sexta-feira, 2 de março de 2012

E o mendigo?


O Ministério Público Federal manteve acesa a história de agressão ao universitário Victor Soares Cunha quando denunciou os cinco jovens por tentativa de homicídio qualificado e pediu a prisão preventiva deles no Rio de Janeiro. O caso aconteceu no início de fevereiro e Victor, que sofreu cirurgia para reconstrução do rosto, se transformou numa espécie de herói por ter defendido um mendigo, vítima inicial dos selvagens.

Neste enredo com cenas repetitivas, quase todo o elenco foi identificado. Promotores de justiça, os agressores (inclusive com apelidos), Victor e o amigo que serviu como testemunha. Até o soldado da Aeronáutica Yuri Ribeiro ganhou um papel de coadjuvante pela truculência na Internet. Pode ser expulso da Força Aérea Brasileira pelo surto de virilidade e valentia no mundo virtual.

Mas e a origem desta história? Neste caso clássico da sociedade do espetáculo, quase todos ganharam minutos no noticiário, fizeram parte da leitura maniqueísta dos fatos e ocuparam os devidos papéis de mocinhos e vilões. Só que há uma exceção, anônima, vista como rodapé de página das reportagens. Quem seria o mendigo?

Ora chamado apenas de mendigo, ora identificado somente como morador de rua, a primeira vítima se tornou uma figurante, sem rosto, nome, passado, opiniões, aparentemente irrelevante para a construção desta salada policial. Às vezes, para se evitar repetições linguísticas, ele é chamado de homem. Nada mais vago, impessoal e genérico.

Os hipócritas poderiam dizer que o lado bom se apoia no fato de que, ao chamá-lo de homem, evita-se classificá-lo entre as prateleiras da marginalidade. Na prática, o que as palavras mudam para alguém que não pode se alimentar delas?

Victor é tratado como um herói. Ele o é, mas este ato heróico deu ao estudante exclusividade no posto de vítima. Na superficialidade dos olhares e discursos, não existe lugar para parceiras ou divisões. Logo, o mendigo teria que desaparecer na página 2.

Desviar das convenções sociais implica em pagar o imposto da insignificância. Ao mendigo, é negado o elemento mais rudimentar da identidade. Ele não tem nome. Por que nomear quem não deveria estar entre nós? É um morador de rua, a quem a história renega, ou é forçada a renegar por conta dos outros sujeitos que a compõem.

Ao mendigo e seus semelhantes, serve como esmola a insistência do cotidiano traçado pelos indiferentes. Desviamos nas calçadas, nos incomodamos com o aspecto animalesco deles. Eles representam a podridão que desejamos jamais alcançar. É a negação por natureza.

Por conta disso, não lhes oferecemos a voz ou o espaço para manifestação. Até a condição de vítima lhe é retirada quando o mendigo se torna apenas uma palavra que se perde no noticiário massificado.

Nem o mundo jurídico, povoado por letras idealizadas, se interessa por ele. A investigação policial se preocupou em localizá-lo? O que ele teria a dizer? Seria mais um ator no processo judicial? Uma testemunha ocular? Ele se tornou dispensável quando vítima (herói) e vilões foram alçados a seus papéis por terceiros. Os eleitos não precisam de concorrência. Quem sabe até não atrapalhasse na condução da estratégia da acusação?

Sabemos que, quanto mais próximo da base da pirâmide social estiver o sujeito, mais invisível ele se torna. Ignorado por instituições, ignorado pelos “cidadãos de bem”, corre o risco de não ser visto sequer pelos próprios pares. Para muita gente, o mendigo não merece a palavra porque não seria capaz de usar com dignidade. Não seria digno da espécie. Não seria da mesma espécie.

Nesta balança adulterada de civilidade, o mendigo não sofreu um ato de violência tão grave quanto o do estudante. Qual o estado de saúde dele? Ele precisou ser hospitalizado? Talvez se tivesse sido incinerado como um indígena ou se fosse tratado como mula, com direito a corda no pescoço, como aconteceu no interior de SP, o mendigo conseguisse participar do noticiário no horário nobre. Ainda assim, pela qualificação social padronizada: mendigo ou morador de rua.

No saldo da tragédia humana, o tratamento dado pelos agressores ao morador de rua se parece com a visão da imprensa. Por que dar voz a alguém que não se encaixa nos padrões, que não possui status suficiente para merecer uma identificação?

A diferença é que os agressores, coerentes com a própria estupidez, optaram por eliminá-lo à força. Os jornalistas o eliminaram com a sutileza das entrelinhas.

Qualquer um sabe que a condição financeira é elemento que diferencia o interesse pelos fatos jornalísticos. Victor é um estudante universitário e sua história ganhou amplitude também por isso. A mesma lógica prevalece no caso dos agressores, bem nascidos, o que se supõe ser uma premissa de civilização e de comportamento adequado. Nada diferente da gélida expressão de horror quando crimes são cometidos por gente de classe média. Dinheiro e caráter, neste sentido, seriam irmãos gêmeos.

Torná-lo inexistente é apenas uma nova forma de agressão, que nos ilude por se negar ofensiva. Engrossa a fileira de violência, de variadas ordens, que endurecem a casca desta vítima obscura.

Agredir com indiferença é eliminar o sujeito em vida, na crueldade do silêncio. Atitude que um humano jamais se acostuma, ao contrário do que os indiferentes creem. O desfecho é a metamorfose do mendigo em figura abstrata, um alívio para a consciência dos espectadores.

2 comentários:

Beth Soares disse...

Um texto perfeito. Uma análise sensata da crueldade que resulta da indiferença. Indeferença da qual também participamos, infelizmente.
Fantástico! Está entre os dez mais!
Beijos.

Anônimo disse...

Marcão

Isso é típico do espetáculo, o herói, o bandido e tudo mais o que estamos carecas de debater e de nada adianta. (Cala-te, boca!). A observação sobre o mendigo daria um filme digno de Buñuel.

Grande abraço, do Márcio.