segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A delicadeza



(...) A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado - daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. 


Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama - pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força é um gozo ao qual poucos renunciam. 


Além disso, o homem é capaz de indiferença, esta forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele - por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade -, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo. 


As palavras acima foram escritas pela psicanalista MARIA RITA KEHL. São o início de Delicadeza, texto publicado no livro A CONDIÇÃO HUMANA, organizado por Adauto Novaes. É um olhar tão profundo quanto rico sobre o ser humano.  

Um comentário:

Carlos Norberto de Souza disse...

Só por este trecho dá pra saber que as reflexões dela não são frutos apenas de seu conhecimento acumulado, mas principalmente de uma profunda sabedoria.

Muito bom!