quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Os ensinamentos de Rogério Ceni

Os 21 anos de carreira de Rogério Ceni no São Paulo, traduzidos em mil jogos e mais de cem gols, não indicam apenas recordes. Mais do que simplificá-lo em números, o goleiro é um modelo de jogador que, infelizmente, existe como exceção e que, por isso, deve nos servir de referência. É preciso aproveitar o que Ceni representa para entendermos o que se pode aprender com ele.

A lição mais óbvia é a longevidade. Goleiros, pelas características peculiares do cargo, duram mais tempo. Mas a sobrevivência em equipes de ponta é para poucos, inclusive porque a idade reduz a agilidade e os reflexos. Rogério Ceni percebeu as dores do tempo e as trocou por senso de colocação e maior capacidade de organizar a defesa e, assim, se expor menos aos atacantes. Faz menos defesas por jogo, e as torna mais decisivas. 


O segundo ensinamento diz respeito ao amor por um clube. Ceni e Marcos, do Palmeiras, são exemplos raros de relação afetiva com uma camisa. A cada temporada, times são desfigurados e recompostos, muitas vezes, por jogadores que beijam distintivos e fazem juras de amor da mesma forma que o fazem por marias chuteiras nas boates.

Rogério Ceni reinventou (e ampliou) o papel dos goleiros. Depois que a Fifa proibiu que o goleiro pegasse com as mãos bolas recuadas por atletas do mesmo time, a falta de habilidade de quem representa o anti-futebol ficou escandalosa. Muitos erros grosseiros passaram a preencher programas esportivos. Até um passe lateral, para certos colegas de Ceni, parece parto prematuro.

O goleiro do São Paulo não somente se adaptou à nova função como se transformou em líbero, que o permite reduzir a distância entre ele e os zagueiros, como também ajeitar a defesa e acelerar a saída de bola, sem chutões para frente como se apostasse na loteria. 



Outro aspecto técnico é que Rogério Ceni representa o final de uma linhagem de goleiros. Goleiros treinados para segurar a bola e interromper de vez uma jogada adversária. Goleiros com senso apurado de posicionamento, que utilizam outras partes do corpo para executar uma defesa. Ceni e Marcos, por exemplo, estão sendo substituídos por goleiros voadores que vivem de rebatidas e que se esparramam no chão, ainda que a bola esteja na direção deles. Ou que voam sem necessidade, sabendo que não têm chances de executar a defesa.

Rogério Ceni, assim como outros goleiros de hoje, sabe que vestir a tarja de capitão não tem a função exclusiva de reclamar com o juiz e ter chiliques com os companheiros de time. O goleiro, privilegiado – neste caso – por participar menos do jogo, simboliza o técnico dentro do campo. É um porta-voz, capaz – eventualmente – de alterar o desenho tático de um time, fortalecido pela proximidade e pelo diálogo horizontal com os colegas. É mais efetivo do que muitos treinadores que ficam sem fôlego de tanto berrar à beira do gramado.

Os desafetos consideram Ceni falastrão. Prefiro vê-lo como bem articulado. São poucos os jogadores, hoje, capazes de romper o pacto previsível da obviedade de perguntas e respostas nas entrevistas. Aqueles que o criticam são muitas vezes os mesmos que se entediam com conversas sem surpresas e declarações insípidas do mundo do futebol. Não é preciso concordar com as palavras dele, mas ao menos teremos certeza de que algo consistente será dito pelo goleiro do São Paulo.

A capacidade de falar bem nos conduz a outra característica importante do goleiro. Ceni consegue entender, com boa dose de clareza, o contexto do futebol globalizado. A maioria dos colegas de profissão dele é incapaz de descrever o próprio papel no cenário do esporte. Não conhecem o mercado e se tornam presas fáceis para empresários e demais aproveitadores, que estragam carreiras promissoras, com escolhas profissionais ruins, em troca das comissões de compra e venda de atletas. 


A compreensão do universo do futebol inclui também dispensar as falsas premissas do show business. O goleiro se esquiva da rotina de muitos jogadores-celebridades, pois tem consciência de que as tentações são proporcionais aos pecados. Neymar, por exemplo, personifica o jogador cuja vida é um reality show. Ceni nos ensina como ser atleta de ponta e preservar a privacidade pessoal e de seus familiares. Lição dada pelo seu antecessor, o ex-goleiro Zetti.

Associar Rogério Ceni a um excelente cobrador de faltas é reduzi-lo como profissional de futebol e, inclusive, desqualificá-lo tecnicamente como goleiro. Enxergá-lo como goleiro de excelente nível é um elogio, mas insuficiente como senso de justiça. 

Rogério Ceni é fora de série porque, além da capacidade técnica, colaborou para colocar os goleiros em outro patamar, que engloba novas prerrogativas e exige que sejam um tipo de jogador mais participativo e influente dentro e fora do jogo em si. Por isso, me esforço para esquecer as estatísticas e admirá-lo como um novo goleiro; pena que mais próximo da extinção do que da clonagem.

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