sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A morte do abacateiro

Culpei, de início, o mau tempo. Dias chuvosos costumam mantê-las em casa. Mas elas também estavam ausentes quando o sol castigava. Pensei que o silêncio fosse conseqüência dos dias de escola, com agenda digna dos executivos. Mas o vazio persistia no final de semana, quando as crianças deveriam correr por ali, na avenida Pedro Lessa, em Santos.

As crianças desapareceram. O sumiço se deu por conta do ponto de encontro, maculado pelos adultos. Adultos armados de moto-serras e jalecos de serviço público. O abacateiro, referência para brincadeiras como esconde-esconde, de casa para a escola imaginária e de porto seguro para a volta das viagens fantásticas, morreu. De morte simbólica. De vida podada.

A árvore, tão antiga quanto às casas da quadra, resolveu interferir no desmando dos homens. Seus braços, articulados na desordem milimétrica da natureza, insistiam em tocar a rede de energia elétrica. A solução previsível foi a amputação. Até o toco. Até se tornar impossível para as escaladas infantis.

Escrevi sobre o abacateiro neste espaço há seis meses. A árvore havia transformado a rotina de uma dezena de crianças, acostumadas à prisão domiciliar e à inércia permanente dos jogos eletrônicos.

A liberdade, tão ilusória quanto permanente, parecia um indulto de Carnaval. As crianças exalavam infância, enquanto suas roupas encardidas de terra e poeira serviam de termômetro para o dia de exaustão voluntária. A queixa de muitas mães vinha acompanhada de um sorriso quando seus filhos desmaiavam mais cedo, sem interrupções, sem enrolações para embarcar no sono. A árvore carregava, de certa forma, a culpa por mudar aquela caminhada metódica de férias.

Hoje, o abacateiro se tornou mais um espécime na multidão verde, em fila na avenida. Sem braços, a árvore não gera a apreensão de quem precisa abrir mão de seu filho para o mundo, ainda que seja na porta de casa, à beira do asfalto. Ficou mais fácil justificar as chaves, as trancas, as grades, o medo do desconhecido, que anda travestido de segurança e precaução.

O abacateiro foi assassinado. Simbolicamente. Perdeu seu papel no enredo daquelas crianças, incapazes de perceber que suas vidas foram sacudidas com tão pouco. Infelizmente, a ingenuidade as fez improvisar suas brincadeiras em garagens, atrás de portões, cercadas por quatro paredes. Não se protesta, nessa idade, por batalhas perdidas. Muda-se a zona de combate.

A turma se dividiu. Cada prédio com sua gangue, reduzida a quase exércitos de um menino só. Muitas crianças se distanciaram e, quando se encontram, ficam tomadas pela vergonha como se estivessem diante de quem acabam de conhecer. O muito prazer do sorriso acanhado, que apagou os apelidos, as histórias e os personagens dentro de um script não-escrito e aberto às sugestões de qualquer um. E com uma árvore de cenário único!

A morte do abacateiro retirou da avenida o improvável. Entregou de volta à Pedro Lessa o cotidiano de via comercial, onde a velocidade cai ao ponto morto depois das 18 horas. As crianças desapareceram. O barulho de pés em movimento, os gritos que permeiam as aventuras sumiram. O som é exclusivo dos carros de passagem. Como exceção, as gargalhadas embriagadas diante dos dominós que sacodem o tabuleiro, em frente ao boteco na outra calçada.

O abacateiro permanece como testemunha, refém da própria inércia do mundo moderno. Ele sabe que, com algum esforço, as crianças podem ser encontradas. Basta que a árvore se lembre da infância, outra vez encarcerada em um pavilhão de brinquedos que ditam brincadeiras, e não o contrário.

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