sábado, 31 de março de 2012

O luto e o escudo


Rubens absorveu, como brasa nas costas, a ira das viúvas que exigiam dele ocupar o lugar do morto. Rubens assimilou o sarcasmo dos arrogantes que consideram o segundo lugar uma humilhação. Rubens se acomodou à sombra do semi-deus que insistia em colocá-lo no papel de escudeiro servil ao senhor. Rubens sambava e sorria sob os olhares petulantes de quem escorraça os que dançam fora do protocolo.

Rubens suportou ironias de quem, ao poder do microfone, reivindica por falso patriotismo como resposta ao desespero do vazio de ídolos. Hoje, Rubens escuta, com o sorriso amarelo, o discreto pedido de desculpas de quem o classificou como o bobo da corte por anos de vida no circo.

Todos os Rubens compõem Barrichello, um dos ícones esportivos mais injustiçados em um país que ainda se defende desordenadamente da síndrome de vira-lata, descrita pelo cronista rodriguiano. Barrichello é o goleiro Barbosa de capacete, o sujeito que se tornou responsável por um período de entressafra às vésperas da maioridade. Um Maracanazzo levemente anestesiado por dois vice-campeonatos, 11 vitórias, 14 poles, 17 voltas mais rápidas e recorde de provas, incapazes de amenizar o luto pela morte prematura de quem conduzia a singularidade na Fórmula 1.

Rubens Barrichello era o menino-prodígio precocemente amadurecido e destinado a suprir a ausência forçada do ídolo. Um bom piloto alçado à missão impossível da excelência.

Barrichello não conseguiu – por imagem e semelhança – nos ensinar a decência da derrota reconhecida. O choro era de raiva, sem rastro de racionalidade para levar à compreensão da vitória improvável. A cada justificativa de insucesso diante do melhor piloto dos últimos 20 anos, Rubens sofria com a jocosidade dos arrogantes.

O alemão, que massacrava a todos, parecia – no recalque inadmissível do fracasso – surrar somente o colega brasileiro. Para nós, Rubens jamais seria o Gerard Berger de Ayrton Senna. Era o barbeiro japonês que dava humor às vitórias alemãs.

O recorde de provas disputadas, o carimbo de longevidade que marcaria a resistência pela competência, teve efeito reverso. A durabilidade se metamorfoseou em insistência, resposta esquizofrênica sem lugar em outras culturas. Suportar 19 anos na elite não representou o casco endurecido e cicatrizado de quem apresentava resultados no limite das expectativas. Quase 20 anos significaram, para os ufanistas do cinismo, um martírio da impossibilidade utópica do topo contínuo.

Até a sinceridade em prestar contas como figura pública se transformava em deboche. Os adversários, fechados em seus reinos de soberba, ganhavam a simpatia como personagens que se alimentam do distanciamento impregnado de orgulho por fingir independência de seus seguidores.

Rubens só conseguiu reconhecimento quando fechou a porta e entregou a chave da velha casa. Ao mudar de endereço, Barrichello despertou novamente a submissão dos arrogantes ao verdadeiro senhor. Ao pisar em solo americano, o piloto foi tratado com as honras de quem navegou por 19 anos em águas onde a irregularidade é inerente à sobrevivência.

Quando reverenciado pelos americanos, Barrichello ressuscitou sua cotação no pregão do automobilismo. Se Tio Sam o aclamou, por que os escravos do estrangeirismo saxão o rejeitariam? Mas a petulância não suporta as desculpas. A presunção das viúvas se manifesta pela minimização das agressões. O “não era bem assim” saiu de cena e deu lugar ao “deixa pra lá”.

Barrichello não foi apenas o escudeiro de um alemão fora de série. Rubens foi o escudo de uma dúzia de brasileiros que passaram ou ainda frequentam a Fórmula 1. O escudo que amparou a pressão de acalmar o luto de negação e voracidade de viúvas que jamais compreenderam que o filho preferido não voltaria mais, nem reencarnado no corpo do sobrinho promissor.

Barrichello protegeu, mesmo sem querer, gente como Pedro Paulo Diniz, Ricardo Zonta, Tarso Marques, Luciano Burti, Antonio Pizzonia, Felipe Massa, Bruno Senna e Nelsinho Piquet. Sem ele, a jornada desta turma na elite seria bem mais curta e dolorosa. Nos Estados Unidos, Barrichello é mais um no grid. Longe de casa. Distante do fanatismo raso dos patriotas de domingo pela manhã.

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