domingo, 30 de outubro de 2011

A falta de cabelos brancos

O jornalista Ricardo Kotscho, autor de 20 livros, defende a reportagem como caminho para o Jornalismo de qualidade*
Para aborrecer Ricardo Kotscho, a receita não é falar mal do São Paulo, seu time de coração, ou do governo Lula, de quem foi secretário de Imprensa e mantém um misto de visão crítica e amizade. O jornalista de 64 anos eleva a voz quando alguém questiona se a reportagem está morta, em coma por questões financeiras ou restrita a poucos veículos de comunicação.

Para acalmá-lo, basta deixá-lo contar sobre a próxima reportagem a ser publicada. Nem precisa perguntar. A voz se torna serena, escapam palavrões, o velho repórter abandona a formalidade. Renasce o contador de causos.

Kotscho narrou, com detalhes, os bastidores de uma viagem a Barretos, no interior de São Paulo. Sete horas de carro para acompanhar a Festa do Peão daquela cidade, a mais famosa do país. A matéria ainda não foi publicada pela revista Brasileiros, onde é repórter especial. Sairá na edição de outubro.

De um ideia inicial sobre a vida dos milionários ruralistas, Kotscho retornou à São Paulo com a história de Henrique Prata, pecuarista que estudou até os 15 anos e que hoje administra o Hospital do Câncer de Barretos, referência nacional em pesquisa e tratamento da doença.

A história foi contada em um dos auditórios da Universidade Santa Cecília. Kotscho veio a Santos para dividir uma mesa de debates sobre os desafios da profissão com os colegas Armando Pereira Filho (UOL) e Zé Gonzalez (Globoesporte.com), sob os olhares de uma plateia de 150 estudantes de Jornalismo. O encontro abriu a Semana Ceciliana de Artes e Comunicação, que integra o programa de 50 anos da instituição de ensino.

Aos 47 anos de carreira, o jornalista Ricardo Kostcho nunca ganhou tão bem. E trabalhou tão solto. Mas, para que chegasse neste ponto, ele virou comentarista da Record News, escreve para a revista que ajudou a fundar há quatro anos e é blogueiro, hoje no portal R7. “Virei multimídia por necessidade.”

A velha sola de sapato - Além disso, o jornalista está lançando o 20º livro, “A Vida que segue”, coletânea de crônicas publicadas nos últimos três anos na Internet. É a sua segunda obra do gênero. Migrar para o mundo virtual simbolizou a mudança na profissão, que resultou em mais tempo com a família, ausência de vínculos empregatícios e até o abandono da rotina motorizada.

Kotscho trocou helicópteros e aviões na capital federal por andar a pé na capital paulista. Assumiu-se como pedestre de carteirinha, tanto que vendeu o carro na semana passada e não pretende comprar outro automóvel. Promessa publicada no seu próprio balaio, na Internet.

A mudança de vida pós-Brasília, uma cidade que se alimenta de crises, segundo ele, o reaproximou da reportagem, mas não alterou a visão sobre a prática do Jornalismo. “Os novos desafios são os velhos de sempre. Mudam apenas os meios e as terminologias. Não importam o suporte e a plataforma. Sem tesão e vontade, os novos meios (de comunicação) ficam sem função.”

Ricardo Kostcho defende, com veemência, que exerce o Jornalismo da mesma maneira, desde o primeiro dia em que pisou numa redação, no jornal O Estado de S. Paulo, em 1964. Naquele dia, produziu uma matéria sobre vestibular. “A reportagem diferencia um veículo do outro. Jornalismo é descobrir, apurar e contar bem uma história.”

Homens grisalhos - Como leitor, o jornalista se sente incomodado. Para ele, o noticiário peca pela padronização de assuntos. “A impressão que me dá, como consumidor, é que aquela notícia é velha. Mesmo sendo nova, a sensação é de que a li em algum lugar.” É a forma do velho repórter dizer que o jornal só sobreviverá se for “gênero de primeira necessidade”. Palavras dele.

Ricardo Kostcho desconfia – e explica para a plateia composta na maioria por jovens jornalistas na casa dos 20 anos – que as redações redescobriram os homens grisalhos. Muitos portais – uma das razões para o bom salário – resolveram contratar profissionais mais experientes que, segundo ele, podem escrever mais do que 10 linhas ou 140 caracteres. “É fundamental mesclar velhos e novos. Nas redações, faltam cabelos brancos.”

Cego e surdo - Adepto da reportagem como essência da profissão, o velho repórter não demoniza ou crucifica as novas tecnologias. Ele as defende como espaço para matérias mais elaboradas, em convivência harmônica com a notícia mais urgente e curta.

O que o irrita é usar a tecnologia para prender o repórter nas redações, longe das ruas. “É vagabundagem. É impossível fazer pelo telefone. Checar uma informação de última hora, tudo bem. Mas eu preciso ver de perto porque sou meio cego. Preciso ouvir de perto porque sou meio surdo. As deficiências físicas ajudam no trabalho.”

Como argumento, Ricardo Kotscho cita várias vezes o colega José Hamilton Ribeiro, repórter do Globo Rural. Um exemplo: a reunião dos dois para discutir a morte da reportagem, há 30 anos, na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro. Por coincidência, ambos se encontraram, no ano passado, na PUC-SP, para conversar sobre o tema.

Kostcho se diverte parafraseando José Hamilton, para justificar que, enquanto se gasta saliva com o falecimento alheio, ambos sobreviveram ao intervalo de três décadas com o mesmo trabalho. E ainda vivem disso. Kotscho, aliás, com maior salário em 47 anos de histórias bem contadas.

* Matéria publicada no Jornal Boqnews (Santos/SP), edição nº860, em 1º de outubro de 2011.

O parque mal assombrado

Tenho dois filhos. Mariana tem nove anos e não se lembra de tê-lo visitado. Vinicius, com quase dois, está proibido de colocar os pés no lugar. Riscaram, sem saber, o parque do mapa. Adaptaram-se em outros espaços abertos da cidade, como o Jardim Botânico e a Fonte do Sapo.

Um amigo, também com dois filhos, tinha o hábito de levá-los lá quase todos os finais de semana. Passeio que incluía o relaxamento dos pais e a pipoca no cair da tarde. O Orquidário Municipal caminhou rumo ao saudosismo e rastejou para a lista de obras com a máscara de lenda urbana.

Fechado desde 2009, o Orquidário é um mausoléu verde, enegrecido pela escuridão, não apenas de noite. O parque é vítima da negligência administrativa. Basta ver a quantidade de adiamentos da conclusão da reforma e do milagre da multiplicação dos cifrões, que encarecem o trabalho e perpetuam o fechamento do parque. Enquanto isso, os burocratas transferem responsabilidades e tiram a culpa das próprias costas.

Agora, me entristece saber que o Orquidário não pode descansar em paz. Nem o coma induzido é respeitado, tanto por quem o profana como por quem deveria zelar por ele. Qualquer morador com o mínimo de senso sabe onde ficam os pontos de venda e consumo de drogas nos arredores do parque. Ali, existem, ao menos, dois locais que conectam usuários de crack, um na linha do trem e o outro à beira da imagem de Nossa Senhora de Lourdes.

De vez em quando, o comércio é suspenso com a prontidão da Polícia Militar ou com a visita amigável dos guardas municipais. Dependentes de crack são tratados como questão de segurança, e não de saúde pública, ao contrário dos debates mais recentes em âmbito internacional.

O que o Orquidário tem a ver com isso? O parque se transformou em alvo para quem troca qualquer objeto por drogas. A reportagem de Bruno Lima, no jornal A Tribuna, retrata as reclamações dos moradores que testemunham, por exemplo, o roubo de fios e barras de ferro. A única “dificuldade” é pular o muro que perdeu a função de proteger o parque.

Se os moradores conhecem a rotina de depredação, por que a Guarda Municipal, cujo papel inicial é resguardar o patrimônio público, ainda não tomou providências? Por que só agora a Prefeitura Municipal resolveu instalar alambrados de três metros para evitar que o Orquidário não se torne uma carcaça sem acabamento? Ou a doação de parte do material a fundo perdido de mãos alheias é parte da reforma?

A ironia do purgatório que aprisiona o Orquidário é o discurso de desenvolvimento que ilude a cidade. Clichês como qualidade de vida, sustentabilidade e preservação ambiental ganham peso na boca dos engravatados, de olhos vidrados no falso progresso de concreto em forma de espigão e sonhos voltados para as profundezas do mar à frente, onde reside o ouro negro, o Godot que a Baixada Santista tanto espera como um personagem de Beckett.

Enquanto isso, o Orquidário permanece sob a administração de corsários e piratas terrestres, dando a impressão de que acompanhará o destino que amaldiçoou o Teatro Coliseu, irmão nos anos de agonia e filho de uma obra feita às pressas, com as feridas escancaradas para quem o visita no Centro. Pelo menos, meus filhos – e filhos de outrem – puderam ver o teatro antes de se tornarem adultos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A volta do chicote

Plenários são lugares sem eco, quase sempre. Políticos vão até lá para falar sobre assuntos que, muitas vezes, os colegas não estão interessados em ouvir. A plateia – quantos flagrantes de TV – utiliza as cadeiras confortáveis para tirar o sono atrasado ou exercitar a sesta da tarde.

Diante da indiferença, muitos parlamentares se apóiam na estratégia de utilizar palavras fortes, o que inclui ataques aos adversários, para alcançarem algum grau de ressonância. Obter espaço na imprensa. O plenário é o caixote do pregador na praça. Pregador que gasta saliva ao vento.

O senador Reditario Cassol (PP-RO) deu a impressão de que estava em alguma praça pública do seu estado de origem, Rondônia. Entendeu que poderia falar o que bem entendesse. O senador defendia seu projeto de lei, que altera o Código Penal. O projeto “revoga ou restringe diversos benefícios concedidos a condenados a pena privativa de liberdade.” Enquanto se esgoelava no plenário, Cassol resolveu estabelecer um paralelo sociológico entre os trabalhadores e os presidiários e explicitou o que pensa sobre o sistema prisional brasileiro.



Nesta análise profunda, o senador defendeu o uso de chicote para os presos que se recusassem a trabalhar nas cadeias. Imagino que o senador se referia ao período da escravidão, encerrado – ao menos juridicamente – há mais de 120 anos. O que Cassol não parece perceber é que declarações estapafúrdias esvaziam a discussão do próprio projeto pelo qual lutava no plenário. A seriedade se transforma, no mínimo, em bravata digna de piada.

Além do discurso fora de lugar, Reditario Cassol não deveria estar ali. Ele ocupa uma vaga na bancada do Senado por causa de uma daquelas brechas estúpidas do sistema político brasileiro. Reditario está no Senado sem ter votos. É suplente do filho Ivo Cassol, atualmente licenciado. Uma espécie de nepotismo via urnas. O indivíduo perde o cargo, a família garante o poder.

O exemplo do senador confirma o que se vê nos programas humorísticos da TV. Parlamentares pouco ou nada informados sobre questões nacionais, mais preocupados em cristalizar e levantar bandeiras de valores intolerantes e preconceituosos.

Reditario Cassol perdeu a oportunidade de colocar na pauta problemas que sobrevivem na essência do sistema prisional. Deputados e senadores, por interesses diretos ou indiretos, evitam tocar em feridas como a disseminação de celulares nas prisões, o déficit de vagas em presídios e cadeias, a aplicação restrita de penas alternativas para delitos leves e a própria distribuição de presos nas unidades, onde convivem o ladrão de galinhas e o gângster.

A defesa de senhor de escravos contou com o silêncio dos colegas de Senado. Será que concordam com a posição de Cassol? Ou estavam com a cabeça em outros endereços? Ou batiam papos animados, como acontece com freqüência? Apenas uma voz se manifestou. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou que “compreendia a indignação” do colega parlamentar, mas que o chicote seria “a volta da Idade Média”.


Suplicy não precisava viajar tão longe na história. A ironia está no fato de que o pregador do caixote tem apoio de uma parte da sociedade brasileira, que não apenas usaria o chicote, como também apertaria o gatilho em um pelotão de fuzilamento.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Autoajuda para o guru

Quando visito uma livraria, fujo dos livros de autoajuda. Não quero conhecer o monge tampouco o executivo. Não desejo que mexam nas minhas coisas, quanto mais no meu queijo. Quero viver com alguém por amor e cumplicidade, critérios mínimos sem pensar em enriquecer com ela.

Concordo com a piada que diz: os livros de autoajuda só ajudam quem os escreve. A ficar mais rico. A produzir mais livros. A reproduzir mais clichês. Os livros de autoajuda são termômetros que indicam uma sociedade escrava de fórmulas, ávida por respostas rápidas e genéricas, adepta do individualismo e divorciada da reflexão e da crítica.

Os livros atendem à necessidade crua de felicidade com elementos exteriores ao indivíduo. É uma premissa contraditória. Materializar sentimentos como caminho único de salvação é tão ilusório como milagres vendidos pela TV por sujeitos carismáticos de terno, gravata e livro sagrado nas mãos. Aliás, multiplicados em vários canais por objetivos idênticos.

Como o ser humano fascina pelo contraditório, acabei possuído por aquilo que tanto critiquei. Em vez de exorcizar a entidade, resolvi pensar no que tinha a me dizer. Concluí que a autoajuda é um mal necessário. Com uma diferença: vou ajudar a mim mesmo.




Se você, leitor, quiser me tornar seu guru, fique por sua conta e risco. A vantagem é que este texto saiu de graça. A desvantagem é que não existe ainda um Procon metafísico ou de receitas empresariais. Daqui para a frente, enganação, enrolação, estelionato intelectual.

Percebi as maravilhas de viver com menos. Por culpa do Detran, abri mão do carro. Mais do que o cinismo de fingir esquecer o automóvel por um dia no ano, resolvi abandoná-lo. Na verdade, o vendi para cobrir despesas e me transformei em um sem-carta. Especulo se é viável montar uma ONG comprometida. Comprometida a explorar esse segmento.

A decisão de dispensar o modelo de transporte dominante (ou quase) foi saudável. Para melhorar minha saúde, comprei uma bicicleta. Ambientalmente correta como transporte. Tão rápida como o carro em várias horas do dia. A bicicleta é a dieta perfeita que prescinde de shakes, sopas, cogumelos, pílulas, fases da lua, entre outras promessas diuréticas, feitas para te acorrentar ao banheiro.

Viver com menos é também abrir mão das facilidades tecnológicas que fascinam as Amélias, os gourmets e os iludidos da nova classe média. Menos badulaques eletrônicos em casa é economia de energia e garantia de reprodução da filosofia do minimalismo.

Para manter a coerência do meu processo de autoajuda, escolhi viver sem fogão. Não tenho esse objeto há quase três anos. Em palestras e dinâmicas que enrolam funcionários, prometo defender a ideia de que extinguir o fogão simboliza o retorno à vida bucólica anticonsumista, entre outras expressões permeadas por frases engraçadas.

De perto, a picaretagem se revela. A ausência de fogão é compensada por forninho, sanduicheira e micro-ondas. O outro motivo de poupar energia é operacional: não sei cozinhar mesmo. Qualquer dificuldade é solucionada por pratos prontos, a descongelar em 15 minutos. Se enjoar, nada que o restaurante por quilo não resolva.

O único momento honesto da autoajuda pessoal (a redundância é ênfase!) são as caminhadas. Evito as academias. Elas fazem mal à liberdade. Qual é a lógica de percorrer quilômetros, indica o velocímetro, sem sair do lugar? Prefiro caminhar pela cidade. Para não fugir à regra do homem de hoje, ando com um propósito. O guru finge trabalhar, para não ter tempo de ficar sem dinheiro. A neurose urbana não permite caminhar sem rumo.



Metas e objetivos são parte do receituário da autoajuda. Como o guru diante do espelho, sugiro que faça como eu: ande para o trabalho. Assim, é mantido o equilíbrio entre a qualidade de vida (aqui, um clichê) e a vida proativa (outro termo do dicionário).

Se você, leitor, levar essa fórmula ao pé da letra, vai perceber que o mesmo caminho para o trabalho todos os dias é tão monótono quanto rastejar na esteira da academia. Faça o mesmo trajeto, mas olhe para os lados. Mover a cabeça e ativar os olhos te levará a novas leituras da mesma história.

Andar pelo bairro onde moro, hoje, me leva a novos endereços, ainda que o traçado seja igual. Descubro novas casas, outras arquiteturas, outra vegetação. Conheço pessoas e absorvo histórias inéditas, muitas delas fontes de novos textos aqui mesmo neste espaço.

Viver com menos é, na prática, observar e digerir detalhes. É enxergar a poesia que se renova na rotina da vida cinzenta. Ver não está nos livros nem nas palavras encaixadas pelos gurus e falsos mestres. Olhar para os lados e perceber ao rodapé da vida não pode ser ensinado. É isso que defino como autoajuda.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Manual do enrolador

Falta um ano para as eleições. É tempo de incertezas e de verdades absolutas. Promessas se multiplicam como milagre em porta de igreja. As gavetas dos gabinetes vomitam projetos, propostas, programas e ideias semelhantes, que continuarão condenados ao purgatório da eternidade.

Nos próximos 12 meses, você estará cercado de uma trupe que tentará transformar sua vida num circo. Mascarar o circo de horrores e colorir o picadeiro. O desejo deles é que nos levantemos da arquibancada, onde permanecemos inertes por quatro anos, entendamos que o centro do picadeiro é nosso. De brinde, o nariz vermelho. A piada com desfecho sem graça.

Para nos defendermos dos profetas de terno, dos curandeiros de políticas públicas e dos xamãs que beijam crianças e velhinhos na feira livre, foi lançado o Manual do Enrolador. O livro é um guia de auto-ajuda, com receitas para detectar e reagir diante do assédio dos caçadores de votos.

O primeiro passo é ter consciência de que os esqueletos vão sair do armário, com ou sem tranca. Não adianta novena, mesa branca ou galinha preta na esquina. Fantasmas reaparecem como se tivessem ressuscitado depois do descanso. Não se preocupe: para a assombração, o morto é você.

Depois de mapear e perceber por onde caminham as entidades, é fundamental compreender como se comportam para alcançar, seduzir e abocanhar a presa. Uma das estratégias mais comuns é o envolvimento em questões públicas. Não importa se são assuntos anteriormente desprezados. Alimentar a amnésia alheia é o coração da fraude.

As “lutas” serão escolhidas, exploradas, distorcidas e devolvidas a você a partir de critérios e interesses obscuros. Qualquer pergunta que você responder na rua indicará comprometimento. No mínimo, você virará estatística. A intenção de voto é, nesta lógica, certeza de vitória. Rejeitar um profeta não significa heresia ou garantia de desfecho na fogueira. É ser ignorado por quem não tem o menor interesse em saber o que você pensa.

Os temas eleitos para a pregação gratuita na TV – ou em debates que se multiplicam como coelhos – precisam ser legitimados. É o verniz que deixará brilhante a cara-de-pau. Esta espécie costuma se reunir em eventos. Seminários, por exemplo. Os pregadores falam, falam, falam, sem a menor disposição para sair do lugar. Gasta-se saliva como dinheiro público. Suor, por outro lado, é peça rara de antiquário.

Encontros assim nasceram para morrer. Servem para resgatar lendas urbanas, mesmo aquelas que entraram para a galeria do humor. Siglas e nomes pomposos compõem o cenário. Quanto menos compreensível, maiores as chances de parecer primordial e sinônimo de progresso. VLT, por exemplo. Você não sabe o que significam as três letras? O Manual te levará à luz.

Como última lição-aperitivo, jamais se esqueça de que o guru é versátil. Ele sempre estará acompanhado de uma corte, capaz de fazê-lo discorrer por horas – e com propriedade – sobre educação, meio ambiente, aborto e emprego. O guru vai de uma ponta a outra sem escalas, com números decorados e palavras que o libertam de qualquer saia justa.

A má notícia: o Manual do Enrolador não estará à venda. Talvez o livro fizesse sucesso no mercado. Mas a concorrência é dura. Os profetas nunca descansam em serviço, mesmo quando enganam para sobreviver.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Choque de gerações

O amistoso contra a Argentina, na última semana, ocorreu pelas razões erradas. Mais do que representar a conquista de um troféu sem relevância, a partida deveria servir para afunilar o processo de renovação da seleção brasileira e, principalmente, iniciar a definição do grupo de jogadores que disputarão as Olimpíadas, em 2012.

Ao convocar somente os atletas que atuam no país, o técnico Mano Menezes sucumbiu às pressões de variadas ordens – de empresários a clubes, da CBF à imprensa – e não conseguiu cumprir nenhuma das metas estabelecidas quando assumiu o cargo. Mano Menezes mal imprimiu uma trajetória de renovação, como também não compôs um time olímpico.

O calvário deve prosseguir contra a Costa Rica, o próximo amistoso. A vitória será óbvia e obrigatória. Mas o que poderá render para os próximos dois anos?

A culpa não deve ser creditada exclusivamente na conta do treinador. A seleção paga o preço da entressafra. O cenário atual indica, de fato, uma lacuna entre veteranos e revelações, o que provoca aposentadorias precoces e responsabilidades em excesso para quem mal saiu das fraldas.

O único setor que sobrevive, sem muitos ferimentos, à crise de identidade atual é a defesa. Ainda dependemos de Julio Cesar, mas na posição de goleiro renovar é um risco desnecessário. A experiência é pré-requisito para a função. O critério longevidade esconde, no entanto, a dificuldade em se localizar goleiros novos e de alta qualidade. Victor é uma exceção. Rafael, do Santos, uma promessa.

Entre os zagueiros, a situação se aproxima do ideal. Jogadores experientes, como Lúcio (aliás, ainda em plena forma e marcando gols), fazem parceira com atletas no auge da técnica e da força, como David Luiz e Thiago Silva. Todos defendem clubes de ponta e estão acostumados às pressões de jogos importantes. Entre os laterais, o lado direito tem dois soberanos (Maicon e Daniel Alves), enquanto na esquerda Marcelo precisa de uma sequência de partidas. Ele sofre a concorrência de Adriano, do Barcelona. Côrtes, do Botafogo, é tão desconhecido quanto festejado em excesso.

O time se torna normal quando o olhamos do meio-campo para frente. E é nestes setores que se pode notar o choque de gerações. Jogadores que deveriam ser titulares entraram em decadência muito antes do previsto. Adriano e Ronaldinho Gaúcho exemplificam o problema. Outros vivem entre contusões que, de certa maneira, abreviaram a carreira em alto nível. Kaká era o camisa 10 que, no momento, a seleção perdeu.

Esta turma não teve substitutos à altura. Não se pensou nesta hipótese. Parte do elenco da última Copa encerrou a história na seleção. Os herdeiros não tiveram oportunidades ou não possuem qualidade técnica para protagonizar a sequência da narrativa.

No meio-campo, Diego, do Atlético de Madri, não construiu uma carreira regular, nem na seleção, nem no futebol europeu. Teve bom início na Espanha e, com 26 anos, pode reaparecer nas listas de convocados. Ganso, do Santos, vive no estaleiro e, na seleção, não fez diferença alguma. Robinho é irregular e, na prática, não altera o estado de coisas.

Entre os atacantes, o técnico Mano Menezes girou a metralhadora. Não temos um centroavante desde Ronaldo. O treinador testa jogadores de clube, como Borges, revelações ainda cruas, como Lucas, e atacantes que nunca resolveram o problema, como Pato e Fred. De fato, o ataque não provoca tremedeiras em zagueiros das grandes seleções. Tanto que o Brasil mal marcou gols nos amistosos que realmente importam.

Formar uma seleção-base para os próximos três anos implica em regularidade nas convocações, nas escalações e na definição da forma de jogar, inclusive com variações. Ser simpático e eloqüente não basta. Agrada aos jornalistas-babões, mas eles serão os primeiros a mudar de lado, principalmente porque não enxergam além do jogo-a-jogo.

Mais do que testar, Mano Menezes transmite a impressão de que resolveu ignorar a si mesmo. Ignorou o discurso de boas-vindas. Jogadores entram na lista, participam de um jogo ou dois, ganham contratos no exterior e desaparecem das primeiras páginas. O treinador montou duas equipes para atender aos confrontos que enchem os cofres, mas não dão consistência ao time.

O Brasil só tem mais duas competições até a Copa do Mundo. Uma delas, os Jogos Olímpicos, soluciona parte do problema, o da molecada que precisa de estrada. A equação é mesclar duas gerações, que normalmente provoca a construção de uma equipe. Driblar a entressafra ou ressuscitar velhos personagens são os muros à frente. Mano Menezes poderá escalá-los?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O direito de Mario Fernandes

O lateral-direito do Grêmio, Mario Fernandes, cometeu um crime, passível de prisão perpétua. Passível porque a amnésia coletiva, somada ao cinismo que permeia o futebol, pode garantir o perdão e reverter a pena daqui a meses, ainda nesta temporada.

Mario Fernandes teria rejeitado a seleção brasileira, segundo o discurso ufanista da imprensa amiga da CBF. O jogador alegou problemas pessoais para não participar do amistoso caça-níqueis contra a Argentina. Problemas pessoais é argumento vago, claro. Mas ele tem o direito de ser evasivo.



O jogador também tem o direito de se recusar a atuar pela seleção brasileira. Ou rejeitar uma convocação. Nada mais hipócrita do que a ideia de que a seleção representa uma instituição sagrada. A seleção se prostituiu há anos. Virou balcão de negócios. O craque da semana é convocado e se transforma em expatriado na semana seguinte; e página virada, na convocação posterior. A lista de Mano Menezes está repleta de nomes assim.

Mario Fernandes foi acusado de antipatriótico. O cinismo, aliado ao simplismo do politicamente correto, se apressou em julgá-lo. O patriotismo brasileiro é único, mas também fragilizado. Resume-se aos esportes, numa demonstração esquizofrênica, que se manifesta pelo ódio e repulsa quando o primeiro lugar não é conquistado, embora não houvesse chances de vitória.

O patriotismo abre exceção quando se trata de artistas, mas prevalece o clima de competição. Patriotismo no Oscar de filme estrangeiro ou em prêmios musicais. Um ator que tenta carreira lá fora tem que começar por cima. Caso contrário, é visto como alguém que passou ridículo e fracassou.

O patriotismo que nos reúne no boteco para torcer pelo Brasil em Copa do Mundo se esvazia quando envolve política, história ou valores culturais. Aí transitamos da indiferença à valorização dos importados. A grama do vizinho é sempre mais verde.



Mario Fernandes foi comparado a outros “desertores”. Leandro, também lateral-direito, largou a seleção em solidariedade à Renato Gaúcho, cortado por Telê Santana às vésperas da Copa de 1986. Leandro chegou a ser acusado de ter um caso amoroso com o atacante. Dez anos depois, Arílson, então atacante do Grêmio, escapou da seleção em tempos de Zagallo. Nunca mais foi chamado, assim como Leandro.

Mario Fernandes sofreu uma patrulha nociva, em contraponto às festividades da torcida paraense com Neymar e Ronaldinho Gaúcho. Nas entrelinhas, o vilão que merece o ostracismo, alvo de um maniqueísmo em que os que estão lá seriam como pilotos-kamikazes, dispostos a morrer por uma causa. Os contratos milionários e a vida de rock star desmentem qualquer analogia rasteira com a guerra.

O lateral-direito não está condenado à morte. Passará pelo purgatório do espetáculo, mas contará com o esquecimento alheio. Uma convocação, uma boa partida basta como remédio para a superficialidade.



O lateral-esquerdo, Marcelo, do Real Madrid, é exemplo de como o cinismo sobrevive. Até hoje, a história do e-mail que vazou para a comissão técnica da CBF está mal contada. O fato é que, depois de alguns meses, Marcelo foi reconvocado por Mano Menezes e segue como titular.

Se Mario Fernandes não for chamado, o problema não foi a falta de patriotismo. Ele estará fora por causa da concorrência. Por hora, reinam Maicon e Daniel Alves. O lateral do Grêmio está apenas no começo. O resto é má fé.


Obs.: Este texto foi sugerido pelo estudante de Jornalismo Gustavo Pereira. Agradeço pela ideia!

domingo, 2 de outubro de 2011

O aniversário

Escrever sobre aniversários, ainda mais quando o motivo é o seu, representa o cúmulo da obviedade. Mas aí reside a primeira particularidade da data: em aniversários, você recebe uma espécie de carta de alforria, que te permite ser mais sincero do que o habitual e tomar certas atitudes. Atitudes que, se magoam, ganham perdão. A emoção do dia serve de desconto na nota fiscal, principalmente se não se faz o esperado, se não há exaltação ou euforia desmedida.

Se as ações beiram a vergonha ou ultrapassam a fronteira entre o bom senso e o ridículo, serão lembradas em tom de brincadeira, como conseqüência do vácuo espaço-tempo que se abriu diante do aniversariante. Ele não estava no domínio de suas faculdades mentais, como um surto temporário, inócuo e inofensivo.

Escrever sobre seu próprio aniversário tem, inclusive, uma justificativa técnica, tão formal quanto fraudulenta. A crônica rasteja entre a sensibilidade da percepção das entrelinhas e a redundância dos grandes temas. O cronista discorre sobre os mesmos temas e, no fundo, fala sobre si mesmo, o que vê e o que o cerca. Este texto é mero ato de coerência.

Mas olhar para o próprio aniversário é, acima de tudo, fugir das promessas. A superstição ordena que se corte o bolo e faça pedidos. Mais uma promessa do que uma solicitação. Prometer mudanças nesta data é o primeiro passo para esquecê-las no dia seguinte.

Aniversário e segunda-feira são irmãos gêmeos. Por coincidência, meu aniversário caiu no domingo, o que fortalece o quadro de amnésia. E prometer sob a coerção dos parabéns é apostar na prevalência da inércia. Até porque o pedido ocorre em silêncio, o que te isenta de cobranças e abre a porta para mentiras que atendem a audiência.

Olhar para o próprio aniversário é enxergar pelo retrovisor. De certa forma, fazemos um balanço daquele momento, daquele cenário. Não é exatamente como fechar a loja depois das festas de final de ano. É uma necessidade – pelo menos para mim – de refletir sobre os sentimentos e emoções que permearam os últimos tempos, sem prazos engessados. Impossível medir se os sentimentos brotaram e me machucaram há uma semana, um mês ou há duas horas.

Como sentimentos e emoções afetam outras pessoas, aniversário é pensar sobre elas, sobre como lapidar uma relação afetiva ou se uma sucessão de fatos implica em afastamento ou em distância segura. O contrário também merece diagnóstico: por que falhamos? Por que fomos negligentes? Por que fomos duros demais ou afetivos de menos?

Entendo o aniversário como uma pausa introspectiva. Não sei se é a idade, que traz consigo alguma rabugice, mas a cada ano me vicio mais em exercitar a solidão neste dia. Sempre há alguma festinha e seria grosseiro rejeitá-la, mas tais reuniões me soam protocolares. Uma maneira de agradar a quem demonstra amor por mim do que a exigência de suntuosos espetáculos individuais.

O aniversário é o intervalo da faxina interna. Neste ano, não consegui – por responsabilidade própria – repetir um ritual que simboliza minha limpeza interior. Os dois objetos, uma cadeira de praia e um livro, mais a própria areia compõem o bolo de aniversário ideal. O instante de egoísmo, como se o mar e a areia me pertencessem exclusivamente. Gente em volta, mas vazio absoluto para rechear a si mesmo outra vez.

Como contradição, comemorar aniversário é ter ciência de que brota o desejo de ter o outro a seu lado. Ouvir os parabéns, ganhar um abraço e um beijo superam qualquer presente e seu valor monetário. Não confunda com a festinha de ocasião ou com as mensagens de Facebook, muitas delas frias como as convenções sociais.

Fazer aniversário está além da contagem de tempo. Respeito quem esconde a idade, paralisa os relógios ou simplesmente evita tocar no assunto. Sempre me pareceu algo secundário, inclusive por ser uma derrota de goleada. É o uso indevido da matemática, pois o resultado adverso mascara contas abstratas, impossíveis de serem feitas na nossa própria história e, essencialmente, na relação com os outros personagens importantes para o enredo que construímos, em contextos imprevisíveis.

Aniversário é a parada desesperada em um posto sem-vergonha depois de horas de caminhada na estrada. É valorizar o que se tem, sem cobiçar o alheio. E, neste caso, o que se possui não pode ser comprado em shopping, supermercado ou na quitanda da esquina. Sequer está à venda. Para localizá-lo na prateleira, só olhando para a estrada percorrida e para as cicatrizes da viagem.