sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O porrete e a política

Quando um grave problema social é explorado como novela política-eleitoral, o noticiário se transforma em peça de ficção, com blefes, falsas reviravoltas e, principalmente, cenas de surrealismo. As ações na região da Cracolândia, em São Paulo, servem como exemplo para um roteiro de má qualidade, com clímax e desfecho previsíveis.

O governador Geraldo Alckmin, como médico de formação, agiu como político de carteirinha. O problema não representa novidade alguma, nem para ele, nem para nós, assim como as reações óbvias de quem não compreende o cenário e reage conforme a correnteza política.

O primeiro item da prateleira de surrealismo é o próprio nome do local. Parece que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o governador foram apresentados, logo após o réveillon, à Cracolândia. Se ganhou um nome, é preciso dizer que foi incorporado à rotina da cidade?

O porrete virou cartão de visitas para esvaziar a área imediatamente. Dispersar os usuários de crack (uma doença nacional, aliás) não os fazem desaparecer como mágica. Pelo contrário, amplia as dificuldades de ações efetivas para combater o tráfico, tratar os viciados e revitalizar o local.

Embora o governador tenha declarado que não faria uso político do tema, Alckmin expeliu promessas que incluíam – finalmente – atos de saúde pública. Quase acreditei que ele estivesse em campanha eleitoral, ao ver o pacote de milagres.

Como o Governo do Estado vai dobrar, da noite para o dia, o número de vagas para atendimento de usuários? Como criará 400 vagas em curto prazo? A Polícia Militar, subordinada ao Governo do Estado, vale lembrar o óbvio, prometeu instalar três bases comunitárias na região. Por que não pensou nisso antes de agir como se estivesse em guerra civil?

O crack engrossou a lista de assuntos que motivam picuinhas entre tucanos e petistas. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também fez a visitinha tradicional para prometer, sem assinar: R$ 6,4 milhões para tratamento. Enquanto isso, os tucanos afirmam que a Cracolândia nasceu na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy. Os petistas culpam o PSDB, que governa São Paulo há 17 anos. Ambos poderiam morrer abraçados na falta de planejamento, na inércia em implantar políticas públicas e no desprezo pelas pessoas que, em tese, são invisíveis como cidadãos.

Não é a primeira vez que a Cracolândia explode aos olhos da mídia e dos burocratas engravatados. Em 2009, a Polícia Militar já havia dispersado os usuários. O que foi feito posteriormente? Nada. Apenas conversas, promessas, transferência de responsabilidade.

O crack não é um mal exclusivo da capital paulista. Em Santos, vivemos quadro semelhante, guardando as devidas proporções. É notório que há, pelo menos, seis pontos de consumo da droga. Os principais ficam nas imediações do Orquidário Municipal, em vários trechos da linha do trem e na praça do INSS, na Aparecida.

Promessas também foram feitas, como unidades móveis para acompanhamento de usuários e leitos para internação em hospitais da cidade. Na prática, o jogo de gato e rato entre usuários, guardas municipais e policiais militares, no qual a principal moeda de barganha é a truculência.

De olhos nas urnas, os políticos, ainda que escondam seus porretes, garantem que a Cracolândia significa águas passadas. Como sugestão, vamos esperar seis meses. O que vai acontecer até lá? Será difícil de adivinhar?

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