quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O livro do santo



Os livros sobre futebol estão na moda. Integram uma parcela secundária do universo de negócios dos clubes. São versões apaixonadas de torcedores ilustres, encomendas com caráter bajulatório ou revisões históricas. Até o mundo acadêmico, em parte ainda preconceituoso com o esporte, resolveu tolerar estudos e teses sobre o tema. Poucas são as obras produzidas com independência, à margem dos contratos de marketing e alheias ao controle de assessores que se comportam como leões de chácara.

“São Marcos de Palestra Itália”, de Celso de Campos Jr., se encaixa no último critério. O livro, idealizado em 2003, quando Marcos recusou oferta do Arsenal, da Inglaterra, para jogar a série B do Campeonato Brasileiro pelo Palmeiras, é fruto de mais de um ano de pesquisas, principalmente em arquivos da imprensa paulista e carioca.

Editado pela Realejo, a obra já esgotou a primeira edição, virou alvo de resenhas até da mídia não especializada e aguçou o provincianismo que acompanha as últimas gestões palmeirenses. O clube se recusa a aceitar o livro sobre a vida de um de seus maiores ídolos e chegou a enviar uma notificação extra-judicial à editora, localizada em Santos, no litoral de São Paulo.

“São Marcos de Palestra Itália” não traz a palavra do goleiro. Pelo menos, dita ao autor do livro. As declarações do jogador foram extraídas da imprensa. Neste sentido, a obra ganha em detalhes documentais, mas perde em bastidores de episódios na perspectiva do goleiro pentacampeão. Aliás, Marcos segue em silêncio. Embora a obra não o desabone, pelo contrário, o goleiro não se manifestou sobre o trabalho.

O livro acompanha a vida do ídolo palmeirense da infância até o final de temporada de 2011. O início da carreira do goleiro compõe a melhor parte e as principais novidades do texto. Para muitos, o goleiro nasceu milagroso e de primeiro nível. No livro, Celso retrata o início no interior de São Paulo, onde jogava em terrão com traves pintadas em muros, a dispensa do Corinthians e os avanços e retrocessos no Palmeiras, até a titularidade no time profissional.

Neste período, Marcos teria sido trocado por 12 pares de chuteiras com o Lençoense, equipe de Lençóis Paulistas, no interior de São Paulo. Mais uma das lendas que envolvem o santo, exímio contador de “causos”.

À margem da biografia de Marcos, o livro possui também o mérito de detalhar a construção e o desenvolvimento da escola de goleiros que se tornou o Palmeiras. O autor sustenta com propriedade o papel de Valdir Joaquim de Moraes e Carlos Pracidelli na formação de camisas 1 nos últimos 20 anos do clube, além de fazer um histórico da posição no Parque Antártica. O livro explora, em paralelo á trajetória do biografado, os caminhos percorridos por Velloso, Ivan, Sérgio e Diego Cavalieri, entre outros goleiros formados ali.

Celso de Campos Jr., também autor de “Adoniran, uma biografia”, sobre o compositor paulista Adoniran Barbosa, imprimiu o ritmo jornalístico à narrativa. Não há arroubos literários ou poesia sobre os milagres do goleiro, comuns na crônica esportiva. O texto é seco, nem por isso mais pobre. É informação sobre informação. O autor evita se colocar ou se posicionar na maioria das situações. Por vezes, deixa escapar um ou outro adjetivo, mas sem se omitir diante dos fracassos e dos erros cometidos pelo biografado.

A leitura, aliás, é bastante agradável. Li o livro em dois dias. Isso não acontecia comigo diante de um livro sobre futebol desde “Estrela solitária, um brasileiro chamado Garrincha”, biografia escrita pelo jornalista Ruy Castro. Os percalços, ressurreições e glórias do maior ídolo do Palmeiras desde Ademir da Guia garantem a virada de página, mesmo que o leitor saiba o resultado final do jogo ou do campeonato.

“São Marcos de Palestra Itália” caiu como uma luva (com o perdão do trocadilho) no mercado editorial, pois chega às livrarias em um momento de dúvida: Marcos volta para a temporada de 2012? O jogador tinha um acordo informal com a diretoria, que previa o término da carreira no final deste ano. Depois, Marcos assumiria um cargo – ainda não definido – na comissão técnica do clube.

A decisão só deve ser anunciada no início de janeiro, quando o time retorna das férias. De qualquer modo, o goleiro-santo foi eternizado em palavras escritas, ainda que sua igreja e sua religião ameacem excomungar o escriba e sua obra.

Um comentário:

Bruno Lima disse...

A leitura é realmente muito agradável. Em apenas 3 horas li a metada da obra. Assim como você, devo terminar em dois dias.