sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O dia em que recebi cartão vermelho (e não vi)

Resolvi ser jornalista por causa do futebol. E não me arrependo de ter me afastado dele. Passei 16 anos sem escrever sobre este esporte, parte por me contentar com os papéis de torcedor e de peladeiro de final de semana, parte por não querer me envolver com a previsibilidade que marca a cobertura diária nos clubes.

No ano retrasado, por estímulo de um amigo escritor, comecei a escrever sobre o assunto, coerente com as perspectivas que me estimulam no trabalho jornalístico. Tento – e eventualmente fracasso – olhar para o jogo além da opinião acelerada, quase que confeccionada à beira do campo.

O jogo pode ser visto além dos resultados imediatos, da perspectiva pontual que forma ídolos e vilões a cada final de semana. Creio na possibilidade de sentir o futebol com a poesia que o tortura nos detalhes, que o mantém vivo pela gangorra que sustenta personagens paradoxais e, exatamente por isso, tão apaixonantes.
No mundo contaminado pelo excesso de dados, escrever sobre futebol implica, para mim, observar entrelinhas e buscar ângulos que saiam do lugar-comum da informação crua ou do sensacionalismo que impregna o espetáculo. Opinar significa assumir riscos e expor certa dose de paixão consciente, que apimenta o caldeirão de divagações.

Observar o futebol e pensar sobre ele me abriu, por outro lado, uma porta dolorosa. O futebol me ajudou a compreender como a paixão pode encobrir sentimentos nada nobres. A paixão como doença provoca cegueira e nos deixa sem olfato para sentir a podridão que cerca o esporte. Torcedores se tornam presas fáceis para as sanguessugas e os falsos profetas, que fazem juras eternas de amor, tão fugazes quanto o falso craque que nasce a cada rodada de domingo.

A paixão pelo futebol mascara – e aí reside o problema mais grave – a perversidade humana. Torcer por um time está bem distante da intolerância de desejar o extermínio do outro. Como se fosse possível minimizar que parte da história de um clube só se sustenta com a trajetória dos principais rivais. O que seria do Flamengo sem o Fluminense? Do Corinthians sem o Palmeiras? Nada mais angustiante do que esperar e vivenciar as horas que antecedem um clássico, mesmo que a partida valha pouco. Sempre vale muito. Ressuscita ou enterra técnicos e jogadores.

A paixão cega – mas não tão vendada assim – esconde a violência impregnada naqueles que utilizam o esporte e seus atores para extravasar preconceitos e desejos agressivos. A intolerância conduz ao autoritarismo, que se escora em grupos para promover crueldade, usando como desculpa o amor pelo esporte.

Massacrar o outro – seja psicológica ou fisicamente – indica o quanto o futebol serve de válvula de escape para quem não consegue exercitar o nível mínimo de civilidade e traduz a selvageria na surdez diante de uma palavra diferente ou de outro tipo de amor. O diferente traz em si tamanha ofensividade que ele precisa ser extinto, precisa sair da frente, ainda que resulte no vazio da ausência de alguém para se postar como contraponto.

A intolerância em torno do futebol exige devoção absoluta. Este tipo de gente age de maneira tóxica até quando é enganado descaradamente por dirigentes, jogadores e imprensa. Prefere perpetuar o estelionatário do que questionar o alvo de sua paixão. O fanatismo que conduz ao auto-engano. E ser fanático não significa ser otário.

O fanatismo também se traduz na impossibilidade de reconhecer méritos no adversário e em elogiar ídolos de outras equipes, que contribuem inclusive para a manutenção da rivalidade, independentemente do resultado. Vencer o ídolo do outro valoriza a vitória assim como reforça a formação dos nossos próprios ícones.

Resolvi pensar com serenidade sobre futebol e intolerância porque, recentemente, fui adicionado a um grupo de torcedores do Corinthians, ato de generosidade de um amigo. Ele havia lido textos meus sobre futebol, parte deles sobre o Corinthians, e achou por bem me colocar em contato com outros torcedores. Um dos textos era uma declaração de amor ao clube.

Fui testemunha de vários casos de jornalistas que criaram mecanismos de mediação em seus blogs por causa da agressividade de torcedores, incapazes de separar a análise da arquibancada. E acabei envolvido em experiência semelhante, embora desconfiasse que aconteceria cedo ou tarde, fato alertado pelo amigo-escritor.

O primeiro conflito se deu quando questionei o time atual. Foi como ter dilapidado um dogma. Quebrei a imagem de um santo. Enfiei a espada no próprio São Jorge. A ordem é vomitar a euforia pela desqualificação do autor, sem avaliar os argumentos dele, enquanto se encobre as feridas. Mal sabia que me comportava como um herege, passível de julgamento inquisitório.

A confirmação do meu comportamento de blasfêmia se deu quando resolvi escrever sobre Rogério Ceni (veja texto logo abaixo neste blog). Qualquer sujeito de bom senso consegue perceber a importância do goleiro do São Paulo para o futebol brasileiro, seja pela qualidade técnica, seja pela liderança.

Sabia que soaria como provocação dividir minhas impressões do ídolo alheio com torcedores corintianos, mas tinha a ingênua esperança de que torcedores poderiam ser racionais. O texto provocou reações ofensivas contra o adversário tricolor. Não recebi ataques diretos, mas senti a intolerância silenciosa. Sem aviso, acabei expulso do grupo na rede social. Notei que havia um cartão vermelho diante de mim quando não conseguia mais ver as reações dos “coleguinhas” do Timão.

A despedida sem solenidade me fez refletir sobre porque misturamos e confundimos a paixão pelo futebol com a violência diante do outro. Minha história, lógico, pouco representa perante as batalhas campais em torno de estádios ou as humilhações contra jogadores que pensam ou agem fora do padrão.

O futebol, na prática, funciona como catalisador de vários lados que nos marcam. Ele é o que somos (ou desejamos ser). Espelho cultural que, infelizmente, absorve como falso responsável as fraquezas de quem mal consegue olhar para além de si próprio. Quanto mais ouvir quem veste camisas de outras cores. Ou a mesma camisa, mas escolheu olhar para o lado.


3 comentários:

Beth Soares disse...

Parabéns pelo texto. Mandou o seu recado com sensatez, sem precisar usar a mesma agressividade com que foi tratado.
Foi triste observar você vivenciando essa experiência, mas ao mesmo tempo, belíssimo ver a forma como se manifestou. Aprendo muito com você. Sempre. E é tão bom!
Beijo grande!

José Roberto Torero disse...

Texto bem feito e bem-feito por crer na razão dos sentimentais.

André Rittes disse...

Belo texto. É impressionante mesmo como o sujeito mais inteligente, culto e educado do mundo vira uma besta quando veste a camisa de torcedor. Seja de que clube for...
Beijos