sexta-feira, 2 de março de 2012

A infância perdida


Três estudos publicados na revista norte-americana “Pediatrics” sacudiram as concepções de infância em parte da comunidade médica. Os trabalhos, produzidos pela equipe do Hospital Pediátrico de Boston, afirmam que uma em cada 10 mil crianças acredita ter nascido no corpo errado e, por conta disso, desejaria mudar de sexo. Nos últimos 20 anos, o hospital teria registrado aumento de 300% no número de atendimentos deste tipo.

Um dos médicos, em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, utiliza como exemplo uma menina de oito anos, nascida em Los Angeles. A garota, com 18 meses de idade, teria sido categórica: “Sou menino.” Segundo o médico, os pais – de início – levaram na brincadeira e hoje, seis anos e meio depois, estão crentes de que sua filha deverá passar por tratamento hormonal assim que entrar na puberdade.

Para justificar a decisão de aplicar injeções de hormônios em pessoas na faixa de 11, 12 anos, os médicos alegam que elas sofrem de “distúrbio de identidade de gênero”. Dentre todos os absurdos que cercam esta história, os médicos contrários ao tratamento hormonal alegam que estas crianças estariam sendo classificadas como doentes mentais para driblar o debate ético.

A infância, assim como as demais etapas do desenvolvimento humano, é composta por elementos biológicos, psicológicos e culturais. Como é possível acreditar que uma criança, com um ano e meio de idade, que mal consegue falar e, principalmente, mal consegue se sustentar em termos psicológicos, pode estar insatisfeita com sua sexualidade ou com seu gênero? A criança sequer conhece seus órgãos genitais e suas funções, só para arranhar a superfície deste assunto.

Optei por me estender um pouco neste episódio, que rasga códigos de ética, porque estamos rodeados por sinais que indicam alterações na concepção de infância. Na prática, elementos sociais que aceleram, queimam etapas tanto biológicas quanto culturais, que podem implicar em conseqüências psicológicas numa faixa etária de absorção feito esponjas.

No Brasil, uma das grandes novidades da indústria infantil do vestuário foi o lançamento dos sutiãs com bojo. Um produto vendido para crianças de quatro a seis anos. Numa loja de departamentos, os sutiãs foram campeões de vendas no setor de roupas infantis. Clínicas de estética – o nome envernizado dos salões de beleza – oferecem dias de princesa e de príncipes para crianças. Entre os serviços, maquiagem definitiva e limpeza de pele.

Por que crianças necessitam reproduzir, em miniatura, a vida de adultos? Uma amiga psicóloga me disse – certa vez, em tom de “brincadeira” – que trocou as crianças pelos adultos como pacientes porque os problemas derivaram de gente grande.

Vivemos numa sociedade em que muitos adultos depositam, em vários níveis, suas expectativas, seus desejos, seus sentimentos em seu filhos, sobrinhos, enteados. E, com isso, crianças carregam responsabilidades além do compatível, atreladas a cobranças e pressões que representam um passaporte para o mundo adulto bem antes do tempo.

Para manter de pé uma sociedade que cultua aparências no altar, que se alimenta da forma em detrimento do conteúdo, escolhemos fundir faixas etárias, ignorar diferenças culturais ao nível da padronização e minimizar a importância de alterações biológicas. Um sinal vivo nos adultos que se comportam como crianças ou que perseguem a juventude como uma fase de vida inteira. Esta postura tem falhas que cobrarão seu preço, inclusive monetário para bancar as consultas aos especialistas.