quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Turista de mim mesmo



Depois de meses em prisão domiciliar e profissional, recebi o indulto de final de ano. Ainda tinha algumas obrigações a cumprir, mas – com os grilhões mais frouxos nos tornozelos – poderia realizar meu sonho de consumo antecipadamente. Os ingredientes já estavam comprados, rastros de anos anteriores, prontos para o ritual de libertação, purificação e exorcismo.

Sentia-me transparente, mais claro que uma cobaia de laboratório. Vivia, dentro de circunstâncias relativas, como um rato que corria na rodinha, no mesmo percurso, na mesma ausência de ponto de chegada. Parar para refletir implicava em flertar com o tombo dentro da gaiola. Quem sabe a grade entortava?

Pensar sobre o passado recente era a única saída para entender que a rodinha não representava o único caminho disponível. A rodinha não poderia ser a única materialização de percurso. Havia, nestes dias, a clareira de areia, o espaço aberto a me aguardar. Sem perguntas, sem desconfianças.

Sentia-me sufocado, após inalar por meses o ar artificial e gelado da máquina condicionada para refrescar. De vez em quando, o ar requentado pela barreira de espigões que lacram minha cidade me impedia de inspirar a maresia dos desejos escondidos na memória da infância.

Esperei o final de tarde. Quase implorava por retomar aquele relacionamento com lentidão, com serenidade, com paciência. Controlar a afobação me protegeria de ferimentos. Esperar me daria mais tempo para entendê-la melhor, compreender se havia mudado, perceber as novas nuances daquele corpo que jamais envelhece.

Com o sol dando avisos de fadiga, apanhei parte do armamento na sala, parte na cozinha e fui para a rua. Quatro quadras de caminhada, levando comigo uma cadeira de praia, um livro recém-escolhido para ser relido e uma garrafinha d’água. Como armadura, um shorts surrado e o chinelo de sempre do último ano.

Depois de meses sob olhares penitenciários, voltei à praia de Santos. Não que tenha saído da cidade. Sem compromissos, sem algo a fazer, apenas o mar como vigilância. E o cheiro salgado dos velhos anos em ressurreição. Para evitar reações irritadiças, o protetor solar com a numeração na fronteira da primeira infância.

Uma hora depois, a tentação da barraca de bebidas reduzia a distância de um suco gelado a zero. A utopia gritava pelo copo meio mate meio abacaxi, mas o ambulante preferira outras freguesias. Na barraca, duas senhoras e um rapaz. Depois de rápida conversa sobre o cardápio, um suco de abacaxi. Enquanto o suco era processado no liquidificador à manivela, o rapaz me perguntou:

— Você é de São Paulo?

A cobaia de laboratório só pôde responder:

— Estou tão branco assim?

Por educação, o rapaz sorriu e permaneceu em silêncio.

Suco de abacaxi em mãos, a volta para a cadeira de praia. O livro me esperava, sem saber que seria devorado em três sessões na praia do Embaré. Dez minutos de leitura foram interrompidos por um turista. Bom, a vestimenta indicava que eu, pelo menos, estava de acordo com o linguajar corporal dos nativos, exceto na tonalidade epidérmica.

O turista, vestindo uma bermuda jeans, retornava do mar. Bermuda jeans e praia indicavam improvisação e perda de pudor. O andar cambaleante entregava a cevada protegida em lata de alumínio como a mandante da transgressão. O turista se aproximou, abandonou temporariamente o gingado etílico, olhou para mim e perguntou:

— Que horas são?

A resposta deu a liberdade para o comentário mais íntimo.

— Você é de onde?

— Daqui.

— Da Baixada Santista?

— De Santos mesmo!

Cortei a conversa. Se a coloração transparente impressionava a visão distorcida do olhar embriagado, era o momento de ir ao mar. Sozinho na água, não pretendia me esconder, mas pedir à Iemanjá por novas colorações. O mergulho selaria a retomada do namoro.

Quando emergi e olhei para a orla da praia, percebi de quem havia me divorciado. O paredão de prédios tontos, exclusividade arquitetônica, ainda que manchada por espigões filhotes da especulação imobiliária. O cheiro indescritível para qualquer cronista, que nos faz ignorar o mar escuro castigado pela irresponsabilidade ambiental. Os canais que demarcam falsas fronteiras de um lugar que não pede conta bancária ou etiqueta no biquíni para dar voz de entrada.

Naquele instante, recuperei uma explicação própria para os colegas de trabalho paulistanos, quando insistia em descer a Serra do Mar todos os dias após horas numa redação de jornal.

— Volto porque preciso sentir o cheiro do mar. Posso não pisar na areia, mas preciso da certeza de que a praia está lá. Esperando sem cobrar pela ausência.

Depois de cinco dias de praia, cinco dias de banho de mar, testemunhei a morte e o silêncio da transparência. O azedume da detenção deu lugar à pele nativa de crocodilo (com certo exagero). E descascar confirmava, em cartório, a certidão de nascimento.

Ilustração: Kitty Yoshioka

Obs.: Texto publicado originalmente no site Jornalirismo.

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