quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O dia em que Sherlock Holmes virou o touro do sertão

Os apaixonados sentem antes da hora. Os apaixonados sentem quando a hora da mudança se aproxima. Gritam e pulam quando o desejo está prestes a se realizar.

- Torô, torô, torôoooo!!!

Restaram cinco minutos para o término do jogo. O time da casa tem uma falta na entrada da área adversária, daquelas que não se transformaram em pênalti por causa de um metro. Talvez fosse a última chance de evitar a primeira derrota do ano.

Alain Delon, nome de ator francês, mas jogador de futebol baiano, eterna promessa do Vitória de Salvador, partiu para a bola. Ele é a estrela do clube, visto como o homem diferenciado, pelo menos ali naquele estádio.

Quando o astro bateu, o enredo correu em câmera lenta. O goleiro adversário ameaçou saltar no canto direito, mas congelou pelo caminho. Gol do Fluminense. 1 a 1. Um gol que aliviou o cheiro de fracasso de bilheteria dentro de casa e manteve o elenco entre os quatro primeiros do campeonato, posição que assegura vaga nas semifinais.

Voltei a um estádio depois de um ano. E não fui acompanhar o tricolor carioca, embora muitos torcedores vestissem a tradicional camisa verde, branco e grená. Testemunhei a partida do primo Fluminense de Feira de Santana, que enfrentou o Serrano pela terceira rodada do Campeonato Baiano.

A última vez que visitei um campo de futebol foi no final de 2010. Aliás, a primeira partida em que levei minha filha Mariana. Fomos acompanhar Portuguesa Santista e Força Sindical. A Briosa é meu time de coração e o segundo amor de milhares de santistas. Não um amante, mas a amiga de muitos anos, um afeto quase fraternal.

Vi a Portuguesa empatar em 1 a 1 e morrer abraçada com o adversário. Ambos caíram para a quarta divisão do Campeonato Paulista.

Confesso que tenho atração por jogos improváveis. Aquelas partidas cujos gols não serão exibidos na hora do almoço em rede nacional ou que receberão cobertura limitada em sites e jornais. E assistir a Fluminense e Serrano foi um programa improvável para quarta-feira à noite. Só se fala no irmão caçula do tricolor. O Bahia de Feira é o atual campeão baiano e lidera a edição deste ano. Venceu todos os três confrontos.

A ideia inicial era ir ao cinema, dentro de um shopping em Feira de Santana. Na boca da bilheteria, descobrimos que não havia mais ingressos. Sala lotada. O que fazer? Ver uma animação ou voltar para casa. Ainda estávamos com caras de decepção quando Rômulo – que acompanhava o jogo Bahia pelo rádio – sugeriu:

- Vamos ver o jogo do Fluminense?

Qual o adversário? Ninguém sabia. Itabuna? Juazeiro? Depois de 10 minutos, a resposta via rádio: Serrano! Honestamente, qual diferença faria diante das duas opções anteriores? Ninguém conhecia jogador algum do Serrano. Eu, por exemplo, havia descoberto que time fazia parte da primeira divisão duas horas antes, quando lia o noticiário esportivo local.

O jogo havia começado. Chegamos no final do primeiro tempo. Na bilheteria, um garoto, sonhando com um espetinho de churrasco, alertava:

- Por que vão ver o jogo? Paga um churrasquinho, tio.

Pagamos R$ 10 para entrar. Os portões já estavam fechados. Batemos no portão principal para entrarmos. Os torcedores xingavam dentro do banheiro, na porta do vestiário, nos corredores de acesso às arquibancadas, em frente às cadeiras numeradas.

- O Fluminense não tem time, dizia um deles.

Quando nos acomodamos na arquibancada e olhamos para o placar eletrônico, entendemos o óbvio. Era intervalo de jogo. O Serrano vencia por 1 a 0. Na primeira partida em casa, o Fluminense apenas empatara. Agora, perdia para um adversário mais fraco e acuado na defesa.

Não vou me aventurar a fazer análises de um jogo em que a maioria dos torcedores sequer conhecem os protagonistas, exceto um ou outro amigo de Feira de Santana, mas estes vão me perdoar pela omissão parcial. Parcial porque me atrevo a dizer que o segundo tempo foi a marca do futebol nacional: correria, chutões para a área adversária, força física, muitas faltas e poucas oportunidades de gol.

Por isso, observar os torcedores era um prato mais suculento, concorrente de sorveteiros, vendedores de amendoins, água e refrigerantes. Um dos torcedores, na casa dos 60 anos, vibrou como um gol quando se pedido foi atendido. O juiz parecia ter ouvido o recado. O goleiro do Serrano levou cartão amarelo por retardar o jogo.

O Fluminense de Feira é uma espécie de segundo time de muitos moradores da cidade. Bastava ver o desfile de camisas do Flamengo, Vasco, Bahia e Vitória, entre outras equipes médias e grandes.

Diante do fracasso do time da casa, outros torcedores apelavam para o passado. Como um senhor que enaltecia o amigo ao lado:

- Este aqui jogou no Fluminense de Feira. Isso quando o Fluminense tinha time.

Tinha também o torcedor que gritava clichês:

- Este jogo está duro ... duro de assistir.

Nestas horas, penso na frase do amigo José Roberto Torero:

- Frases feitas foram feitas para serem usadas.

Duras também eram as arquibancadas, como na maioria dos estádios brasileiros. Para se defender do concreto, alguns torcedores transitavam com travesseiros. Poderiam usá-los talvez para dormir diante da partida sonolenta, mas preferiram assistir ao jogo com o mínimo de conforto.

Para segurar a fome no estádio, nada de pernil e cachorro quente, comuns nos estádios de São Paulo. Ali, reinavam o acarajé, vatapá e a cocada. Independentemente do cardápio, optei por seguir em jejum. Confiar em comida de estádio é como acreditar que treinador muda o placar durante a partida.

Fluminense e Serrano foi o melhor filme que poderia ver nesta noite. Não importa a qualidade do elenco, dos diretores ou da produção. No estádio Jóia, o roteiro teve reviravoltas, clichês e desfecho imprevisível, com interferência direta dos figurantes, que tomaram as rédeas da narrativa com os gritos de incentivo ao Touro do Sertão.

Por força das circunstâncias, o filme Sherlock Holmes 2 – O jogo das sombras, em cartaz no shopping center, acabou como coadjuvante de luxo e – quem sabe? - será visto em outra sessão.

3 comentários:

Renato SIlvestre disse...

Muito bom, Marcão!
Esse aí é o verdadeiro futebol brasileiro. Aquele que não se vê na TV, não tem gol no Fantástico ou jogadores milionários. Deve ter sido uma experiência antropológica fantástica, não é?! rssr

Abraço.

Marcus Vinicius Batista disse...

Renato, obrigado pelas palavras e pela leitura. A partida pode ser vista desta forma, mas - na verdade - curti o espetáculo mesmo. (risos) Grande abraço!!!

Beth Soares disse...

Para mim, que vivi essa experiência pela primeira vez na vida, foi divertidíssimo e inesquecível! Obrigada pelo belo registro.

Beijo!