sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A família feliz

As ruas estão cada vez mais infestadas de carros. E os carros carregam na pele colantes cada vez mais numerosos de “família feliz”. Recentemente, numa festa, conheci uma mulher que, empolgada com o adesivo no veículo, tatuou uma reprodução dos bonequinhos nas costas.

Descontada a cafonice deste adesivo que se espalha como música de Michel Teló, a família feliz não existe como padrão e suas variações numéricas. Nem se separarmos as duas palavras. E se for vista como idealização apenas? Desconfio também deste argumento, pois o dono do carro tenta a todo custo se desvencilhar do igual, com uma falsa personalização ou exclusividade. Colar um papagaio ou um cachorrinho de skate, por exemplo. É a armadilha das relações de consumo. Desejar o diferente e cair no uniforme.

Antes que se prepare a cruz e a fogueira, não tenho intenção de destruir a família como núcleo social ou pregar a melancolia como motor das relações humanas. É duro de engolir a necessidade de exibir, como elemento de um pacote de status, a família como símbolo do seriado mamão com açúcar da TV fechada.

A concepção de família de comercial de margarina nunca foi dominante na história brasileira. Este modelo carrega consigo outra ilusão: família feliz é sinônimo de família estruturada. O colante do carro, como representação do real, derruba todos os núcleos familiares que sonham com cerca branca de madeira e cachorro saltitante na porta de casa. Sempre escondemos os desgarrados, pervertidos e irresponsáveis no armário, embaixo do tapete ou no silêncio monástico. É claro que as definições acima são invenções de quem manda no barraco contra quem pensa ou se comporta diferente.

A família feliz não nasceu das mentes de publicitários, obcecados em vender mais para o café da manhã. Eles apenas se apropriam de um modo de vida construído com a cristalização da sociedade de consumo. A crueldade reside no fato de que nós compramos um modelo desvinculado, inicialmente, da nossa cultura, como exercício do Complexo de Vira-Latas.

Absorvemos o conceito de família de origem norte-americana. A família feliz seria branca, heterossexual, religiosa, com macho alfa dominante, mulher-amélia, um casal de filhos estudiosos, casa própria e recheada das últimas novidades em eletrodomésticos, carro na garagem (para abrigar o colante, nos dias atuais), a tal da cerca, e os animais de estimação; de preferência, cachorro.

A dinâmica cultural, por exemplo, nos impede de adquirir o pacote completo de família feliz, ainda que financiada em 24 vezes no carnê. Mas o problema é que compramos a essência do produto. E fingimos que praticamos a única saída possível. As demais construções familiares significam erros a serem administrados.

Vivemos numa época em que a felicidade se transformou em obrigação social. Integra o protocolo da suposta convivência civilizada. Não há tempo para luto ou perdas. E comprar a felicidade se torna um caminho espinhoso quando vivemos rotinas aceleradas no nível do desumano.

Compramos a felicidade 24 horas nas farmácias, nas redes sociais, nos programas que fazem autópsias nas vidas alheias. Processamos esta felicidade nos consultórios, nos gurus do mundo corporativo, nos livros de auto-ajuda que prometem enriquecimento veloz.

Família e felicidade raramente se encaixam. Se ainda não se convenceu, observe com distanciamento os almoços de domingo na casa da vovó ou as noites de Natal. Não utilize exceção como regra, mas aplique os critérios que você adota para criticar a casa do vizinho ou do parente que se alojou na sua residência.

O adesivo “família feliz” é mais um adereço que compõe o perfil de aparência que adoramos ostentar. Colá-lo na frieza do metal do carro reforça a submissão de todos os valores e princípios à lógica de consumo. Se não podemos, de fato, pagar pela felicidade, optamos por transformá-la em badulaque na prateleira de casa. E exibi-la como marca nos carros que infestam o trânsito.

A ironia é que, se somos felizes o tempo todo, com a família que muitas vezes odiamos ter escolhido, a felicidade e a família tornaram-se banais. Cadê a graça?

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