domingo, 1 de janeiro de 2012

Fugindo do Michel, antes que me pegue


Consegui me manter alienado até 23 de dezembro. Alienado e feliz! Conheci o que não deveria ter ouvido. Alguns dias antes, abri o jornal no final da manhã e li uma reportagem de capa de um caderno de cultura. O texto descrevia o novo fenômeno da música brasileira. A explosão na Internet, a tradução da letra para o espanhol e para o inglês, a venda como água do DVD ao vivo.

Desconhecia o repertório-chiclete dele. Assim, a reportagem significou apenas cultura inútil sobre mais um artista do verão. O próprio cantor afirmava que deveria extrair ao máximo os dividendos do sucesso. Não tinha certeza quanto tempo duraria. Para um alienado – e volto a frisar, feliz -, seria ele um novo rebolation? Um novo tchan? Outro Luan Santana? Perguntas inexpressivas para respostas que não merecem esforço.

23 de dezembro, voltamos ao flerte. Na casa de amigos, o filho caçula me expõe à idolatria do cantor. Fui xingado, apenas com o movimento dos lábios mudos, porque brinquei com a música de quem não conhecia. Minha punição e praga decretada: vê-lo a meu lado por todos os cantos. É claro que a praga não veio do menino de sete anos. Provavelmente de alguma entidade das melodias de supermercado.

Escrevo para desabafar, para pedir auxílio, para encontrar pessoas que desejem, como eu, montar um abrigo de foragidos. Tento, desde então, escapar de Michel Teló. Fugir dele se tornou pré-requisito para manter a mente livre. Para manter o pensamento arejado sem que o hit “Ai, se eu te pego” permaneça como mensagem obsessiva.

No trânsito, liguei o rádio e lá estava ele:

— Delíciaaaa!!!

Desliguei o rádio. Quando o carro parou no semáforo, o cidadão no carro ao lado não pretendia vender o aparelho, mas até agora ninguém me convenceu do contrário: ou ele era do fã-clube do cantor paranaense ou recebia comissão para divulgar a obra dele.

A sina me manteve ileso por alguns dias. Não desconfiava do período de incubação. Imaginava que as palavras repetitivas se foram como uma chuva desta época do ano: forte, rápida, seguida de luz forte.

Na antevéspera do réveillon, os sintomas se agravaram. A fase de calmaria era, definitivamente, alarme falso. Resolvi acompanhar minha irmã a uma agência bancária. Meus dois filhos seguiram conosco. Andamos duas quadras e paramos no cruzamento de duas avenidas. Meu filho caçula estava nos meus ombros.

Ao lado, um carro com o som alto aguardava o verde. Eu não prestava atenção na música por estar preocupado com as crianças que atravessariam a rua. Até que escutei meu filho de dois anos pronunciar três palavras:

— Pego, mata, delicha!

Se ele estava repetindo o hino dos direitos autorais, como poderia me salvar da radiação? Como poderia defender uma criança dos problemas do mundo? Sentia-me como uma vítima das falhas na política de segurança pública? Ou entregaria os pontos e admitiria que estava vivendo na Alcatraz de dois acordes e três frases em repetição ad eternum?

Esqueci-me do assunto por 24 horas. Superei uma crise de insônia, uma irritação inexplicável e dei um voto de confiança para a euforia de final de ano. Arrumei-me para a virada, que seria vista na praia de Santos.

Chegando à casa dos amigos, a chuva apertou. E a tendência era piorar, o que nos impediria de caminhar até a orla. Parentes baianos dos anfitriões garantiam o bom papo. Até que cometi um erro gravíssimo, uma atitude que sempre recriminei: liguei a televisão!

E começou o show da virada. Entre muitas atrações de segunda linha e medalhões dublando antigos sucessos, alguém resolveu lembrar:

— Ele vai cantar também! E com o Neymar!

Em silêncio, rezei, fiz promessas impossíveis, cruzei as mãos, movi os dedos em sinal da cruz. Que a chuva diminua para seguir até à praia! Até à esquina, pelo menos. Mas praga não vem com uma manifestação paranormal isolada. O pacote de azar dá avisos, marca do inevitável.

A chuva se transformou em temporal. Ficaríamos em casa. Conversa boa, comida excelente e a TV sobrevivendo no mesmo canal. Até que ele entrou no palco ao som do refrão-grude. Antes que pudesse comemorar o final, ele chamou Neymar. O atacante do Santos rebolava junto com Michel e se esforçava em dublar a própria voz, frágil como qualquer zagueiro de interior que ousa sonhar sucessivas vezes em tirar a bola do craque.

Quando entrou o intervalo comercial, eu exalava alívio. Acabou, pelo menos por este ano. A música acoplada aos neurônios era o menor dos efeitos colaterais. “Ai, se eu te pego” morreria assim que outras tranqueiras animassem o show da virada.

Mas Isis, um dos parentes da Bahia, resolveu fazer uma revelação. Daquelas que só acontecem em final de ano, na esperança de chocar e depois desaparecer com a retomada do cotidiano em 2 de janeiro.

— O autor da música é da minha cidade.

Até então, estava muito curioso para saber como era Feira de Santana. Falávamos de shows, de atrações do Carnaval, das festas, do churrasco. Só faltava o futebol. A revelação provocou mais meia hora de debate sociológico, filosófico, de boteco, de todas as correntes teóricas sobre as raízes do sucesso de uma música nascida como forró nos bares de Feira de Santana. Obra e criador, mais o músico com toque de Midas, se misturaram numa troca de informações coletivas, que suturavam a cirurgia de implantação do refrão no meu cérebro.

Dia 1º de janeiro. Agarrei-me em desespero à outra música, aquela pentelha da Globo, esperançoso por uma mensagem verdadeira. Um novo dia de um novo tempo para apagar os fragmentos indesejáveis do passado recente. Até que decidi, há duas horas, ler o noticiário na Internet. Quando abri o site de uma revista semanal de informação, quem estava na capa como fenômeno musical, rumo ao mercado globalizado?

Não vestir branco no réveillon é um crime tão hediondo a ponto de ter Michel Teló até agora em mente?

5 comentários:

Mariana Pereira disse...

E se eu te falar que fui a uma festa aqui no Canadá e vi um mexicano - isso mesmo, mexicano - dançando a coreografia de "Ai se eu te pego", você acredita? Veja bem, estou a 20h de avião do Brasil, e o Michel Teló cantou na festa que eu fui. O jeito é se entregar, cantar um pouquinho, dançar e esperar. Uma semana depois, a música some da sua cabeça. Pelo menos até que alguém a toque novamente!

Feliz Ano Novo.

Beijos

Marcus Vinicius Batista disse...

Mariana, imagino que sim. Se até soldados israelenses foram infectados... Transformou-se em pandemia. Jamais entregarei os pontos. A ordem é resistir até o último acorde. (risos) Bom ... se a música chegou no Canadá, este blog também! O que seria pior? (risos) Feliz 2012. Pretende voltar um dia? Beijo!

Nê. Meisie See disse...

Vamos construir sim um abrigo pra refugiados ¬¬"...
Bora fazer tbm uma guerrilha armada, uam resistência organizada...

Nê. Meisie See disse...

Vamos construir um abrigo sim... e organizar uma resistência, talvez uma guerrilah armada caia bem tbm...
E a lei de q não se pode ouvir som em onibuS? Cansei desse Michel me seguindo até no busão...

Mariana Pereira disse...

O blog está aqui desde agosto, rs. Quase nunca comento, mas leio sempre. Volto em março, quando termino um curso que estou fazendo. Saio daqui no dia 24 de chego no Brasil dia 25. É longe pra caramba. Cadê o teletransporte quando eu mais preciso?

Beijo