sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Roberto, Álvaro e talvez Francisco



Roberto e Álvaro não se conhecem. Não viveram na mesma cidade. Roberto – na verdade, Robert – era inglês. Migrou para o Brasil com a esposa, descendente de alemães. Ao chegar no Porto de Santos, resolveu ficar na cidade. Morou durante anos em uma chácara na Ponta da Praia, onde hoje seria o Aquário Municipal. 

Álvaro era médico e um peregrino por natureza. Nasceu em Vassouras, no Rio de Janeiro. Estudou medicina na Bahia. Em 1896, atravessou o Oceano Atlântico e desembarcou na França, onde estudou técnicas de raio-X com Madame Curie.

De volta ao Brasil, Álvaro fixou-se no Rio de Janeiro e se tornou pioneiro na radiologia e na radioterapia no país. Chegou a ser condecorado pelo então presidente da República Artur Bernardes. Mesmo um viajante de carteirinha, é bem provável que Álvaro jamais tenha visitado Santos.

Roberto, por sua vez, não tinha jeito nem vontade de viajar pelo mundo. Preferia a vida de uma cidade ainda impregnada pela atmosfera rural. Não fez grandes descobertas científicas ou recebeu medalhas de políticos de alto calibre. Mas isso não o torna menos importante que o colega carioca.

Roberto e Álvaro acabaram unidos por dois laços. O primeiro deles foi a política. São os políticos que decidem, por inúmeros motivos, quem merece a imortalidade geográfica. Quem merece viver a posteridade numa placa pendurada no poste da esquina.

Roberto Sandall e Álvaro Alvim viraram nomes de rua. A primeira fica na Ponta da Praia. Neste caso, homenagem dupla, pois a rua ao lado se chama Inglaterra, seu país de origem. Álvaro Alvim fica no Embaré e serve de ligação entre as avenidas Epitácio Pessoa e Pedro Lessa.

Outro laço é o Natal, que os tira do anonimato viário do resto do ano. Em dezembro, as duas ruas ganham status de vias congestionadas e de ponto de atração para turistas e nativos. A metamorfose acontece ao anoitecer, quando filas de carros e flashes de câmeras alteram a rotina pacata dos moradores.

A rua Roberto Sandall é composta por 14 prédios. Todos iluminam as entradas e as árvores. Alguns estendem a decoração para fachadas e apartamentos. A rua já ganhou prêmios pela identidade visual e é alvo de crônicas como esta há quase 20 anos.

A rua Álvaro Alvim se destaca pelas casas. São decorações independentes que, em conjunto, transformam a via numa alameda de luzes, personagens natalinos e cores além das tradicionais do período.

Na última semana, quando cruzei a rua, vi vários carros parados e pessoas reunidas na calçada. O primeiro pensamento foi: “houve um acidente.” Na iminência de ser absorvido pela curiosidade mórbida e pelo “antes ele do que eu”, me perguntei: “mas cadê as viaturas?”. O trânsito estava travado por conta das luzes natalinas em várias casas.

Santos poderia retomar os concursos de Natal, que premiavam as melhores decorações até alguns anos atrás. Mas as duas ruas deveriam ser proibidas de concorrer pela tradição e pelo notório saber. Caso contrário, os videntes do fim do mundo seriam capazes de acertar os vencedores.

Roberto e Álvaro costumam provocar inveja e admiração. “Por que minha rua não é assim?”. Talvez consumido pela dúvida, um religioso começou a se mexer. Frei Francisco Sampaio já mobilizou alguns vizinhos, donos de casas sobrepostas recém construídas. Eles investiram pesado nas mudanças de suas residências, principalmente perto do Canal 5. Ali, motoristas e pedestres começam a sair do transe e a olhar para os lados e para cima.

De fato, quem poderia resistir à pressão da fé, principalmente em tempos natalinos? Até os freis carregam uma pontinha de inveja.
 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Alugo-me para o Natal


Estimulado por um colega comerciante, esperançoso por vendas, e movido à compaixão por ver a tortura contra os Papais Noéis de shopping, resolvi entrar no mercado natalino. Mas não tenho o tino comercial do meu colega. Poderia encarar a fantasia vermelha, mas prefiro formas mais tradicionais de dieta. Então, somei uma pitada de empreendedorismo e detectei uma faixa da economia pouco explorada neste final de ano.

Resolvi me alugar para as festas. A mercadoria – no caso, eu, o personal Christmas friend – convive com você na ceia do dia 24 de dezembro, mais o almoço do dia seguinte. A comida é por sua conta. Meu trabalho é cumprir certas tarefas – ou trabalhos sujos – que você detesta, mas é obrigado a fazer nesta época do ano. É felicidade garantida ou a hipocrisia de volta.

Se estiver satisfeito, acerte uma taxa extra de 30% mais impostos, que o serviço é automaticamente estendido para o Reveillon e primeiro dia do ano seguinte. Se o trabalho não estiver a contento, basta que ambas as partes assinem a recisão contratual, sem multa ou quaisquer outros tipos de indenização.

O serviço inclui, por exemplo, tirar fotos com a família. Posso ser o parente distante, o amigo da última hora ou o namorado da sobrinha. Faço até coração com as mãos, se necessário.

O pacote prevê elogios ao pernil de todos os anos da sua sogra. Posso também conversar com o primo insuportável, que você encontra apenas uma vez por ano. Discutiremos futebol e virarei torcedor do time dele, exceto o Palmeiras. Natal não é dia de melancolia, como reza o protocolo.

Resolvo também o problema de presente. Se for amigo secreto, é mais fácil. Basta que você forneça informações básicas do sujeito sorteado. Ele ganhará um vale CD, DVD ou livro. Será compatível com a maioria, o que reduz a zero a chance de marmelada.

Se o cliente estiver sem tempo para comprar presentes para a mulher ou para o sogro, seus problemas acabaram. Lingerie branca para esquentar o Reveillon (deixe-a acreditar que 2013 será diferente depois sete ondas!) e vinho ou whisky estarão no pé na árvore de Natal antes que os convidados percebam. A procedência da bebida (e da lingerie) varia conforme o combo adquirido pelo freguês.

O pacote vem com trilha sonora. Cantaremos juntos as músicas natalinas da Simone. Depois, animarei as titias no especial do rei Roberto Carlos. Levarei a listagem das músicas – as mesmas todos os anos – e podemos chorar diante de tantas emoções.

Sua namorada tem 20 aninhos? Deseja se enturmar com sua filha adolescente? Dançamos “Gangnam Style” e cantamos as últimas do sertanejo universitário. Se precisar, posso te encontrar um dia antes para ensaiarmos as coreografias. O serviço não inclui funk ou bandas de rock coloridas.

Mediante taxa extra de insalubridade, tomamos conta – depois da uma da manhã – do tio cachaceiro. Falaremos mal dos políticos. Afinal, somos treinados para a escuta. Há kit de primeiros socorros, em caso de risco de coma alcoólico. Chamar a atenção atrapalha a imagem da empresa.

Serei invisível na lavagem de roupa suja, no final da festa. Bastidores de família ou queixas sexuais e financeiras serão tratados com discrição. O contrato estabelece cláusula de confidencialidade. Nada será revelado, publicado em Facebook ou veiculado em You Tube.

Como pagar pelo serviço? Você pode parcelar em três vezes no cartão ou via boleto bancário. Dependendo da sua condição socio-econômica, aceito vale refeição e cartões de ônibus como uma das prestações.

O primeiro pagamento seria apenas depois do Carnaval. Trabalhamos também nos quatro dias, incluindo a Quarta-feira de Cinzas. Mas aí o pacote é de outra natureza, mais íntimo. Como me especializei em confraternizações de final de ano, posso indicar outros sócios-consultores. Sem custo adicional, é claro.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Os maias estavam errados



Meu vizinho costuma manter a pose de normal. Mas, de perto, revela suas esquisitices. Ele é meu amigo em rede social, mas, quando cruza comigo nos corredores do prédio, parece que me vê pela primeira vez. Oi é coisa rara.

Nas duas últimas semanas, eu o encontrei três vezes. E ele sempre carregava sacolas de supermercado. Andava com pressa. Eu o ouvi alertar a faxineira. “A senhora deveria fazer o mesmo! Ninguém sabe o que vai acontecer depois daquele dia.”

Sem prestar muita atenção da primeira vez, imaginei que fosse algum dia de oferta, que garantiria a ceia de Natal mais barata. A faxineira, na casa dos 80 anos, sempre fala com orgulho que não perde uma oferta nos supermercados do bairro. Sempre acompanha os panfletos e compara preços. Na semana passada, economizou R$ 30 na quarta-feira, data de verduras, legumes e frutas.

As sacolas de supermercado do vizinho exigiam duas, três viagens do carro ao apartamento. Tinha jeito de compra do mês. Dois dias depois, saindo para o trabalho, quase esbarrei no sujeito com meia dúzia sacolas nas mãos. A mulher dele, suando em bicas, carregava outra meia dúzia.

O instinto fofoqueiro renasceu e me causou uma onda matemática, resumida no seguinte pensamento. “A família do cara deve ser grande, muita gente para vários perus de Natal.” O surto de abastecimento – confesso - não me incomodou por muito tempo. O episódio se tornara mais um na lista de bisbilhotices do prédio.

Até ontem, um sábado chuvoso. Desci para levar o lixo reciclável na garagem quando, embaixo de um pé d’água, avistei o vizinho com mais sacolas de supermercado. Na garagem, deu para ver o porta-malas lotado de caixas de leite, peças de frango, lataria, entre outros itens. Na escala fofoqueira, o parecer: “o cara montou um bunker. É hora de perguntar.”

Reduzi o passo para que o sujeito pudesse me enxergar. Assim, puxaria papo e mataria a curiosidade de um dia insosso. Quando ele agarrou a caixa de 12 litros de leite e pôs no ombro, aproveitei para cumprimentá-lo e perguntei:

— Muita gente para o Natal?

— Natal. É estoque para o fim do mundo. Vamos comemorar!

Ah! A expressão inútil de quem não sabe o que dizer. Lembrei-me daqueles malucos norte-americanos que apareceram no noticiário, preparando-se para o final dos tempos, previsto para 21 de dezembro. O que meu vizinho esperava? E eu? Entraria na fortaleza dele? Teria comida de graça por algum tempo? Ou deveria queimar o resto do limite do cartão de crédito e propor a ele uma comunidade isolada e seletiva?

O sujeito mudou minha opinião. Ele até poderia ser maluco, mas tinha bom humor. Seríamos vítimas do cataclisma, mas morreríamos com honras e com diversão. Tomei coragem e retomei a conversa com design de interrogatório.

— Tantas compras assim? Pretende ficar em casa após o fim do mundo?

— Claro que sim. Será a maior festança. Churrasco, cerveja, a parentada toda, amigos da antiga, netos, todo mundo reunido. É uma chance única. Sabe-se lá se teremos outra oportunidade de encher a cara com gosto. O que sobrar, a gente mata no Natal.

Opa, o vizinho queria hora extra. Apocalipse é um só, não tem chorinho, sobremesa ou rapidinha. Dia 21 acaba tudo, com previram os maias. Resta sonhar com as ruínas.

Eu morreria na Ilha das Palmas, lugar paradisíaco onde acontece a festa de confraternização do jornal para onde escrevo. Decidi ignorar a compra de presentes e os convites para amigos secretos. Vai que o boato vire verdade.

Olhei bem para o vizinho e a pergunta escorregou pela boca, de bate pronto:

— Natal? O senhor tem certeza de que sobrará alguma coisa depois do dia 21?

O sujeito largou a caixa de leite no chão, olhou para as mãos e fez as contas. Olhou de volta para mim e disse, com seriedade:

— Você acreditou nesta bobagem dos maias? O mundo acaba para mim dia 16 de dezembro, amanhã, às dez e meia da manhã.

Hoje, no horário do profeta que mora ao lado, compreendi a previsão. Exatamente nesta hora, o vizinho foi na janela e gritou:

— Acabou! Acabou! Campeão do mundo! Campeão do mundo! Vai, Curinthia! 

Fiquei com vergonha de não ter tocado a campainha dele para celebrar nossa chegada ao paraíso.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Morei dentro de uma obra de arte tediosa



Márcio Calafiori 

Cheguei em Brasília em julho de 1976. A cidade acabara de completar 16 anos. Sabe aquela garota linda e cruel? Era Brasília. Sempre que se fala nela, Oscar Niemeyer é logo lembrado. Nada mais justo e histórico. Nelson Rodrigues talvez dissesse: “Oscar Niemeyer tem mais história que Pedro Álvares Cabral.”

No entanto, a Brasília que conheci tem pouco a ver com ele. As curvas, as sinuosidades, as ondas do mar e as linhas graciosas naturalmente desenhadas pelas montanhas, as curvas femininas, ah, os seios, os seios...

Alguém aqui já morou em Brasília? Pois eu, sim. Três anos e meio. Para começar, vivi numa quadra de milicos, a SQN 103. Isso quer dizer: Super Quadra Norte, sendo 103 o número da quadra. Falava-se: “Moro na 103 Norte.”. Se alguém dissesse: “Moro na Super Quadra Norte 103” é porque acabara de chegar e, obviamente, estava completamente por fora.

Quando cheguei, a Asa Norte estava sendo construída ainda, pois Brasília, o plano original e artístico, a criação do mundo, começou pelo chamado Eixo Monumental — por tudo o que é bonito e criativo e histórico e moderno e ousado e sinuoso, com a assinatura do Niemeyer. Depois, veio a Asa Sul.

Deslocar-se da Norte para a Sul era como mudar de cidade nas asas de uma borboleta. A Sul tinha a assinatura do urbanista Lúcio Costa — o responsável pela elaboração do Plano Piloto, que toscamente o desenhou, de última hora, no formato das asas de uma borboleta, e não de um avião. Outra assinatura era a do paisagista Burle Max. É mole?

Era tão linda a Asa Sul, tão comovente, que me deixava mudo. Estar ali era como morar dentro de uma obra de arte. A outra parte da chamada obra de arte, a Asa Norte, era só tédio.

Em 1976, Brasília não pertencia mais a Niemeyer, Lúcio Costa ou Burle Max. A sua continuidade estava agora em outras mãos, em outro regime político, o dos militares. Eu soube depois: havia, sempre houve, uma disputa para que Brasília não fugisse ao plano original. Mas posso garantir: a Asa Norte, de 1976 a 1980, não tinha nada a ver com a Asa Sul. 

O esqueleto do Plano Piloto era ainda o de uma borboleta, mas a constituição das asas era de concepção diversa. A Norte que conheci era reta, quadrada, cinza. Era tão cinza, quadrada e reta que nem ao menos eu podia imaginar, segundo uma foto que recebi de um amigo vinte e cinco anos depois, que as árvores recém-plantadas nas beiradas das quadras imprimiriam um visual mais humano ao concreto. Não dava para prever isso, a não ser, talvez, que se tivesse alguma experiência de vida, o que não era o caso, tão tenra a nossa idade.

O que Niemeyer e Lúcio Costa imaginaram para Brasília não se concretizou, pelo menos naquele período. Hoje não sei. Mas a Brasília, com os poemas sinuosos do Niemeyer lá para as bandas do Eixo Monumental e da Asa Sul, estava então muito distante de nós, jovens e doidos da Asa Norte, que sem mais nem menos, filhos de funcionários públicos federais, fomos parar numa cidade disciplinada, ordenada, com cada coisa em seu lugar.

Uma cidade em que se o morador não tivesse carro — pois Brasília fora planejada não para ser percorrida a pé, mas para ser apreciada de carro — estaria fadado à paralisia. Era o nosso caso. Do Niemeyer que morreu agora faltando poucos dias para completar 105 anos, tínhamos apenas raiva e um impulso neurótico de sumir da obra de arte que projetou. Agora, preciso voltar a Brasília.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O cachorro mais infeliz do mundo


Márcio Calafiori*

Faz uns três meses os vizinhos do segundo andar do edifício ao lado resolveram criar um cachorro. Chegou bebê e foi deixado na área de serviço, trancado. De ínício, mais ou menos às 5h30, ele começava a chorar. Gritos agudos, uma faca perfurando os tímpanos. “Daqui a pouco ele vai parar”, eu pensava. Que nada! O animal se lamentava cada vez mais alto. 


São seis e quinze agora. O jeito é levantar, tomar banho, ir para a sala, ligar o rádio do computador e me distrair com alguma coisa. Por volta das sete horas, alguém abre a porta da área de serviço no segundo andar e o animal se aquieta. Parece óbvio, quer companhia.

Não gosto de reclamar de vizinhos. Não tenho sangue de barata, mas tento viver em paz. Por causa do cachorro-bebê mudei um pouco os hábitos. Passei a ir mais cedo para a padaria tomar café. No entanto, sair cedo de casa não é mais como antes. Por exemplo, vou até a farmácia da esquina da Afonso Pena e dou com o nariz na porta. “Só abre às oito”, alguém me avisa. “Nos bons tempos as farmácias abriam às seis”, comento um tanto quanto azedo. “Se abrir às seis, os caras assaltam”, ouço como resposta.

De volta para casa, passo por uma senhora que vem com o cachorro. O cão para e funga alguma coisa no chão. A mulher o repreende: “Lucas, eu já não te disse que não é pra ficar cheirando porcaria na rua?”. Outro dia, quase na mesma esquina, vinha uma moça com seis cães nas coleiras. Deve ser cuidadora. 

Um dos animais ergueu as patas dianteiras, talvez querendo brincar comigo. A moça puxou a coleira a tempo e deu uma bronquinha na cadela: “Ana, você precisa entender que não é todo mundo que quer o teu carinho. Aprende isso!”.

Tudo mudou. A farmácia não abre mais às seis da manhã e os cachorros são tratados como seres humanos. Menos o cão do prédio vizinho ao meu. Ele parou de chorar às 5h30. Mas agora chora intermitentemente várias vezes ao dia. Chora, chora, chora. Passa horas e horas sozinho em casa. Não estaria melhor ao lado da mãe, de quem foi retirado? Trancado, dá cabeçadas na porta da área de serviço. 

Às vezes, o bicho solta um uivo profundo e recomeça o choro. Só fica calado quando o pessoal da casa chega da faculdade. Os meus vizinhos são jovens, parecem formar uma república.

Agora há pouco o cachorro estava chorando. Não aguentei. Entrei no Google, procurei o telefone de alguma entidade protetora dos animais, encontrei um número em Santos e liguei. Só dava ocupado. Liguei para o 190. A policial me forneceu outro número. Liguei, chamou e nada. 

Ah, o controle de zoonoses deve ter um número quente! Por que não pensei nisso antes? Ligo, sou bem atendido, o rapaz do outro lado da linha me passa um número, mas já vai avisando: “Talvez não atenda.” Dito e feito. Mas a minha missão continua. Um dia o Thor vai parar de chorar. Por enquanto, o considero o cachorro mais infeliz do mundo.

* Márcio Calafiori é jornalista. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Boa noite, dona Amélia!


Márcio Calafiori* 

A senhora tem 70 anos. Nasceu em 22 de janeiro. É um pouco cedo para o inferno astral, que no caso só deveria começar em 22 de dezembro, os trinta dias que antecedem o aniversário. Seja como for, a aquariana que residia em um apartamento de classe média, de dois quartos grandes, naqueles prédios antigos, é a mais nova moradora de rua de Santos.

De primeira, conversando com ela, não a levei a sério. Eu vinha da padaria, e, sem mais nem menos, me abordou:

“O senhor acha justo alguém como eu morar na rua? Eu pareço uma mendiga?”.

Para falar a verdade, não. A senhora não parece uma mendiga. Veste-se esportivamente. Aliás, se fosse minha namorada, talvez entrássemos em conflito a respeito do short que usa, aquele de academia, a blusa decotada... A conversa dela é esquisita. Não, não me sinto incomodado, só quero me livrar, seguir em frente. Mas a senhora insiste:

“O apartamento é meu. Eu cantava... Depois trabalhei na Caixa... Foi o meu marido que trabalhou na prefeitura quem me deixou o apartamento. Agora me botaram na rua, não posso nem pegar as minhas roupas... Hoje tomei banho no chuveiro da praia, lavei os pés e as genitais”.

“Boa-noite”, eu disse.

No outro dia, no bar em frente, eu soube: se chama dona Amélia. Ficou catorze anos sem pagar o condomínio. Já era exaltada, dizia o que lhe vinha à cabeça. Teve um problema de família e em seguida passou a viver só, suspeitando de que a sua casa vivia repleta de vampiros. Por falta de pagamento no condomínio, R$ 200 por mês, teve o apartamento leiloado.

Na rua onde moro, no Boqueirão, em Santos, todo mundo a conhece. Alguns estão revoltados com a situação que enfrenta. Ela passa puxando um carrinho de feira, tenta entrar no prédio, mas trocaram a fechadura.

Dona Amélia tem a voz forte, é sergipana, foi cantora. Fala palavrão, é teimosa. Segundo ela, este é um país de vagabundos e ladrões, que só querem roubá-la. Pedi para conversarmos. Olhou-me desconfiada. Benzeu-me desenhando no ar alguns sinais, pois pareço um daqueles vampiros que quer sugá-la. De tudo o que consegui apurar é possível que a senhora talvez tenha finalmente compreendido, e só talvez, que se meteu numa grande encrenca.

“Não vou dar dinheiro praqueles bandidos, praquele síndico ladrão”, diz.

“Dona Amélia, a senhora prefere morar na rua do que pagar o condomínio?”.

“Todos no prédio querem me roubar. Já me roubaram tudo o que meu marido me deixou, só faltava esse apartamento. Eu tinha casas na Zona Noroeste, me roubaram. O meu apartamento não vou deixar...”

Contam-me os indignados no Bar do Robson que dona Amélia age estranhamente faz anos. Não fala coisa com coisa. Era a moradora mais antiga do prédio. Aí veio a execução.

“Será que ela rasga dinheiro?”, alguém pergunta.

Não sei dar respostas assim na lata. Mas depois de conversar com ela e arrancar, a muito custo, o seu nome completo (ela primeiro fez um sinal com os dedos querendo dizer que eu estava tentando chupar o seu sangue), acho que essa senhora rasga dinheiro, sim. Aqui no bairro, o seu apartamento deve valer pelo menos uns R$ 200 mil. Teria sido arrebatado por R$ 40 mil num leilão. Ela foi executada e ponto final. Não deve ser bem quista pelos vizinhos.

Em plena vigência do Estatuto do Idoso, a senhora passa em direção à esquina, puxando uma mochila com rodinhas. Usa cordões de ouro, pulseiras e relógio. Alerto-a de que assim poderá ser assaltada.

“Me assaltarem? Vem, tenta!”, me desafia.

Pergunto aonde vai.

“Vou procurar um lugar para dormir, de preferência perto de um shopping, onde posso usar o banheiro.”

“Boa noite, dona Amélia!”

P.S: Os amigos do Bar do Robson me informaram ontem que um caminhão veio buscar as coisas da dona Amélia e que ela teria sido acolhida por uma sobrinha, depois de passar mais de duas semanas morando na rua. O caso serve de alerta. Não pagar o condomínio está resultando em despejo.

Sim, tem gente que não paga o condomínio porque não quer; mas existem outras situações, até mesmo por desemprego ou doença, em que somos obrigados a adiar compromissos. A senhora sobre a qual falei não se encaixa em nenhuma dessas situações. O seu caso envolve outro tipo de problema, que mereceria um tratamento mais humano.

* Márcio Calafiori é jornalista. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

O gerente do supermercado


Frequento, desde criança, o mesmo supermercado. Confesso que desenvolvi uma relação de afetividade, diferente da maioria dos consumidores, que adora reclamar do atendimento. Alguns clientes – do perfil que só pedem pelo telefone, sem sair da poltrona – criticam até as promoções especiais, daquelas exclusivas e perto de casa.

O supermercado – é importante explicar que levei algum tempo para entender que se tratava de mera relação de negócios – entrou em crise de identidade. Em 2010, a empresa era líder em vendas, a direção era elogiada até pela imprensa local, os funcionários se revezavam no prêmio de melhor do mês.

O cenário se desenhava como uma repetição de 2002, quando o supermercado derrubou todos os concorrentes, com uma fórmula familiar, apelidada com o sobrenome do gerente, um sujeito do tipo sargentão, mas que parecia governar com senso de justiça. Ou, pelo menos, senso de oportunidade, quando colocou os empregados nas funções em que apresentavam melhores resultados. Até adotou o termo da moda, colaboradores, para mascarar a hierarquia rígida.

A partir de 2010, a empresa repetiu à exaustão o discurso de procurar novos horizontes. Demitiu toda a gerência e parte dos colaboradores. Contratou um profissional novato para aquele cargo, acostumado a lojas de grande movimento, mas sem a legitimidade da freguesia.

O novo gerente mexeu na estrutura de pessoal. Alguns empregados foram aposentados, outros perderam status de imprescindíveis, muitas caras novas submissas a um único trabalhador, com origem em Santos, e badalado no mercado. O gerente tinha a missão – mais a obrigação – de construir uma estratégia de vendas que colocasse a marca de novo na linha de frente. O supermercado não frequentava mais a lista dos dez melhores. Parecia mesmo um estabelecimento de bairro, de acordo com minha antiga imagem de criança.

O gerente sofreu muitas críticas, de fornecedores a clientes, da diretoria aos vizinhos, que não compreendiam como a marca não conseguia fazer cócegas na concorrência tradicional. O gerente apagava os incêndios com palavras firmes, sorrisos discretos, atendimento pontual e promessas de que dias melhores chegariam.

Em 2012, o supermercado foi envolvido numa crise. O dono do estabelecimento, sufocado por denúncias de mau uso de dinheiro, deixou o cargo depois de 27 anos, por pressão da família. Acabou substituído por seu Zé Maria, um senhor de 80 anos, subordinado de carreira.

Acostumado às sombras, seu José Maria sempre deu ordens de modo a evitar a vitrine. É um sujeito tarimbado, daqueles que sabem dar o bote na hora certa. Temeroso em entrar para a história como o novo diretor que afundou a marca, ele resolveu mudar os rumos da empresa.

Em quatro meses, seu Zé Maria fritou funcionários antigos e, principalmente, o gerente novo, Seu Menezes, gaúcho radicado em São Paulo. A demissão aconteceu depois que o supermercado derrotou a concorrência vizinha, rival de décadas no setor.

Mesmo com a vitória, todos os funcionários do administrativo também perderam seus empregos. Os fofoqueiros diziam que o substituto poderia ser de origem espanhola, lugar onde ficam os gigantes deste ramo da economia.

Seu Zé Maria não esperou pelas festas de final de ano, quando a casa fecha para balanço. Ele se sentia pressionado pela família, que lembra a velha máfia, mas fiéis seguidores das estratégias de marketing, ainda que não saibam direito o que é isso.

Seu Zé Maria aproveitou as brigas internas e anunciou em uma semana o novo gerente, Seu Felipe, o mesmo que levou o supermercado ao auge no bairro há 10 anos. Mais velho, ele enfrentou problemas nas três últimas companhias que trabalhou; a última quase faliu.

Seu Felipe vem acompanhado de um diretor, Seu Carlos Alberto, que trabalhou na empresa, entre idas e vindas, desde o início dos anos 70. O novo gerente chegou cantando de galo. Ele afirmou que é obrigação liderar o mercado novamente e que pretende convocar antigos funcionários, alguns talvez mais ansiosos com a aposentadoria do que com o trabalho duro.

O fato é que a marca nunca esteve tão em baixa. Virou um negócio a mais, que me tornou indiferente a seus produtos, muitos de procedência duvidosa, distribuídos nas prateleiras conforme o desejo dos intermediários. 

A turbulência do supermercado, o Verde e Amarelo, me colocou em dieta econômica. Mas a abstinência não será eterna. O vício deve renascer em dois anos. No fundo, sempre me prendo à esperança de que a seleção brasileira de futebol volte às origens.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O pecado preferido


As grandes tragédias sempre trazem consigo uma enxurrada de análises. Os culpados são perseguidos e incinerados, ainda que simbolicamente, em praça pública.

A tradição e as glórias reaparecem como lembretes de sangue para uma fase intitulada de vergonhosa. Velhos guerreiros, ídolos recentes, membros de várias patentes são convocados para enumerar as causas, especular sobre soluções tão óbvias quanto inúteis e sugerir estratégias para a próxima batalha, mesmo que os soldados sigam em agonia na trincheira do conflito anterior.

Torci para que o Palmeiras sobrevivesse ao bombardeio da zona do rebaixamento. E também gostaria de palpitar sobre os motivos da morte em vida pela segunda vez, em dez anos. De fato, o que se pode fazer – talvez valha para todos que escrevem – no momento é dar palpites. É tão óbvio quanto ser rebaixado por perder 20 de 36 partidas que jamais poderemos dar peso aos múltiplos fatores que conjugaram o fracasso.

Penso que o Palmeiras caiu para a série B por uma razão: vaidade. Na verdade, o pecado reúne (ou simboliza) todos os sintomas que constaram na evolução da doença.

A vaidade carrega a presunção dos dirigentes, omissos em tomar a culpa que lhes cabe, orgulhosos em pedir ajuda, estúpidos em passar por cima da guerra de facções que contamina o clube há anos.

A vaidade é quem seduz os treinadores, reizinhos nus à beira do campo, “professores” que se deleitam ao som da própria voz, em aulas inaudíveis ou ultrapassadas para estudantes pouco afeitos às lições.

A vaidade envolve como uma membrana os jogadores descompromissados com as tradições, inertes por salários irracionais, carrões e outros benefícios, que serão reproduzidos na próxima camisa a ser beijada no escudo, salvo exceções, no próximo ano.

A vaidade é quem consome os torcedores profissionais, aconchegados ao poder dos gabinetes e à truculência das arquibancadas, ogros em jurar violência e morte quando o time precisa de empurrões, mas de incentivos.

A vaidade é quem afunda a instituição, que se masturba com um título sobre adversários frágeis e mal se dá conta de suas próprias fragilidades diante de 38 batalhas semanais.

Quando testemunho a viagem do Palmeiras lentamente ao inferno, só consigo pensar no personagem de Al Pacino, no filme “Advogado do Diabo”. Numa das cenas, Pacino – que interpreta o próprio sete peles – resume a superficialidade humana diante do poder de sedução.

— Meu pecado preferido sempre foi a vaidade.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Turista de mim mesmo


Depois de meses em prisão domiciliar e profissional, recebi o indulto. Ainda tinha obrigações a cumprir, mas – com os grilhões mais frouxos nos tornozelos – poderia realizar meu sonho de consumo antecipadamente. Os ingredientes já estavam comprados, rastros de anos anteriores, prontos para o ritual de libertação, purificação e exorcismo.

Sentia-me transparente, mais claro que uma cobaia de laboratório. Vivia, como um rato que corria na rodinha, no mesmo percurso, na mesma ausência de ponto de chegada. Pensar sobre o passado recente era a única saída para entender que a rodinha não representava o único caminho. Havia, nestes dias, a clareira de areia, o espaço aberto. Sem perguntas, sem desconfianças.

Sentia-me sufocado. De vez em quando, o ar requentado pela barreira de espigões que lacram minha cidade me impedia de inspirar a maresia dos desejos escondidos na memória da infância.

Esperei o final de tarde. Quase implorava por retomar aquele relacionamento com lentidão, com serenidade, com paciência. Esperar me daria mais tempo para entendê-la melhor, compreender se havia mudado, perceber as novas nuances daquele corpo que jamais envelhece.

Com o sol dando avisos de fadiga, apanhei parte do armamento na sala, parte na cozinha e fui para a rua. Quatro quadras de caminhada, levando comigo uma cadeira de praia, um livro para ser relido e uma garrafinha d’água. Como armadura, um shorts surrado e o chinelo de sempre do último ano.

Depois de meses sob olhares penitenciários, voltei à praia de Santos. Não que tenha saído da cidade. Sem compromissos, sem algo a fazer, apenas o mar como vigilância. E o cheiro salgado dos velhos anos em ressurreição.

Uma hora depois, a tentação da barraca de bebidas reduzia a distância de um suco gelado a zero. A utopia gritava pelo copo meio mate meio abacaxi, mas o ambulante preferira outras freguesias. Na barraca, duas senhoras e um rapaz. Depois de rápida conversa sobre o cardápio, um suco de abacaxi. Enquanto o suco era castigado no liquidificador, o rapaz me perguntou:

— Você é de São Paulo?

A cobaia de laboratório só pôde devolver a pergunta:

— Estou tão branco assim?

Por educação, o rapaz sorriu e permaneceu em silêncio.

Suco em mãos, a volta para a cadeira de praia. Dez minutos de leitura foram interrompidos por um turista. Minha vestimenta indicava que eu estava de acordo com o linguajar nativo, exceto na tonalidade epidérmica.

O turista, vestindo uma bermuda jeans, retornava do mar. O andar cambaleante entregava a cevada protegida em lata de alumínio como a mandante da transgressão. O turista se aproximou, abandonou temporariamente o gingado etílico, olhou para mim e perguntou:

— Que horas são? Você é de onde?

— Daqui.

— Da Baixada Santista?

— De Santos mesmo!

Cortei a conversa. Se a coloração transparente impressionava a visão distorcida do olhar embriagado, era o momento de ir ao mar. Sozinho na água, não pretendia me esconder, mas pedir à Iemanjá por novas colorações. O mergulho selaria a retomada do namoro.

Quando olhei para a orla da praia, percebi de quem havia me divorciado. Depois de dias de banho de mar, testemunhei a morte e o silêncio da transparência. O azedume da detenção deu lugar à pele nativa de crocodilo (com exagero). E descascar confirmava, em cartório, a certidão de nascimento.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A limpeza que não limpa


Priscilla Kovacs*

8 horas e meu despertador tocou. Aquele mesmo toque, aquela mesma hora. Seria mais um dia rotineiro, se eu não tivesse acordado decidida de que não, não seria como todos os outros. Decidi que faria uma limpa no meu quarto. Tiraria tudo que me trouxesse más lembranças, que não me servisse mais.

Comecei pela sua foto. Dali a pouco já estava separando aqueles livros velhos, que ao mesmo tempo em que me remetiam a recordações imensamente maravilhosas, traziam certa melancolia, certa tristeza. Eles me lembravam alguns sonhos perdidos e alguns caminhos imprevisíveis que, muitas vezes, nos são impostos.

Passei, então, àqueles numerosos estojos socados debaixo da escrivaninha, os quais eu nem lembrava mais que os tinha ali. Dentro deles, canetinhas, lápis de cor, giz de cera, lapiseiras… Era tanta diversidade que eu poderia abrir uma papelaria. Separei tudo, cuidadosamente, dentro daquela mochila, também velha e fora de uso, e deixei-a num canto. Decidi que ela seria de alguém que precisasse mais daquilo do que eu.

Parti para o computador. Também comecei pelas suas fotos, e depois fui para o meu e-mail. Fiquei surpresa ao, voltar para 2010, encontrar três mensagens suas. Foi um misto de risos, pela fofura que elas traziam, com saudade. Na verdade, eu não sabia o que sentir.

Então, continuei a limpeza toda e quando terminei de colocar tudo no seu devido lugar, apesar do ambiente que me parecia trazer muito mais paz, algo estranho se passava dentro de mim. Fiquei minutos olhando o nada. Várias cenas se passaram pela minha cabeça… Foi uma espécie de feedback.

Talvez todo esse ritual tenha me feito perceber que nenhum objeto jogado fora e nenhuma foto ou mensagem excluída conseguirão eliminar uma etapa de nossa vida. Certamente é bom se desfazer de coisas que já não te acrescentam nada ou que apenas estão acumulando pó. Mas isso não significa querer – e muitos menos conseguir - apagar momentos da memória. Aliás, ao longo do tempo que se passa ao lado de uma pessoa, é impossível que não se tenha vivido coisas maravilhosas, momentos inesquecíveis. Porque não guardá-los na nossa caixinha e deixar com que apenas eles tomem conta de nós quando aparece aquele ressentimento e angústia?

As pessoas têm essa mania de lembrar apenas das coisas ruins, de achar que depois que algo terminou (namoro, amizade, casamento…) não restaram coisas boas e passam a se martirizar pelo resto da vida. Basta abrirmos os olhos e enxergarmos o nosso mais profundo interior para percebermos que cada pessoa que passa por nós, independentemente do tempo que ela permaneça, deixa recordações boas e ruins, mas somos nós mesmos quem escolhemos quais guardar e lembrar. Portanto, que usemos bem esse livre arbítrio…

* Priscilla Kóvacs é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos (SP).

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A (outra) moça portuguesa


Escrevi, há quase dois anos, sobre a doença que havia derrubado uma moça que tanto admirava. Mais do que uma aventura de verão, era uma moça com quem mantive um relacionamento de quase quatro anos, uma história que sobrevivera às separações, reencontros, distâncias e crises. Amor, mesmo!

Neste ano, a doença dela se agravou. Os tratamentos falharam. Os médicos se mostraram charlatães vestidos de branco. Os remédios, muitos de alto custo, pareciam placebo, aspirinas diante de um tumor em crescimento.

Muitos familiares se voltaram para outros compromissos, em parte para amenizar a dor de testemunhar a agonia pública dela, outros porque entendiam que a morte tocara a campainha. Até as rivais a olhavam com misericórdia. Preferiam vê-la viva. Optaram por trancar no armário as mágoas antigas. Seria desumano ressuscitar velhas rusgas com alguém incapaz de se defender, com alguém que colecionava sucessivas derrotas.

Os vizinhos se calaram. Muitos ajudaram no passado recente, mas possuem seus próprios problemas, e entenderam que a moça estava condenada. Aguardavam – em silêncio – a data do velório.

Como escrevi aqui, a moça sempre foi independente. Viveu, há nove anos, o apogeu profissional. Era respeitada no trabalho, suas decisões eram ouvidas até pelos medalhões do ofício. Era, acima de tudo, cortejada por propostas de novos ares. Muitos de seus assistentes foram seduzidos por empregos (e salários) melhores e foram se desenvolver em outras bandas.

A moça portuguesa me dizia, na época, que não poderia se chatear com isso. O trabalho dela envolvia também abrir caminho para gente com espírito aventureiro. Nenhum deles, como manda a cartilha perversa do mercado, retornou para socorrê-la quando a doença a esmagou. Apenas lamentam, conversam entre si de vez em quando, mas o telefone seguiu emudecido.

A doença começou a se manifestar, a olhos vistos, há quatro anos. O rosto entrou em deformação. O corpo não era mais cobiçado pelos que a conheciam no caminhar pelas calçadas. A moça se arrastava como o corcunda, à procura das sombras na catedral francesa.

Como acontece com muitos pacientes de UTI, ela entrou – ano passado – na etapa de recuperação rápida. Deu sinais de que a doença poderia regredir. Uma equipe médica a acompanhava com dedicação. Uma mistura de gente nova, com veteranos da profissão. A moça acreditou que poderia receber alta ou, pelo menos, se aproximar de uma rotina dita normal.

No final do ano passado, um erro de dosagem de medicamento provocou uma recaída. A moça portuguesa não subiria de andar no hospital. Deveria ficar internada mais uns tempos. Foi a sentença. Faltou dinheiro. A equipe médica rachou ao meio. Muitos foram embora, outros se aposentaram tamanha a decepção. Ela caiu, este ano, em um quadro depressivo, não detectado de saída. Confundiu-se melancolia com enfermidade psicológica.

A Portuguesa Santista teve, em 2012, o pior ano de sua história. O fantasma do fechamento de portas nunca foi tão concreto. Na quarta e última divisão do Campeonato Paulista, a Briosa parecia um soldado desarmado e ajoelhado na trincheira. O clube ficou em penúltimo lugar, entre 41 times. Jogou dez partidas. Não ganhou nenhuma. Três empates e sete derrotas. 

Mesmo desenganada, a Portuguesa pode se levantar em 2013. O grupo que levou o São Vicente ao vice-campeonato e à ascensão à Terceira Divisão depois de oito anos assumiu a Briosa. É uma nova equipe médica que, espero, aplique o tratamento adequado para salvar esta moça, iludida e magoada com os que prometeram acolhê-la nos últimos anos.

domingo, 28 de outubro de 2012

Palmeiras caindo ...



Detesto a ideia de testemunhar o rebaixamento do Palmeiras. Por experiência, sei o que é ver o time do coração cair. Mais do que isso, senti, com outros torcedores, o calvário de carregar a cruz por várias semanas, na esperança de ser perdoado pelos deuses do futebol, mas terminar pregado no objeto que arrastei impregnado de dor pelas feridas abertas.

Engana-se, leitor, se tive um surto de solidariedade ou de pena pelo Palmeiras. Solidariedade entre rivais não existe. Existem interesses. E pena sempre me pareceu um sentimento arrogante que – por mais paradoxal que pareça – não se encaixa diante da agonia do adversário, ainda mais se ele se afundou sozinho. Arrogância, pelas leis do futebol, é permitida, mas somente dentro de campo, assim mesmo quando a vitória está garantida e o tabu, preservado. O cachorro morto sempre pode dar um último suspiro e te morder.

Como torcedor do maior rival, acredito que um grande clube não sobrevive sem um grande adversário. Flamengo sem Fluminense? Santos sem Corinthians? Grêmio sem Internacional? Real Madrid sem Barcelona? Porto sem Benfica? Vale até no periférico futebol escocês. Imagine como ficou o Celtic sem o Glasgow Rangers, fechado por falência múltipla de órgãos financeiros.

Necessitar do outro como rival é o que mantém os times inteiros como imagens de glórias, sem que o espelho seja fragmentado em múltiplos pedaços e revele os pecados mais heréticos da caricatura. Esta necessidade permeia todos os clubes, de quaisquer níveis. O Sport Recife sem Náutico ou Santa Cruz? Guarani sem Ponte Preta? Botafogo sem Comercial, em Ribeirão Preto? Portuguesa Santista sem Jabaquara, pouco importa se ambos se beijam na quarta divisão do Campeonato Paulista?

Pouco importa se os clubes representam rascunhos do passado. O peso das camisas, a tradição dos craques e dos brucutus de outras eras, os jogos de muitos gols, em solo enlameado e sob chuva torrencial, as goleadas e as viradas sobre o arqui-inimigo. Até as sagas da fundação integram o kit-saudade.

Clássico não olha para a tabela de classificação nem escolhe palco, escalações ou torneio. Até em campeonato de botão de bairro, a rivalidade incinera o racionalismo e a intelectualidade.

A dependência mútua entre rivais vale para qualquer esporte. Forja ídolos. Esculpe mitos. Desenha estatísticas. Escreve o glamour. Pinta o passado em forma de nostalgia. O que seria de Ayrton Senna sem Alain Prost? E vice-versa? O que seria de Roger Federer sem Rafael Nadal? Andre Agassi sem Pete Sampras? Mohammed Ali sem George Foreman? Paula sem Hortência?

O Palmeiras não pode ser rebaixado. Sabemos que a doença corrói o clube há vários anos, com a negligência de vários setores e gestões. Torço, honestamente, para que a bola perdoe o Palmeiras e a violência que seus jogadores cometeram com ela nos últimos anos. Mas, principalmente, que a bola pense nos torcedores – muitos deles devotados como beatos em porta de igreja. Eles não merecem mais feridas abertas na alma, diante da irresponsabilidade de quem não consegue levantar a cabeça, tamanha obsessão pelo próprio umbigo e pelos próprios bolsos.

São-paulinos, santistas e, principalmente, corintianos precisam dos palmeirenses. Ainda mais quando o time deles é o pior dos quatro. Saco de pancadas ou não, os clássicos não sobrevivem sem Palmeiras. A vida sempre será mais divertida com o velho Palestra entre nós.
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A mão estendida

Mara Menezes* 

Inês é uma senhora que chegou há alguns meses à república onde estou morando temporariamente. Semblante triste, meia-idade com aparência de muito mais, divorciada, sozinha na vida. Menciona uma irmã e uma filha casada com quem nunca a ouvi conversar. Não tem celular nem facebook. Subempregada, fuma excessivamente e essa semana embebedou-se até cair.

O trecho de caminhada a partir da esquina da avenida Conselheiro Nébias pela rua Sete de Setembro rumo ao mercado e à estação de travessia de catraias que leva ao distrito de Vicente de Carvalho, do outro lado do canal, pode levar uns bons minutos de alerta. Nada de introspecção nesses momentos.

A jornada demanda atenção, pois, além de ser uma rua movimentada de tráfego, pessoas percorrem as calçadas apressadamente o que pode custar uma trombada de frente com alguém vindo à direção oposta pela mesma calçada. São estudantes universitários, trabalhadores, comerciantes, entregadores e vendedores locais, mendigos, muitos malandros – a julgar pelo gingado do caminhar, os olhares, e as gírias do palavreado – e bêbados, que passam seus tempos por ali nos bares de esquina ou simplesmente jogados pelo passeio.

Essa semana, voltando do distrito de Vicente de Carvalho, parei na padaria Voga para comprar uns pãezinhos, como de costume. À porta da saída estava assentada uma senhora pedinte. Rosto inchado, vermelho, próprio de quem bebe todas há muitos anos, vestida em trapos e aparentemente com muita dor, refletida nos olhos, semicerrados e suplicantes, com a mão estendida a uma outra, de pé, também pedinte.

Nesse momento, a norma é olhar para o outro lado. Recordei uma foto que circula pelas redes sociais em que um executivo passa pela rua e sua própria sombra lhe segura pela cabeça e a desvia para o outro lado para que ele não veja o mendigo jogado na calçada dois passos à frente.

Enquanto eu queria voltar e perguntar o que estava acontecendo, minhas pernas cheias de vida própria continuaram caminhando, foram seguindo e a distância aumentando. Olhei para trás, queria voltar, mas lá na frente vi que já vinha o ônibus 10 e minhas pernas correram. Antes disso, ainda pude ouvir, fracamente, algo que a pedinte de pé disse à outra: “Pois é, não vai dar... é cada um por si e Deus por todos.”

Voltei à república e lá estava Inês, a mulher triste, fumando um cigarro atrás do outro, tossia sem parar e observei que ela não estava longe de um destino como aquela outra à entrada da padaria. Sentei-me ao seu lado e tivemos uma longa conversa.

*Mara Menezes é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos/SP.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Confissões de um torcedor

Por Gustavo Franco*

Sou um torcedor do Santos Futebol Clube, daqueles que quase atingem o fanatismo. Acima de tudo, sou um apaixonado por futebol. Acompanho desde jogos casados contra solteiros ou ainda jogos de várzea em campos que mais parecem um pasto, até as grandes finais.

Em 2011, o Santos participou da Copa Libertadores da América e pude comparecer em grande parte dos jogos do meu time na competição. Fui a todos na Vila Belmiro e Pacaembu e até mesmo em partidas no Chile, Paraguai e Uruguai.

O jogo que mais me marcou foi a primeira final contra o Peñarol, do Uruguai, em Montevidéu. O clima de rivalidade e tensão explica apenas parcialmente o que foi esse momento. A torcida do Santos foi recebida com as “boas vindas” de uma chuva de pedras e pedaços de ferro ou madeira, arremessados pela torcida uruguaia.

Alguns torcedores santistas ficaram feridos. É por essas e outras que muitos preferem não acompanhar o futebol, isso é um exemplo de quanto um ser humano pode agir violentamente por uma simples partida de futebol.

Por trás desse esporte há também a artimanha política do pão e circo, mas não ligo. O futebol rompe as barreiras da minha razão e me leva sem resistência à classe dos alienados e ignorantes do povo brasileiro que assistem futebol.

Felizmente, na partida de volta contra os uruguaios, dessa vez no Brasil, o Santos soube devolver na bola as agressões no primeiro jogo. Com uma incontestável vitória, conquistou o titulo de campeão da Copa Libertadores da América 2011.

Após o apito final do árbitro, lá estava esse apaixonado santista comemorando em estado de êxtase um titulo tão aguardado pela nação ”santástica”. Mal havia passado a euforia da conquista e já me programava para a próxima grande competição que o Santos disputaria. Tratava-se do Mundial Interclubes que aconteceria no Japão.

O principal adversário era o fantástico time do Barcelona, considerado um dos melhores que o mundo já viu. Mesmo sabendo que dificilmente sairíamos campeões do Japão, resolvi investir nessa passagem. Convidei um primo para ir comigo. Ele logo se animou com a ideia e topou de primeira. Depois de muita burocracia, conseguimos regularizar todos os trâmites necessários para embarcar para o Japão, como o passaporte e o visto de entrada com permanência de uma semana para turismo no país nipônico.

Após alguns meses de espera, chegara o grande dia da viagem. Foram 24 horas de vôo. Na chegada, o Japão se mostrou um país com um povo extremamente educado que, por mais que não falassem bem inglês, eram solícitos com os turistas.

Por mais que o resultado do campeonato tenha sido negativo para o Santos, o futebol deixou explícito que é capaz de unir culturas e povos e trazer grande aprendizado e conhecimento para as pessoas, um esporte que é capaz de entreter, divertir e vencer grandes distâncias culturais.

*Gustavo Franco é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos/SP.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A crônica da primeira crônica


Por Jessica Bitencourt*

— Você precisa parar de escrever ouvindo música.

— É impossível se concentrar nas duas coisas ao mesmo tempo. Você não presta atenção no que está ouvindo nem na matéria que está fazendo.

— Qualquer dia desses, vai acabar colocando coisa errada nos seus textos.

A bronca veio numa quarta-feira, enquanto Nando Reis imperava no meu fone de ouvido e eu produzia o texto do quadro Dicas de Cultura, que vai ao ar todas as quintas, na Primeira FM, em São Vicente. O motivo: eu comecei a cantar a música. Em voz baixa, mas o momento silencioso da redação fazia com que o meu ruído se transformasse num show particular, que ninguém havia pedido para assistir.

Os autores da bronca: minha chefe e meu namorado. Ambos em mesas à frente da minha, que fica estrategicamente (ou não) situada no canto esquerdo, ao fundo da sala. Travaram um debate sobre o assunto, cada um contando as experiências frustradas com a combinação “texto e música”, que iam das dores de cabeça ao não entendimento da letra da canção.

Eu prestava atenção por tabela, para engano deles. Já acumulava quatro funções, quando uma quinta se uniu ao enredo. A lembrança de que a minha primeira crônica saiu enquanto eu ouvia a faixa três de um álbum do Skank, que, mais tarde, veio a se tornar o meu preferido. Mal sabiam eles, debochei.

Recordo-me que a professora de redação havia pedido um texto, uma daquelas atividades que acrescentam uns pontinhos na média. E como a preguiça é minha principal característica desde pequena, ficou para a véspera da entrega. Eu não era tão pequena assim, já tinha uns 13 ou 14 anos. E, naquele momento, várias folhas de fichário amassadas em cima da cama. Nada me vinha à cabeça.

Resolvi abrir a janela. Meus pais brigavam quando eu abria a janela de noite, por causa dos mosquitos, mas eu gostava de observar a luz da rua. Da rua mesmo, porque não tinha nem lua naquela noite. Comportamento típico de adolescente romântica. E o álbum Cosmotron, o mais recente do Skank na época, foi o escolhido para me fazer companhia, já que eu estava triste e não conseguia escrever.

Tinha chorado por causa de um menino do colégio, um desses amores não correspondidos que a gente vive. Eu tive vários, mas o personagem em questão foi a paixonite que durou mais tempo. Fiquei girando na cadeira do computador, e olhando a rua. E numa dessas voltas, a dita cuja começou a tocar no som da minha tia.

Formato Mínimo é uma poesia sobre um amor que dura apenas uma noite, e foi ela que inspirou naquilo que, eu não sabia, seria a minha primeira crônica, e despertaria minha paixão pela escrita. O texto ganhou nota dez, e ter escrito com um dicionário, daqueles bem grandes, do lado. As palavras difíceis impressionaram a professora.

E foi aí que começou uma afinidade entre a música e os meus textos, não só as crônicas. Em qualquer lugar, abrir o editor de texto no computador é sinônimo direto de abrir o player, ou vídeos da internet, ou conectar os fones no celular. Preciso do som para pensar, e as letras me trazem mensagens despretensiosas quando menos espero.

Cheguei a essa conclusão em meio ao tricô que rolava na redação. Já sem os fones, ambos dispararam as frases que citei no começo diretamente para mim. Não retruquei, apenas dei de ombros. Achei melhor voltar o objeto ao seu lugar e continuei escrevendo, cantando e ouvindo o som do Nando.

* Jessica Bitencourt é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos (SP).

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Promessas e decepções


Por Aline Maracaipe*

Não sei você, leitor, mas eu entro em pânico quando me fazem a famosa pergunta: você já escolheu o seu candidato à prefeito? Não sei realmente o que responder.

São tantos candidatos, uns até conhecidos, outros que particularmente nunca vi, outros que parecem ter saído do circo, ou hospício, devido às propostas absurdas que prometem à população.

Um dos assuntos mais abordados e inevitavelmente discutidos, além da novela das nove, são as eleições. O assunto das rodas de discussão, seja nos ônibus, na rua, no ambiente de trabalho, escolas, faculdades não poderia ser outro se não as eleições, as promessas, as pesquisas eleitorais e os candidatos.

Estou muito confusa. É uma salada de candidatos à prefeito e a vereador, imagino como a população deve estar. Como a população vai avaliar as propostas? Vão conseguir avaliar as propostas de fato? Saberão cobrar depois as promessas feitas e não cumpridas?

“É preciso muito cuidado ao escolher seu candidato.” A frase, dita em comerciais eleitorais, é fácil. Difícil é escolher um candidato digno de voto. Estou mentalmente cansada de tantos jingles, panfletos irritantes com promessas absurdas e inclusive a falta de propostas realmente relevantes para a sociedade.

Não vou falar em caráter, pois não tenho o direito e nem a intenção de sugerir a falta dele por parte de algumas pessoas, porém são propostas demais, promessas demais e caras de pau demais em um curto período de tempo. Isso cansa! Todo lugar que eu frequento há sempre alguém defendendo candidato A, pois é mais honesto, competente que o B e assim vai. Ninguém chega a um consenso e o eleitor que não for esperto o bastante para observar, apurar e descobrir fatos relevantes da vida do candidato ficará para sempre perdido em meio a tantos picaretas.

* Aline Maracaipe é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA).

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A espera de um mundo sem preconceito


Por Juliana Duarte*

Estava no ponto de ônibus, à noite, voltando da Universidade e, enquanto esperava o transporte, sentei no banco. Ao meu lado, uma mulher estava com algumas sacolas e bolsas em sua mão, despreocupada com elas.

Alguns minutos depois, um garoto magricela e negro chegou ao ponto. Assim que o menino se aproximou, a mulher abraçou suas sacolas, protegendo-as em uma ação automática. E eu não fui a única a perceber sua cautela.

— Ei, tia! – disse o menino – Não sou ladrão, não.

Vendo que a reação havia sido imprópria, a mulher respondeu:

— E quem te chamou de ladrão, garoto?

O menino deu alguns passos para se distanciar da mulher, dizendo aos quatro ventos que a “tia” havia presumido que ele iria lhe roubar só por ser negro.

No momento, aquela cena me atingiu de uma forma inexplicável. Nós sabemos que o preconceito racial existe. A TV, os jornais e a internet sempre nos mostram casos desse crime. Porém, quando acontece ali, na nossa frente, o problema ganha uma proporção bem maior.

Na teoria, todos são contra o racismo. Todos, também, dizem ser livres de preconceitos. Mas, em um dia qualquer, em uma rua qualquer, ao ver um negro se aproximar, seguramos a bolsa com cautela, protegendo-a com toda a nossa força. Quando é um branco, não damos tanta importância. Afinal, o que mais esperamos dele? No máximo, uma piadinha sem graça ou uma olhar diferente.

E, entre tantas pessoas naquele ponto, o único que intimidou a mulher foi o garoto magro e negro. Um garoto que, talvez, estivesse o dia inteiro batalhando por um lugar neste mundo. Por um mundo onde pudesse perambular à noite, pegar seu ônibus e ir para sua casa sem passar por um constrangimento desses.

Mas é claro que nós temos nossos próprios preconceitos. Ou é com o garoto que escuta funk no ônibus, ou é com a menina que usa saia curta na escola. Ou até aquele ritmo musical que todos escutam. Porém, ouvir funk, usar saia curta ou gostar de uma música são escolhas. Ser negro, não. E o racismo está tão presente em nossa vida que, às vezes, nem percebemos.

Os negros têm sua importância para nossa história: eles sofreram ao longo dos anos com a tortura feita pelos brancos. E, em pleno século XXI, ainda tem uma mulher se agarrando às suas sacolas, em algum ponto de ônibus por aí, com medo de um garoto negro e magricela tirar-lhe o que seus braços e sua mente tentam proteger.

* Juliana Duarte é aluna de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos/SP.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O desapego virou "corujice"


Por Elaine Brazão*

Mateus e Lucas, para muitos, seguidores de Deus, são os nomes de duas pestes que aguento em casa. Tenho cinco irmãos, mas confesso que os que dão mais trabalho são esses dois, justo os que tem o nome de santo. Ainda mais agora que estão na fase de namoradinha na escola (um dia ainda mato essas periguetes!), querendo ir ao cinema com os coleguinhas, voltar tarde pra casa... Para piorar, um toca violão e o outro teclado. Ou seja: “as mina pira”, vejo que minha dor de cabeça está só começando!

Mateus é o maior, tem 11 anos, mas parece que tem 9; às vezes, 13. Lucas tem 9, mas parece que tem 12; às vezes, 15 anos. Esse último tem o dom de irritar qualquer pessoa em dois minutos. É daqueles que você está conversando e ele chega cantando “We are the Champions”, crente que é tão bom quanto Fred Mercury.

Mateus sempre quer impressionar pela inteligência. Sempre tira conclusão sobre os fatos que aconteceram no Brasil e no mundo. Um dia até falou sobre a cotação do dólar. Mas quando tira essa casca, mostra-se uma criança nata - tão ou mais infantil que o Lucas – começa a pular, gritar, coloca fantasia, põe rock bem pesado e usa o inglês a la Joel Santana.

Lembro-me deles pequenos, quando davam beijo na irmã e na mãe antes de dormir, perguntavam se a roupa que escolheram estava combinando. Hoje, os vejo se enchendo de perfume, desodorante e saindo para casa dos amigos para fazer “trabalho”. Sem contar que agora os almoços também mudaram, estão acompanhados de arrotos e gases entre um copo ou outro de Coca.

O Discovery Kids foi substituído pelo History, na tentativa de passar a imagem de que estão grandes, triste ilusão, pois nem a legenda conseguem ler a tempo. Mas é aquela coisa: eles fingem que entendem e nós fingimos que acreditamos.

Não quero nem ver quando chegarem aos 17, 18... Espero estar trabalhando para não ter tempo de saber das histórias.

É, tá aí uma coisa que nunca pensei que seria: aquela irmã chata que sofre com o crescimento dos mais novos, que luta para que eles sejam os eternos bebês da casa. Classifico como inadmissível a ideia, de um dia aparecem, com namoradas ou às cinco da manhã pós-balada. Quanto a isso, tenho apenas um desejo: que eles cheguem logo aos 50, provavelmente estarão casados, com filhos e a fase “bobeira” já terá passado. Ilusão pode e deve andar lado a lado de uma irmã, não?

* Elaine Brazão é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos (SP). 

domingo, 30 de setembro de 2012

Bom dia!


Por Cláudio Mascaro Júnior*

Devidamente trajado para ir à Universidade (regata, bermuda e chinelo), monto em minha bicicleta vermelha, com penas de pombo presas no guidão e o pneu dianteiro furado, e sigo em direção ao meu destino. Começo o caminho com naturalidade, sentindo o calor do sol penetrando minha pele e o vento forte umedecendo minha face.

— Bom dia! – digo para o primeiro homem que encontro. Ele utiliza roupas brancas e tem um ar de bondosa humildade.

— Um ótimo dia, meu filho! Deus o abençoe!

Como é bom ter uma resposta amigável de alguém que jamais vi anteriormente. Continuo o caminho, com uma ótima sensação de felicidade instantânea.

— Bom dia! – resolvo repetir a frase, com um sorriso esboçado no rosto, para uma senhora que estava observando o chão enquanto andava.

— Só se for pra você, imprestável!

Pelo jeito nem todos desejam ter um bom dia, mas com certeza cada um aprende com as próprias experiências.

Após determinado período de pedalada, encontro uma jovem, exalando beleza e aspecto incomparáveis, e decido expressar novamente a conhecida fala:

— Bom dia!

Não sai nenhuma palavra de sua boca, apenas um simpático olhar. Talvez a moça se achasse bonita demais para me direcionar a fala, ou apenas não queria perder tempo e energia com um desconhecido em uma rua qualquer. Mas eu percebi a alegria que tomou conta de seu ser. Espero, sinceramente, que ela tenha um bom dia.

No momento em que eu me sinto completamente descontraído, observando as árvores frondosas na calçada e os passarinhos cantando alegremente em seus ninhos, ouço alguém dizer:

— Bom dia!

Direciono a visão e encontro um mendigo sentado na calçada. Tinha a roupa e os dentes sujos, além de um sorriso e de simplicidade no rosto.

— Bom dia! – respondo, olhando em seus decididos olhos escuros.

— Tem um trocadinho por aí? Hoje eu gostaria de comprar um lanche na padaria...

— Claro! Saco a minha carteira e despejo aleatoriamente algumas moedas, entregando para o inédito mendicante. Presumo que ele fará maior proveito daquele dinheiro do que eu. Uma esmola realmente não custa nada.

* Cláudio Mascaro Júnior é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA).

sábado, 29 de setembro de 2012

A volta do vizinho que não foi

Por Eliana Bonfim*

Seu Barriga. Não, não se trata do personagem do programa do Chaves. Esse é o nome de um de meus antigos vizinhos, ou pelo menos o sobrenome. Na verdade, um apelido tão presente que se entende como extensão do nome.

Não conheço muitos deles onde moro. Não tenho tempo disponível para papear, mas o Senhor Barriga é desses sujeitos que se fazem conhecer. Figura inesquecível que vivia em crise com sua senhora, Dona Amélia. Seria irrelevante, não fosse o fato de que ele adorava ouvir músicas dos mais variados gêneros, em volume um tanto quanto alto, de preferência em horários inoportunos e, detalhe, sempre alcoolizado.

Além de ouvir, se atrevia a cantar também. Sem falar das muitas vezes em que chegava a casa aos berros, vociferando palavras de baixo calão contra a pobre mulher. Ou seja, era um chato.

Depois que sua esposa o deixou, vendeu a casa e, graças a Deus, mudou-se sei lá para onde. Pensava eu que nem mais andava por essas bandas. Qual não foi minha surpresa ao vê-lo dando depoimento no horário político de Bertioga?

Lá estava Barriga, com a barriga redonda, a boca banguela, o português horroroso, sem a sua senhora, sem lenço nem documento. E o pior, apoiando certo candidato que é melhor nem comentar.

Fiquei indignada e percebi que, meu vizinho, que tanto me importunou com suas maluquices, claro-, que perturbou tanto a coitada da Amélia, agora não satisfeito, resolveu trabalhar para incomodar toda a cidade. Confesso que já estou preocupada. Imagino se resolverem colocá-lo num desses carros de som cantando a música do então candidato. Seria o fim da cidade, uma vez que os moradores poderiam tomar a mesma decisão de Dona Amélia.

* Eliana Bonfim é estudante de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (UNISANTA), em Santos.
** Obs.: Este texto foi produzido a partir da oficina "A crônica do dia a dia", ministrada na Unisanta, em 28 de setembro.

A pedra mágica


Assisti, na última semana, ao filme “Laje dos Sonhos”, dirigido por Raquel Pellegrini. O documentário foi exibido em duas sessões, no 10º Curta Santos – Festival de Cinema de Santos.

O filme conta, pela perspectiva de seus visitantes e protetores, a história da Laje de Santos, primeiro parque estadual marinho de São Paulo. O documentário é fruto de uma parceria com a ONG Instituto Laje Viva, que há uma década luta pela preservação do lugar.

“Laje dos Sonhos” é o maior e melhor filme de Raquel Pellegrini, uma das pioneiras da TV regional, no início da década de 90, e hoje respeitada profissional do mundo audiovisual, inclusive na formação de novos apaixonados pelo ofício no cenário universitário.

O filme reflete a maturidade de duas décadas da cineasta, mas principalmente a vertente de documentarista. Raquel dirigiu três documentários – incluindo o da laje – nos últimos cinco anos. Isso deu a ela – involuntariamente – um papel de memorialista da cultura litorânea via cinema.

Raquel contou, por exemplo, em “Cesário Bastos”, a história de um dos mais tradicionais colégios de Santos, hoje sede da Diretoria Regional de Ensino. Retratou também em “Tamboréu: um esporte genuinamente santista”, a trajetória dos praticantes a partir da chegada de imigrantes italianos em meados do século passado.

“Laje dos Sonhos” é a reconstrução pelas palavras de uma visita ao paraíso a 40 quilômetros da orla. Como uma pedra, no formato de baleia cachalote, hipnotiza homens e mulheres há quase 60 anos? E os torna escravos de um amor incondicional a ponto de formar uma legião de protetores?

O filme funciona como alívio visual e, mais do que isso, como contraste de uma cidade que, infelizmente, se vestiu de cinza, pela megalomania de alcançar o éden pela via vertical, acima de 30 andares.

A laje age como a prova viva de que a natureza nos aconselha, com a poesia subaquática, de que esta rota caiçara está equivocada. Seus mensageiros são as quase 200 espécies de peixes, mais golfinhos, tartarugas e raias mantas que, silenciosamente, esperaram pelas lentes de cinema para dar o recado. Bastava que uma memorialista traduzisse a essência dos sentimentos de gente que se ajoelhou diante da pedra mágica há décadas.

Entre os 20 depoimentos escolhidos, o filme tem três pontos altos. O primeiro é o choro urgente da jornalista Vera Leon, ao se lembrar da reportagem que produziu sobre a laje na década de 80, como uma cicatriz inerente à memória.

Comovente também é o mergulho do publicitário Alexei Schenin, que voltou à laje depois de mais de dez anos. Um acidente de moto o deixou praticamente sem os movimentos das pernas. As expressões faciais de Alexei retratam a ressurreição do menino que voou embaixo d`água, numa experiência singular, impossível de descrever aqui.

O terceiro personagem é o mergulhador que, após o descanso pós-pioneirismo, retornou ao santuário, em uma viagem antes submersa por 12 anos. O homem que simulou um naufrágio por compreender que uma ajudinha humana poderia melhorar a aparência daquela casa, abrigando peixes e corais. 

“Laje dos Sonhos” nos esfrega nos rosto, com imagens vivas, o risco que corremos diante das tentações (e das promessas) milagrosas de um progresso com gosto de óleo negro. Furtando as palavras da própria Raquel Pellegrini, o filme é “um mergulho, inclusive para quem nunca mergulhou.”

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Entre os grandes

Bruno Soares, um dos duplistas brasileiros

Por Natássia Massote*

Enfim, o Brasil volta a elite do tênis mundial após derrotar a Rússia pela Copa Davis neste final de semana. Os brasileiros carimbaram o retorno, depois de nove anos, ao vencerem o jogo de duplas. Mesmo já classificados, os tenistas não deram chance aos russos e ganharam os cinco confrontos.

Na sexta-feira, Rogério Dutra Silva marcou o primeiro ponto ao vencer Igor Andreev. O russo abandonou a partida com problemas físicos enquanto Rogerinho liderava o placar por 6-2/6-1. Na sequência, foi a vez de Thomaz Bellucci confirmar o favoritismo e derrotar Teymuraz Gabashvili por 6/3 4/6 6/0 7/6 (7/4).

No sábado, o time brasileiro garantiu a classificação para o Grupo Mundial com a vitória da dupla Marcelo Melo e Bruno Soares, que estão bem entrosados. Os tenistas brasileiros venceram Alex Bogomolov Jr. e Teymuraz Gabashvili por 3 sets a 0 (e 7/5 6/2 7/6 (9/7).

Já no domingo, mesmo sem maiores obrigações, o Brasil não deu chance a Rússia. Thomaz Bellucci e Rogerinho venceram e a equipe terminou invicta, uma esmagadora revanche sobre os russos, responsáveis pela eliminação do Brasil no ano passado.

Com um time desconhecido, reflexo da atual entresafra, a Rússia não resistiu ao saibro lento e ao calor, características muito bem conhecidas pelos brasileiros. Mesmo com o privilégio de jogar em casa, o Brasil já havia mostrado sua capacidade ao chegar muito perto da vitória em 2011. Na época, eram os russos que jogavam em condições favoráveis: contavam com Youzhny em casa e na quadra rápida coberta. Quando a situação se inverteu, a Rússia não ofereceu resistência à equipe brasileira, e não marcou sequer um ponto. Todos os méritos para time de João Zwetsch.

O Brasil agora aguarda o sorteio que definirá as chaves da Copa Davis em 2012. Embora não tenha time para se destacar, há possibilidade de permanecer no grupo. É preciso contar com a sorte e evitar os principais cabeças do torneio. Mesmo sendo impossível não enfrentar algum favorito pelo caminho, o Brasil tem chances contra outras equipes medianas e pode brigar com Cazaquistão, Áustria e Itália.

Há inúmeros fatores que alternam as possibilidades. Os adversários escalados, os pisos escolhidos e o país que recebe o confronto são determinantes. Entretanto, jogar contra alguns times em quaisquer condições encontram chances mínimas. Espanha, Argentina, República Tcheca, Sérvia ou Estados Unidos são amplamente favoritos.

De qualquer forma, a conquista do Brasil é uma vitória para o tênis nacional. O esporte, que já não é um dos mais incentivados do país, ainda vive nas sombras de Guga. A volta ao grupo Mundial mostra amadurecimento e evolução e destaca os pontos que precisam ser aprimorados. 

Lá em cima – A final da Copa Davis será entre Espanha e República Tcheca. Os espanhóis venceram os EUA enquanto os tchecos acabaram com o sonho argentino. A Espanha é a última campeã e o grande destaque da Davis nos últimos anos, mas a República Tcheca pode dar trabalho por ser mandante e pode contar com a ausência de Nadal, que se recupera de lesão.

* Natássia Massote é jornalista. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A vez de Andy



Por Natássia Massote*

E Andy Murray finalmente desencantou. Ao conquistar o US Open, o escocês superou seus fantasmas e, enfim, se firmou entre os grandes. Embora Murray figure há 5 anos como um dos protagonistas do circuito, o título de Grand Slam era o grande vazio de sua carreira. Após disputar quatro finais sem vencer, o tenista se libertou dessa pressão ao derrotar o sérvio Novak Djokovic, último campeão, com parciais de 7/6 (12-10), 7/5, 2/6, 3/6 e 6/2.

A final do último Slam do ano foi esquisita e, embora jogo disputado, o nível técnico ficou aquém da capacidade dos tenistas. No começo da partida, o vento causou insegurança nos jogadores, que se limitavam a troca de bolas sem riscos. Fato a se estranhar já que Djokovic e Murray se conhecem bem e não ficam receosos em tomar a atitude no ponto. Mesmo com as condições estranhas, Murray foi mais consistente e, apesar de oscilar para fechar games decisivos, se manteve firme para levar os dois primeiros sets.

Entretanto, do outro lado estava o sérvio, que não gosta de entregar partidas sem maiores dificuldades. Djokovic provou o seu respeitado foco mental ao empatar o jogo em sets, buscando ser mais agressivo, mas também contando com os apagões do escocês. No quinto set, enquanto muitos apostavam que Murray iria desabar emocionalmente, ele mostrou porque veio para ficar: saiu quebrando Djokovic duas vezes seguidas, que combalido e exausto fisica e psicologicamente, não conseguiu evitar a grande façanha do escocês.

A mudança de Murray vem sendo notada ao longo da temporada. Ainda que não houvesse dúvidas sobre sua espetacular capacidade e talento, ele sempre sofreu com o desequilíbrio emocional, protagonizando martírios dentro de quadra e sofrendo viradas inacreditáveis. Mesmo já conquistando oito Masters Series e 24 títulos, um jogador do gabarito dele merecia um Slam – o maior reconhecimento para um tenista.

E quem foi fundamental para a evolução de Murray foi o gélido Ivan Lendl . O escocês começou a ser mais agressivo, a confiar mais em si e a ter paciência nos jogos. Embora ainda fique mais confortável na defesa, Murray começa a explorar seu vasto arsenal técnico e a usá-lo com inteligência.

Com a medalha de ouro nas Olimpíadas em cima do suíço Roger Federer e o título do US Open sobre Djokovic – cabeças 1 e 2 –, Murray provou que pode vencer grandes títulos e brigar pela liderança. Porém, toda moderação é necessária. O escocês não é obrigado a provar nada e deve seguir com cautela e concentração num circuito cada vez mais equilibrado.

Este ano tivemos quatro vencedores diferentes nos Slams (Novak Djokovic – Australia Open/ Rafael Nadal – Roland Garros/ Roger Federer – Wimbledon / Andy Murray – US Open) – algo que não se via desde 2003. O resto de temporada vai ser apimentado e deve contar com a briga pela liderança do ranking e a disputa árdua entre os tops. Para quem estava acostumado com a dominância de Federer-Nadal-Djokovic, os próximos torneios da ATP prometem duelos interessantes.

O orgulho britânico/escocês

Se Andy Murray já agradou os gran-bretanhos  com a conquista das Olimpíadas, agora ele definitivamente os conquistou. Após fazer história nos Jogos de Londres, o tenista também marca o esporte com a conquista do US Open. A Inglaterra, o berço da modalidade, com tradição respeitável, não conquistava um Slam desde Fred Perry, em 1936 – amargos 76 anos. As coincidências entre os dois britânicos são surpreendentes:


Fred Perry
Andy Murray
Data de Nascimento
18/05/1909
15/05/1987
Signo
Touro
Touro
Primeiro Slam
Us Open
Us Open
Data da vitória do Primeiro Slam
10/09/1933
10/09/2012
Ranking durante o torneio
#3
#3
Ranking do oponente da final
#2
#2 – Novak Djokovic
Oponentes da final venceram o Australian Open do mesmo ano
Jack Crawford
Novak Djokovic
  
* Natássia Massote é jornalista. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O zagueiro que era a voz da torcida


Conversávamos, nos bastidores da Tarrafa Literária, eu, o jornalista André Argolo e o professor José Miguel Wisnik, um dos convidados para o festival de literatura de Santos. Lembrávamos do Estádio Municipal de São Vicente, o Mansueto Pierotti, local onde Wisnik jogou muitas peladas durante a infância, nos anos 50. As memórias destas partidas aparecem no livro Veneno Remédio, uma série de ensaios sobre o futebol e o Brasil.            

Virei-me para o André e perguntei: “Você se lembra daquela partida contra os vereadores de São Vicente?” Ele não se lembrava do amistoso, ocorrido há uns 12 anos. Dois dias depois, André me contou que se recordava vagamente do jogo (a memória costuma ser – entre amigos – um ato de gentileza) e me pediu para contar a história em detalhes.

Eis aqui o jogo mais importante da carreira dele, em termos de público e de contribuição cidadã.

O estádio Mansueto Pierotti estava lotado no domingo pela manhã. O time da Câmara Municipal de São Vicente enfrentaria um combinado de jornalistas. O estádio não estava cheio por conta da entrevista coletiva futebolística, mas por causa da final do campeonato varzeano da cidade. Políticos e jornalistas eram a preliminar. Só o amor ao futebol (ou ao jornalismo) para encarar um jogo contra políticos, tostando ao ar livre às dez da manhã e com um público que não estava ali exatamente para te ver.

Fui escalado para o gol, a única posição que dá para quebrar o galho. André ocupou a quarta zaga. Não importava se era destro. Ficaria do lado esquerdo da defesa, na posição que sobrava. Ao lado dele, na zaga central, Gerson, ex-jogador, um sujeito de um metro e noventa que mais parecia um segurança de boate. Os jornalistas precisavam de reforços e, de repente, ali nasceria um comentarista esportivo, o que justificaria a escalação do armário recém-aposentado.

André foi apresentado ao seu colega de miolo de defesa, que prometeu tomar conta de tudo. Melhor desta maneira, porque o quarto-zagueiro estreante costuma usar óculos, artefato proibitivo para ocasião. A ausência do equipamento talvez reduzisse sua visão de jogo, mas jamais atrapalharia a vontade de resolver aquele imbróglio com a classe política calunga.

Logo que o jogo começou, André definiu como decidiria a preliminar. Olhou para trás e me pediu: “Apenas aponte quem é vereador!”

Percebendo um novo cenário político, respondi sem entrar em detalhes: “os camisas 7 e 10”. Para preservar a identidade dos craques, seus nomes serão omitidos. Posso dizer que o primeiro é um jogador cigano. Foi situação, virou oposição, mudou de camisa de novo e chegou a ser secretário municipal.

O camisa 10, pelo contrário, sempre foi fiel ao técnico que comanda a cidade há 16 anos. Mas está com a carreira em baixa. Frequenta o banco de reservas. Ambos estão fora da Câmara Municipal. Jogam pela Prefeitura.

Aos 15 minutos, fase final de estudos das equipes, como repetem à exaustão os comentaristas e palpiteiros, o camisa 10 se aproximou da área com a bola dominada. Faltava somente o quarto-zagueiro adversário para sair na cara do gol.

O vereador-dono-da-bola não chegou a conhecer a grande área dos jornalistas. André, à moda dos defensores criados em fazendas, levantou o camisa 10 meio metro do chão. Gerson, seu companheiro de zaga, foi corporativista como seus oponentes legislativos e protegeu André da fúria dos assessores do vereador estatelado, a postos para zelar pela saúde de quem lhes pagava o salário de todo mês.

O juiz, talvez de olho numa candidatura, sacou o cartão amarelo e advertiu André pelo favor aos eleitores de São Vicente. O zagueiro ignorou o árbitro, virou-se para trás, olhou para o goleiro-jornalista, sorriu e fechou os dois punhos, como se acabasse de marcar um gol.

Aquele foi o lance mais importante da partida. O restante são fragmentos irrelevantes de minha memória e, como confio nela, não encontro maiores motivos para importuná-la. Não me lembro, por exemplo, se daquela falta saiu um gol. Sei que o camisa 10 – como líder da bancada – cobrou a infração.

O jogo terminou 3 a 0 para a Câmara Municipal. Uma correção histórica, caro leitor: foi 3 a 1, porque a rasteira que derrubou o vereador levantou a torcida, que comemorou pelo ato de justiça política.

Talvez soubessem que um zagueiro como ele estaria na seleção, se a campanha eleitoral fosse mais do que um jogo político, fosse um amistoso domingo pela manhã.