segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O direito de Mario Fernandes

O lateral-direito do Grêmio, Mario Fernandes, cometeu um crime, passível de prisão perpétua. Passível porque a amnésia coletiva, somada ao cinismo que permeia o futebol, pode garantir o perdão e reverter a pena daqui a meses, ainda nesta temporada.

Mario Fernandes teria rejeitado a seleção brasileira, segundo o discurso ufanista da imprensa amiga da CBF. O jogador alegou problemas pessoais para não participar do amistoso caça-níqueis contra a Argentina. Problemas pessoais é argumento vago, claro. Mas ele tem o direito de ser evasivo.



O jogador também tem o direito de se recusar a atuar pela seleção brasileira. Ou rejeitar uma convocação. Nada mais hipócrita do que a ideia de que a seleção representa uma instituição sagrada. A seleção se prostituiu há anos. Virou balcão de negócios. O craque da semana é convocado e se transforma em expatriado na semana seguinte; e página virada, na convocação posterior. A lista de Mano Menezes está repleta de nomes assim.

Mario Fernandes foi acusado de antipatriótico. O cinismo, aliado ao simplismo do politicamente correto, se apressou em julgá-lo. O patriotismo brasileiro é único, mas também fragilizado. Resume-se aos esportes, numa demonstração esquizofrênica, que se manifesta pelo ódio e repulsa quando o primeiro lugar não é conquistado, embora não houvesse chances de vitória.

O patriotismo abre exceção quando se trata de artistas, mas prevalece o clima de competição. Patriotismo no Oscar de filme estrangeiro ou em prêmios musicais. Um ator que tenta carreira lá fora tem que começar por cima. Caso contrário, é visto como alguém que passou ridículo e fracassou.

O patriotismo que nos reúne no boteco para torcer pelo Brasil em Copa do Mundo se esvazia quando envolve política, história ou valores culturais. Aí transitamos da indiferença à valorização dos importados. A grama do vizinho é sempre mais verde.



Mario Fernandes foi comparado a outros “desertores”. Leandro, também lateral-direito, largou a seleção em solidariedade à Renato Gaúcho, cortado por Telê Santana às vésperas da Copa de 1986. Leandro chegou a ser acusado de ter um caso amoroso com o atacante. Dez anos depois, Arílson, então atacante do Grêmio, escapou da seleção em tempos de Zagallo. Nunca mais foi chamado, assim como Leandro.

Mario Fernandes sofreu uma patrulha nociva, em contraponto às festividades da torcida paraense com Neymar e Ronaldinho Gaúcho. Nas entrelinhas, o vilão que merece o ostracismo, alvo de um maniqueísmo em que os que estão lá seriam como pilotos-kamikazes, dispostos a morrer por uma causa. Os contratos milionários e a vida de rock star desmentem qualquer analogia rasteira com a guerra.

O lateral-direito não está condenado à morte. Passará pelo purgatório do espetáculo, mas contará com o esquecimento alheio. Uma convocação, uma boa partida basta como remédio para a superficialidade.



O lateral-esquerdo, Marcelo, do Real Madrid, é exemplo de como o cinismo sobrevive. Até hoje, a história do e-mail que vazou para a comissão técnica da CBF está mal contada. O fato é que, depois de alguns meses, Marcelo foi reconvocado por Mano Menezes e segue como titular.

Se Mario Fernandes não for chamado, o problema não foi a falta de patriotismo. Ele estará fora por causa da concorrência. Por hora, reinam Maicon e Daniel Alves. O lateral do Grêmio está apenas no começo. O resto é má fé.


Obs.: Este texto foi sugerido pelo estudante de Jornalismo Gustavo Pereira. Agradeço pela ideia!

Um comentário:

gustavo disse...

Opa! Muito obrigado pelo crédito, Marcão! A turma da Praça agradece!
Concordo com você principalmente no ponto onde fala sobre esse falso patriotismo dos brasileiros.
Tem muita gente que só "veste a bandeira" em época de Copa do Mundo mesmo.
Parabéns pelo ótimo texto!