quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A fraude do imperador

O atacante Adriano se comporta como ex-jogador. Só o Corinthians ainda não percebeu isso. Ou finge não enxergar por conta de interesses múltiplos que o impede de demitir o imperador aposentado, após meses de espera para entrar em forma, casos policiais e ausências aos treinamentos por causa de festas no Rio de Janeiro.

De acordo com a imprensa, Adriano recebe R$ 350 mil por mês. Mais de R$ 4 milhões foram atirados ao lixo para quatro partidas oficiais e um gol. Na Roma, foram nove jogos e jejum na artilharia. A mesma imprensa garante que a diretoria pretende dispensá-lo após o término do contrato, em junho. Diretores reclamam em público. O técnico pede empenho. Não seria cumprir a obrigação como empregado, independentemente de ser muito bem pago?

Desde o final da Copa de 2006, jornalistas afirmam que ele precisa de ajuda. Doenças, problemas familiares, más companhias, flerte com o crime organizado. Em cinco anos, Adriano conseguiu transformar a seleção numa miragem. E a postura recorrente de indiferença assassina as contínuas promessas de recuperação nas entrevistas coletivas.

A torcida, que perdoa mais do que mãe diante do filho reincidente, dá sinais de que também se cansou dele. Adriano foi xingado pelos torcedores no amistoso contra a Portuguesa. Uma situação desconfortável por contrastar com a homenagem a Sócrates, que não era o exemplo de atleta, mas cumpriu todos os acordos (formais e informais) enquanto jogou pelo Corinthians.

O que mais me incomoda é testemunhar um atleta talentoso, de primeiro nível, atirar a trajetória esportiva na vala. Adriano poderia vestir, sem concorrência, a camisa 9 da seleção brasileira. Não há centroavantes brasileiros com o mesmo grau de eficiência. Descartou uma Copa do Mundo e caminha para perder a próxima, dentro de casa.


Luiz Fabiano foi o único que se aproximou, mas – aos 31 anos – tem poucas chances de alcançar alto desempenho em 2014. A molecada é instável e não sustenta o peso da responsabilidade. A vaga ao lado de Neymar segue assim mesmo: vaga!

Adriano perdeu a fase vitoriosa da Inter de Milão quando decidiu retornar ao Brasil. Irregular no São Paulo, ele parecia ensaiar um retorno ao topo no Flamengo, quando foi artilheiro do Campeonato Brasileiro. Mas o torneio nacional é de caráter duvidoso, como se empilham os irregulares resultados internacionais. O truque enganou inicialmente os romanos, que - descoberta a fraude - o devolveram sem misericórdia.

O Corinthians, desesperado com a aposentadoria de Ronaldo e o início desastroso de temporada, fez vistas grossas e repatriou o sujeito. Adriano embarcou na turnê de auto-mutilação pela terceira vez. Não teve capacidade de compreender que o clube precisa de um ídolo e que gols e títulos perdoam os mais graves pecados. Mais do que isso: canonizam quem se vestiu com o manto da redenção.

Adriano, infelizmente, faz parte de uma geração de jogadores que se comportam como crianças mimadas, cercadas por pais profissionais condescendentes, por vezes de olho no cofrinho do filhote. A essas crianças, pode tudo, inclusive o desrespeito pela história de um clube e pelos colegas que, em diversas circunstâncias, precisam se desdobrar para compensar a improdutividade de quem deveria dar o exemplo.

Adriano tem 29 anos e uma experiência de vida provavelmente maior do que a minha, mas age como se estivesse numa bolha de plástico, onde erros devem ser amenizados em troca do prazer individual. Passou da hora de ser tratado como adulto, como alguém que representa uma instituição centenária, passível de cobranças em proporção.

Até o momento, o imperador é apenas mais um súdito da equipe que será lembrada pela força coletiva e pela ausência de comandantes iluminados dentro de campo. A biografia corintiana permanece coerente, um grupo de operários que carrega o maquinário no chão da fábrica. Falta a liderança do craque, que optou por se aposentar sem avisar ninguém.

Um comentário:

DAniel B. disse...

Um dos melhores se não o melhor texto sobre o caso Adriano. Posso até descordar de alguns pontos, como no caso da comparação com o Luis Fabiano, até por acreditar (sem clubismo) que o Fabuloso sempre foi melhor que ele, mas ainda assim nunca foi também tudo isso (ambos) como falam.
Mas é claro que com a idade do ADriano ele jogou tudo fora, tudo no lixo, ainda tendo chances claras e reais de estar numa seleção brasileira, principalmente pelo fato que você mesmo citou, a ausência de um camisa 09. Luis Fabiano nem se quer estará lá, a idadae e o preconceito por conta da idade independente da forma física não fará ele ser convocado, fora outros fatores extra-campo.

Mas infelizmente Adriano realmente se perdeu, tentou se achar mas se perdeu de vez.Iludido por um mundinho de mentiras e fantasia caiu nessa onda desde a perda do pai, mas infelizmente vejo ele como irrecuperável também para o futebol. ( para o futebol ).

TAlvez o Corinthians suporte por pensar na "Pessoa", se demiti-lo onde ele irá parar? Ok! O Flamengo até o quer, mas não é bem isso que quero dizer. Depressão, se afundar muito mais nesse mundo cada vez mais podre de ilusões... não quero pensar no resto.

Infelizmente mais um jogador que um dia foi ótimo, se aposentou.