sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Bom dia, por favor

O amor pelas palavras me transformou em um caçador. Uma missão que beira a doença, ainda que reconheça ser ilusão procurar no outro o que pode estar em mim. Passei a caçar as expressões que antes soavam como triviais, até mecânicas no trato diário da vida ordinária.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Por favor. Obrigado. Desculpe-me. Palavras como relíquias em feira de antiguidades. Vocabulário que, em breve, poderá interessar a arqueólogos e historiadores. Termos que beiram a pieguice na perspectiva de muita gente.

O elevador serve como termômetro. O endereço inevitável do encontro. Segundos de músculos tensos para quem está acompanhado, uma prece para vivenciar a solidão por alguns andares. Entro em um elevador e mal acontece o olhar de retorno. De muitas bocas, ouço vozes que mais se parecem ruídos. Grunhidos que representam a tentativa de cumprir uma convenção social.

Vivemos em um mundo onde se comunicar é uma das ações mais rápidas e funcionais. Andamos pendurados com celulares nas orelhas. Dedos que, como imãs, correm com neurose pelos teclados. A tecnologia nos permitiu acreditar na redução do tempo e o espaço a zero. Somos obcecados pelo instantâneo, mas também incompetentes para sobreviver sem o imediato.

O medo do humano parece ter se instalado nas relações cotidianas. O comportamento lembra crianças pequenas em ambientes novos. Presas no silêncio, agarradas na vergonha da exposição diante do desconhecido. O problema talvez esteja na redução do contato olho no olho, enquanto nos tornamos tagarelas virtuais.

Responsabilizar a tecnologia é transferir a culpa, sem deixá-la para trás ou exorcizá-la. Mascaramos o comportamento de quem encena civilidade. Cumprimentar alguém está além do exercício da cortesia ou da obrigação traduzida em sons inaudíveis no elevador, na porta do prédio ou na padaria.

Cobramos educação alheia. Reclamamos de brutalidade nas relações do dia-a-dia. Cínicos somos porque pretendemos uma posição que tangencia os conflitos, como se não fizéssemos parte da ciranda tóxica.

Quando a posição do sujeito ganha o sentido de status, cumprimentar é selecionar. Onde trabalho, muitos funcionários e alunos desenvolveram uma das habilidades do Superman. A visão de raio-X os permite enxergar através de outros empregados. O uniforme catalisa o poder de tornar outra pessoa invisível. O diálogo existe somente quando a necessidade aperta.

A posição social também define se haverá retratação ou reconhecimento do erro. Tenho um amigo, que apresenta um comportamento particular: jamais se desculpou na vida. Não que bata no peito com orgulho, mas os anos de convivência dão a impressão de que ele não aprendeu a palavra em português.

O ciclo se fecha com a raridade do obrigado. Fazer um favor, atender a um pedido ou cumprir uma obrigação não diferenciam o agradecimento. A gratidão se perde, no entanto, quando prevalece a crença de que todos os cenários resultam em tarefas cumpridas. Um exercício de arrogância para quem deveria agradecer, mas segue afogado na empáfia de supor que pronunciar obrigado pode ser sinal de rebaixamento.

Adoraria defender a ideia de que sofro de surdez ou careço de interpretação adequada. Ouvindo ou não, prefiro insistir nas “palavrinhas mágicas”, como diziam meus pais, mesmo que caiam no vazio da ausência da resposta. O constrangimento fica a cargo de quem decidiu emudecer.

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