domingo, 27 de novembro de 2011

O ferro em brasa

Para mudar de assunto – e fugir do tradicional exercício de esculachar alunos -, dois professores resolveram debater a importância do próximo feriado, o Dia Nacional da Consciência Negra. Um dos docentes estava mais exaltado e expunha toda a politização de boutique. Travestido de cidadão indignado com o que considerava uma injustiça, o professor rugia:

— Para que este dia? Por que não temos dia dos brancos, dos amarelos, dos vermelhos? O Dia da Consciência Negra é um ato de racismo.

Como o diploma não traz sabedoria, é possível compreender que tais argumentos beiram um simplismo infantil. Datas comemorativas jamais representam os grupos dominantes. Mesmo que politicamente corretas, estas datas reforçam que ainda vivemos sob o teto do preconceito e da desigualdade, sejam mulheres, negros, índios e outros grupos que não se encaixem no padrão estabelecido como desejável para exercício do poder.

Sempre enxerguei estas datas como um paradoxo. Embora signifiquem bandeira de resistência contra o controle majoritário, elas também mascaram o comodismo de quem finge que um dia desata todos os nós. Ao menos uma vez por ano, retirariam milhões de homens e mulheres do manto da invisibilidade.

Esta semana, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, disse que não havia racismo no futebol. Diante da saia justa, desculpou-se, o que não apaga a demonstração de cinismo (no mínimo, alienação) da declaração anterior. Assim como Blatter, muitos por aqui se sentam sobre o mito da democracia racial para defender a ideia de que o Brasil não é uma nação racista, ao contrário de quaisquer dados sócio-econômicos. Viram as costas para as relações mais cotidianas, como o mundo do trabalho ou o sistema educacional.

Vamos pensar só nas crianças, que talvez possam usufruir algum dia de novas relações sociais brasileiras. De acordo com a Unicef, apenas 43% das grávidas negras têm acesso a sete consultas pré-natais, o mínimo aceitável. Entre as brancas, 72,4%. De cada 100 crianças brasileiras, 45 são de família pobre. No total, seriam aproximadamente 26 milhões de crianças. Deste total, 17 milhões são negras. Um bebê negro tem 25% mais chances de morrer antes de completar um ano do que uma criança branca.

O Brasil apresenta, evidentemente, particularidades nas relações raciais. Seria distorção cultural comparar como gêmeos o racismo praticado aqui com o norte-americano ou ainda com o sul-africano. O fato é que o país se esconde do problema quando o torna elemento secundário no debate público sobre as desigualdades brasileiras.

A tendência de desaparecer com o tema se manifesta por dois caminhos. O primeiro é amenizar a situação, como se racismo não fosse violência, seja pontual, seja estrutural, com o aval de governos e políticas públicas. O segundo é acusar os negros de discriminação, como se tal postura os igualasse aos brancos e retirasse o peso da violência cometida no cotidiano.

A ironia reside na exposição dos argumentos contrários. Antes designado ao silêncio absoluto, o racismo no país entrou na pauta de intelectuais e parte da imprensa, que dão ressonância para vozes que negam a discriminação racial. Para esses, 20 de novembro é mais do que uma ofensa. É o ferro em brasa que agora, simbolicamente, marca as costas quase transparentes.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Obrigação

Na última semana, recebi dois presentes de uma aluna da Universidade Aberta da Terceira Idade. Ela me deu um livro do escritor Rubem Alves. E me presenteou também com um recorte de jornal. Era a crônica Despedida, a última do mesmo Rubem Alves na Folha de S. Paulo.

No texto, ele – aos 78 anos – alega cansaço para escrever. Diz que tem cada vez mais dificuldades para encontrar algo a falar para seus leitores. E que uma crônica semanal acabou se tornando uma obrigação. “Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.”

Muitos cronistas escrevem sobre o ato de escrever quando não querem denunciar a falta de assunto. Não é o caso de Rubem Alves nem o caso deste colunista. O texto publicado na Folha me fez pensar a partir de uma frase: “A obrigação: é isso que pesa.”

A vida atual nos consome em obrigações. São compromissos, tarefas, acertos, ordens e outras determinações que, muitas vezes, nos tiram a capacidade de refletir sobre o que estamos fazendo. É como se nos transformássemos em hamsters que correm eternamente na rodinha de metal.

Corremos em círculos, o que nos faz perder a sensação de caminhada contínua, evolutiva, com um traçado definido, mas aberto a mudanças na estrada. Novas curvas, novos obstáculos, novos roteiros, passamos por eles sem que os entendamos como tais, como mudança à vista.

A ironia se esconde no fato de que as obrigações nos tornaram exigentes compulsivos. O que mais vejo são pessoas que reivindicam o tempo todo. A ideia é pedir sempre, sentar-se na condição de cliente e esbravejar, reclamar, se queixar. Neste sentido, as verdadeiras batalhas se misturam às mesquinharias das exigências pequenas do cotidiano. Tudo parece ganhar o mesmo peso, que afasta o diálogo e, principalmente, repele a reflexão adequada e serena sobre o que nos envolve.

Tenho consciência de que sempre cumprirei obrigações. Não me refiro às prazerosas. Estas situações não se desenham como fardo. Pelo contrário, representam oásis no deserto de pedidos alheios. Um exemplo é o tempo que passo com meus dois filhos. Tempo intenso, porém curto. Tempo que gera horas de pensamentos posteriores, que vão de lembranças a novas portas a serem abertas neste relacionamento.

O que pesa, para mim, são as obrigações impostas, burocráticas, desnecessárias e travestidas de compromissos inadiáveis e emergenciais. Estes supostos deveres me atingem nas mais variadas esferas sociais, não apenas no trabalho, como muitos desejam responsabilidade. O trabalho nos dá pequenas vitórias e é delas que me alimento para prosseguir.

Sonho com menos obrigações. Desejo uma vida com maior liberdade, com o direito de decidir sobre os deveres a cumprir. Mas, acima de tudo, fantasio com a vitória da poesia, que muitas obrigações insistem em ordenar a morte dela.