sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O golpe verde


Passadas três semanas, ficou mais cristalino perceber quanto os consumidores foram lesados pelo discurso de preservação ambiental pregado pelas redes de supermercados. Um estelionato social que se manifesta a cada ocasião que um cliente encosta a barriga no caixa e se vê diante da ausência de possibilidades para embalar as compras. O acordo entre as redes e o Ministério Público, na prática, não amenizou o problema. Representou mais um elemento que solidifica a imagem das empresas que lutam, a qualquer preço, por um objetivo: vender e algemar consumidores pela fidelidade cega.

Os supermercados fizeram jogo de cena ao prometerem criar alternativas às sacolinhas plásticas. Quando propuseram uma mudança à ditadura do plástico, fingiram sensibilidade aos problemas ambientais. Utilizaram, levianamente, estatísticas e frases feitas. É claro que somente o consumidor mais ingênuo poderia apostar que as redes não pretendiam lucrar com a linguagem verde, e não me refiro ao custo embutido nas mercadorias, mas à construção de uma imagem cidadã, a ilusão da responsabilidade social.

Trocar as sacolinhas mal arranha a superfície da ferida. Vivemos sob a segurança e a estética das embalagens. Todo o supermercado é um grande invólucro. Há alimentos congelados, por exemplo, que estão cobertos por até três camadas de papel e plástico. Não se compra mercadoria alguma sem a presença destes dois materiais. As embalagens ocupam um lugar coerente com a sociedade que idolatra a aparência. Compramos pelas cores, pelo tipo de letra, por uma frase acolhedora impressa no papel. Embalagens apontam para a sofisticação. Viraram sinônimo de qualidade que se reflete no preço.

É neste ponto que reside uma das contradições do projeto de substituição das sacolinhas. Em Santos, as duas maiores redes destinaram áreas para a retirada de caixas de papelão. A reposição é lenta e, normalmente, não há caixas nos suportes. Os supermercados reiteram a falha quando oferecem caixas de segunda mão, que acondicionaram outros produtos – perigosos para a saúde, eventualmente – sem levar em conta a trajetória destas caixas e, principalmente, as condições de higiene delas.

Muitos consumidores perceberam que podem garantir sua cota de sacolas. Basta ter um chilique na boca do caixa. Na última semana, testemunhei um sujeito esbravejar porque não achava correto misturar alimentos e produtos de limpeza no carrinho. O funcionário caiu na armadilha de oferecer as sacolas de R$ 2, o que aumentou a indignação do cliente e atraiu gente por conta dos gritos e do silêncio da gerência.

Cinco minutos depois, as sacolas plásticas – escondidas em um armário atrás do balcão de notas fiscais – apareceram não só para o consumidor que reclamava de seus direitos como também para os papagaios de pirata, que saíram sorrindo com suas mercadorias embaladas “à moda antiga”.

A medida também despertou a atenção dos concorrentes menores. Em Santos, mercados de bairro mantém a distribuição de sacolas como forma de agradar aos consumidores que resolveram fazer compras de última hora. Em São Paulo, há casos de redes que estamparam placas publicitárias nas quais as sacolas são trabalhadas como diferencial de serviço.

Suspender a entrega de sacolas plásticas sustenta que consciência ambiental ainda é um bibelô de boutique. Entender que o meio ambiente é questão central hoje exige noção de coletividade e buscar tal postura no consumo – marcado pelo individualismo – soa como piada de mau gosto. E os supermercados vão apanhar mais enquanto continuarem petulantes em não assumir que desejam ganhar dinheiro com o egoísmo dos consumidores.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A negação pelo invisível


Ao contrário do discurso que se jura inocente na TV, o esporte não é mera brincadeira ou entretenimento. Além do negócio de bilhões de dólares, os esportes profissionais representam – acima de tudo – um termômetro cultural, que concentra formas de pensar, valores, sentimentos, inclusive os perversos, que pareciam (ou deveriam) hibernar nas entranhas de torcedores, atletas e dirigentes.

O racismo é um destes rastros de selvageria cultural que insistem em permanecer nas quadras e campos como reflexo das sociedades que o praticam e, em parte, lutam para combatê-lo; em parte, para negá-lo com feições cínicas de horror.

Dois casos recentes de discriminação resultaram em sanções pontuais, porém incapazes de alterar o estado de coisas, de interferir no esporte como segmento de mercado. Na NBA, a liga de basquete profissional dos EUA, a vítima foi o armador Jeremy Lin, filho de imigrantes de Taiwan. Lin, economista formado por Harvard, é uma das sensações da atual temporada.

Na última sexta-feira, o time do armador, o New York Knicks, perdeu para o New Orleans. Na versão para celulares e tablets, a ESPN – rede norte-americana de notícias esportivas – publicou a manchete: “Chink in the Armor”. Traduzindo: fissura na armadura. Mas o termo “chink” também é utilizado para humilhar imigrantes chineses.

A emissora, depois de criticada, pediu desculpas ao jogador, demitiu um funcionário e suspendeu um de seus âncoras. Outro funcionário, do braço radiofônico, está sob avaliação.

Na Europa, Liverpool e Manchester United disputaram mais uma partida pelo Campeonato Inglês de futebol, na semana passada. O uruguaio Luiz Suaréz, atacante do Liverpool, se recusou a cumprimentar o zagueiro francês Evra, do Manchester. O zagueiro Rio Ferdinand, em solidariedade ao colega, não deu a mão ao uruguaio.

Suaréz havia sido suspenso por oito jogos por ofensas racistas a Evra, chamado de negrito. Por ironia, Evra marcou um dos gols na vitória do Manchester e comemorou em frente ao jogador uruguaio. O técnico do Manchester, Alex Ferguson, afirmou que Suaréz envergonhava o Liverpool. Pressionado ou não, o uruguaio se viu obrigado a pedir desculpas em público no dia seguinte.

Ambos os casos são recentes, estão frescos no noticiário. Mas qualquer pesquisa mais apurada apontaria dúzias de exemplos, inclusive aqui no Brasil. A maioria deles é marcada por punições brandas ou vistas grossas, quando não prevalece a negação das atitudes. Muitas delas são sustentadas na falácia da democracia racial ou na conveniência de um país miscigenado.

No primeiro episódio do Campeonato Inglês, o que provocou a suspensão, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, tentou negar a prática de racismo ao afirmar que tais diálogos são comuns dentro de campo e que não são o que parecem. Seriam carinhos? Gesto de lordes, já que aconteceu em terras britânicas? Blatter acertou em um ponto: infelizmente, são comportamentos recorrentes no futebol.

O dirigente somente se esqueceu de que a entidade na qual preside nunca combateu com veemência situações de racismo, que se acumulam em países como Espanha, Rússia, Polônia, Itália, apenas para se limitar a endereços onde brasileiros foram chamados de macacos.

Virar as costas para a discriminação racial funciona como a estratégia mais eficiente dos agressores. Campanhas publicitárias eximem os omissos se deslocadas de punições contundentes.

Nestas duas histórias, a resposta se deu de maneira imediata por conta da ressonância elevada na mídia. Os agressores foram expostos até porque vomitaram publicamente seus preconceitos, talvez crentes na impunidade ou cegos pela ilusão da naturalidade de seus atos.

O esporte também se vê de mãos atadas diante de um problema que nasceu e cresceu fora dele. O racismo é uma chaga cultural que se faz presente, por exemplo, em todos os conflitos bélicos de hoje. Direta ou indiretamente, age silenciosamente nas relações sociais. Um estádio ou um ginásio catalisam este comportamento que traduz a intolerância e a dificuldade de lidar, compreender, respeitar e conviver com quem pensa ou simplesmente é diferente no tom da pele, na condição social ou na origem geográfica.

O esporte profissional, quando se transforma em palco de manifestações racistas, além de se eximir das próprias responsabilidades, se solidifica como motor que renova forças para quem não vê a discriminação como uma violência.

Negar o racismo é perpetuar as algemas nos pulsos de quem é visto como ameaça, como inferior na capacidade física ou intelectual ou como usurpador de empregos em tempos de globalização das equipes e dos torneios.

Pensar no esporte profissional como uma brincadeira é desejar a transformação do lúdico em máscara para a agressividade humana. O esporte como mercado é demasiado exposto para não se enxergar como referência para a observação de atos e discursos criminosos.

No futebol, as confederações – via de regra – fingem se subestimar para não mexer numa ferida que poderia atrapalhar a expansão dos negócios. Antes de escondê-la com curativos, a ferida traz a cara da omissão, que significa mais do que uma falha no entendimento do racismo como um tumor. Significa cumplicidade diante de um entretenimento que forma e reproduz perspectivas de mundo, traduzidas em violência perpetrada por gente que integra, em definitivo, do espetáculo.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O supermercado de homens



Sempre acreditei que a seleção brasileira de futebol deveria ser a terra dos melhores, dos jogadores – no mínimo – excelentes. É claro que, nos últimos 15 anos, fiz vistas grossas para convocações estranhas de atletas que seriam vendidos, a toque de caixa, para mercados igualmente esquisitos. Jogadores que nunca mais seriam lembrados, inclusive pelo técnico que os convocou e – involuntariamente? – entrou na cadeia alimentar do negócio.

A seleção brasileira atual se assumiu como armazém de secos e molhados. Os critérios estão longe da transparência, as explicações do técnico Mano Menezes seguem paradoxais, atletas esquecidos ganham mais destaque do que os convocados e o time-base não existe na imaginação do mais patriótico torcedor.

O próprio coordenador de seleções, Andrés Sanchez, pediu que Mano parasse a fase de testes após quase 100 nomes chamados para treinar, viajar e talvez jogar, em partidas caça-níqueis contra Gabão e Bósnia, por exemplo. Até a partida contra Portugal, com vitória por 6 a 2, ganhou caráter duvidoso ao escancarar as portas do escândalo de empresas fantasmas e superfaturamento de dinheiro.

Mas pensemos na última convocação, para o amistoso contra a Bósnia, no final do mês. É evidente que todo técnico tem suas preferências e que sempre haverá um ou outro nome em discussão. Em 1990, Sebastião Lazaroni levou Tita – em final de carreira – e Bismarck, somente um bom jogador de clube. Por outro lado, Luiz Felipe Scolari provou que estava certo em não chamar Romário para a Copa do Mundo de 2002.

Parreira fez o contrário e acertou ao convocá-lo nove anos antes. Dunga também assinalou a alternativa correta quando demonstrou que Ganso, por enquanto, ainda é um atleta de clube.

A sensação que me incomoda é o fato de Mano Menezes, em suas listas, reiterar a entressafra que acomete o futebol nacional. As convocações estão recheadas de jogadores de melhores momentos da rodada, reservas de clube de grande expressão na Europa ou titulares de centros de segunda linha. Não é possível perceber quem são os titulares do meio-campo e do ataque.

Apenas o goleiro e a defesa mantém a regularidade, o que – de certa forma – simboliza a época das vacas magras, em um futebol onde é tradição sobrar opções entre meias e atacantes.

O volante Sandro aparece na última convocação. Ele jogou somente 75 minutos pelo Tottenham na atual temporada inglesa. O lateral Adriano, do Barcelona, é figurinha carimbada do grupo atual. Adriano atuou em apenas oito jogos da temporada espanhola.

Outra dúvida é a relação “afetiva” entre Mano Menezes e o Shaktar Donestk, da Ucrânia. Sempre aparecem atletas deste clube, sem tradição no cenário europeu, entre os convocados. Antes, o meia Jádson, hoje no São Paulo, e esquecido pelo técnico. O volante Fernandinho é o “queridinho” da vez. Será que não temos volantes melhores?

Entre os meias, Mano Menezes justificou a ausência de Kaká, afirmando que o meia do Real Madrid não o havia agradado nas últimas partidas. E Ronaldinho Gaúcho, que se arrasta no Flamengo? O técnico da seleção acompanhou os últimos jogos do meia, contra times pequenos da elite carioca?

Ganso, embora tenha arrebentado neste final de semana no Campeonato Paulista, apresentou irregularidades no início da temporada. O jogador do Santos terá mais uma oportunidade, ainda mais contra um adversário frágil, para ser goleado. A impressão é de que a justificativa ignora os vários pesos e medidas das listas.

Entre os atacantes, o Brasil não possui, no futebol europeu, jogadores melhores do que Jonas, do Valência? Hulk, do Porto, só conseguiu mostrar boa vontade. Até Robinho, que entra e sai do Milan, não estaria melhor do que ambos?

A quantidade de exemplos – que não sustenta a subjetividade das convocações – ganha reforço quando não se observa o planejamento que envolveria a seleção olímpica, a meses dos jogos em Londres. Não há uma equipe-base, e sim atletas chamados para compor o banco ou jogar alguns minutos diante de adversários de qualidade duvidosa.

Creio que seria mais produtivo que ficasse claro quem é a seleção olímpica e quem é a seleção principal. Convivência com colegas mais experientes em hotéis, aeroportos e vestiários não forma uma equipe entrosada e que pretende ser definitiva. Neymar e mais 10 é muito pouco para quem deseja uma medalha.

O modo de trabalhar do atual técnico, infelizmente, consolida a seleção brasileira como um balcão de negócios, que cultiva a imagem blasé diante da Copa do Mundo em casa. Uma postura de quem pode ganhar quando e aonde quiser. Numa fase de pouco frutos, a árvore pode apodrecer e tombar mais rápido do que se espera, e dentro do próprio quintal.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O animal político



Clooney, com Ryan Gosling, em Tudo pelo Poder


George Clooney é um sobrevivente. Aos 50 anos, o ator consegue ser um dos poucos que produz e pensa política dentro da indústria cinematográfica. Ele o faz sem poupar adversários e, principalmente, sem duvidar das próprias crenças.

A estratégia, segundo o próprio ator e diretor, é mesclar roteiros comerciais – ainda assim inteligentes – com produções mais profundas e críticas, nas quais Clooney permite que a história fale por si mesma. O exemplo mais recente é “Tudo pelo Poder”, em que adota uma tática semelhante à primeira experiência política como cineasta, quando dirigiu “Boa Noite, Boa Sorte”, em 2005, pelo qual recebeu a indicação de melhor diretor no Globo de Ouro e no Oscar.

As semelhanças são variadas. Ambas as temáticas são espinhosas para o passado recente dos Estados Unidos. “Tudo pelo poder” conta a história de um jornalista que se vê envolvido em intrigas quando é contratado para trabalhar nas prévias da campanha presidencial. O jornalista, interpretado por Ryan Gosling, um dos principais atores do cenário atual, assessora um governador que disputa as prévias do Partido Democrata.

O filme, sólido em questionar os procedimentos do marketing político, não poupa os democratas ao aproximá-los dos republicanos em propostas, jogos de bastidores, negociatas por apoio e votos nas prévias. Clooney apóia o partido e levantou a bandeira de Barack Obama nas últimas eleições.

Outro mérito é que Clooney não se incomoda em servir de escada para colegas. Em “Boa Noite, Boa Sorte”, George Clooney se escondeu no papel de coadjuvante, investindo-se na construção de um personagem com as contradições e receios de um sujeito comum. Ele é o principal produtor do programa de notícias da CBS, que comprou uma briga com o senador Joseph Mc Carthy, no auge da caça às bruxas comunistas, na década de 50.

A trama, baseada em fatos reais, mudou a imagem do jornalismo de TV, fragilizou a paranóia em enxergar multidões de comunistas em todos os setores da indústria cultural e revelou o despreparo dos parlamentares envolvidos na investigação, em plena Guerra Fria.

Em “Tudo pelo poder”, Clooney também fica com o segundo posto, o do governador. Inicialmente, um personagem comprometido com a política, que se revela muito parecido com seus colegas engravatados que estamos acostumados a ver. Fora que possui um segredo da vida privada que poderia inviabilizar sua candidatura. Na cultura política norte-americana, o eleitor comum dá mais valor às ações de seus representantes entre quatro paredes do que para deslizes ou benfeitorias públicas. Bill Clinton é um ícone recente desta mentalidade.

A trajetória cinematográfica de George Clooney mudou de rumo quando ele se associou ao diretor Steven Soderbergh na criação de uma produtora, em 2000. A partir daí, o ator passou a alternar produções comerciais tradicionais, como a série “Onze Homens e Um Segredo”, com filmes políticos. Levou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor ator coadjuvante em 2006 por Syriana, excelente filme que cutuca as entranhas da indústria do petróleo.

Mesmo em produções aparentemente inofensivas, Clooney prova que as escolhas costumam ser acertadas. Aí, entra – em camadas mais profundas de percepção – o debate social, que pode ser travestido de comédia ou drama familiar. “Amor sem escalas”, por exemplo, finge ser uma comédia romântica, mas apresenta diálogos bem acima das demais obras do gênero. Coloca na pauta a solidão, os relacionamentos líquidos e as esquizofrenias do mundo corporativo. A coerência se mantém em “Os Descendentes”, que transita para construção idealizada de família e casamento, além da relação entre pais e filhos adolescentes.

George Clooney consegue fazer em Hollywood o que poucos arriscariam ou teriam competência em executar. Sean Penn e Clint Eastwood são dois outros casos de mentes criativas dispostas a desnudar a sociedade norte-americana, com seus conflitos, paradoxos, hipocrisias e desejos.

Clooney se junta a eles quando representa um oásis dentro de um deserto de padronização, superficialidade, escravidão comercial e desprezo pela inteligência do espectador. Em ano de eleições, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, “Tudo pelo poder” é uma análise profunda sobre a estrutura que cerca a disputa por votos. Uma reflexão que, por vezes, você não encontra no noticiário do horário nobre ou nas páginas de jornais.



Obs.: Texto publicado originalmente no site Cinezen

Adeus ao trovador


Santos, fascinada pela galinha dos ovos de petróleo e boquiaberta diante dos espigões artificiais, talvez não perceba a perda que se deu na última semana. Perda que esfaqueou a cultura da cidade, mas minúscula para os que compartilham do sonho megalomaníaco de falso progresso. Poucos enxergarão a melancolia entre os artistas, como resposta crítica e anônima aos incômodos, injustiças e infelicidades do cotidiano.

A morte de Zéllus Machado, aos 53 anos, nocauteou, temporariamente, quem se sensibiliza com a cultura caiçara. Mais do que isso, com a cultura popular em Santos. Cantor, compositor, poeta e ator, Zéllus representava um dos maiores símbolos da arte como centro de contestação, como olhar inquieto das fragilidades sociais, como voz sincera que persiste em chocar os confortáveis, fragilizar as certezas, fortalecer as perguntas tão indecorosas quanto decisivas para o crescimento humano.

Quando me lembro de Zéllus Machado, vejo um violão em seus braços. Era a marca registrada do trovador, sempre a postos para outro verso, mais uma palavra sarcástica, um texto para balançar as convenções. A primeira vez que o vi foi na ante-sala do Teatro Municipal de Santos. Ele interpretava um cafetão numa cena que antecedia uma encenação de Plínio Marcos.

O aperitivo foi mais indigesto do que o prato principal. Não que provocassem impactos diferentes, mas de Plínio Marcos todos sabiam o que esperar. A virulência do cafetão transcendia a violência e a opressão de mulheres. Zéllus incorporava o machismo como produto de exportação, cru a ponto de nos esquecermos de que era um cafetão quem nos dava os recados.

Zéllus gostava da rua, da aproximação improvisada com o público. Não se escondia nas coxias e nos camarins. Como um menestrel, tinha na ponta da língua o discurso que se encaixaria na balança dos ouvintes, para desequilibrá-la, para acrescentar novos valores, para refazer suas medidas.

Zéllus fez parte de um grupo de artistas que se renovam como reação visceral aos males que os machucam, alheios ou não. Um grupo que flerta com a arte como política em essência, sem se render à primeira oferta comercial ou às tendências que transformam a cultura em bibelô da sala de estar.

Zéllus entendia a cultura como alimento único para a sobrevivência de uma sociedade. O violão era o antídoto para as leituras apressadas e consumistas das relações humanas. O humor apequenava a intolerância, o preconceito e a ostentação social que, por vezes, padronizam manifestações artísticas em embalagens de politicamente correto.

Não via Zéllus Machado há algum tempo. Conhecia o artista e, desta maneira, foi a última vez que o encontrei. Aliás, ele transpirava seu papel de artista de tal forma que o homem e seus obstáculos subjetivos permaneciam encolhidos, silenciosos em algum canto daquele corpo de personagem que ocupava espaços, com sede de protagonismo.

Quando o assisti pela última vez, carregava seu violão por diversos quartos de um antigo casarão da rua General Câmara, no Centro. Era uma peça composta por cenas independentes, cada uma delas coerente com os cômodos da casa-cenário. Zéllus transitiva pelos espaços para reiterar o ar rodriguiano que sufocava e aliviava o espetáculo.

A ausência de Zéllus Machado precisa servir de alerta diante da encruzilhada cultural desta cidade. A perda de um símbolo deve nos guiar para entendermos qual cidade-cultural desejamos abraçar. Se formos inteligentes, perceberemos que a obra de Zéllus fala por si mesma como resposta.

Em tempo: Zéllus Machado será o homenageado no Festival Santista de Teatro Amador deste ano. Nada mais justo. nada mais coerente. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os magos das finanças


Você trabalha em uma empresa há oito anos. É reconhecido no local por colegas e chefes, possui a melhor estrutura disponível e recebe inúmeras regalias que transcendem o salário mensal. Os clientes te adoram.

Os convites aparecem a cada início de ano. Você pondera sobre as possibilidades e sempre recusa, porque ninguém te dará o pacote de benefícios. Quando era mais novo, a inexperiência te fez mudar de empresa por um curto período. Voltar às origens pesou, naquela época, mas não o suficiente para mantê-lo lá. Você retornou à companhia que te levou ao auge.

No mês passado, outro convite para trocar de endereço. Salário mais baixo, estrutura inferior, equipe em reformulação, com muitos funcionários acomodados que alimentam diferenças internas. Muitas das desavenças vazaram além dos muros da empresa, o que gerou constrangimentos públicos.

A empresa autora do convite prima pela insistência e abusa do sentimentalismo hipócrita para te seduzir para o novo emprego. Tudo para mascarar um problema grave: os salários atrasam constantemente. O 13º, por exemplo, não foi pago nos prazos combinados. Um dos colegas pediu demissão por cansaço. Ele estava cansado de ouvir promessas de pagamento em dia ou do depósito de vale na conta bancária às sextas-feiras.

A situação da empresa não representa exceção. Um dos maiores concorrentes enfrentou greve de funcionários e queda de produtividade por conta de salários atrasados. Alguns colegas mudaram de emprego e de cidade sem receber o que lhes era de direito.

Diante dos fatos, a pergunta: você aceitaria a proposta, consciente de que, em muitas ocasiões, fará trabalho voluntário? Apesar de se sentir seguro financeiramente por causa da reservas que construiu ao longo dos anos, você sabe que muitos dos novos companheiros de trabalho iniciam agora a carreira e talvez te peçam ajuda para pagar as despesas mais imediatas? E você tem consciência de que a empresa tratará o assunto com normalidade?

Esta história poderia ser protagonizada pelo atacante Vagner Love, do Flamengo. O concorrente seria o Vasco da Gama. Neste espaço, são raras as vezes em que escrevo sobre futebol. No entanto, o futebol é termômetro de como a sociedade brasileira se comporta em vários aspectos da vida cultural.

Vivemos uma euforia induzida e nociva de que estamos prontos para sediar eventos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. A situação dos clubes cariocas, por exemplo, é apenas um micro-sintoma de como nos relacionamos de maneira amadora, promíscua e ingênua como este esporte.

Futebol não se limita a pagar um ingresso, sentar no concreto ou postar-se diante da TV com uma lata de cerveja na mão. Compartilhamos de uma ilusão oferecida por clubes à beira da falência, endividados até a alma e escravos de emissoras de TV, que ditam regras e comandam a organização.

Acreditamos, como crianças boquiabertas em loja de brinquedos, que podemos realizar uma Copa do Mundo com a infra-estrutura para prover uma vida decente depois do evento. Alguma obra já foi entregue? Muitas ainda adormecem no papel, um panorama de negligência e desfaçatez no qual a crise financeira dos clubes – não apenas os cariocas, que estouraram a tampa da panela – é um elemento que compõe a mentalidade do futebol nacional.

O irônico é que Santos também vende um clima de Copa como se nos fosse entregar um produto que não passa de um nome, sem embalagem, ingredientes, pontos de venda e até potenciais fornecedores. Infelizmente, este ufanismo virou comportamento adquirido de uma cidade que espera, espera, espera e se julga tão especial pelos potes de ouro ainda inexistentes.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Turista de mim mesmo



Depois de meses em prisão domiciliar e profissional, recebi o indulto de final de ano. Ainda tinha algumas obrigações a cumprir, mas – com os grilhões mais frouxos nos tornozelos – poderia realizar meu sonho de consumo antecipadamente. Os ingredientes já estavam comprados, rastros de anos anteriores, prontos para o ritual de libertação, purificação e exorcismo.

Sentia-me transparente, mais claro que uma cobaia de laboratório. Vivia, dentro de circunstâncias relativas, como um rato que corria na rodinha, no mesmo percurso, na mesma ausência de ponto de chegada. Parar para refletir implicava em flertar com o tombo dentro da gaiola. Quem sabe a grade entortava?

Pensar sobre o passado recente era a única saída para entender que a rodinha não representava o único caminho disponível. A rodinha não poderia ser a única materialização de percurso. Havia, nestes dias, a clareira de areia, o espaço aberto a me aguardar. Sem perguntas, sem desconfianças.

Sentia-me sufocado, após inalar por meses o ar artificial e gelado da máquina condicionada para refrescar. De vez em quando, o ar requentado pela barreira de espigões que lacram minha cidade me impedia de inspirar a maresia dos desejos escondidos na memória da infância.

Esperei o final de tarde. Quase implorava por retomar aquele relacionamento com lentidão, com serenidade, com paciência. Controlar a afobação me protegeria de ferimentos. Esperar me daria mais tempo para entendê-la melhor, compreender se havia mudado, perceber as novas nuances daquele corpo que jamais envelhece.

Com o sol dando avisos de fadiga, apanhei parte do armamento na sala, parte na cozinha e fui para a rua. Quatro quadras de caminhada, levando comigo uma cadeira de praia, um livro recém-escolhido para ser relido e uma garrafinha d’água. Como armadura, um shorts surrado e o chinelo de sempre do último ano.

Depois de meses sob olhares penitenciários, voltei à praia de Santos. Não que tenha saído da cidade. Sem compromissos, sem algo a fazer, apenas o mar como vigilância. E o cheiro salgado dos velhos anos em ressurreição. Para evitar reações irritadiças, o protetor solar com a numeração na fronteira da primeira infância.

Uma hora depois, a tentação da barraca de bebidas reduzia a distância de um suco gelado a zero. A utopia gritava pelo copo meio mate meio abacaxi, mas o ambulante preferira outras freguesias. Na barraca, duas senhoras e um rapaz. Depois de rápida conversa sobre o cardápio, um suco de abacaxi. Enquanto o suco era processado no liquidificador à manivela, o rapaz me perguntou:

— Você é de São Paulo?

A cobaia de laboratório só pôde responder:

— Estou tão branco assim?

Por educação, o rapaz sorriu e permaneceu em silêncio.

Suco de abacaxi em mãos, a volta para a cadeira de praia. O livro me esperava, sem saber que seria devorado em três sessões na praia do Embaré. Dez minutos de leitura foram interrompidos por um turista. Bom, a vestimenta indicava que eu, pelo menos, estava de acordo com o linguajar corporal dos nativos, exceto na tonalidade epidérmica.

O turista, vestindo uma bermuda jeans, retornava do mar. Bermuda jeans e praia indicavam improvisação e perda de pudor. O andar cambaleante entregava a cevada protegida em lata de alumínio como a mandante da transgressão. O turista se aproximou, abandonou temporariamente o gingado etílico, olhou para mim e perguntou:

— Que horas são?

A resposta deu a liberdade para o comentário mais íntimo.

— Você é de onde?

— Daqui.

— Da Baixada Santista?

— De Santos mesmo!

Cortei a conversa. Se a coloração transparente impressionava a visão distorcida do olhar embriagado, era o momento de ir ao mar. Sozinho na água, não pretendia me esconder, mas pedir à Iemanjá por novas colorações. O mergulho selaria a retomada do namoro.

Quando emergi e olhei para a orla da praia, percebi de quem havia me divorciado. O paredão de prédios tontos, exclusividade arquitetônica, ainda que manchada por espigões filhotes da especulação imobiliária. O cheiro indescritível para qualquer cronista, que nos faz ignorar o mar escuro castigado pela irresponsabilidade ambiental. Os canais que demarcam falsas fronteiras de um lugar que não pede conta bancária ou etiqueta no biquíni para dar voz de entrada.

Naquele instante, recuperei uma explicação própria para os colegas de trabalho paulistanos, quando insistia em descer a Serra do Mar todos os dias após horas numa redação de jornal.

— Volto porque preciso sentir o cheiro do mar. Posso não pisar na areia, mas preciso da certeza de que a praia está lá. Esperando sem cobrar pela ausência.

Depois de cinco dias de praia, cinco dias de banho de mar, testemunhei a morte e o silêncio da transparência. O azedume da detenção deu lugar à pele nativa de crocodilo (com certo exagero). E descascar confirmava, em cartório, a certidão de nascimento.

Ilustração: Kitty Yoshioka

Obs.: Texto publicado originalmente no site Jornalirismo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Consumo em três atos

Primeiro ato. Uma psicóloga contratou uma empresa para reformar o piso do apartamento. O proprietário, com outra obra simultânea, largava o serviço por até três horas. Ausente, deixava, às vezes, dois funcionários no local. No momento em que a reforma alcançou um dos quartos, ela estranhou o silêncio do trabalho. Ao entrar no cômodo, viu ambos dormindo. Surpresa, ela perguntou se havia falta de material ou de equipamento. Diante da negativa, restou a eles retornar ao serviço. A obra foi entregue com dias de atraso.

Segundo ato. Uma amiga estava de mudança e precisava fechar o buraco do aparelho de ar-condicionado antes de entregar o apartamento à imobiliária, em São Vicente. Depois de procurar dois profissionais, encontrou o preço mais barato: R$ 250. Meia hora de trabalho para fechar um buraco na parede. Ela apelou para o pai, que executou o serviço.

Terceiro ato. Vinte e cinco pessoas se reúnem para a comemoração de formatura numa pizzaria de Santos. Dois garçons decidem, à revelia dos clientes, dividir o grupo em cinco mesas. No final da comemoração, as contas foram entregues em separado. Um dos grupos teria pedido quatro doses de cuba libre. As bebidas foram cobradas de duas “mesas” diferentes.

Os garçons insinuaram que os clientes tentavam enganar o caixa. Depois de uma primeira discussão, a conta foi reduzida em R$ 40. Quando uma das clientes conferiu a conta novamente, percebeu que o restaurante cobrava quatro cervejas a mais. Novamente questionados, os garçons levaram o caso à gerência. Neste momento, os clientes já estavam fora da mesa, diante do caixa. A gerente não conferiu a conta e gritou para o caixa:

- Desconta as cervejas deles, porra!

O tom de voz da gerente indicava que fazia um favor aos fregueses. A conta caiu mais R$ 25. Nenhum equívoco foi reconhecido pela pizzaria.

Os três casos aconteceram nos últimos 30 dias e mostram como as relações entre empresas, prestadores de serviço e consumidores ainda permanecem sob conflito. É claro que a implantação do Código de Defesa do Consumidor, há 20 anos, representou um divisor de águas neste casamento.

A evolução evidencia o consumidor mais consciente de quem deve procurar quando se sente lesado. Por outro lado, muitas empresas e prestadores de serviço apostam na ingenuidade e na desinformação dos clientes para empurrar produtos inferiores às promessas feitas na venda.

Uma grande empresa de varejo, por exemplo, engrossou a lista de reclamações em Procons depois da liquidação, entre o Natal e o reveillon. A esmola foi tanta e, como ninguém desconfiou, muitos consumidores abriram as caixas em casa com peças em falta ou defeitos em série.

Muitas empresas, sedentas de vender a qualquer ou com qualquer preço, se sentem como se prestassem caridade aos fregueses. Um favor que inclui omissão, falta de educação de funcionários ou descaso com a entrega. Quantas vezes você esperou horas por um prestador de serviços que não apareceu? Quantas vezes você comprou uma mercadoria e, ao perguntar sobre o horário de entrega, ouviu como resposta: horário comercial?

Esta postura conta, de certa forma, com a conivência dos consumidores, que não percebem que ações coletivas obtém resultados melhores. Comprar em grupo na Internet, atrás de descontos generosos, não serve como referência. Somente reforça o individualismo que ratifica o comportamento predador de muitas empresas. A lei é sólida e nos protege, mas falta aos envolvidos absorvê-la como mentalidade e não apostar na impunidade nas relações comerciais.