sexta-feira, 16 de março de 2012

O teto de vidro



Rosas vermelhas são um gesto cordial, talvez um presente entregue por reconhecimento momentâneo. O abraço e o beijo demonstrariam o afeto por ela, que está ao lado, mas que podem atender convenções sociais. Homenagear mulheres no dia 8 de março representa um ato de carinho, mas jamais poderiam mascarar comportamentos rotineiros nas relações de gênero.

As mulheres ainda não completaram o ciclo revolucionário. A revolução segue numa fase de transição que atropela os homens – incapazes de entendê-las -, embora também provoque deserções no universo feminino.

As vítimas não são apenas as mulheres que engrossam a pilha de boletins de ocorrência nas delegacias, números que – somados – nos indicam quanto o machismo se manifesta pelo olho roxo, pelos cortes, pelas marcas de queimaduras, pelos corpos que entopem geladeiras de institutos médicos.

Mulheres espancadas e mortas são a ponta mais cruel de um iceberg de sangue. Hoje, nada tão falso ou tão politicamente correto do que dizer que as mulheres conquistaram seu espaço. De que mulheres falamos? Qual foi o preço pago para a aceitação no clã masculino?

Um das taxas deste pacote tributário é a mudança de sexo. Não me refiro às cirurgias que geram novos desenhos orgânicos. A dor está na interpretação teatral de outro gênero para se sentir pertencente a um grupo. O mundo corporativo, por exemplo, transforma mulheres delicadas em machos selvagens por conta de um salário, ainda assim, inferior.

Numa grande construtora, em São Paulo, uma engenheira – para sobreviver na obra repleta de homens – passou a falar palavrões, beber em demasia nas reuniões semanais e, como máximo da aceitação, fazia movimentos com os quadris para simular que possuía um pênis. Outra engenheira, ao recusar estilo “viril” da colega, virou alvo de discriminação. Ser educada virou um defeito. Não beber era uma contravenção. O silêncio diante das piadas machistas a tornou pecadora.

Muitas mulheres optam por aceitar as condições dos homens para ganhar a carteirinha do clube deles. Entrar na associação não significa injetar em si os valores masculinos. Nem integrar a diretoria. É a melancolia de quem reproduz – sem a consciência disso – a forma machista de enxergar o mundo. A metamorfose que se completa nos julgamentos de outras mulheres, que deixam de ser semelhantes, mas como um pedaço de carne no açougue.

A revolução feminina, em curso desde o século passado, deve ser retomada de maneira coletiva. Não basta ser uma profissional que se nega a atender os desejos machistas. Desmantelar um exército de mulheres é a estratégia recorrente do mundo masculino. Fingir-se tolerante é tática utilitária contra o avanço das mulheres em territórios que pertenciam antes aos homens.

Na vida prática, os homens, algemados voluntariamente em valores arcaicos e selvagens, se unem e lutam para manter o estado de coisas. Aceitamos como natural a exposição do corpo feminino como mercadoria na TV. Replicamos suposições sexuais para as que ascenderam na empresa. Classificamos como mal amadas aquelas que mergulham no trabalho para dar conta de mais um papel social. Definimos a sensibilidade e a intuição, por ignorância ou inveja, como qualidades menores, doidos para tê-las.

A revolução feminina está incompleta. Não são rosas vermelhas, abraços ou outros gestos masculinos que carimbam a igualdade de gêneros. Um ato de carinho pode ser o crime perfeito, a dominação imperceptível do bruto. As mulheres precisam perceber que o teto está próximo, mas é feito de vidro. Ponham os homens de lado! Depende de vocês o fechamento do ciclo. 

Obs.: A imagem acima é a reprodução da foto de uma ex-catadora de materiais recicláveis no Aterro Controlado do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). A foto foi feita pelo artista plástico brasileiro Vik Muniz e depois vendida, junto com imagens de outros catadores, na Europa. O dinheiro foi revertido para projetos sociais no local. Esta história é contada no documentário Lixo Extraordinário, dirigido por Lucy Walker, com co-direção de João Jardim e Karen Harley. O filme foi indicado ao Oscar da categoria em 2011, venceu o Festival de Sundance e recebeu o prêmio do público no Festival de Paulínia.

Um comentário:

Josy Menezes disse...

Olá Marcus Vinícius! À procura de artigos que me auxiliassem em minha monografia (que faz uma abordagem sobre a participação das mulheres na história do Itamaraty), me deparei com esse seu lindo texto. E fiquei extasiada quando vi que foi escrito por um homem! Rs... Quero te parabenizar pela sensibilidade que demonstra em sua escrita.É sempre muito bacana encontrar pessoas que possuem um olhar parecido com o nosso.