quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Autoajuda para o guru

Quando visito uma livraria, fujo dos livros de autoajuda. Não quero conhecer o monge tampouco o executivo. Não desejo que mexam nas minhas coisas, quanto mais no meu queijo. Quero viver com alguém por amor e cumplicidade, critérios mínimos sem pensar em enriquecer com ela.

Concordo com a piada que diz: os livros de autoajuda só ajudam quem os escreve. A ficar mais rico. A produzir mais livros. A reproduzir mais clichês. Os livros de autoajuda são termômetros que indicam uma sociedade escrava de fórmulas, ávida por respostas rápidas e genéricas, adepta do individualismo e divorciada da reflexão e da crítica.

Os livros atendem à necessidade crua de felicidade com elementos exteriores ao indivíduo. É uma premissa contraditória. Materializar sentimentos como caminho único de salvação é tão ilusório como milagres vendidos pela TV por sujeitos carismáticos de terno, gravata e livro sagrado nas mãos. Aliás, multiplicados em vários canais por objetivos idênticos.

Como o ser humano fascina pelo contraditório, acabei possuído por aquilo que tanto critiquei. Em vez de exorcizar a entidade, resolvi pensar no que tinha a me dizer. Concluí que a autoajuda é um mal necessário. Com uma diferença: vou ajudar a mim mesmo.




Se você, leitor, quiser me tornar seu guru, fique por sua conta e risco. A vantagem é que este texto saiu de graça. A desvantagem é que não existe ainda um Procon metafísico ou de receitas empresariais. Daqui para a frente, enganação, enrolação, estelionato intelectual.

Percebi as maravilhas de viver com menos. Por culpa do Detran, abri mão do carro. Mais do que o cinismo de fingir esquecer o automóvel por um dia no ano, resolvi abandoná-lo. Na verdade, o vendi para cobrir despesas e me transformei em um sem-carta. Especulo se é viável montar uma ONG comprometida. Comprometida a explorar esse segmento.

A decisão de dispensar o modelo de transporte dominante (ou quase) foi saudável. Para melhorar minha saúde, comprei uma bicicleta. Ambientalmente correta como transporte. Tão rápida como o carro em várias horas do dia. A bicicleta é a dieta perfeita que prescinde de shakes, sopas, cogumelos, pílulas, fases da lua, entre outras promessas diuréticas, feitas para te acorrentar ao banheiro.

Viver com menos é também abrir mão das facilidades tecnológicas que fascinam as Amélias, os gourmets e os iludidos da nova classe média. Menos badulaques eletrônicos em casa é economia de energia e garantia de reprodução da filosofia do minimalismo.

Para manter a coerência do meu processo de autoajuda, escolhi viver sem fogão. Não tenho esse objeto há quase três anos. Em palestras e dinâmicas que enrolam funcionários, prometo defender a ideia de que extinguir o fogão simboliza o retorno à vida bucólica anticonsumista, entre outras expressões permeadas por frases engraçadas.

De perto, a picaretagem se revela. A ausência de fogão é compensada por forninho, sanduicheira e micro-ondas. O outro motivo de poupar energia é operacional: não sei cozinhar mesmo. Qualquer dificuldade é solucionada por pratos prontos, a descongelar em 15 minutos. Se enjoar, nada que o restaurante por quilo não resolva.

O único momento honesto da autoajuda pessoal (a redundância é ênfase!) são as caminhadas. Evito as academias. Elas fazem mal à liberdade. Qual é a lógica de percorrer quilômetros, indica o velocímetro, sem sair do lugar? Prefiro caminhar pela cidade. Para não fugir à regra do homem de hoje, ando com um propósito. O guru finge trabalhar, para não ter tempo de ficar sem dinheiro. A neurose urbana não permite caminhar sem rumo.



Metas e objetivos são parte do receituário da autoajuda. Como o guru diante do espelho, sugiro que faça como eu: ande para o trabalho. Assim, é mantido o equilíbrio entre a qualidade de vida (aqui, um clichê) e a vida proativa (outro termo do dicionário).

Se você, leitor, levar essa fórmula ao pé da letra, vai perceber que o mesmo caminho para o trabalho todos os dias é tão monótono quanto rastejar na esteira da academia. Faça o mesmo trajeto, mas olhe para os lados. Mover a cabeça e ativar os olhos te levará a novas leituras da mesma história.

Andar pelo bairro onde moro, hoje, me leva a novos endereços, ainda que o traçado seja igual. Descubro novas casas, outras arquiteturas, outra vegetação. Conheço pessoas e absorvo histórias inéditas, muitas delas fontes de novos textos aqui mesmo neste espaço.

Viver com menos é, na prática, observar e digerir detalhes. É enxergar a poesia que se renova na rotina da vida cinzenta. Ver não está nos livros nem nas palavras encaixadas pelos gurus e falsos mestres. Olhar para os lados e perceber ao rodapé da vida não pode ser ensinado. É isso que defino como autoajuda.

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