domingo, 2 de outubro de 2011

O aniversário

Escrever sobre aniversários, ainda mais quando o motivo é o seu, representa o cúmulo da obviedade. Mas aí reside a primeira particularidade da data: em aniversários, você recebe uma espécie de carta de alforria, que te permite ser mais sincero do que o habitual e tomar certas atitudes. Atitudes que, se magoam, ganham perdão. A emoção do dia serve de desconto na nota fiscal, principalmente se não se faz o esperado, se não há exaltação ou euforia desmedida.

Se as ações beiram a vergonha ou ultrapassam a fronteira entre o bom senso e o ridículo, serão lembradas em tom de brincadeira, como conseqüência do vácuo espaço-tempo que se abriu diante do aniversariante. Ele não estava no domínio de suas faculdades mentais, como um surto temporário, inócuo e inofensivo.

Escrever sobre seu próprio aniversário tem, inclusive, uma justificativa técnica, tão formal quanto fraudulenta. A crônica rasteja entre a sensibilidade da percepção das entrelinhas e a redundância dos grandes temas. O cronista discorre sobre os mesmos temas e, no fundo, fala sobre si mesmo, o que vê e o que o cerca. Este texto é mero ato de coerência.

Mas olhar para o próprio aniversário é, acima de tudo, fugir das promessas. A superstição ordena que se corte o bolo e faça pedidos. Mais uma promessa do que uma solicitação. Prometer mudanças nesta data é o primeiro passo para esquecê-las no dia seguinte.

Aniversário e segunda-feira são irmãos gêmeos. Por coincidência, meu aniversário caiu no domingo, o que fortalece o quadro de amnésia. E prometer sob a coerção dos parabéns é apostar na prevalência da inércia. Até porque o pedido ocorre em silêncio, o que te isenta de cobranças e abre a porta para mentiras que atendem a audiência.

Olhar para o próprio aniversário é enxergar pelo retrovisor. De certa forma, fazemos um balanço daquele momento, daquele cenário. Não é exatamente como fechar a loja depois das festas de final de ano. É uma necessidade – pelo menos para mim – de refletir sobre os sentimentos e emoções que permearam os últimos tempos, sem prazos engessados. Impossível medir se os sentimentos brotaram e me machucaram há uma semana, um mês ou há duas horas.

Como sentimentos e emoções afetam outras pessoas, aniversário é pensar sobre elas, sobre como lapidar uma relação afetiva ou se uma sucessão de fatos implica em afastamento ou em distância segura. O contrário também merece diagnóstico: por que falhamos? Por que fomos negligentes? Por que fomos duros demais ou afetivos de menos?

Entendo o aniversário como uma pausa introspectiva. Não sei se é a idade, que traz consigo alguma rabugice, mas a cada ano me vicio mais em exercitar a solidão neste dia. Sempre há alguma festinha e seria grosseiro rejeitá-la, mas tais reuniões me soam protocolares. Uma maneira de agradar a quem demonstra amor por mim do que a exigência de suntuosos espetáculos individuais.

O aniversário é o intervalo da faxina interna. Neste ano, não consegui – por responsabilidade própria – repetir um ritual que simboliza minha limpeza interior. Os dois objetos, uma cadeira de praia e um livro, mais a própria areia compõem o bolo de aniversário ideal. O instante de egoísmo, como se o mar e a areia me pertencessem exclusivamente. Gente em volta, mas vazio absoluto para rechear a si mesmo outra vez.

Como contradição, comemorar aniversário é ter ciência de que brota o desejo de ter o outro a seu lado. Ouvir os parabéns, ganhar um abraço e um beijo superam qualquer presente e seu valor monetário. Não confunda com a festinha de ocasião ou com as mensagens de Facebook, muitas delas frias como as convenções sociais.

Fazer aniversário está além da contagem de tempo. Respeito quem esconde a idade, paralisa os relógios ou simplesmente evita tocar no assunto. Sempre me pareceu algo secundário, inclusive por ser uma derrota de goleada. É o uso indevido da matemática, pois o resultado adverso mascara contas abstratas, impossíveis de serem feitas na nossa própria história e, essencialmente, na relação com os outros personagens importantes para o enredo que construímos, em contextos imprevisíveis.

Aniversário é a parada desesperada em um posto sem-vergonha depois de horas de caminhada na estrada. É valorizar o que se tem, sem cobiçar o alheio. E, neste caso, o que se possui não pode ser comprado em shopping, supermercado ou na quitanda da esquina. Sequer está à venda. Para localizá-lo na prateleira, só olhando para a estrada percorrida e para as cicatrizes da viagem.

Um comentário:

Mariana Pereira disse...

Adorei o texto!

Sendo bem honesta, não gosto de comemorar meus aniversários. Me sinto como você descreveu, cumprindo um ritual para agradar as pessoas. Me acham louca quando digo que não farei nada para celebrar. Como assim? Comemorar aniversário é obrigação? Eu sempre achei que, neste dia, eu quem devia escolher o que fazer, como e sem dar explicações. Mas parece que não é desse jeito que a banda toca. O que fez as festas perderem a graça, de certa forma.

Também me incomoda ver aquelas pessoas que eu sei que não torcem por mim me desejando tudo de bom na vida. Tenho medo. Dependendo da pessoa, até rezo um pouco, rs. Hoje em dia junto meus melhores amigos e passo um dia divertido com eles: meus livros e meu cachorro. Esses sim adoram me ver feliz!

Beijos, Marcão.