bolívar, pela Libertadores. “Vai ter volta”, prometeu o atacante. Era a resposta, de cabeça quente, às garrafadas atiradas da arquibancada, mas principalmente às botinadas dos adversários bolivianos. A surra em doses homeopáticas contou com a omissão da arbitragem e poderia ter consequências físicas mais sérias para o principal jogador do Santos.

Espero, realmente, que Neymar dê o troco na partida de volta, na Vila Belmiro. Mas não da maneira que talvez agradasse ao goleiro Rafael. “Libertadores é guerra”, teria dito o goleiro. Quero acreditar, pelo retrospecto de Rafael, que ele não teve a intenção de incitar a violência contra os bolivianos esta semana. Até porque perdeu seis meses de carreira para se recuperar de uma fratura durante um treinamento no CT do Santos e, portanto, sabe o significa quando a bola vira objeto descartável.

Não, Libertadores não é guerra. Nem os jogadores são soldados que se preparam para a batalha. É uma partida de futebol, na qual o Santos deve dar o troco da maneira que faz melhor. O Santos, com a cabeça no lugar, tem que acuar os bolivianos na defesa. A partir daí, colocar em prática o resultado óbvio: golear e ensinar como se joga. Colocar os bolivianos na posição coerente com o futebol que praticam hoje.

Neymar tem o arsenal suficiente para indicar aos colegas do Bolívar qual é a estratégia para se travar uma guerra sem que o outro perceba que caiu no de joelhos no front onde não há sangue. Dribles, arrancadas, assistências e gols para eliminar o adversário do torneio.

Grandes jogadores convivem com espancamentos. Mas não é possível aceitá-los de cabeça baixa. Revidar, geralmente, beneficia o agressor, inferiorizado tecnicamente. No revide, juízes costumam acordar e punir a vítima, fora de contexto. São raros os árbitros que aplicam cartões por histórico de violência.  

O maior atleta da história do Santos não fugia à regra e apanhava demais, mas era louvado por também saber bater. A cotovelada desferida durante a Copa do Mundo de 70, sem o olhar da arbitragem, foi um recurso de vingança. Mas Pelé tinha consciência de que a melhor resposta eram as vitórias com letra maiúscula. Não há argumento mais consistente do que o desfecho daquela Copa.

Mais do que promessas de revanche, é preciso abandonar esta imagem de que a violência é inerente à Libertadores. De que vencer com dificuldades implica em compactuar ou reproduzir a pancadaria. Basta fazer valer a superioridade dentro de casa. O Santos não fará nada de extraordinário se encurtar o campo pela metade na partida de volta. Como também não foi um absurdo o placar na Bolívia.

Entrar no diálogo da violência beneficia os bolivianos. Ironia, sorrisos falsos de aceitação, talento e técnica sustentam com coerência a distância entre Santos e Bolívar. O estádio lotado, com os torcedores em festa, é o estímulo ideal extra-campo para encurralar qualquer adversário numa Libertadores. É o antídoto que encolherá os bolivianos à condição de aprendizes e de espectadores de luxo na próxima quarta-feira.

Na atual conjuntura, defender a violência como uma qualidade na Libertadores sinaliza atraso, amadorismo, desorganização e, acima de tudo, impunidade para o mau futebol. Cultuar o espírito de guerra favorece as equipes mais fracas, vazias de argumentos para justificar as derrotas previsíveis, anti-artísticas por excelência.

A selvageria ocorrida na Bolívia é o rastro de conivência dos dirigentes da Confederação Sul-americana, perpétuos no poder e mentalmente estacionados nos anos 60. Perdemos a oportunidade de aprender com os europeus, capazes de manter duas ligas internacionais, impecáveis na organização, rentáveis em termos financeiros. Entre as qualidades, a ausência de violência, dentro e fora das arquibancadas. Os deslizes eventuais são punidos com rigor, sejam jogadores, técnicos ou clubes.

Na quarta-feira, espero que o Santos trafegue pelo caminho da obviedade, assim como outros times brasileiros na Libertadores. Além da necessidade de se superar a entressafra que nos aflige, é a hora de aprendermos que organização funciona como alicerce para talento, tática e técnica. E torna, de certa forma, a sorte um ator que beira a figuração.

sábado, 28 de abril de 2012

O novo técnico da seleção


O presidente da CBF, José Maria Marin, disse que seu coração não suporta mais sobressaltos. Ele afirmou que a decisão foi tomada de maneira intempestiva, unilateral, sem consultar assessores, comentaristas ou cartolas de clubes e dirigentes de federações.

O telefone do rei, em Miami, também não tocou. Marin arcaria com a medida kamikaze solitariamente. Marin aproveitou a tristeza alheia e contratou Pep Guardiola como técnico da seleção brasileira.

O ex-técnico do Barcelona ficou duas horas sem trabalho. Salários acertados em contrato verbal. Pep pode deixar a função quando desejar e a CBF, demiti-lo quando quiser.

O dirigente brasileiro estava insatisfeito com a gestão de Mano Menezes. Não apenas pelos resultados ruins contra os adversários de primeira linha, mas também pela queda no ranking, o fracasso na Copa América, as convocações estranhas de jogadores ligados a empresários, a indefinição de um time-base, a falsa separação entre as seleções olímpica e principal, apenas para iniciar a lista de queixas.

Marin, na verdade, preferia Marcelo Bielsa, técnico do Atlético de Bilbao. Mas El Loco segue firme na revolução basca. O time dele disputará a final da Liga Europa, fora a provável renovação de contrato. Ele prefere Bielsa porque entende que é o único capaz de restaurar, de curto prazo, o balé artístico sepultado pelo jogo pragmático de ligações diretas e cruzamentos sem objetividade.

Independentemente de frustrações, o presidente da CBF pretende dar um choque de realidade no time brasileiro com Pep Guardiola. Não há o desejo na cúpula em reproduzir literalmente o jeito Barcelona de jogar. Seria ingenuidade copiar o modelo de um contexto alternativo.

Na visão dos dirigentes, há material para tanto, embora seja necessário reconvocar Kaká e Robinho e, principalmente, dispensar Ronaldinho Gaúcho e jogadores da Ucrânia.

A Confederação pretende, com Guardiola, se aproximar de referenciais táticos mais sólidos, ainda que necessitem de adaptação. Pouco importa, disse Marin, se haverá controle obsessivo pela posse de bola e se não tempo para entrosamento.

A CBF tem a intenção de acalmar os anseios por um esquema reconhecível, que possa ser entendido até pela dona-de-casa que não sabe o que significa impedimento. Ou, pelo menos, que seja possível reconhecer a maioria dos jogadores quando estiverem enfileirados para cantar o Hino Nacional.

A decisão de desligar Mano Menezes do comando da seleção foi divulgada no mesmo dia. Ainda não se sabe o que deverá acontecer com o ex-treinador, mas Carlos Leite – empresário dele – explicou que há sondagens de vários clubes da primeira divisão, inclusive de São Paulo. O acerto deve acontecer até o feriado de 1º de maio, pois o Campeonato Brasileiro começa na segunda metade do mês. Outra possibilidade é a queda do Corinthians na Libertadores e o caminho aberto com a saída de Tite. 

Guardiola é esperado no Brasil na próxima semana. Ainda não se sabe quais mudanças serão implementadas nem quando haverá convocação. Em entrevista à imprensa espanhola, o ex-técnico do Barcelona explicou que Kaká não merece o purgatório, que Neymar não tem idade para carregar o time nas costas e que, essencialmente, é fundamental perder o medo de ganhar.

Ele reconheceu parte da responsabilidade pelos fracassos recentes do Barcelona, mas repeliu a ideia de time imbatível. “Isso é coisa de vocês, jornalistas e comentaristas.”

O mais importante é que Guardiola não se coloca na pele de salvador da pátria. Ele reconhece que o técnico pouco interfere na dinâmica de um time durante a partida. “Técnico resolve jogo somente nos 15 minutos do intervalo. Mas as chances são pequenas porque a montagem da equipe se dá no treinamento cotidiano.”

Pep Guardiola não prometeu títulos ou vitórias. Sequer tem garantias de que chegará à Copa do Mundo. Apenas se comprometeu a construir um time, mesmo que seja herdado por outro nome às vésperas do Mundial.

Construir um time representa, entre outros pontos, coerência nas convocações, sem atletas de melhores momentos ou craques de final de semana. “Não há mais tempo para experiências. Tenho que chamar os melhores e honrar uma das escolas que me ensinaram a ser um técnico preocupado em estudar e muito o futebol.”


Obs.: Para acordar os desavisados, este texto é baseado em fatos ficcionais. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Jesus dos flanelinhas


 A praça pertencia a ela. Aos nove anos, a menina não percebeu de imediato que seu santuário corria risco. Andar de skate na praça do Jesus crucificado era uma aventura dupla. Àquela hora, quase meia-noite, não havia ninguém por ali. Apenas uma menina deslizava em um patinete a cem metros de distância. Significava mais parceria do que concorrência.

O segundo motivo eram as rodas e rolamentos novos. O skate deslizava como nunca. E não jogava mais para a direita. Os R$ 40 saíram baratos demais para o prazer antes de tomar banho e dormir ao lado do irmão.

O pai cronometrava o tempo que a garota levava para contornar a praça. Os 23 segundos eram o novo recorde, a ser quebrado antes de virar o dia no mesmo relógio que registrava as marcas.

Assim que a menina se sentou para tomar água, a dupla invadiu o espaço dela. Se um não fosse gordo e o outro magro, poderiam passar por gêmeos. Bonés de cor idêntica, barba por fazer, camisetas brancas regatas, bermudas largas e chinelos de dedo, mais algumas tatuagens gastas pelo tempo nos braços. A dupla era figurinha carimbada nas redondezas há anos, perto do Aquário Municipal, na Ponta da Praia, em Santos.

Os dois entraram na praça com pressa, numa ação cirúrgica. Não enxergaram as duas testemunhas. Resmungavam entre si, como se não tivessem certeza do que fazer. Discordavam da estratégia, compartilhavam do alvo fixo.

O gordo tomou a dianteira e foi direto ao ponto. Direto ao encontro com Jesus crucificado, monumento que fica no centro da praça. Em volta de Cristo-monumento, um gramado e um depositário de velas feito de concreto. Vários pães decoravam o pé da cruz, enquanto algumas velas insistiam em queimar diante do vento leve e frio.

O rapaz se ajoelhou diante de Jesus. Não houve reza, palavras de afeto ou celebração. Ele enfiou a mão no depositário, retirou cinco moedas e reclamou:

— Hoje só tem isso!

— Procure por mais! Não é possível!

— Cinco moedas de cinco centavos. Não dá para nada.

O magro desviou o olhar e descobriu o que seria o tesouro da noite. Uma oferenda à esquerda, escondida atrás de um canteiro de flores. Ele se agachou e, sem cerimônia, em qualquer sentido, mexeu numa cesta de doces, o despacho que comprovava o sincretismo religioso do lugar.

O gordo se aproximou e apontou para um saquinho ao lado. Nada de importante. Até embaixo da vela os dois procuraram.

A menina estava quase paralisada. Apenas balançava os pés em cima do skate, mas não tirava os olhos da dupla. O esporte perdera para a religião. Ela olhou para a garota do patinete e decidiu formalizar a parceria:

— Vamos para lá, pai!

A menina se esqueceu dos “gêmeos” por uns dez minutos até vê-los novamente cruzando o acesso que os levaria à avenida da praia. O magro, desta vez, liderava a dupla. O parceiro caminhava apressado, de boca cheia, sem poder responder às broncas pela lentidão. Carregava uma sacola branca cheia de doces, que antes servira de apoio para a cesta.

A pressa era para alcançar um motorista que ligava o carro. Mais moedas à vista. A menina completou sua rota circular, sobre quatro rodas, pela praça, sem a ansiedade do recorde pessoal. Apenas parou ao lado do pai e disse, como se lamentasse:

— Pai, eles estavam roubando Jesus!

O pai preferiu compartilhar o silêncio da vítima.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Olhos de Barcelona


O Barcelona é um time que escancara nossa humanidade. Desperta os melhores e piores sentimentos durante uma partida de futebol. E um grande time, daqueles nos impregnarão de saudades daqui a alguns anos, não é feito somente de talento, técnica, ciência e bons resultados. Um grande time jamais nos deixa sofrer de indiferença.

O Barcelona nunca foi imbatível. Soaria como ingenuidade, tolice ou distração crer que duas derrotas empurraram uma equipe desejável para o rodapé da história. Os exemplos, dentro e fora do Brasil, se multiplicam. E nenhum deles se transformou em imbatível. Falhou em horas decisivas, escorregou em adversários menores, pisou no próprio favoritismo e, às vezes, na própria soberba.

O Santos de Pelé e companhia; o Flamengo de Zico, Andrade e Adílio; o Palmeiras da Academia do professor Ademir; o Corinthians da democracia, liderado por um médico de calcanhar mágico; o São Paulo de Careca, Muller, Silas e Pita. Dentro do país, há uma lista imensa de times que encantaram por talentos individuais, por entrosamento, pela mescla de craques com bons jogadores e carregadores de piano. Estas equipes atravessaram fases difíceis e momentos de flerte com a perfeição.

No exterior, diversas seleções e clubes também nos mataram de inveja por nos mostrar que o Brasil não é único paraíso do futebol. Este esporte é volúvel quando quer. Desloca o glamour da festa quando deseja sufocar uns e maravilhar outros.

A beleza de um time e o passaporte para a memória não estão restritos aos resultados. As derrotas ensinam também o exercício da admiração. Olhar apenas os números é reforçar o argumento dos comentaristas de melhores momentos, de prazeres mórbidos no fracasso alheio e cegos em entender a magia das entrelinhas.

A ambivalência de sentimentos se traduz em duas seleções brasileiras. Admiramos a de 1982, com vários craques e um jeito de jogar nascido na mente de Telê Santana. O Brasil perdeu uma partida, mas não nos importamos quando associamos futebol e arte.

A seleção de 1994, tetracampeã, possibilita o olhar pragmático, da vitória com uma defesa sólida. Nesta equipe, também somos paradoxais quando endeusamos Romário como causa pela vitória, mas também elemento artístico daquele grupo.

O Barcelona não pode ser resumido à última semana. O time espanhol esfrega no nosso rosto aquilo que nós, brasileiros, perdemos como regra geral. Nós nos agarramos em exceções, como Neymar, pelo auto-engano de sustentar a arrogância de quem se atrapalhou no meio do caminho, sem perspectivas de localização. Neymar é a personificação do lado artístico que adoraríamos ressuscitar em larga escala.

É compreensível que muitos torcedores se unam para secar a equipe espanhola e vibrar por qualquer adversário, inclusive um inglês que reproduz a mecânica robótica do futebol atual. Admitamos: estamos com fortes dores em ambos os cotovelos. Não é o despeito santista – esta mágoa me parece digerida -, mas a inveja de que não temos material humano, mais a vaidade de nossos técnicos, para dar conta de um esquema tático de origem ibérica que tortura o adversário lentamente.

Procuramos defeitos na estratégia, criticamos um ou outro personagem, fazemos questão de lembrar que Pep Guardiola utiliza o Brasil como referência. São sintomas de quem precisa exorcizar as próprias falhas, entender os equívocos efetivamente como retrocessos.

Mais do que pedir pela desgraça de quem nos ignora, por que não admirar a beleza do jardim do vizinho? Por que não aprender com o outro lado do muro? Neymar se multiplica em cada canto do nosso quintal, mas ele talvez esteja escondido entre as ervas daninhas.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O linchamento de Julio César

            
Nunca considerei Julio Cesar o goleiro ideal para o Corinthians. Desde a saída de Dida, há 10 anos, o clube procura um ídolo para a posição. Mas também não posso concordar com a execução pública que se construiu depois da derrota para a Ponte Preta. Como se a demolição da carreira do atleta fosse uma ação sem danos, como se o jogador fosse uma peça mecânica a ser trocada em caso de falha.

É compreensível que o torcedor responda com paixão à queda de sua equipe favorita e que manifeste seu descontentamento por meio da denominação de culpados. É mais concreto, palpável para extravasar a dor quando damos nomes aos enforcados.

É inaceitável, por outro lado, que profissionais do futebol, principalmente os analistas, embarquem em um parecer pontual, permeado pelo desrespeito ao passado do goleiro, ao retrospecto do time na temporada, aos frutos conquistados até o momento.

Os adeptos dos resultados são incapazes de enxergar além de uma semana. Para eles, o último jogo é sempre o que vale. Contexto só atrapalha. Talvez seja por isso que a cegueira os impeça de acertar nas profecias. Muitas variáveis incomodam o raciocínio rasteiro.

Se observarmos as três falhas de Julio Cesar em jogos decisivos, é oportuno e confortável demiti-lo do cargo de confiança que demorou cinco anos para ocupar. A repetição de equívocos indica um caminho de análise, mas não explica todo o cenário. Os erros apontam para a incapacidade de qualificá-lo como um goleiro excepcional. Grandes goleiros levam frangos infantis, mas lacram as traves nos momentos históricos.

Avaliar Julio Cesar somente pelas falhas é um ato de injustiça. O retrospecto recente nos conduz à conclusão de que a partida contra a Ponte Preta significou uma tarde ruim. A temporada do goleiro tem sido surpreendente. Ele integra um pacote tático que mantém a defesa corintiana com o melhor desempenho, tanto no Campeonato Paulista como na Libertadores. Nesta última, Julio Cesar sofreu só dois gols em seis jogos. É um aspecto importante para a segunda melhor campanha da competição.


Os mais afoitos ao sangue em praça pública querem a substituição imediata do goleiro. Se absorver o clamor selvagem, o Corinthians só tem uma saída: contratar um excepcional goleiro, que figure – de verdade, não eventualmente – nas listas de convocados para a seleção brasileira.

No ano passado, o clube menosprezou Julio Cesar pela primeira vez. Adquiriu Renan, revelação catarinense. Três falhas em três jogos sacramentaram o rebaixamento dele para terceiro goleiro e o posterior empréstimo para o Vitória, da Bahia.

Este ano, o Corinthians repetiu a dose ao contratar Cassio, revelação do Grêmio e que estava no PSV holandês. Cassio é o atual terceiro goleiro e jogou apenas uma partida. O reserva do momento é Danilo Fernandes, incapaz de substituir Julio à altura.

Julio César é o goleiro que o Corinthians tem de melhor hoje. É necessidade urgente blindá-lo dos apressados em acionar a guilhotina. Até porque, para avançar na Libertadores, é preciso contar com ele. Um grande goleiro seria um desejo suave como maio, em tempos de Brasileirão.

Além da imaginação


Quando o esporte imita o seriado de TV
O esporte é repleto de imprevisibilidades. Não há ciência, técnica, talento e habilidade que façam uma competição funcionar de maneira exata. O esporte é sempre suscetível às travessuras do improvável. Ou, pelo menos, do rompimento da rotina da obviedade.

Na última semana, uma série de eventos – se levados a ferro e fogo ou pela análise do conjunto – colocou em dúvida a carreira de comentaristas, a credibilidade dos videntes, a sorte das loterias e até a paixão insana do torcedor. Aparentemente sem ligação, estes fenômenos reforçam a instabilidade climática que nos leva a sofrer, se apaixonar, duvidar e acreditar como fanáticos religiosos no esporte. A graça que precisamos nos injetar para seguirmos os gurus que nos comovem nas derrotas.

A lista de atividades paranormais não se construiu em ordem de importância. Até porque como poderia estabelecer um critério para organizar o caos que transformou o noticiário em conto de ficção científica, daqueles bem baratos de bancas de jornal.

A maioria dos acontecimentos extraordinários brotou de dentro do mundo do futebol, onde clichês que resistem em perdurar garantem que este é um esporte único. Esporte no qual o favorito perde, esporte no qual a vítima caça o predador com somente uma bala na agulha.

Mas comecemos por outras modalidades, como comprovante de que o diagnóstico confirmou a epidemia de esquisitices.

Na Fórmula 1, Felipe Massa marcou seus primeiros dois pontos no GP do Bahrein. Foi o 18º a pontuar no campeonato, o último entre os pilotos das grandes equipes. Mesmo assim, não corre risco de ficar desempregado. A Ferrari enfatiza que considera o desempenho do brasileiro satisfatório. Falsidade ou reconhecimento de que o carro está longe dos dias de glória?

No tênis, Thomas Belucci venceu David Ferrer, número 6 do ranking mundial. A vitória aconteceu no piso de saibro de Monte Carlo, o favorito do espanhol. Tudo bem que Belucci perdeu no dia seguinte para um sujeito com ranking inferior ao dele, mas vencer um top 10 é um fenômeno da física que acontece uma, no máximo, duas vezes por ano com o brasileiro. E ainda estamos em abril. Logo, a entressafra se aproxima?

Reconheço que os dois casos representam aperitivos quase indolores. O prato principal está no futebol, com mais surpresas do que o habitual, quase uma teoria da conspiração. Antes, o exterior. Depois, a comédia de erros nacional.

Não são apenas os brasileiros que convocam ex-jogadores para a seleção olímpica. A Inglaterra resolveu montar uma lista de 80 jogadores. Para quê tanta gente? Para que praticar bullying contra atletas que criarão expectativa vazia com os Jogos Olímpicos, ainda mais em casa?

A Inglaterra chamou o jogador-celebridade David Beckham, em autoexílio nos Estados Unidos. Esta história me lembrou a convocação do levantador Ricardinho para a pré-lista da seleção brasileira de vôlei. Nada como o politicamente correto da relação de aparências.

Saindo da perfumaria, testemunhamos duas derrotas seguidas do Barcelona. Isso não acontecia desde 2009. O Barcelona estava invicto em casa há 54 jogos. A derrota para o Real Madrid é mais provável do que perder por 1 a 0 para o Chelsea, mesmo na Inglaterra. Os “idiotas da objetividade”, como diria Nelson Rodrigues, ficaram excitados com os dois fracassos, motivos suficientes para confundir o pontual com estrutural e criticar – por despeito - a forma de jogar que deveria ser brasileira.

Os adoradores do pragmatismo bradaram que a defesa do Chelsea parou o Barcelona. Quem assistiu ao jogo deve ter visto que o time espanhol perdeu seis chances claras de gol, metade em defesas dificílimas de Petr Cech. Perder gols é bem diferente de transferir o mérito para a defesa adversária.

Pelos campos daqui, a Portuguesa – que um dia sonhou em ser filial quando passou a ser chamada de Barcelusa – se esforçou e conseguiu cair para a segunda divisão do Paulistão. Em meio ao pedido de desculpas, a diretoria decidiu manter o técnico Jorginho. No Brasil, treinadores despencam por muito menos.

Um dia depois, foi Jorginho quem se demitiu, sob o argumento que não tinha mais condições de motivar o grupo de jogadores. Para uma profissão na qual a vaidade é quase um pré-requisito, Jorginho corre o risco de ser comparado a Dom Quixote. Parafraseando o destino botafoguense, tem coisas que só acontecem com a Portuguesa.

No fundo político, a CBF tenta colar os cacos da fuga do rei Ricardo para Miami. Na disputa entre São Paulo e Rio, os cariocas ressuscitaram o octagenário Zagallo, por conta da longevidade, e o fantasiaram de candidato à vice-presidência da entidade-mãe do futebol. O pior é que ele acreditou e repetiu o bordão de ser engolido a força. Zagallo, não manche sua história com aqueles que sujam os bolsos todos os dias.

Deixei o Corinthians por último por causa das profundas mudanças em tão pouco tempo. Esta nova identidade assusta e espero que não cristalize. Vencer por 1 a 0 é ganhar sem sobressaltos, sem alterações na frequência cardíaca. Quanto mais cedo o gol, maiores as chances de assistir a outro programa.

Na quarta-feira, 6 a 0 no Deportivo Táchira. Não importa a fraqueza do adversário. Não é da natureza Titiana vencer por muitos gols. Aliás, seis gols de seis jogadores diferentes. É um time operário até quando se comporta como patrão. Com a goleada, em plena Libertadores, temeu-se que a fonte secaria. Como seria no final de semana, diante da Ponte Preta?

A profecia se deu pelo avesso. O ataque bateu o pé para quebrar a regra de ganhar somente por 1 a 0. Fez dois gols. Mas o desastre estava na defesa sólida, a melhor do Paulistão e da Libertadores. A Ponte Preta, freguesa desde os tempos de Basílio, eliminou o Corinthians dentro do Pacaembu. Saberemos o tamanho da dor em 10 dias, contra o Emelec que – dizem os futurólogos de microfone radiofônico – deve ser pior do que a macaca.

Se me esqueci do Palmeiras? Não, perder para o Guarani, em Campinas, ser eliminado antes da hora, entrar em crise, dispensar jogadores e culpar o Felipão é um roteiro de filme B. É o cúmulo da ausência de criatividade.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O cinema é uma ilha!


Sempre fugi de estreias. Nunca me incomodei ou me senti pressionado pelas rodas de conversa que intimidam: “como você ainda não viu o filme?” Tenho a nítida impressão de que a aglomeração de pessoas diante da sala de cinema no primeiro dia sintetiza um sintoma patológico coletivo.

Chegar primeiro como reprodução da pressa e do consumo que nos marca em brasa. Ter para descartar com o mínimo prazer. É aquele sujeito que, orgulhosamente, brada ser o primeiro a ver um filme enquanto oscila entre a ingenuidade – em tempos de Internet – e a esquizofrenia social.

As salas, quando lotadas, me assustam. Soam como um laboratório improvisado do comportamento humano. E bem pago pelo espectador em vias de se transformar na cobaia que comprova cientificamente a incivilidade humana contemporânea.

As salas cheias reproduzem nossos excessos. Comida em baldes que poderiam lavar garagens, incapacidade de apreciação do silêncio, neurose de corpos que indicam a chance de diagnóstico de hiperatividade, entre outros sinais que reforçam nosso individualismo e chutam para escanteio o respeito pelo ritual coletivo.

Nos últimos anos, descobri o prazer do anti-cinema. Ir ao cinema é o prazer da convivência com o outro. Do compartilhamento de emoções diante da mesma obra. Você convida alguém que gosta, estabelece certos combinados, assiste ao filme e estica para outra programação cultural.


Restaurante e motel estão inclusos, como construções culturais que – com o perdão do flerte com a vulgaridade – atingem o mesmo objetivo, em sentidos teoricamente diferentes.

O anti-cinema é ver um filme sozinho, numa sala completamente vazia. É como afrontar os donos de salas padronizadas, que definem a programação de olho nos cifrões. Estar sozinho na sala os obriga a atender o lobo solitário como um cliente vip, sem que o serviço exista de fato.

Só fui perceber anos depois, mas tive a primeira sensação de que a solidão cinematográfica era prazerosa na adolescência. Aconteceu numa sessão de O Último Imperador, às 13 horas, no extinto cine Alhambra, hoje um flat sofisticado (provavelmente redundância). Éramos três espectadores: eu, minha mãe e um amigo de colégio, convidado de última hora.


Fiquei inundado pela sensação de que o cinema seria meu por três horas. Nós nos espalhamos como se a sala de casa e a tela da TV, de repente, inchassem.

Só fui pensar novamente no assunto quando vi um filme sobre futebol americano, estrelado por Al Pacino. Era dia de estreia, a famigerada e maravilhosa sessão da meia-noite, uma noite de inverno. Na sala, três corpos estendidos (três casais),que lutavam para se aquecer por conta do ar-condicionado. O fracasso do primeiro dia talvez tivesse ligação com a resistência – naquela época – com o futebol americano.

Comprei a sala de cinema quando os cinemas estenderam suas sessões para o horário de almoço. Nada como assistir a um filme de Silvester Stallone ao meio-dia. Se comer antes, riscos à própria saúde. Se optar por uma refeição posterior, a fome virá como boa companhia diante do esforço físico alheio na tela branca.

Passei a frequentar os cinemas durante a semana, em horários de almoço. Vivi um exercício singular de egoísmo, com a vantagem de que não geraria incômodo para ninguém. A sala era minha! Numa das ocasiões, a atendente insistiu que não haveria exibição naquele momento, mas ela acabou desmentida pela frieza do telão. As máquinas não defendem o dinheiro patronal.

O cine solitário te oferece, como promoção involuntária, uma série de serviços. O combo inclui pernas esticadas na cadeira da frente, pés descalços sem riscos de impacto ambiental, prioridade absoluta na escolha do assento e, principalmente, o silêncio irrestrito antes, durante e depois da exibição do filme. Até porque ainda não desenvolvi o hábito de falar comigo mesmo em voz alta e desligo o celular assim que entro na sala. Sozinho ou não, penso que aparelhos eletrônicos não combinam com cinema.

Ir ao cinema sozinho não pode envolver qualquer história ou gênero cinematográfico. Vou ao cinema sozinho por solidariedade. Vejo somente filmes que as pessoas que amo não assistiriam. Logo, o critério não envolve animações infantis, comédias românticas, terror e bons roteiros.

Sobram os filmes de ação, de má qualidade, claro. Neste sentido, Stallone é o melhor remédio para escapar do real, sem arrastar outras pessoas para a minha insanidade. Parafraseado o próprio Stallone Cobra, ele e outros são a cura momentânea para os males que as próprias salas de cinema (e seus espectadores) costumam adotar, defender e perpetuar.


Não tenho repetido, nos últimos tempos, a experiência de isolamento nos cinemas. Ainda acredito que cinema deve ser visto em boa companhia. Mas sem estreias. Sem blockbusters. Sem horários-clichês. Assim, cultivo a saudade de não precisar de novas doses de anti-cinema para amenizar a insanidade audiovisual.

Obs.: Esta crônica foi publicada originalmente no site Cinezen.

O menino e o uruguaio


Sou santista de nascimento, mas não de time de coração. Entenda, caro leitor, como uma vantagem em tempos de Centenário. Vantagem porque posso expressar minha relação com o Santos como um admirador, e não pela paixão que costuma cegar os enlouquecidos pelo futebol.

Minha relação com o Santos é cordial, serena e racional. Só perde para o amor pela Portuguesa Santista e pela simpatia com o Jabaquara. Testemunhei a ascensão e a queda vertiginosa da “burrinha” nos últimos anos, in loco, afogado na emoção da vitória e enterrado na frustração de três rebaixamentos.

O Santos foi, em termos sentimentais, um acompanhante no final da infância e durante a adolescência. Nesta fase, fui mais vezes à Vila Belmiro do que em qualquer outro estádio, exceção dos treinos diários em Ulrico Mursa ao longo de três anos e meio. E é neste intervalo que o Santos deixou de ser um vizinho racional para povoar sonhos e desejos de um moleque.

O que me levava ao Estádio Urbano Caldeira nas noites de quarta-feira ou nos domingos à tarde? Não era o tradicional jeito ofensivo de jogar do Santos. Não eram artilheiros como Serginho Chulapa ou meias excepcionais como Pita. Não eram os tradicionais rivais, que visitavam muito pouco a Vila Belmiro em meados dos anos 80.

Eu engolia a seco minhas preferências de torcedor, deixava o orgulho em coma e seguia para a Vila Belmiro com o objetivo de acompanhar qualquer partida, sempre sentado na arquibancada, atrás de um dos gols. Quando me sentava nas cadeiras cativas, transpirava a sensação contínua de ausência. O jogo estava incompleto, incoerente com minha ansiedade.

Estar atrás de um dos gols me permitia, por 45 minutos pelo menos, ver de perto, seguir todos os movimentos do goleiro Rodolfo Rodriguez, o melhor que já passou por aqui. O melhor porque não tenho idade para ter visto, sem o apoio da TV, Gilmar dos Santos Neves. Goleiros deste porte, aliás, só com nome e sobrenome, como se carregassem títulos de nobreza em suas luvas.

Adorava assistir Rodolfo Rodriguez em jogos desimportantes. Duelos contra times do interior pelo Paulistão. Palco de uma torcida só. Casa por hábito mais vazia. Assim, poderia me acomodar a metros do monstro de mãos gigantescas, corpo curvado, com velocidade e agilidade felinas.

Ali, atrás do gol, aprendia como se comandava uma defesa. O espanhol enrolado em português não facilitava o entendimento, mas a tradução nascia a seguir nas reações dos zagueiros, na construção imediata de uma muralha.

Vi Rodolfo Rodriguez pela primeira vez na TV, aos 10 anos. O Santos venceu a final do Campeonato Paulista de 1984, contra o Corinthians, por 1 a 0. O menino que jogava no time da escola absorveu, a seu modo, que ganhar começava lá atrás. O pé esquerdo de Serginho Chulapa significava o fim da linha, o último monte de terra que sepultou o maior rival no Morumbi.

Passei três anos ao lado de Rodolfo Rodriguez. Nunca me aproximei dele, mas jamais me esquecerei daquela noite de quarta-feira, chuvosa e fria. O menino de 12 anos ganhou dois presentes. Primeiro, um aceno depois de chamá-lo quando o Santos atacava o adversário.

O segundo foi um presente em forma de aula. Rodolfo expulsou o atacante Ricardo, do América, da grande área, depois de uma falta violenta cometida por ele. “Aqui você não entra mais”. Ricardo acabou substituído no segundo tempo, quando improvisava na meia-esquerda.

Mal sabia que, três anos depois, atuaria na mesma grande área, pela Portuguesa Santista, numa preliminar entre Santos e Inter de Limeira. Para o goleiro mediano de 16 anos, não sofrer gols na terra governada por Rodolfo Rodriguez significou sentar às escondidas, por um instante, no trono do rei.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Os supertécnicos


           
Quando assisto a entrevistas coletivas, sinto saudades do tempo em que os técnicos tinham fama de serem os sujeitos que somente jogavam as camisas para cima, no vestiário, antes do jogo. E que, à beira do campo, se limitavam a não atrapalhar a genialidade dos craques nem a truculência dos carregadores de peso.

Os técnicos se transformaram em estrelas por nossa conivência. Acreditamos em suas promessas, damos atenção às filosofias de botequim, comentamos sobre seus ternos de grife importada. E engolimos a seco seus discursos criativos de responsabilização alheia nas derrotas, de retórica vazia nos empates, de auto-referência nas vitórias.

Os técnicos, antes anteparo para equipes ruins e jogadores de qualidade duvidosa, passaram a entender que poderiam se valorizar e dividir os holofotes que pertencem aos craques, mesmo os da rodada de final de semana. O fato é que os treinadores – independentemente da mudança de seus papéis – pouco interferem na dinâmica durante o jogo.

O técnico do Santos, Muricy Ramalho, é um dos poucos que mantém certa lucidez no exercício de auto-crítica. Muricy disse, por exemplo, no Cartão Verde, da TV Cultura, o óbvio: os atletas mal escutam ou não ouvem as instruções – aos berros – na lateral do campo. E, quando escutam, podem alterar a mensagem do que modo que lhes for conveniente. Muricy afirmou que, para alterar o ânimo ou o desenho tático de um time, tem os 15 minutos do intervalo para fazê-lo.

Técnicos de futebol são como o próprio esporte: uma metáfora dos comportamentos sociais e culturais do contemporâneo. Os treinadores, quando se enxergam como professores-doutores, além do significado da gíria futebolística, carregam consigo o pior deles. Tornam-se professorais, no alto da pseudo-sabedoria, donos do saber e da arrogância que acomete os surdos voluntários.

Os técnicos, neste sentido, compram para si a idolatria da aparência. Seriam mais eficientes porque se vestem bem? Seriam mais competentes porque aposentaram o velho agasalho de treino? A roupa de missa de domingo é capaz de alterar um resultado e assegurar a classificação para a fase seguinte?

Alguns treinadores aperfeiçoaram a técnica de amor à imagem. Adeptos da auto-ajuda e dos clichês do mundo corporativo, estes treinadores recortam e colam frases aparentemente desconexas, recheadas com palavras da moda e filosofam como se acreditassem às cegas nas próprias palavras.

Eles jamais reconhecem erros, transferem responsabilidades e, por vezes, incineram carreiras de seus atletas para salvar a própria pele por mais uma rodada. É o crime capital de um comandante que abandona o navio antes dos marujos diante do naufrágio iminente.

O técnico do Corinthians, Tite, parece exalar prazer quando aplica um vocabulário barroco. É um treinador de bom nível, mas sucumbe ao estereótipo do filósofo de almanaque. Qualquer torcedor sabe que a equipe joga de maneira única, ainda que eficiente.

Por que é tão difícil reconhecer que a estratégia de se defender bem e atacar eventualmente tem funcionado? Mas a dimensão excessiva do cargo implica em falar várias vezes a mesma coisa, com palavras diferentes, escolhidas a dedo no dicionário.

O ego inflado dos técnicos de ponta os impede hoje de se abrir ao aprendizado. Falcão, técnico do Bahia, parece ser uma exceção. Ele viajou à Europa e visitou vários dos principais times europeus para conversar com seus treinadores. Explicou, em entrevista, a necessidade de aprender e observar os locais onde atuam os melhores.

Wanderlei Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari retornaram depois de experiências irregulares no exterior. Felipão ainda se manteve em alta quando comandou a seleção portuguesa. Eles, que chegaram a representar o avanço dos profissionais, indicaram a longo prazo o quanto nos treinadores se afundaram no próprio narcisismo, coerente com o próprio olhar que o futebol brasileiro possui de si mesmo.

O preço a ser pago pela admiração diante do espelho é a sobrevivência de um velho problema. Técnicos de futebol seguem como peças descartáveis do modelo. Ainda são incompetentes para convencer seus empregadores de que projeto e planejamento não representam meras palavras que se perdem ao final da entrevista coletiva. Um discurso tão banalizado quanto o novo jogador que beija o escudo do clube sob juras de amor de verão.

Na prática, o medo consome os supertécnicos com a aproximação do inevitável. Por mais que terceirizem a culpa, a responsabilidade é deles. Um equívoco que se perpetua, mas se explica, com um tipo de profissional que se acaricia nas conquistas, sem o menor interesse de dividir as glórias com quem – efetivamente – decide os rumos do espetáculo.

O filho do trânsito


Eduardo (nome fictício) passa a maior parte de seus dias dentro de um veículo de quatro rodas. O modelo e o tamanho do veículo mudam conforme os dias da semana. Mas a rotina padece de inércia. A tortura psicológica contínua poderia transformá-lo em um zumbi de volante e câmbio nas mãos. Mas o transformou em um Homo trafegus.

Esta variação da espécie humana se caracteriza pela alternância entre a serenidade e a selvageria. A serenidade se manifesta enquanto é possível dirigir sem pressa, encarar ondas verdes e não se encontrar com seres em duas rodas ou caminhantes de braços estendidos. Nesta bipolaridade de vias públicas, Eduardo se sente rumo ao paraíso.

A serenidade o impregna cinco dias da semana. Eduardo, na visão antropológica, seria um espécime raro da “evolução” para Homo trafegus. Ele dirige ambulâncias, sintoma que poderia empurrá-lo para a bestialidade no trânsito, com efeitos psicológicos extremos na condução de um veículo.

Eduardo adora estar no comando da ambulância. Ele não trabalha com emergências, acidentes de trânsito e outros problemas que implicam na sirene como o áudio da urgência e do desespero. “É tranquilo. Só transporto médicos e enfermeiras para atendimento em casa, levo pacientes para a realização de exames e consultas e entrego medicamentos.”

Eduardo abandona Dr. Jekill e incorpora Mr.Hyde nos finais de semana. Como segunda renda, ele veste a fantasia profissional de taxista. Em dois dias, o homem sereno sai de cena à fórceps. O monstro ganha carteira profissional 12 horas por dia. Para ele, ser taxista é o pior castigo que poderia sofrer. “Eu odeio taxistas.” A raiva o torna, em tese, capaz de separar o motorista comum de quem, naquele momento de conversa, conduz um táxi como se estivesse na equipe de Felipe Massa em Interlagos.

Eduardo vive aquilo que mais detesta. E a dissociação do ofício foi o mecanismo de defesa para apagar de si o animalesco que xinga pedestres, trata ciclistas e motociclistas como inimigos e encara o agentes de amarelo como a personificação do mal.

Eduardo os exorciza quando fala de sua outra personalidade: o motorista comum. Aí entendemos a ojeriza aos taxistas. “Eles são folgados, não usam seta e estacionam em qualquer lugar. Olha lá (aponta para um colega estacionado em fila dupla na rua Carlos Gomes, no Campo Grande)! Um desses bateu no meu carro e me deu um prejuízo de R$ 1300.”

A cidade, que muda de roupa para se parecer uma cópia menor da irmã Capital, começa a parir – silenciosamente – uma série de filhos. Mudam as feições, alteram-se as naves que os conduzem, mas todos os filhotes são variações genéticas da mesma célula.

Os Homos trafegus não dirigem apenas táxis. Seria uma injustiça generalizar o olhar particular. Estes espécimes conduzem ônibus em jornadas semi-escravas de trabalho. Pilotam motocicletas castigadas com entregas multiplicadas pelo tempo curto. Arrotam status quando passeiam com seus carrões de novos ricos nas portas das escolas. Um ecossistema rico em diversidade e perversidade, prontos para estudos científicos.

Eduardo, enquanto pragueja contra seus colegas, parece não ver saída para si mesmo. Dois anos atrás, havia abandonado o táxi para se dedicar com exclusividade ao oásis das ambulâncias. Ao se tornar pai, as despesas o empurraram de novo para o segundo emprego.

Incapaz de enxergar um horizonte de revolução pessoal, deposita em seu filho a alforria do cárcere de final de semana. “Tenho que esperar que ele cresça. É só virar jogador de futebol. Quem sabe o novo Neymar?”

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Coliseu romano é aqui!



Santos vai receber, no final de abril, um dos maiores encontros esportivos do Brasil. Milhares de pessoas estarão reunidas para acompanhar as novidades no mundo das academias. A cereja do bolo deve ser o MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês), um esporte que – como negócio – se transformou em febre e gera múltiplas reações, de artificiais a oportunistas.

Os sinais de que este esporte é vestido como tendência popular de comportamento se mostram visíveis na tentativa de nocautear consumidores. Nas academias, o MMA é oferecido como a coqueluche de benefícios físicos para a politicamente correta qualidade de vida.

O truque é velho, clássico para uma sociedade que adora aparências. Assim como outros exercícios mudam de nome por conta de qualquer enfeite tecnológico (se a nomenclatura estiver em inglês, melhor ainda!), o MMA é a composição de três modalidades (boxe, jiu-jitsu e muay thai), com benefícios já comprovados e que pouco as diferem de práticas também tradicionais.

No cenário cultural, prevalece a estratégia de se construir um ídolo de maneira artificial por conta de superexposição em vários tipos de mídia. Anderson Silva, por exemplo, aparece em capas de revista, frequenta – como outros lutadores – os programas de TV aberta para opinar sobre variados temas, assina contrato com agência de ex-jogador de futebol e se conecta a um clube de massa como o Corinthians.

A história indica que tais conexões são frágeis de longo prazo porque não possuem respaldo estrutural e cultural para se sustentar a idolatria. Adilson Maguila Rodrigues, no boxe, e Gustavo Kuerten, no tênis, provaram que um atleta é incapaz de popularizar um esporte; no máximo, engrossar a linha de palpiteiros, que opinam como estas modalidades fossem derivações do futebol.

O filme sobre Anderson estreou em 150 salas, raridade para um documentário. Outra ação de marketing para se explorar um ícone esportivo construído a fórceps. Transmissões esportivas aos sábados fecham o pacote.

Até a classe política, sempre alerta em ano de eleição, sonha em tirar casquinha da glória alheia. Não cora de vergonha ao passar atestado de desinformação. Um exemplo é o deputado federal José Mentor, que apresentou projeto de lei para proibir as transmissões do MMA na TV aberta. O argumento do deputado é que o esporte propaga a violência na sociedade.

Para se entender o MMA como violento, é preciso se estabelecer mecanismos de comparação. Como criar graus de violência? Estatísticas de fraturas e mortes, por exemplo? Neste olhar simplista, o MMA poderia ser visto como tão violento quanto o futebol, o futebol americano, o boxe, o automobilismo. A lista seria tão grande quanto estéril.

O MMA é somente mais um adereço em um modo de vida que cultua a violência, sem entrar mérito como esporte. Somos violentos por natureza. Apenas nos contemos por causa das convenções sociais, dos processos que lutam por nos civilizar todo o tempo. A biografia do ser humano é permeada, sem intervalos, por ações violentas, com motivos variados, de ganância a poder, o que inclui até a selvageria pela selvageria.

Vivemos a cultura do medo por conta desta necessidade real de praticar e glorificar a violência. Debater a violência física representa somente cutucar a ponta da ferida. Transformamos, de fato, a violência em mercadoria, que pode ser negociada de maneira explícita ou nas sutilezas da psiquê.

Culpar o MMA por estimular a violência ou endeusá-lo pelos benefícios ao corpo humano é escapar à francesa do olhar sobre como vivemos. É realimentar o esporte como fonte de lucros por meio de polêmicas superficiais e ídolos de mídia. Nada mais ingênuo do que um deputado que pretende tirar da tela da TV a versão moderna da arena romana. Ou uma questão de má fé.