sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O doutor que receitava política





Quando você tem oito anos e é capaz de perceber que o vírus do futebol corre em seu sangue, é fundamental escolher uma doença para sofrer, se recuperar, se tratar, sofrer novamente, em um círculo de prazer e dor para o resto da vida. Esta doença te marca em brasa com um símbolo que, por coincidência, aparece estampado em camisetas, shorts e outros elementos de um uniforme.

Para ficar adoentado de vez, temos que localizar outros da mesma espécie que demonstrem padecer dos mesmos sintomas. É claro que a doença pode ser alarme falso, de manifestação momentânea, uma epidemia de verão, detectável em um exame simples. O paciente, se beijou o símbolo do clube em público, é como aquela criança que finge febre para faltar à escola. O amor cristaliza em prazos mais longos e atitudes, muitas vezes, reprováveis.

Com oito anos, vivi – com inocência infantil – a democracia corintiana. E o maior ícone daquele período era um homem esguio, que corria ereto, fingindo ignorar a bola grudada em seus pés, na falsa arrogância de olhar por cima dos oponentes e enxergar no limite do horizonte, entrelaçado nas redes do gol adversário.

Sócrates e outros, como Wladimir, Zenon, Biro-biro, Alfinete, Solito, Ataliba e Casagrande, me fizeram escolher a doença dos mais pobres, a doença tropical que exige médicos sanitaristas e quarentenas para conter a multiplicação inevitável e fatalista.

Qualquer criança sempre escolhe o time que vence. E este foi o critério para aceitar ser inoculado pelo vírus corintiano em 1982. O Brasil estava infestado de grandes equipes. O São Paulo, de Valdir Peres a Serginho Chulapa. O Flamengo, de Andrade, Adílio e Zico. O Vasco, de Roberto Dinamite. Mas o Corinthians estava mais próximo, jogava sempre de maneira mais doída. Na cabeça de uma criança, um enredo de aventuras, com surpresas e reviravoltas, mas (quase) sempre com final feliz.


O ano de 1982 também reservava minha primeira lembrança efetiva de uma Copa do Mundo. A melhor seleção brasileira que vi jogar. Sócrates não apenas fazia parte do time. Era o capitão! E produziu uma lembrança vívida no gol em Dino Zoff, na derrota para a Itália. Poucos tinham o privilégio (dom?) de vencer o goleiro italiano, um monstro aos 40 anos.

O envelhecimento te dá outras leituras dos mesmos fatos. E passei a admirar Sócrates ainda mais. A formação política, a postura dentro de campo, a recusa em ser politicamente correto e a rejeição às palavras mecânicas nas entrevistas inertes representam elementos que compuseram um ex-jogador que entendia seu papel social.

Limitar a visão política de Sócrates à participação no movimento Diretas Já é reduzi-lo ao personagem que morre no primeiro capítulo. Ele sempre se envolveu e manteve posição consistentes, concordássemos ou não, sem se envolver com as negociatas do esporte ou as disputas políticas viciadas da cartolagem.

O distanciamento seguro permitia a ele olhar com mais clareza a estrutura que cerca o futebol e, desta forma, escrever e refletir sobre o que a maioria dos jornalistas se recusa a observar. Sócrates dava a impressão de se entediar com a pontualidade dos jogos, os resultados e o craque de final de semana. Interessava a ele o futebol como instrumento de explicação e análise sobre a cultura brasileira e suas implicações no cenário da política, esportiva e/ou partidária.

O cinismo de Sócrates também era admirável. O sarcasmo de brincar com sua própria condição de atleta era o contraponto à ditadura da hipocrisia que afeta jogadores, seres que devem se comportar como monges isolados no monastério mais elevado da montanha. Sócrates fumava, bebia, casou várias vezes e rasgou todas as cartilhas que normalmente habitam as mesas de seus colegas de profissão. Sabia dos próprios demônios e convivia com eles.


 

O programa Cartão Verde, da TV Cultura, abrigou Sócrates nos últimos anos. Certa vez, discutia-se uma partida da seleção brasileira, e a tela mostrava um jogador sendo substituído. Nos caracteres, a indicação de que havia corrido nove quilômetros. O jornalista Vladir Lemos, apresentador do programa, perguntou como seria se o aparelho existisse nos anos 80, quando Sócrates era jogador profissional. Ele sorriu e respondeu:

— Ainda bem que não existia. Eu corria dois quilômetros, no máximo.

Depois das gargalhadas, ele explicou que, quando jogava no Botafogo, de Ribeirão Preto, cursava a faculdade de Medicina ao mesmo tempo e mal tinha tempo para treinar. Isso significava que ele tinha que arrebentar no primeiro tempo. No segundo tempo, fugia para a sombra e só distribuía bolas, até porque muitos jogos aconteciam pela manhã, embaixo de sol forte.

Da arquibancada, o pai dele gritava:

— Tira o oito da sombra! (referindo-se ao número da camisa do filho)

O passe de calcanhar, a maior herança de Sócrates, foi um recurso para acelerar a velocidade da bola sem grandes gastos de energia. A inteligência dos diferentes, conhecedores dos atalhos que levam à grande área sem escalas.

Fora de campo, Sócrates também deixará saudades, ainda mais em tempos de despolitização, seja ou não no universo esportivo, tese reforçada por atletas transformados em celebridades.

Sócrates, involuntariamente, deu seu último passe recheado de ironia. O “doutor” resolveu dar alta a seus pacientes corintianos justamente no dia em que tomaram nova dose do vírus, extintas as chances de produção de anti-corpos. O médico-jogador resolveu se aposentar e assistiu, de longe, a conquista de outro campeonato, com um time operário, desejo implícito daqueles que sonharam aproximar o futebol e a política como instrumentos de leitura de mundo, e não de proliferação de confrarias.

Agradeço ao braço erguido daquele que fundiu os Panteras Negras e o futebol, entre outras causas políticas que alimentaram a utopia de que este esporte significa mais do que somente entretenimento numa tarde de domingo.

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