sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O golpe verde


Passadas três semanas, ficou mais cristalino perceber quanto os consumidores foram lesados pelo discurso de preservação ambiental pregado pelas redes de supermercados. Um estelionato social que se manifesta a cada ocasião que um cliente encosta a barriga no caixa e se vê diante da ausência de possibilidades para embalar as compras. O acordo entre as redes e o Ministério Público, na prática, não amenizou o problema. Representou mais um elemento que solidifica a imagem das empresas que lutam, a qualquer preço, por um objetivo: vender e algemar consumidores pela fidelidade cega.

Os supermercados fizeram jogo de cena ao prometerem criar alternativas às sacolinhas plásticas. Quando propuseram uma mudança à ditadura do plástico, fingiram sensibilidade aos problemas ambientais. Utilizaram, levianamente, estatísticas e frases feitas. É claro que somente o consumidor mais ingênuo poderia apostar que as redes não pretendiam lucrar com a linguagem verde, e não me refiro ao custo embutido nas mercadorias, mas à construção de uma imagem cidadã, a ilusão da responsabilidade social.

Trocar as sacolinhas mal arranha a superfície da ferida. Vivemos sob a segurança e a estética das embalagens. Todo o supermercado é um grande invólucro. Há alimentos congelados, por exemplo, que estão cobertos por até três camadas de papel e plástico. Não se compra mercadoria alguma sem a presença destes dois materiais. As embalagens ocupam um lugar coerente com a sociedade que idolatra a aparência. Compramos pelas cores, pelo tipo de letra, por uma frase acolhedora impressa no papel. Embalagens apontam para a sofisticação. Viraram sinônimo de qualidade que se reflete no preço.

É neste ponto que reside uma das contradições do projeto de substituição das sacolinhas. Em Santos, as duas maiores redes destinaram áreas para a retirada de caixas de papelão. A reposição é lenta e, normalmente, não há caixas nos suportes. Os supermercados reiteram a falha quando oferecem caixas de segunda mão, que acondicionaram outros produtos – perigosos para a saúde, eventualmente – sem levar em conta a trajetória destas caixas e, principalmente, as condições de higiene delas.

Muitos consumidores perceberam que podem garantir sua cota de sacolas. Basta ter um chilique na boca do caixa. Na última semana, testemunhei um sujeito esbravejar porque não achava correto misturar alimentos e produtos de limpeza no carrinho. O funcionário caiu na armadilha de oferecer as sacolas de R$ 2, o que aumentou a indignação do cliente e atraiu gente por conta dos gritos e do silêncio da gerência.

Cinco minutos depois, as sacolas plásticas – escondidas em um armário atrás do balcão de notas fiscais – apareceram não só para o consumidor que reclamava de seus direitos como também para os papagaios de pirata, que saíram sorrindo com suas mercadorias embaladas “à moda antiga”.

A medida também despertou a atenção dos concorrentes menores. Em Santos, mercados de bairro mantém a distribuição de sacolas como forma de agradar aos consumidores que resolveram fazer compras de última hora. Em São Paulo, há casos de redes que estamparam placas publicitárias nas quais as sacolas são trabalhadas como diferencial de serviço.

Suspender a entrega de sacolas plásticas sustenta que consciência ambiental ainda é um bibelô de boutique. Entender que o meio ambiente é questão central hoje exige noção de coletividade e buscar tal postura no consumo – marcado pelo individualismo – soa como piada de mau gosto. E os supermercados vão apanhar mais enquanto continuarem petulantes em não assumir que desejam ganhar dinheiro com o egoísmo dos consumidores.

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