sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O tempo é hoje!


A velhice jamais bate à porta de surpresa. Manda ofícios, fala com intermediários, dá pequenos avisos. É tentador pensar que a velhice se resume às dores musculares do dia seguinte a qualquer exercício, à ausência de respostas do corpo para os desejos da mente ou aos encontros mais freqüentes com os homens de branco em salas higienizadas.

Os sinais físicos de velhice rompem com as palavras politicamente corretas que teimam em mascarar a vida rumo ao poente. Não se trata de entregar os pontos, sentar-se e esperar pelo homem de capuz negro e foice na mão. A velhice – derivada do adjetivo velho, mesmo! – não representa a melhor idade. É, no máximo, tão boa quanto às outras etapas da vida, se descontados os percalços e adaptados os recursos para absorver às experiências a seguir.

Preocupo-me com a velhice que não está algemada com a idade biológica ou com a deterioração física. A velhice de digestão quase invisível reside em expressões como “no meu tempo...”, “na minha época...” É a velhice em simbiose com o choque de gerações.

Utilizar tempos passados como argumento pode nos iludir como sinal de experiência, de olhar para trás como apego à saudade. Na verdade, um ar de arrogância, em que se pressupõe o acontecido e o narrador da história como melhores que a situação do tempo presente.

A comparação flerta com o cinismo porque o defensor de tempos mortos se desloca do próprio exemplo, embora o defenda, como alguém que não faz parte ou não tem responsabilidade alguma sobre o que acontece nos dias de hoje. A ideia de ressuscitar o tempo morto também implica em amnésia adequada ao momento presente, já que o autor da comparação se esquece que viveu ou enfrentou etapas que os mais jovens encaram agora.

Por conveniência, “no meu tempo” serve para retirar fatos e personagens do contexto. É um paralelo tão atraente quanto oco. Os cenários são razoavelmente diferentes. As causas e efeitos também tendem a ser distintas. É o momento em que o olhar intransigente ou radical prevalece.

— Os jovens de hoje não possuem valores!

                                    


A frase acima é bastante comum como papel coadjuvante que fortalece a tese de que o passado sempre se caracteriza por mais sofisticação, ética, comportamentos socialmente aceitos. Diferença não é inexistência. O “esquecimento” – outro sintoma da velhice que se avizinha – empurra para dentro do armário conceitos como amadurecimento, mudanças de vida, novas histórias, entre outros elementos que poderiam indicar que certas exigências não podem ser aplicadas a quem não percorreu certas faixas do caminho.

É evidente que hoje muitos jovens se sentam sobre o berço esplêndido e abrem o leque de direitos, materiais ou emocionais. Mas nada que justifique enterrar o presente, onde todos estamos de maneira redundante incluídos, para se agarrar no pretérito editado pela memória.

“No meu tempo” é enganar-se como ator capaz de refazer a história. É correr para trás da cortina, apavorado em assumir as falas da encenação em curso. O “homem daquele tempo” ocupa o papel de capítulo exibido, confortável na imobilidade, bêbado pela condição de vítima.

Quando as expressões se repetem com freqüência, é possível pensar em dois caminhos. Ou nos tornamos escravos da nostalgia, implorando por tempos com pouca probabilidade de ressurreição ou paralisamos diante da expectativa da morte em vida. Como remédio para ambos os males, prefiro me agarrar na frase de Paulinho da Viola: “Meu tempo é hoje!”

2 comentários:

Alexandre Marcos disse...

Ótimo texto! Parabéns!

Vera Moraes disse...

É inevitável, com o "passar do tempo", comparações de outros tempos....Apesar de muitas vezes, num primeiro momento, isso parecer arrogante. É preciso sentir que a felicidade está em todos os momentos! Inclusive na nostalgia. Mas com certeza o melhor de todos os tempos é hoje! Parabéns pelo blog! Bjaum!