domingo, 18 de março de 2012

O barulho que machuca o ritual


Voltei a ir ao cinema com bastante frequência. De início, pensei que se tratava da diversidade de filmes por conta do Oscar. Mas percebi que, por trás da necessidade de acompanhar os melhores do ano, estava a redescoberta de um prazer único, enterrado provisoriamente por mídias distraídas como a TV e por suportes tecnológicos que individualizamos como DVD e computador.

Ir ao cinema é um ritual. Ainda que a decisão tenha sido tomada de sopetão, na porta da sala que atravessou o caminho, ninguém passa ileso ao cerimonial que cerca a tela branca. Escolher o filme e o horário da sessão. Convidar alguém (bom, ver um filme sozinho, por vezes, é um alívio para o espírito e para o relacionamento) e se preparar para o programa como se vestíssemos a roupa da missa. Até uma camiseta, bermuda e o par de chinelos de dedo ganham religiosidade diante da liturgia cinematográfica.

A barriga pode estar inchada depois do almoço, dos pedaços de pizza ou do rodízio de carne, mas mastigar a pipoca e rebatê-la com refrigerante soam como obrigação logo na fase dos trailers. Pipoca é como um prato de comida que antecede e estimula a fome pela obra-prima.

Definir onde se sentar também integra o protocolo. Espectadores são como alunos na sala de aula: adoram ficar no mesmo lugar. A perspectiva metódica dá a sensação simultânea de propriedade e segurança. Prefiro sempre sentar no fundo da sala, nas três últimas fileiras. Ver um filme no gargarejo me causa a impressão de que algo está deslocado no meu roteiro.

O cinema, hoje, se aproxima – infelizmente – daquilo que o diretor Jorge Furtado chamou de “mídia dos dispersivos”. Furtado se referia à TV como mais um elemento que competia com a atenção do espectador na sala de casa ou no quarto. O cinema foi engolido pela cultura do exagero, que permeia o comportamento consumista, e ganhou feições televisivas.

O balcão de doces, salgados e tranqueiras afins, de cara, é um exagero monetário, mas o que me assusta são os combos, capazes de alimentar um bando de soldados pós-guerra, sintetizados em um único espectador. O rosto do sujeito que transporta o contêiner de comida, muitas vezes, não pode ser identificado, pois se esconde à revelia atrás do balde de pipoca e do tonel de um litro de óleo negro temperado com açúcar.

A torneira de onde jorra a manteiga pré-enfarto representa uma visão de embrulhar o estômago. O líquido viscoso faz com que a torneira se pareça com uma bomba de combustível, que abastecerá o tanque ávido por gordura.

Cada vez que testemunho uma cena como esta, sinto saudades do carrinho de pipoca com seus tímidos saquinhos de papel do século XX. Outro dia, encontrei um deles – não era na frente do cinema – e imaginei que fosse uma peça museológica, guardada por um arqueólogo sorridente.

A sala de cinema se transformou na extensão da sala de estar. Antes, durante e depois do filme, o cinema virou uma sinfonia de ruídos, que transitam da mastigação ao toque de celular com trilha do Jornal Nacional, dos sacos de comida que se rompem ao bate-papo sobre futilidades.

Para aumentar a renda, os cinemas passaram a exibir apresentações musicais, como óperas, orquestras e shows de rock. Mas a primazia pelo som costumava pertencer à tela. O cinema, de monastério ás escuras, passou à extensão da praça de alimentação, uma feira livre fast-food, com iluminação intermitente de telas pequenas de toque estridentes.

As recomendações de comportamento civilizado, antes da exibição, se limitam ao diálogo de surdos. Muitos espectadores preferem até chegar mais tarde para pular os “sermões” e sepultar qualquer tipo de culpa. Um comportamento de quem se julga soberano apenas porque pagou pelo serviço. Entre os infectados pela “síndrome de Lady Cate”, vale até levar pizzas inteiras para a sala de cinema e deixar o lixo nas cadeiras. Até porque, para eles, sempre haverá um escravo uniformizado para recolher os restos alheios.

Em muitos endereços, o cinema passou a ser um rascunho de ritual, uma caricatura perversa e compatível com a postura consumista do momento. Exagerar é se fazer visível, confrontar por atitudes vazias é se destacar por instantes na multidão. Atender ao celular e falar alto durante o filme é sonhar com o holofote numa sala onde escuridão iguala a todos ao papel de espectadores.

Reclamar dos excessos no cinema te coloca como paranóico, chato, intrometido e até censor. No ritual da omissão, permitem-se caras e bocas de descontentamento. Deixe para lá, uma hora o bicho se acalma.

A exceção é comentar, paradoxalmente, bem baixinho com a pessoa ao lado sobre a indelicadeza alheia. Como assim, levantar a voz e chiar com a barulheira da criatura que tagarela ao telefone? Seria uma falta de educação perturbar quem deseja ver um filme na paz do silêncio.


Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Cinezen.

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