quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Procura-se uma parede

O Corinthians precisa de um grande goleiro. Não é de um goleiro de bom nível, mas de um profissional que se aproxime da perfeição, que flerte com o incontestável. Julio Cesar amargou anos na reserva e soube aproveitar a lacuna deixada por Felipe, hoje no Flamengo. Rafael Santos, por exemplo, falhou seguidas vezes e acabou no Avaí, time que enviou Renan, incinerado após três partidas e três escorregões.

Mais de 10 goleiros passaram pelo Corinthians desde a saída de Dida. Pouco afeito ao marketing, nada voador, gelado embaixo das traves, Dida foi o último grande goleiro a defender a camisa 1, no Parque São Jorge. A passagem durou dois anos, e Dida levou os campeonatos brasileiro e mundial.



Antes dele, o único a segurar a responsabilidade foi Ronaldo, tão seguro quanto tenso na relação com zagueiros e atacantes. Permaneceu uma década à frente do cargo de confiança. Talvez o temperamento tenha brecado sua trajetória rumo à seleção brasileira. Ronaldo liderava, junto com Neto, o elenco mediano que faturou o primeiro Brasileirão, em 1990.


Depois de Dida, uma sucessão de profissionais corretos, mas nenhum capaz de gerar medo nos adversários. Todos suscetíveis à irregularidade, a maioria adepta do modelo contemporâneo, espalhafatosos para as fotos, instáveis para os zagueiros, rebatedores cotidianos.

Felipe, é verdade, agüentou o velório, o enterro e a ressurreição. Foi ao inferno da segunda divisão e retornou à elite com o Corinthians. Mas vivia de birra com dirigentes e torcedores. Nunca conseguiu ser popular, sequer se aproximar da unanimidade. E encarna o modelo.



O clube optou por revelações da base, como Rubinho (irmão de Zé Elias) e Marcelo; por reforços de clubes grandes, como Nei (ex-Fluminense), por ídolos de outras equipes, como Fabio Costa (Santos) e Silvio Luiz (São Caetano); revelações do interior, como Maurício; veteranos como Jean (ex-Bahia) e incógnitas, como Doni, hoje no Liverpool, da Inglaterra.

Nenhum deles deixou saudades. Tive que fazer uma pesquisa e contar com a ajuda de colegas para chegar em alguns destes nomes. Todos acabaram destinados à vala comum da história do clube, com importância secundária.

O problema se agrava quando o Corinthians olha para os vizinhos. O Palmeiras é uma escola de goleiros. De Valdir Joaquim de Moraes a Leão. De Veloso a Zetti. Marcos, às vésperas da aposentadoria, já tem dois sucessores, Deola e Bruno, sem contar a formação de goleiros de ótimo nível como Diego Cavalieri, hoje no Fluminense.

O São Paulo mantém Rogério Ceni, que não gera a menor preocupação com o posto. Em raros casos de ausência do titular, Denis tem cumprido o papel à altura. O Santos revelou Rafael, depois da lacuna gerada pelo fim da era Fabio Costa. Rafael tem chances reais de ir às Olimpíadas, no próximo ano. Quem acompanha o dia-a-dia do Santos garante que o reserva Vladmir tem a mesma competência.

Julio Cesar subiu de degrau no início do Campeonato Brasileiro. Acompanhou o desempenho do time, que havia disparado na liderança. Também enfrentava a concorrência de Renan. Só que se tornou irregular nas últimas partidas, assim como o restante da defesa.



A falha no último jogo, na derrota para o Fluminense, não confirma ou ameniza a ideia de que o Corinthians precisa de um profissional de ponta. Os riscos são mais antigos. O titular atual derrapou em confrontos decisivos, como a semifinal contra o Santos, pelo Campeonato Paulista.

Falta a ele ainda a liderança, tanto para organizar a defesa, como para dizer aos atacantes quem manda dentro da grande área. Sem impor a Julio Cesar o peso da comparação, mas Rodolfo Rodriguez – por exemplo – chegou a expulsar centroavantes do seu território, que se transformaram em meias tamanho o pavor do uruguaio, na Vila Belmiro.

Grandes goleiros falham. Engolem frangos vergonhosos. O que os diferencia dos goleiros normais é que escolhem a dedo as partidas em que vão afundar o time. Assim como também decidem com critério cirúrgico quando funcionarão como paredes contra os adversários. Não é o caso, infelizmente, de quem veste a camisa 1 do Corinthians hoje.

Um comentário:

Bruno Rios disse...

Comentário perfeito. É impressionante a má fase do Corinthians e o azar que o clube tem quando o assunto é goleiro. Não sei se o trabalho não é bem feito na base, pq na equipe principal fica claro que as escolhas são afoitas e erradas. Ou quem esperaria que o Renan, que no ano passado foi parar na reserva do Avaí, pudesse resolver o problema? Acho que o Julio César pode ser o titular. Ele falhou, mas já salvou o Corinthians em muitas oportunidades também. Falta apenas um título para consagrá-lo.