sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Manual do enrolador

Falta um ano para as eleições. É tempo de incertezas e de verdades absolutas. Promessas se multiplicam como milagre em porta de igreja. As gavetas dos gabinetes vomitam projetos, propostas, programas e ideias semelhantes, que continuarão condenados ao purgatório da eternidade.

Nos próximos 12 meses, você estará cercado de uma trupe que tentará transformar sua vida num circo. Mascarar o circo de horrores e colorir o picadeiro. O desejo deles é que nos levantemos da arquibancada, onde permanecemos inertes por quatro anos, entendamos que o centro do picadeiro é nosso. De brinde, o nariz vermelho. A piada com desfecho sem graça.

Para nos defendermos dos profetas de terno, dos curandeiros de políticas públicas e dos xamãs que beijam crianças e velhinhos na feira livre, foi lançado o Manual do Enrolador. O livro é um guia de auto-ajuda, com receitas para detectar e reagir diante do assédio dos caçadores de votos.

O primeiro passo é ter consciência de que os esqueletos vão sair do armário, com ou sem tranca. Não adianta novena, mesa branca ou galinha preta na esquina. Fantasmas reaparecem como se tivessem ressuscitado depois do descanso. Não se preocupe: para a assombração, o morto é você.

Depois de mapear e perceber por onde caminham as entidades, é fundamental compreender como se comportam para alcançar, seduzir e abocanhar a presa. Uma das estratégias mais comuns é o envolvimento em questões públicas. Não importa se são assuntos anteriormente desprezados. Alimentar a amnésia alheia é o coração da fraude.

As “lutas” serão escolhidas, exploradas, distorcidas e devolvidas a você a partir de critérios e interesses obscuros. Qualquer pergunta que você responder na rua indicará comprometimento. No mínimo, você virará estatística. A intenção de voto é, nesta lógica, certeza de vitória. Rejeitar um profeta não significa heresia ou garantia de desfecho na fogueira. É ser ignorado por quem não tem o menor interesse em saber o que você pensa.

Os temas eleitos para a pregação gratuita na TV – ou em debates que se multiplicam como coelhos – precisam ser legitimados. É o verniz que deixará brilhante a cara-de-pau. Esta espécie costuma se reunir em eventos. Seminários, por exemplo. Os pregadores falam, falam, falam, sem a menor disposição para sair do lugar. Gasta-se saliva como dinheiro público. Suor, por outro lado, é peça rara de antiquário.

Encontros assim nasceram para morrer. Servem para resgatar lendas urbanas, mesmo aquelas que entraram para a galeria do humor. Siglas e nomes pomposos compõem o cenário. Quanto menos compreensível, maiores as chances de parecer primordial e sinônimo de progresso. VLT, por exemplo. Você não sabe o que significam as três letras? O Manual te levará à luz.

Como última lição-aperitivo, jamais se esqueça de que o guru é versátil. Ele sempre estará acompanhado de uma corte, capaz de fazê-lo discorrer por horas – e com propriedade – sobre educação, meio ambiente, aborto e emprego. O guru vai de uma ponta a outra sem escalas, com números decorados e palavras que o libertam de qualquer saia justa.

A má notícia: o Manual do Enrolador não estará à venda. Talvez o livro fizesse sucesso no mercado. Mas a concorrência é dura. Os profetas nunca descansam em serviço, mesmo quando enganam para sobreviver.

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