quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O dia em que Sherlock Holmes virou o touro do sertão

Os apaixonados sentem antes da hora. Os apaixonados sentem quando a hora da mudança se aproxima. Gritam e pulam quando o desejo está prestes a se realizar.

- Torô, torô, torôoooo!!!

Restaram cinco minutos para o término do jogo. O time da casa tem uma falta na entrada da área adversária, daquelas que não se transformaram em pênalti por causa de um metro. Talvez fosse a última chance de evitar a primeira derrota do ano.

Alain Delon, nome de ator francês, mas jogador de futebol baiano, eterna promessa do Vitória de Salvador, partiu para a bola. Ele é a estrela do clube, visto como o homem diferenciado, pelo menos ali naquele estádio.

Quando o astro bateu, o enredo correu em câmera lenta. O goleiro adversário ameaçou saltar no canto direito, mas congelou pelo caminho. Gol do Fluminense. 1 a 1. Um gol que aliviou o cheiro de fracasso de bilheteria dentro de casa e manteve o elenco entre os quatro primeiros do campeonato, posição que assegura vaga nas semifinais.

Voltei a um estádio depois de um ano. E não fui acompanhar o tricolor carioca, embora muitos torcedores vestissem a tradicional camisa verde, branco e grená. Testemunhei a partida do primo Fluminense de Feira de Santana, que enfrentou o Serrano pela terceira rodada do Campeonato Baiano.

A última vez que visitei um campo de futebol foi no final de 2010. Aliás, a primeira partida em que levei minha filha Mariana. Fomos acompanhar Portuguesa Santista e Força Sindical. A Briosa é meu time de coração e o segundo amor de milhares de santistas. Não um amante, mas a amiga de muitos anos, um afeto quase fraternal.

Vi a Portuguesa empatar em 1 a 1 e morrer abraçada com o adversário. Ambos caíram para a quarta divisão do Campeonato Paulista.

Confesso que tenho atração por jogos improváveis. Aquelas partidas cujos gols não serão exibidos na hora do almoço em rede nacional ou que receberão cobertura limitada em sites e jornais. E assistir a Fluminense e Serrano foi um programa improvável para quarta-feira à noite. Só se fala no irmão caçula do tricolor. O Bahia de Feira é o atual campeão baiano e lidera a edição deste ano. Venceu todos os três confrontos.

A ideia inicial era ir ao cinema, dentro de um shopping em Feira de Santana. Na boca da bilheteria, descobrimos que não havia mais ingressos. Sala lotada. O que fazer? Ver uma animação ou voltar para casa. Ainda estávamos com caras de decepção quando Rômulo – que acompanhava o jogo Bahia pelo rádio – sugeriu:

- Vamos ver o jogo do Fluminense?

Qual o adversário? Ninguém sabia. Itabuna? Juazeiro? Depois de 10 minutos, a resposta via rádio: Serrano! Honestamente, qual diferença faria diante das duas opções anteriores? Ninguém conhecia jogador algum do Serrano. Eu, por exemplo, havia descoberto que time fazia parte da primeira divisão duas horas antes, quando lia o noticiário esportivo local.

O jogo havia começado. Chegamos no final do primeiro tempo. Na bilheteria, um garoto, sonhando com um espetinho de churrasco, alertava:

- Por que vão ver o jogo? Paga um churrasquinho, tio.

Pagamos R$ 10 para entrar. Os portões já estavam fechados. Batemos no portão principal para entrarmos. Os torcedores xingavam dentro do banheiro, na porta do vestiário, nos corredores de acesso às arquibancadas, em frente às cadeiras numeradas.

- O Fluminense não tem time, dizia um deles.

Quando nos acomodamos na arquibancada e olhamos para o placar eletrônico, entendemos o óbvio. Era intervalo de jogo. O Serrano vencia por 1 a 0. Na primeira partida em casa, o Fluminense apenas empatara. Agora, perdia para um adversário mais fraco e acuado na defesa.

Não vou me aventurar a fazer análises de um jogo em que a maioria dos torcedores sequer conhecem os protagonistas, exceto um ou outro amigo de Feira de Santana, mas estes vão me perdoar pela omissão parcial. Parcial porque me atrevo a dizer que o segundo tempo foi a marca do futebol nacional: correria, chutões para a área adversária, força física, muitas faltas e poucas oportunidades de gol.

Por isso, observar os torcedores era um prato mais suculento, concorrente de sorveteiros, vendedores de amendoins, água e refrigerantes. Um dos torcedores, na casa dos 60 anos, vibrou como um gol quando se pedido foi atendido. O juiz parecia ter ouvido o recado. O goleiro do Serrano levou cartão amarelo por retardar o jogo.

O Fluminense de Feira é uma espécie de segundo time de muitos moradores da cidade. Bastava ver o desfile de camisas do Flamengo, Vasco, Bahia e Vitória, entre outras equipes médias e grandes.

Diante do fracasso do time da casa, outros torcedores apelavam para o passado. Como um senhor que enaltecia o amigo ao lado:

- Este aqui jogou no Fluminense de Feira. Isso quando o Fluminense tinha time.

Tinha também o torcedor que gritava clichês:

- Este jogo está duro ... duro de assistir.

Nestas horas, penso na frase do amigo José Roberto Torero:

- Frases feitas foram feitas para serem usadas.

Duras também eram as arquibancadas, como na maioria dos estádios brasileiros. Para se defender do concreto, alguns torcedores transitavam com travesseiros. Poderiam usá-los talvez para dormir diante da partida sonolenta, mas preferiram assistir ao jogo com o mínimo de conforto.

Para segurar a fome no estádio, nada de pernil e cachorro quente, comuns nos estádios de São Paulo. Ali, reinavam o acarajé, vatapá e a cocada. Independentemente do cardápio, optei por seguir em jejum. Confiar em comida de estádio é como acreditar que treinador muda o placar durante a partida.

Fluminense e Serrano foi o melhor filme que poderia ver nesta noite. Não importa a qualidade do elenco, dos diretores ou da produção. No estádio Jóia, o roteiro teve reviravoltas, clichês e desfecho imprevisível, com interferência direta dos figurantes, que tomaram as rédeas da narrativa com os gritos de incentivo ao Touro do Sertão.

Por força das circunstâncias, o filme Sherlock Holmes 2 – O jogo das sombras, em cartaz no shopping center, acabou como coadjuvante de luxo e – quem sabe? - será visto em outra sessão.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O transporte para "gente diferenciada"


Santos e Praia Grande aumentaram o preço das passagens de ônibus neste domingo. Vou focalizar esta análise na cidade de Santos, a maior do litoral paulista, mas muitos dos pontos também se fazem cotidianos na vizinha Praia Grande.

O preço da passagem, em Santos, subiu de R$ 2,65 para R$ 2,90. O reajuste é da ordem de 9,5%. A inflação do período foi de 6,5%. Mas sempre há uma justificativa governamental, de mãos dadas com as empresas concessionárias. A desculpa costuma ser repetitiva e soa como piada de mau gosto para os usuários.

De acordo com a Prefeitura de Santos, andar de ônibus está mais caro porque aumentaram os gastos com folha de pagamento e benefícios de funcionários. Se os coletivos trafegam há anos sem cobradores, por exemplo, numa demonstração de que passageiros sempre são os bodes expiatórios, por que agora seria diferente, diante da conivência da classe política?

O preço da passagem subiu também, segundo a administração municipal, por conta dos chamados insumos, palavrinha sempre resgatada quando os passageiros ficam com a conta. Insumos são os culpados eternos: sucateamento da frota e aumento dos combustíveis.

A tarifa é uma das mais caras do Brasil na proporção, enquanto o serviço é considerado um dos mais fracos do Estado de São Paulo, conforme pesquisas de opinião. Se a capital paulista adotasse a mesma relação preço-quilômetro rodado que Santos, a passagem em São Paulo sairia por R$ 8,50. Isso sem falar que o percurso em Santos é quase todo plano, o que gasta menos combustível e danifica menos os veículos.

Elevar a tarifa bem acima da inflação indica como a Prefeitura vem enxergando o transporte coletivo nos últimos 20 anos. Desde que a CSTC, um saco sem fundo, perdeu a primazia sobre o setor, Santos apenas trocou de monopólio. Hoje, estamos submetidos à vontade da Viação Piracicabana, que não enfrenta concorrência por mais alta que seja a pilha de erros cometidos.

No ano passado, por exemplo, um diretor da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) declarou, quando perguntado se pretendia tomar medidas para reduzir a superlotação dos ônibus em horário escolar, que os estudantes – se quisessem maior conforto – mudassem o horário de estudo. A culpa, claro, pertence exclusivamente à vítima. Por que não enriqueceu e comprou um automóvel, com todos os acessórios?

Por omissão, é possível acreditar que a política local reproduz os passos do restante das médias e grandes cidades, salvo exceções. A postura é privilegiar os carros, um dos termômetros do consumo e do crédito, mesmo que não exista planejamento de longo prazo para o trânsito, cada vez mais complicado em Santos. Quando se fala em planejar, aliás, a classe política mantém a desfaçatez de mencionar o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), a principal lenda urbana das obras públicas da Baixada Santista.

É insano testemunhar ônibus enormes em avenidas estranguladas como a Conselheiro Nébias, a única que corta a ilha de ponta a ponta. Oito carros novos por dia nas ruas, que expandem a terceira maior frota proporcional do país, não servem para alertar para um enforcamento viário em curso.

Os coletivos ditam o ritmo da via, e o trânsito se torna paquidérmico nos horários de rush. A administração municipal proibiu estacionamento em um dos lados da avenida, mas sequer cogita interferir na política de transporte coletivo.

Enquanto acharmos que o transporte coletivo representa assunto menor na pauta em ano de eleição, os ônibus permanecerão lotados, lentos e caros. E ignorados pelos homens de gravata em salas com ar-condicionado. Aí, restam duas saídas: comprar uma bicicleta e encarar a ciclovia, que não conecta a cidade em todas as artérias, ou financiar um carro e transferir o exercício diário de paciência, pois o praticamos como dependentes dos coletivos.

Em tempo: ontem, dezenas de manifestantes protestaram em frente à Prefeitura, na Praça Mauá, contra o aumento das passagens de ônibus. Descontando um ou outro turista pré-candidato a vereador, foi uma manifestação pacífica, de gente politizada e preocupada com questões coletivas. Só lamento que não foram milhares de pessoas. Talvez, desta forma, a Prefeitura conversasse com a empresa-monopólio, em vez de baixar a cabeça e dizer amém.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Os cínicos que estupram

Confesso que não liguei o nome à pessoa. Daniel era mais um personagem destinado ao esquecimento quando deixasse a TV. Outro bonequinho sem camiseta que repetia o padrão estético de anos de programa, como variação sobre o mesmo tema.

Confesso também que precisei pesquisar para descobrir quem era Monique, a suposta vítima do suposto estupro. Utilizo o termo suposto porque o as negativas de todos expuseram o espetáculo. Suposto porque não tive interesse em ver as imagens, que nada acrescentam ao assunto. Monique seria a versão feminina de Daniel, com sobrevida traçada nas capas de revistas masculinas.

Reconheço que não escapei da avalanche de desinformação e irrelevância quando o BBB se renova (ou extrapola) como uma das polêmicas dos últimos dias, não importa o canal ou o programa. Mas uma situação como essa indica quem somos ou como nos comportamos a partir do conteúdo da TV ou como nos projetamos nela. O incidente no Big Brother representa, simbólica e literalmente, a TV aberta que consumimos e, por vezes, idolatramos.

A corrente de cinismo se inicia na produção do programa, impregnado de violência simbólica. As relações entre os participantes são fomentadas a partir de jogos e premiações, com estímulo às articulações políticas, traições, falsa afetividade, entre outros elementos de manipulação. Abraços, beijos, choros e até ofensas são banalizadas em prol do show. Até aí, não há maiores novidades, salvo para os súditos cegos que crêem no reality show como a absoluta expressão da verdade.

O cinismo se prolonga nas respostas diante da possibilidade de um crime. O BBB, conforme as reações e a palavras da direção e do apresentador, parece se constituir em um mundo paralelo, onde as leis brasileiras não se aplicam. Ironias e jogo de esconde-esconde permearam a ignorância geral perante a barbárie nas relações de gênero no país, culturalmente machista desde a maternidade. Amenizar um possível crime sexual por dinheiro é tão sórdido quanto praticá-lo.

A concorrência também vestiu o manto da hipocrisia. Aproveitando-se da desgraça da líder – que, por sinal reverteu o telhado de vidro em audiência nos dias subseqüentes -, as demais emissoras da TV aberta exploraram o caso como um crime que jamais cometeram.

Fingindo-se horrorizados ou cercados de pseudo-celebridades em pose de comentaristas, apresentadores dissecaram o BBB como se seus empregadores fossem os baluartes da televisão educativa. Muitos apresentadores estavam mais boquiabertos do que religiosa diante de bordel, como se não soubessem o que os esperava.

Mas o cinismo mais enigmático se manifesta do outro lado da tela. O público se agarra no moralismo de liquidação enquanto acompanha, hipnotizado, a ilusão do glamour. É a audiência que adora exercitar o papel de promotor, juiz e carrasco e se deleitar com o poder dado a conta-gotas pela emissora produtora do programa. Isso quando o fornece.

Parte dos espectadores, que colocam a vida alheia no topo da pauta, enche o peito para determinar as soluções e os desfechos como se não compartilhasse ou se omitisse dos fatos que o rodeia no cotidiano. Exalar indignação, com a segurança do distanciamento, é outra dose de hipocrisia, reforçada pelo silêncio que esconde intolerância, individualismo e pressa em julgar e condenar.

Um exemplo comum nestes casos são as mulheres mais machistas que eles. Para elas, a mulher sempre seduz o coitado do agressor. Como se a sedução resultasse necessariamente em coito. Como se o homem vivesse para atender o diabo em forma de feminino. Cínicas, apontam o dedo sem piscar os olhos em frente à TV.

O falso caso de estupro no BBB engrossa a lista de falsas polêmicas do entretenimento que alimenta a TV comercial. Posar de surpresa ou levantar a bandeira da indignação com o novo-velho indica como injetamos diariamente um entorpecente como única saída para o vazio que nos atormenta, assim como nos recusamos veementemente em denominar a existência deste vácuo. É uma equação de violência simbólica – e política – que não solucionamos há 12 anos. Aí sim testemunhamos um estupro que permanece impune.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O porrete e a política

Quando um grave problema social é explorado como novela política-eleitoral, o noticiário se transforma em peça de ficção, com blefes, falsas reviravoltas e, principalmente, cenas de surrealismo. As ações na região da Cracolândia, em São Paulo, servem como exemplo para um roteiro de má qualidade, com clímax e desfecho previsíveis.

O governador Geraldo Alckmin, como médico de formação, agiu como político de carteirinha. O problema não representa novidade alguma, nem para ele, nem para nós, assim como as reações óbvias de quem não compreende o cenário e reage conforme a correnteza política.

O primeiro item da prateleira de surrealismo é o próprio nome do local. Parece que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o governador foram apresentados, logo após o réveillon, à Cracolândia. Se ganhou um nome, é preciso dizer que foi incorporado à rotina da cidade?

O porrete virou cartão de visitas para esvaziar a área imediatamente. Dispersar os usuários de crack (uma doença nacional, aliás) não os fazem desaparecer como mágica. Pelo contrário, amplia as dificuldades de ações efetivas para combater o tráfico, tratar os viciados e revitalizar o local.

Embora o governador tenha declarado que não faria uso político do tema, Alckmin expeliu promessas que incluíam – finalmente – atos de saúde pública. Quase acreditei que ele estivesse em campanha eleitoral, ao ver o pacote de milagres.

Como o Governo do Estado vai dobrar, da noite para o dia, o número de vagas para atendimento de usuários? Como criará 400 vagas em curto prazo? A Polícia Militar, subordinada ao Governo do Estado, vale lembrar o óbvio, prometeu instalar três bases comunitárias na região. Por que não pensou nisso antes de agir como se estivesse em guerra civil?

O crack engrossou a lista de assuntos que motivam picuinhas entre tucanos e petistas. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também fez a visitinha tradicional para prometer, sem assinar: R$ 6,4 milhões para tratamento. Enquanto isso, os tucanos afirmam que a Cracolândia nasceu na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy. Os petistas culpam o PSDB, que governa São Paulo há 17 anos. Ambos poderiam morrer abraçados na falta de planejamento, na inércia em implantar políticas públicas e no desprezo pelas pessoas que, em tese, são invisíveis como cidadãos.

Não é a primeira vez que a Cracolândia explode aos olhos da mídia e dos burocratas engravatados. Em 2009, a Polícia Militar já havia dispersado os usuários. O que foi feito posteriormente? Nada. Apenas conversas, promessas, transferência de responsabilidade.

O crack não é um mal exclusivo da capital paulista. Em Santos, vivemos quadro semelhante, guardando as devidas proporções. É notório que há, pelo menos, seis pontos de consumo da droga. Os principais ficam nas imediações do Orquidário Municipal, em vários trechos da linha do trem e na praça do INSS, na Aparecida.

Promessas também foram feitas, como unidades móveis para acompanhamento de usuários e leitos para internação em hospitais da cidade. Na prática, o jogo de gato e rato entre usuários, guardas municipais e policiais militares, no qual a principal moeda de barganha é a truculência.

De olhos nas urnas, os políticos, ainda que escondam seus porretes, garantem que a Cracolândia significa águas passadas. Como sugestão, vamos esperar seis meses. O que vai acontecer até lá? Será difícil de adivinhar?

A família feliz

As ruas estão cada vez mais infestadas de carros. E os carros carregam na pele colantes cada vez mais numerosos de “família feliz”. Recentemente, numa festa, conheci uma mulher que, empolgada com o adesivo no veículo, tatuou uma reprodução dos bonequinhos nas costas.

Descontada a cafonice deste adesivo que se espalha como música de Michel Teló, a família feliz não existe como padrão e suas variações numéricas. Nem se separarmos as duas palavras. E se for vista como idealização apenas? Desconfio também deste argumento, pois o dono do carro tenta a todo custo se desvencilhar do igual, com uma falsa personalização ou exclusividade. Colar um papagaio ou um cachorrinho de skate, por exemplo. É a armadilha das relações de consumo. Desejar o diferente e cair no uniforme.

Antes que se prepare a cruz e a fogueira, não tenho intenção de destruir a família como núcleo social ou pregar a melancolia como motor das relações humanas. É duro de engolir a necessidade de exibir, como elemento de um pacote de status, a família como símbolo do seriado mamão com açúcar da TV fechada.

A concepção de família de comercial de margarina nunca foi dominante na história brasileira. Este modelo carrega consigo outra ilusão: família feliz é sinônimo de família estruturada. O colante do carro, como representação do real, derruba todos os núcleos familiares que sonham com cerca branca de madeira e cachorro saltitante na porta de casa. Sempre escondemos os desgarrados, pervertidos e irresponsáveis no armário, embaixo do tapete ou no silêncio monástico. É claro que as definições acima são invenções de quem manda no barraco contra quem pensa ou se comporta diferente.

A família feliz não nasceu das mentes de publicitários, obcecados em vender mais para o café da manhã. Eles apenas se apropriam de um modo de vida construído com a cristalização da sociedade de consumo. A crueldade reside no fato de que nós compramos um modelo desvinculado, inicialmente, da nossa cultura, como exercício do Complexo de Vira-Latas.

Absorvemos o conceito de família de origem norte-americana. A família feliz seria branca, heterossexual, religiosa, com macho alfa dominante, mulher-amélia, um casal de filhos estudiosos, casa própria e recheada das últimas novidades em eletrodomésticos, carro na garagem (para abrigar o colante, nos dias atuais), a tal da cerca, e os animais de estimação; de preferência, cachorro.

A dinâmica cultural, por exemplo, nos impede de adquirir o pacote completo de família feliz, ainda que financiada em 24 vezes no carnê. Mas o problema é que compramos a essência do produto. E fingimos que praticamos a única saída possível. As demais construções familiares significam erros a serem administrados.

Vivemos numa época em que a felicidade se transformou em obrigação social. Integra o protocolo da suposta convivência civilizada. Não há tempo para luto ou perdas. E comprar a felicidade se torna um caminho espinhoso quando vivemos rotinas aceleradas no nível do desumano.

Compramos a felicidade 24 horas nas farmácias, nas redes sociais, nos programas que fazem autópsias nas vidas alheias. Processamos esta felicidade nos consultórios, nos gurus do mundo corporativo, nos livros de auto-ajuda que prometem enriquecimento veloz.

Família e felicidade raramente se encaixam. Se ainda não se convenceu, observe com distanciamento os almoços de domingo na casa da vovó ou as noites de Natal. Não utilize exceção como regra, mas aplique os critérios que você adota para criticar a casa do vizinho ou do parente que se alojou na sua residência.

O adesivo “família feliz” é mais um adereço que compõe o perfil de aparência que adoramos ostentar. Colá-lo na frieza do metal do carro reforça a submissão de todos os valores e princípios à lógica de consumo. Se não podemos, de fato, pagar pela felicidade, optamos por transformá-la em badulaque na prateleira de casa. E exibi-la como marca nos carros que infestam o trânsito.

A ironia é que, se somos felizes o tempo todo, com a família que muitas vezes odiamos ter escolhido, a felicidade e a família tornaram-se banais. Cadê a graça?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A fraude do imperador

O atacante Adriano se comporta como ex-jogador. Só o Corinthians ainda não percebeu isso. Ou finge não enxergar por conta de interesses múltiplos que o impede de demitir o imperador aposentado, após meses de espera para entrar em forma, casos policiais e ausências aos treinamentos por causa de festas no Rio de Janeiro.

De acordo com a imprensa, Adriano recebe R$ 350 mil por mês. Mais de R$ 4 milhões foram atirados ao lixo para quatro partidas oficiais e um gol. Na Roma, foram nove jogos e jejum na artilharia. A mesma imprensa garante que a diretoria pretende dispensá-lo após o término do contrato, em junho. Diretores reclamam em público. O técnico pede empenho. Não seria cumprir a obrigação como empregado, independentemente de ser muito bem pago?

Desde o final da Copa de 2006, jornalistas afirmam que ele precisa de ajuda. Doenças, problemas familiares, más companhias, flerte com o crime organizado. Em cinco anos, Adriano conseguiu transformar a seleção numa miragem. E a postura recorrente de indiferença assassina as contínuas promessas de recuperação nas entrevistas coletivas.

A torcida, que perdoa mais do que mãe diante do filho reincidente, dá sinais de que também se cansou dele. Adriano foi xingado pelos torcedores no amistoso contra a Portuguesa. Uma situação desconfortável por contrastar com a homenagem a Sócrates, que não era o exemplo de atleta, mas cumpriu todos os acordos (formais e informais) enquanto jogou pelo Corinthians.

O que mais me incomoda é testemunhar um atleta talentoso, de primeiro nível, atirar a trajetória esportiva na vala. Adriano poderia vestir, sem concorrência, a camisa 9 da seleção brasileira. Não há centroavantes brasileiros com o mesmo grau de eficiência. Descartou uma Copa do Mundo e caminha para perder a próxima, dentro de casa.


Luiz Fabiano foi o único que se aproximou, mas – aos 31 anos – tem poucas chances de alcançar alto desempenho em 2014. A molecada é instável e não sustenta o peso da responsabilidade. A vaga ao lado de Neymar segue assim mesmo: vaga!

Adriano perdeu a fase vitoriosa da Inter de Milão quando decidiu retornar ao Brasil. Irregular no São Paulo, ele parecia ensaiar um retorno ao topo no Flamengo, quando foi artilheiro do Campeonato Brasileiro. Mas o torneio nacional é de caráter duvidoso, como se empilham os irregulares resultados internacionais. O truque enganou inicialmente os romanos, que - descoberta a fraude - o devolveram sem misericórdia.

O Corinthians, desesperado com a aposentadoria de Ronaldo e o início desastroso de temporada, fez vistas grossas e repatriou o sujeito. Adriano embarcou na turnê de auto-mutilação pela terceira vez. Não teve capacidade de compreender que o clube precisa de um ídolo e que gols e títulos perdoam os mais graves pecados. Mais do que isso: canonizam quem se vestiu com o manto da redenção.

Adriano, infelizmente, faz parte de uma geração de jogadores que se comportam como crianças mimadas, cercadas por pais profissionais condescendentes, por vezes de olho no cofrinho do filhote. A essas crianças, pode tudo, inclusive o desrespeito pela história de um clube e pelos colegas que, em diversas circunstâncias, precisam se desdobrar para compensar a improdutividade de quem deveria dar o exemplo.

Adriano tem 29 anos e uma experiência de vida provavelmente maior do que a minha, mas age como se estivesse numa bolha de plástico, onde erros devem ser amenizados em troca do prazer individual. Passou da hora de ser tratado como adulto, como alguém que representa uma instituição centenária, passível de cobranças em proporção.

Até o momento, o imperador é apenas mais um súdito da equipe que será lembrada pela força coletiva e pela ausência de comandantes iluminados dentro de campo. A biografia corintiana permanece coerente, um grupo de operários que carrega o maquinário no chão da fábrica. Falta a liderança do craque, que optou por se aposentar sem avisar ninguém.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Despedidas e mudanças

A morte de um ano e o nascimento de outro costumam acenar com despedidas e mudanças. As despedidas, muitas vezes, se desenham como filhas do transitório, com fisionomia de até breve, jamais um adeus. Até as despedidas definitivas não conseguem se conter e sempre desejam – no fundo das gavetas a serem limpas – se transformar no pontapé das alterações de vida. 

Mudar, nestes tempos, soa como promessa de campanha, de costas para a posse e a importância do cargo. São como regimes de segunda-feira, prontos para o descarte da terça. Ou a reciclagem da quarta. Ou a amnésia de quinta.

A virada de ano atrai os adeptos das despedidas e os seguidores das mudanças. É um período que se supõe propício às renovações, trocas, desfechos e ressurreições. Quando despedidas e mudanças caminham em paralelo, uma delas pode se revelar fútil como promessa de milagre em culto de TV na madrugada. 

Quando se cruzam, deixam vestígios que se traduzem pela necessidade real de balanço, de revisão de conceitos, de perdas e de novas perspectivas para qualquer horizonte.

Desconfio que vincular mudanças de vida à metamorfose do calendário é o primeiro indício de fraude. É a terceirização da culpa, uniformizada em um criminoso abstrato, seja ele o reveillon, o teor alcoólico, a tristeza ou a euforia das sete ondas e da roupa branca.

Fazer juras de nova vida a partir de 2 de janeiro soa como insistir que a criança de 10 anos mantenha fé cega diante do Papai Noel. Enquanto sobrevivem como brincadeiras dentro do pacote de rituais, as promessas de novos caminhos vão embora como as oferendas de iemanjá. O equívoco talvez nos contamine quando acreditamos que uma noite de festa simboliza a queda do muro que nos impede de alterar o estado de coisas.

Mudar significa se despedir. Não há como mudar sem largar algo, alguém, valores ou princípios. Não todos ao mesmo tempo, claro. Seria radical demais, que exige um catalisador – de certa forma – catastrófico. Um fator que não permite segunda via da papelada nem devolução ao comprador.

A despedida, para nos conduzir à mudança, ignora as placas de retorno. E finge, ao menos no início, que não existe acostamento. Os céticos garantem que o cenário muda; as pessoas, jamais. Mas o ceticismo é tão radical que beira a própria anulação de suas ideias, pois as transforma em crenças. Basta que a pimenta espirre nos olhos de quem tentou atirá-la nos outros.

Despedir-se não se torna mudança se houver desapego. Garantias não existem só porque nos comprometemos a deixar de lado. É ato inerente à despedida largar para recomeçar ou escolher nova rota, mas provoca a dúvida do que plantar no lugar do vácuo recém-nascido.

Prefiro acreditar que mudar é processo. Sem promessas. Sem mandingas (bom, às vezes ajudam!). Sem alarde sobre o caixote em praça pública. Sem campanha de marketing para iludir os fiéis em desespero.

A mudança eternamente em curso é imperceptível para quem a adota. A adoção se alimenta de retrocessos e avanços, sólida como a via que chega após muitos passos. Mudamos porque precisamos. Preferimos a despedida quando o sangue nos pés indica o andar sobre esteiras.

Só me enxergo como mutante quando me vejo pelo telescópio. E me entristeço ao ouvir alguém batendo no peito com orgulho de que sempre será o mesmo! Para eles, a despedida está fadada ao até logo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Só de ouvir falar ...

A resistência é diária para vencer uma tentação quase incontrolável. Preciso parar e pensar para não me ajoelhar diante do prazer gratuito. Vivo em um mundo onde se fala o tempo todo. Sobre tudo. Sobre todos. Com ou sem propriedade. Pela intolerância ou para perpetuar o indivíduo como centro das atenções.

Pessoas próximas me dizem que falo cada vez menos. Que a Lua estaria próxima como mundo. Que penso demais! Desconfio que mentem por compaixão. Talvez a questão não seja exatamente essa. A resposta me parece mais satisfatória se compreendê-la como via de mão dupla. Mas não significa que consista numa fórmula pronta, uma receita na qual uma porta conduz de maneira inevitável à outra.

Tenho minhas dúvidas se tagarelo cada vez menos. De qualquer modo, tagarelo. A via paralela mora na capacidade de escutar cada vez mais. Busco a utopia de ouvir como saída para sobreviver ao dia seguinte.

Escutar é como se defender de mim mesmo. Também não enxergue como abrir a janela e deixar entrar a luz com todo tipo de poeira junto. Implica em concentração em um cenário que se deleita pela dispersão, pelo fragmento, pelo superficial. Um passo por vez é disparate para quem saltita como a pilha não se esgotasse. Quando olho para fora, visualizo ursinhos da propaganda de pilhas vestidos como civilizados. E rezo para não me contaminar com a ânsia de dizer, dizer, dizer.

Falar demais não se mede por quilometragem de saliva. Confesso que caio, por vezes, na armadilha da distração, da conversa desimportante que se enamora pela futilidade. É diferente de se prender a uma conversa propositalmente sem futuro, regada a petiscos, bebida e companhia agradável. É se distrair com as promessas de falsas causas coletivas, de se comprometer com o impossível para pertencer ao momentâneo, de se deixar seduzir pela hipocrisia que luto para enterrar no armário e atirar a chave no incinerador.

A batalha pela escuta traz consigo a estratégia de abandonar vários fronts ao mesmo tempo. Entregar territórios para manter as fronteiras fundamentais com soberania, para perder a guerra e ganhar a paz. Mas a prática desmente a teoria bem delineada. Costumo sucumbir à magia da curiosidade, do interesse múltiplo. Tal esforço é doloroso porque o abandono – próprio e alheio – é um preço a ser cobrado.
 

Quando entro na farmácia, procuro o diálogo entre as prateleiras. Ali estaria o antídoto para tamanha falação esquizofrênica. Mas tento introjetar e me convencer de que o tratamento atravessa várias etapas, sofre retrocessos, caminha lentamente, até se aproximar da chance de cura. Não há prazo de validade nem garantias de remissão.

O diálogo não pode se seduzir pela embalagem dos falsos medicamentos. É comum testemunhar dois monólogos que, em simbiose, se fingem de diálogo. Rotas diferentes, em intersecção, onde o outro está tão disponível quanto um cone de trânsito.

O diálogo é fonte de existência para que possa fugir de minha arrogância. Aprender com o outro decorre da percepção de que somos limitados. Às vezes, o diálogo é apenas a troca, pura e simples, sem sede de conhecimento, sem fome de poder, sem utilitarismos escravizados pela vida prática. O diálogo é, como exercício de se ouvir falar e falar ouvindo, compartilhar o tempo e o espaço, num ato solidário com ambas as partes. 

Confesso que demorei a perceber. Não sei sequer se consigo praticar com desenvoltura. Sei que pratico quando me policio, enquanto torço para que se torne lição determinada pelo inconsciente. Dialogar é a escuta em vida latente. Dialogar ultrapassa os limites do contar. Dialogar nos faz humanos como adeptos da civilidade sem os vícios da selvageria envernizada.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A preservação do santo

O goleiro Marcos, do Palmeiras, anunciou hoje a aposentadoria. O texto abaixo foi publicado, originalmente, em 10 de março de 2010. Republico neste espaço sem alterações e peço apenas o desconto dos nomes datados. O resto permanece, infelizmente, atual. É uma singela homenagem ao melhor goleiro brasileiro dos últimos 15 anos. 

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O goleiro Marcos, do Palmeiras, não é mais o mesmo. Pelo menos, dentro de campo. Mas não pague ingresso, leitor, para viajar na barca sem rumo dos apressados. Marcos é um sujeito de 36 anos, sem – por razões óbvias – os reflexos e a agilidade de quando tinha 26. Ou quando estava com 28, evitando que alemães e outros adversários atrapalhassem a trilha de sete vitórias seguidas e o título da Copa do Mundo de 2002.

A compensação vem pela experiência, pela capacidade de liderança, por saber usar o corpo para evitar gols, sem a necessidade de vôos que mais agradam os fotógrafos do que os especialistas na posição. Este é o caminho sagrado dos goleiros mais experientes. Goleiros fora de série passam por metamorfoses. Evoluem. Viram leitores precisos e independentes da dinâmica de jogo. Tanto que muitos deles terminam – depois da aposentadoria – no banco de reservas, vistos como estrategistas eficientes.

Marcos não está velho ou acabado para o ofício. Ele permanece milagreiro. Os toques sagrados apenas ficaram mais discretos. Temos que nos contentar com um santo menos espetacular, mais singelo e direto nas ações em campo. O goleiro veterano é um sujeito que conhece os atalhos, capaz de trabalhar, por exemplo, com os pés e outras partes do corpo (sinal de que o posicionamento melhorou, pois o goleiro está na trajetória da bola).

O problema, atualmente, é que o Palmeiras se transformou em um time mediano, sustentado por seu goleiro, além dos meias Diego Souza e Claiton Xavier. È – por força de promessas não-cumpridas, picuinhas da política interna e dirigentes que se mostraram comuns – o clube mais fraco dos quatro grandes de São Paulo. Sem os três jogadores, trata-se de um clube pequeno do interior do Estado.

Marcos sempre foi esquentado. É do tipo que os jornalistas, aqueles viciados em análise pontuais, adoram. Repetem as palavras do goleiro, as distorcem nos comentários dignos de boteco para se contradizer sem cerimônia no mesmo dia. É ótimo ter um líder que se importa. O goleiro é uma exceção no futebol, hoje marcado por contratos ignorados, jogadores que beijam múltiplas camisas, escalações de equipes que pouco se repetem e atletas esquecidos no semestre seguinte.

Marcos se importa. Suporta a dor física das lesões. Não diferencia clássicos de partidas contra os laterninhas. Trata o Parque Antártica como um templo, e não como um estádio. Marcos se importa por pensar no futuro do clube. Por se preocupar em formar novos goleiros. Em dar oportunidades a eles. Diego Cavalieri – hoje no Liverpool – é apenas um caso da fábrica de goleiros competentes. O Palmeiras não teve um goleiro ruim desde os anos 60.

É difícil manter-se sereno diante de um time que sua sangue para vencer o Sertãozinho e apanha de São Caetano e Santo André dentro de casa. Qualquer amante perde a compostura diante de um lar remexido por estranhos. Ainda mais se falhou em um dos gols.

Todos os grandes goleiros falham. Engolem frangos espetaculares. O torcedor deve temer os goleiros regulares. Eles serão sempre regulares. Nunca serão péssimos. Nunca serão excepcionais. Não fazem a diferença em momentos importantes. Não asseguram campeonatos quando as estrelas amarelam. Não fazem o atacante amaldiçoar o técnico por tê-lo escolhido para cobrar um pênalti.

Marcos atuou inúmeras vezes no sacrifício e pretende se sacrificar no próximo ano. Qual ídolo você conhece, leitor, que seguiria para o banco de reservas com o objetivo de formar o sucessor? Qual ídolo assinaria contratos de longa data, que prevê um cargo na comissão técnica, sem inflar o ego para comandar o time na beira do campo com pouca experiência?

Marcos sofrerá muito até o final do ano. A torcida, também. A dor não será por causa dele, mas será sentida em conjunto com o goleiro. A catarse será coletiva. A gestão atual do clube escolheu as mesmas estradas viciadas de outras agremiações. A política surrada do bom e barato não me parece suficiente para aproximar o Palmeiras das finais. Os sintomas da desorganização pipocam durante o Campeonato Paulista.

Infelizmente, o Palmeiras não aprendeu com o ano anterior. Perdeu o campeonato por possuir somente um time, e não um elenco. O Campeonato Brasileiro, com 38 rodadas, é longo e exige banco de reservas. Planejamento é fundamental. Ou, pelo menos, não tomar medidas trapalhonas. O São Paulo, com três títulos seguidos, é a evidência física mais cristalina. O Flamengo, em 2009, foi uma exceção, que confirmou a regra dos anos anteriores.

Marcos, o santo, sofrerá como todos que abrem mão de si por uma causa maior. Mesmo com a chance de milagres eventuais, o goleiro tem feridas demais, cicatrizes demais para salvar um clube que caiu na vala comum. E não terminará a carreira por baixo, como desejam os pessimistas. Terminará a carreira onde começou. Há ato maior de amor do que proteger a floresta mesmo quando ela pega fogo?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O purgatório das sereias



A extinção do futebol feminino no Santos Futebol Clube não apenas expõe os pés de barro de um gigante propagandeado como sólido e transparente, como também ressuscita o debate sobre os espasmos que envolvem a organização deste esporte no país. Os sinais haviam sido dados pela diretoria do clube ao longo do ano passado. O Santos esvaziou gradativamente o departamento e utilizou a justificativa de falta de retorno financeiro para passar o cadeado.

Como um clube deste porte não consegue arranjar financiadores para o futebol feminino, ao mesmo tempo que ostenta contratos vultuosos na equipe profissional masculina? A diretoria não recebe apoio de uma confraria de executivos dignos de Banco Central? Como este grupo não vislumbrou novos caminhos para tornar o Santos efetivamente uma exceção? É óbvio que são times diferentes, em contextos distintos, mas me incomoda imaginar por que não se pensou em alternativas para a equipe feminina, da forma como se trabalha com os atletas.

A agonia do futebol feminino do Santos começou há meses. Os sintomas, diante do cadáver recém falecido, podem ser enumerados por qualquer legista. A saída do também técnico da seleção brasileira, Kleiton Lima. O enfraquecimento do elenco, com o final do contrato de diversas estrelas. O afastamento dos dirigentes e a desvalorização da Libertadores em 2011. Os resultados insuficientes contra equipes de menor visibilidade. São fatores que, separados, pareciam pontuais, mas acenavam com a mudança de rota rumo à extinção.

O futebol feminino continua sendo visto como um apêndice do masculino no Brasil. O mesmo argumento de que era fundamental fortalecer a cultura do futebol entre mulheres no país agora serve para justificar um possível fracasso da modalidade. Entre todos os níveis, do Santos à CBF, salvo exceções como a Copa Libertadores do ano retrasado, a cartolagem pratica a cortina de fumaça para mascarar projetos de curto prazo, com o verniz de que o futebol terá tempo para se desenvolver por aqui.

Marta, por exemplo, nunca veio com contratos de longa duração. Jogava nos intervalos dos campeonatos europeus ou norte-americanos. Outras atletas de seleção brasileira, como a atacante Cristiane, atuavam nos mesmos moldes contratuais. De fato, nunca se pensou em programas duradouros, o que não surpreende porque o futebol masculino, entre os grandes clubes, também passa por renovações a cada aceno de qualquer time de segunda linha da Europa.

Os dirigentes poderiam tentar entender como o futebol feminino é um sucesso em países europeus e nos Estados Unidos. Há inúmeras portas a escolher. Campeonatos sólidos, com administração independente, como na Suécia e na Alemanha. Ou vincular a modalidade à formação universitária e à criação de uma liga rigorosamente profissional, como nos Estados Unidos, sem vínculos clubísticos, definitivamente empresariais. Ou ainda adotar o modelo chinês, subvencionado e controlado pelo Estado. Todos eles geraram resultados em competições internacionais.

O futebol feminino rasteja desde os anos 80, de pires na mão para as migalhas da Confederação Brasileira de Futebol. Desde o tempo da equipe carioca do Radar, não há uma política sólida para este esporte. O futebol feminino transita pelo purgatório, numa espera torturante, já que os times não seguem os passos da versão masculina tampouco são livres para desenvolver vida própria. A sombra que protege é a mesma que machuca quando o interesse dos cifrões desaparece.

O Santos é mais um caso isolado que eleva a pilha da ilusão que assassina inúmeras vezes a esperança de um novo recomeço. Todos os times grandes de São Paulo montaram equipes femininas e fracassaram. Os clubes não pressionam as federações. A imprensa não se interessa, viciada no dia-a-dia dos times, com contusões, suspensões e outras regras da cartilha viciada. As estratégias de marketing reiteram o caráter passageiro e específico.

Terminar com o futebol feminino, assim como aconteceu com o futsal, arranhou a imagem de pujança. A gestão que tenta transformar a exceção Neymar em regra, sob a alegação de que mudaria o estado de coisas, provou ser mais do mesmo. O Santos, que simbolizava novos tempos, se mostrou co-irmão dos colegas paulistanos. As diferenças entre eles se foram com o reveillon, ao menos nas modalidades que cercam o futebol masculino.

As sereias da Vila, que engordaram a sala de troféus com duas Libertadores, um Mundial e três campeonatos Paulistas, morrem lesadas pelo canto que normalmente seduz os homens. Eles, por sua vez, serão lembrados pelos naufrágios que provocaram no ano do centenário que, em teoria, deveria passar em brancas nuvens e mares ausentes de tempestade.
 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Fugindo do Michel, antes que me pegue


Consegui me manter alienado até 23 de dezembro. Alienado e feliz! Conheci o que não deveria ter ouvido. Alguns dias antes, abri o jornal no final da manhã e li uma reportagem de capa de um caderno de cultura. O texto descrevia o novo fenômeno da música brasileira. A explosão na Internet, a tradução da letra para o espanhol e para o inglês, a venda como água do DVD ao vivo.

Desconhecia o repertório-chiclete dele. Assim, a reportagem significou apenas cultura inútil sobre mais um artista do verão. O próprio cantor afirmava que deveria extrair ao máximo os dividendos do sucesso. Não tinha certeza quanto tempo duraria. Para um alienado – e volto a frisar, feliz -, seria ele um novo rebolation? Um novo tchan? Outro Luan Santana? Perguntas inexpressivas para respostas que não merecem esforço.

23 de dezembro, voltamos ao flerte. Na casa de amigos, o filho caçula me expõe à idolatria do cantor. Fui xingado, apenas com o movimento dos lábios mudos, porque brinquei com a música de quem não conhecia. Minha punição e praga decretada: vê-lo a meu lado por todos os cantos. É claro que a praga não veio do menino de sete anos. Provavelmente de alguma entidade das melodias de supermercado.

Escrevo para desabafar, para pedir auxílio, para encontrar pessoas que desejem, como eu, montar um abrigo de foragidos. Tento, desde então, escapar de Michel Teló. Fugir dele se tornou pré-requisito para manter a mente livre. Para manter o pensamento arejado sem que o hit “Ai, se eu te pego” permaneça como mensagem obsessiva.

No trânsito, liguei o rádio e lá estava ele:

— Delíciaaaa!!!

Desliguei o rádio. Quando o carro parou no semáforo, o cidadão no carro ao lado não pretendia vender o aparelho, mas até agora ninguém me convenceu do contrário: ou ele era do fã-clube do cantor paranaense ou recebia comissão para divulgar a obra dele.

A sina me manteve ileso por alguns dias. Não desconfiava do período de incubação. Imaginava que as palavras repetitivas se foram como uma chuva desta época do ano: forte, rápida, seguida de luz forte.

Na antevéspera do réveillon, os sintomas se agravaram. A fase de calmaria era, definitivamente, alarme falso. Resolvi acompanhar minha irmã a uma agência bancária. Meus dois filhos seguiram conosco. Andamos duas quadras e paramos no cruzamento de duas avenidas. Meu filho caçula estava nos meus ombros.

Ao lado, um carro com o som alto aguardava o verde. Eu não prestava atenção na música por estar preocupado com as crianças que atravessariam a rua. Até que escutei meu filho de dois anos pronunciar três palavras:

— Pego, mata, delicha!

Se ele estava repetindo o hino dos direitos autorais, como poderia me salvar da radiação? Como poderia defender uma criança dos problemas do mundo? Sentia-me como uma vítima das falhas na política de segurança pública? Ou entregaria os pontos e admitiria que estava vivendo na Alcatraz de dois acordes e três frases em repetição ad eternum?

Esqueci-me do assunto por 24 horas. Superei uma crise de insônia, uma irritação inexplicável e dei um voto de confiança para a euforia de final de ano. Arrumei-me para a virada, que seria vista na praia de Santos.

Chegando à casa dos amigos, a chuva apertou. E a tendência era piorar, o que nos impediria de caminhar até a orla. Parentes baianos dos anfitriões garantiam o bom papo. Até que cometi um erro gravíssimo, uma atitude que sempre recriminei: liguei a televisão!

E começou o show da virada. Entre muitas atrações de segunda linha e medalhões dublando antigos sucessos, alguém resolveu lembrar:

— Ele vai cantar também! E com o Neymar!

Em silêncio, rezei, fiz promessas impossíveis, cruzei as mãos, movi os dedos em sinal da cruz. Que a chuva diminua para seguir até à praia! Até à esquina, pelo menos. Mas praga não vem com uma manifestação paranormal isolada. O pacote de azar dá avisos, marca do inevitável.

A chuva se transformou em temporal. Ficaríamos em casa. Conversa boa, comida excelente e a TV sobrevivendo no mesmo canal. Até que ele entrou no palco ao som do refrão-grude. Antes que pudesse comemorar o final, ele chamou Neymar. O atacante do Santos rebolava junto com Michel e se esforçava em dublar a própria voz, frágil como qualquer zagueiro de interior que ousa sonhar sucessivas vezes em tirar a bola do craque.

Quando entrou o intervalo comercial, eu exalava alívio. Acabou, pelo menos por este ano. A música acoplada aos neurônios era o menor dos efeitos colaterais. “Ai, se eu te pego” morreria assim que outras tranqueiras animassem o show da virada.

Mas Isis, um dos parentes da Bahia, resolveu fazer uma revelação. Daquelas que só acontecem em final de ano, na esperança de chocar e depois desaparecer com a retomada do cotidiano em 2 de janeiro.

— O autor da música é da minha cidade.

Até então, estava muito curioso para saber como era Feira de Santana. Falávamos de shows, de atrações do Carnaval, das festas, do churrasco. Só faltava o futebol. A revelação provocou mais meia hora de debate sociológico, filosófico, de boteco, de todas as correntes teóricas sobre as raízes do sucesso de uma música nascida como forró nos bares de Feira de Santana. Obra e criador, mais o músico com toque de Midas, se misturaram numa troca de informações coletivas, que suturavam a cirurgia de implantação do refrão no meu cérebro.

Dia 1º de janeiro. Agarrei-me em desespero à outra música, aquela pentelha da Globo, esperançoso por uma mensagem verdadeira. Um novo dia de um novo tempo para apagar os fragmentos indesejáveis do passado recente. Até que decidi, há duas horas, ler o noticiário na Internet. Quando abri o site de uma revista semanal de informação, quem estava na capa como fenômeno musical, rumo ao mercado globalizado?

Não vestir branco no réveillon é um crime tão hediondo a ponto de ter Michel Teló até agora em mente?