sábado, 31 de dezembro de 2011

Esperando Daniel ...

Sentei-me em um banquinho, pedi uma garrafa d’água e me fiz esperar. Ele estava atrasado, me disse José Luiz, por conta de um compromisso de família. Como também tenho filhos, sei o quanto nós nos atrasamos por eles e, principalmente, para ficar um pouco mais com eles.

Havia feito a lição de casa, obrigação de qualquer jornalista. Li a obra que motivava o encontro, a biografia de Machado de Assis. Na verdade, a conversa seria mais específica, uma sub-paixão do amor original dele por Machado de Assis. A reportagem seria sobre o teatro do escritor, uma faceta menos valorizada por críticos, quase ignorada pelo público. O texto faria parte de um site que, infelizmente, não decolaria além da página 2.

A livraria Realejo, no coração do Gonzaga, em Santos, estava lotada em um sábado à tarde. Calorenta pela quantidade de pessoas que por ali passavam. José Luiz, de tempos em tempos, me pedia paciência, mas exalava mais ansiedade, pois dependia da chegada dele para manter aquele movimento de final de tarde.

Depois de uma hora, Daniel Piza apareceu. O sorriso era tímido e discreto, de quem parecia se impressionar com o alvoroço, ainda mais em torno dele. Percebi que teria pouco tempo para conversar com Daniel. Haveria um bate-papo com leitores no andar superior da livraria, como a cereja do bolo de autógrafos de sua obra.

Tanto eu quanto Daniel sabíamos que o pedido de 15 minutos de conversa seria desrespeitado. Como jornalistas, adoramos quebrar as regras para arrancar declarações a mais do entrevistado. E, em minha pretensão, pretendia abordar pelo menos 20 temas diferentes, ligados ou não ao teatro machadiano. Exclusividade não brota todo dia.

Ele se sentou no banquinho ao lado. Com muita gente em volta e a distância reduzida a um metro e meio, a primeira decisão foi deixar o gravador onde estava, descansando na mochila. Seria no bloquinho e na canetinha, além do esforço de memória para absorver e guardar tantas referências e muitos minutos de resposta – aula? - para cada pergunta.

No início, Daniel Piza parecia resistente e incomodado com tantas interrupções de leitores. Para mim, era a ocasião possível. Ou cercava o homem ali, no aperto no canto entre a escadaria e o balcão do cafezinho, ou ficaria sem entrevista. Com paciência, pedia que retomasse o raciocínio a cada parada marcada por elogios e comentários sobre a obra dele. Ou sobre a última coluna no Caderno 2.

Lá pela quinta pergunta, percebi que Daniel entendera como seria a conversa. Tentava fazer as coisas ao mesmo tempo. Ou melhor: conversar com duas ou três pessoas de forma simultânea. Eu que me virasse para entender quando se referia ao teatro de Machado de Assis, às influências literárias e ao cenário dramatúrgico atual, enquanto tecia comentários sobre a política brasileira, uma crônica específica, as impressões sobre Santos.

Minutos depois, chega Vivian, a fotógrafa que me acompanharia na reportagem. Com dificuldades para estacionar o carro e vinda de outra matéria, ela entrou esbaforida, com o dedo no clique como se estivesse pronta para eternizar o flagrante. Ambos mal foram apresentados e a conversa continuou até que os leitores demonstravam certa impaciência com aquela entrevista. A exclusividade relativa se desenhava como exclusão coletiva.

Como Daniel começava a se mexer em demasia no banquinho, percebi que a última carta precisa cair na mesa. Ou no colo dele. Perguntei sobre futebol. Era a senha para o relaxamento. Ao falar do assunto, Daniel visivelmente se sentia mais sereno. Adorava escrever sobre o tema e, ao que me parecia naquele momento, comentar sobre times e jogadores como se estivesse na mesa de boteco, sem maiores amarras ou pudores.

O papo ganhou uma sobrevida de cinco minutos. Daí em diante, era a hora dele discorrer com propriedade sobre a literatura e as artes no Brasil para um público de aproximadamente 50 pessoas. Mais uma hora de boas palavras.

O episódio acima foi uma das entrevistas que fiz com o jornalista Daniel Piza, vítima de um acidente vascular cerebral neste final de ano. Um dos profissionais mais brilhantes do jornalismo atual, Daniel tinha apenas 41 anos. Passou pela imprensa de São Paulo, onde fez escola como representante do mais profundo e comprometido jornalismo cultural.

Confesso que, quando li a notícia na Internet, pensei que fosse mentira, uma dessas brincadeiras de virada de ano. 41 anos? Tanto ainda a produzir artística e jornalisticamente! Tanto a refletir e testemunhar! Só entendi o impacto quando li a reportagem do Estadão, veículo onde Daniel trabalhava.

Sem virar as costas para o comercial e sem arrotar falsa paixão pelo alternativo, Daniel Piza sabia da importância do conflito de ideias como forma de crescimento próprio e de seus leitores. Era um daqueles jornalistas à moda antiga, que se recusava a viver da especialização e do instantâneo e se envolvia em diversos assuntos, firme nas opiniões, preocupado em mantê-las com informação.

Daniel era defensor do jornalismo cultural de qualidade, independente de agenda e outros instrumentos do marketing e do entretenimento. Essa foi uma das razões pelas quais me tornei leitor assíduo de sua coluna no Estadão todos os domingos. A leitura sempre caminhava pela surpresa, pois me provocava de indignação ao sorriso de concordância.

Daniel Piza era seguidor – mesmo quando não desejava – de Paulo Francis. Dava-se o direito de mudar de opinião, mesmo que fosse a 180 graus. Por vezes, andava pelo conservadorismo de posições, principalmente quando discorria sobre política. Mas não se pode acusá-lo de leviandade ou obscurantismo. Daniel Piza era erudito o suficiente para duvidar de si próprio. Outra justificativa para ouvi-lo sem atrasos.

Como leitor, só me restou homenageá-lo – diante de tamanha trapaça da vida – com palavras, as quais ele valorizava como um artesão, um escravo delas. E lamentar pelo empobrecimento inoportuno do jornalismo cultural brasileiro. Ah, a reportagem sobre o teatro de Machado de Assis jamais foi publicada.

Um comentário:

Alexandre Gois disse...

Caramba. Estou muito chocado. Lembro do dia em que você foi o mediador de um encontro no cine Iporanga 3. Eu estava lá e só queria saber do livro que o Francis teria deixado. Ele negou a existência do 3o. "Cabeça". Lembra? No fim das contas, acabou saindo o Carne Viva (que deveria chamar Jogando cantos felizes, em citação ao poema do Vinícius). Putz. Não sei o que dizer. Triste pácas. Daniel sabia das coisas.