sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Bom dia, por favor

O amor pelas palavras me transformou em um caçador. Uma missão que beira a doença, ainda que reconheça ser ilusão procurar no outro o que pode estar em mim. Passei a caçar as expressões que antes soavam como triviais, até mecânicas no trato diário da vida ordinária.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Por favor. Obrigado. Desculpe-me. Palavras como relíquias em feira de antiguidades. Vocabulário que, em breve, poderá interessar a arqueólogos e historiadores. Termos que beiram a pieguice na perspectiva de muita gente.

O elevador serve como termômetro. O endereço inevitável do encontro. Segundos de músculos tensos para quem está acompanhado, uma prece para vivenciar a solidão por alguns andares. Entro em um elevador e mal acontece o olhar de retorno. De muitas bocas, ouço vozes que mais se parecem ruídos. Grunhidos que representam a tentativa de cumprir uma convenção social.

Vivemos em um mundo onde se comunicar é uma das ações mais rápidas e funcionais. Andamos pendurados com celulares nas orelhas. Dedos que, como imãs, correm com neurose pelos teclados. A tecnologia nos permitiu acreditar na redução do tempo e o espaço a zero. Somos obcecados pelo instantâneo, mas também incompetentes para sobreviver sem o imediato.

O medo do humano parece ter se instalado nas relações cotidianas. O comportamento lembra crianças pequenas em ambientes novos. Presas no silêncio, agarradas na vergonha da exposição diante do desconhecido. O problema talvez esteja na redução do contato olho no olho, enquanto nos tornamos tagarelas virtuais.

Responsabilizar a tecnologia é transferir a culpa, sem deixá-la para trás ou exorcizá-la. Mascaramos o comportamento de quem encena civilidade. Cumprimentar alguém está além do exercício da cortesia ou da obrigação traduzida em sons inaudíveis no elevador, na porta do prédio ou na padaria.

Cobramos educação alheia. Reclamamos de brutalidade nas relações do dia-a-dia. Cínicos somos porque pretendemos uma posição que tangencia os conflitos, como se não fizéssemos parte da ciranda tóxica.

Quando a posição do sujeito ganha o sentido de status, cumprimentar é selecionar. Onde trabalho, muitos funcionários e alunos desenvolveram uma das habilidades do Superman. A visão de raio-X os permite enxergar através de outros empregados. O uniforme catalisa o poder de tornar outra pessoa invisível. O diálogo existe somente quando a necessidade aperta.

A posição social também define se haverá retratação ou reconhecimento do erro. Tenho um amigo, que apresenta um comportamento particular: jamais se desculpou na vida. Não que bata no peito com orgulho, mas os anos de convivência dão a impressão de que ele não aprendeu a palavra em português.

O ciclo se fecha com a raridade do obrigado. Fazer um favor, atender a um pedido ou cumprir uma obrigação não diferenciam o agradecimento. A gratidão se perde, no entanto, quando prevalece a crença de que todos os cenários resultam em tarefas cumpridas. Um exercício de arrogância para quem deveria agradecer, mas segue afogado na empáfia de supor que pronunciar obrigado pode ser sinal de rebaixamento.

Adoraria defender a ideia de que sofro de surdez ou careço de interpretação adequada. Ouvindo ou não, prefiro insistir nas “palavrinhas mágicas”, como diziam meus pais, mesmo que caiam no vazio da ausência da resposta. O constrangimento fica a cargo de quem decidiu emudecer.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O estelionato dos saltimbancos


Dois gols e uma vitória para a explosão de clichês. Do resgate do futebol brasileiro ao desempenho que convenceu a torcida. Nada mais melancólico do que esconder a esterilidade com euforia. A vitória do Brasil contra a Argentina, em Belém, é o laço de fita vermelha que embala um crime. Que mascara a feiúra de quem anda remendado por curativos.

O jogo, com a conivência tradicional dos ufanistas de microfone, é uma sucessão de fraudes que compõe um golpe contra torcedores e até jogadores, crentes que podem disputar as próximas competições oficiais. Entre elas, a Copa do Mundo de 2014.

A partida, na prática, não valeu nada. Ali, não estavam as seleções principais. Sem ilusões, as duas equipes eram um apanhado de atletas, a maioria de segunda linha, reunidos para aqueles treinos de reconhecimento do gramado, que enganam os que gostam. Atuam em países com campeonatos de nível inferior. As exceções, como Lucas, Neymar e até Ronaldinho Gaúcho, não criaram novas expectativas. O jogo não mudará o que se pensa ou o que se espera deles.

A conquista de um título é cinismo para amenizar o caráter caça-níqueis da disputa. O maior sintoma disso foi a confraternização dos jogadores brasileiros no centro do campo depois do jogo. Confraternização, não comemoração.

Os argentinos, recheados de atletas que jogam por aqui e nunca são convocados, foram cavalheiros e não apelaram para catimba ou violência. Parecia um amistoso daqueles que encerra a carreira de alguém. Time do fulano contra os amigos de beltrano.

A vitória contra o vizinho não serve para dar sequência à proposta (parece mais promessa) de renovação da equipe brasileira. Também não atende às necessidades imediatas de compor um time-base. E não auxilia na definição do elenco que disputará as Olimpíadas de Londres, em 2012. A sensatez indica que 90% da seleção está na Europa, em grandes clubes. Ou até de porte médio. Dois ou três atletas que defendem times brasileiros podem brigar pela titularidade. Mais uns três para completar o banco de reservas.

Jogos assim deveriam ofender a inteligência de atletas que estão no país. A maioria dos que entraram em campo contra a Argentina não tem chances, em condições normais, de defender a seleção brasileira. Não chegarão à Copa das Confederações, por exemplo. As razões vão da técnica à idade avançada.

O técnico Mano Menezes, elogiado porque atende pedidos esquizofrênicos de parte da imprensa ou porque é simplesmente simpático, ganhou sobrevida por ter vencido a Argentina. Ainda que seja um rascunho do maior rival. Mesmo ignorando os maus resultados, que parece saudável, sofreremos de amnésia diante da ausência de regularidade tática e de coerência nas convocações?

Fora de campo, o pecado está na organização, ponto no qual prevalece a coerência. Para atender a interesses políticos, o amistoso aconteceu em um estádio que não abriga clubes da primeira divisão há tempos. O gramado se aproximava da várzea. Em algumas partes, lembrava solo lunar. Uma partida entre duas seleções, mesmo com elencos B, não merece um tapete rasgado e puído. Mais um ponto para os europeus, que tanto criticamos por despeito.

A seleção brasileira foi banalizada. Transformou-se em um grupo de saltimbancos, que troca de roupa e de atores pela instabilidade da profissão, mas se sustenta pelo show previsível, apresentado em qualquer espaço por uns trocados. E ainda acreditamos que enfrentar Costa Rica, o próximo adversário, mudará o estado de coisas.

Depois, os cínicos fazem cara de espanto quando o Brasil enfrenta Gana em um estádio para 25 mil pessoas, na Inglaterra. Foi-se o dia em que a seleção era a atração principal em carpetes por aqui ou do outro lado do oceano.
 

sábado, 24 de setembro de 2011

A arma contra vereadores

“Foz do Iguaçu quer mais viadutos. Não precisa de mais vereadores.” As duas frases compõem um dos 18 outdoors espalhados pela cidade paranaense. Foz do Iguaçu é uma das 20 cidades brasileiras onde tramitaram projetos de lei que aumentam o número de cadeiras no Legislativo. A mudança valeria a partir da próxima eleição, no ano que vem.

Em Foz e outros três municípios, os vereadores recuaram por medo das urnas. Em São José do Rio Preto (SP), houve protestos. Em Novo Hamburgo (RS) e Governador Valadares (MG), moradores juntaram assinaturas para anular o projeto.

Na Baixada Santista, dois exemplos distintos. Em São Vicente, os vereadores retiraram a proposta na última quinta-feira. A cidade seguirá com 15 representantes no Poder Legislativo. Os motivos ainda são nebulosos. São Vicente seguiu o caminho de Mongaguá, Itanhaém e Bertioga, que rejeitaram projetos semelhantes.


Do outro lado da ilha, os vereadores santistas aprovaram, em primeira discussão, o aumento de 17 para 21 cadeiras na Câmara Municipal. A vergonha reside no fato que a votação se deu em caráter simbólico. Ou seja: nenhum vereador teve a decência de declarar o voto em plenário. Santos se junta à Praia Grande, Cubatão, Guarujá e Peruíbe, que incharam suas Câmaras.

Os parlamentares apenas confirmaram o empurrão dado por deputados federais e senadores, no ano retrasado, quando foi aprovada emenda constitucional que permitia a criação de novas vagas. A decisão delegava aos municípios a tarefa de decidir se haveria ou não mudanças no número de cadeiras. A Constituição define apenas o limite máximo.

A jogada no Congresso Nacional permitiu de muitos vereadores movessem suas peças com tom de perversidade, apostando no corporativismo para se favorecerem, além de colegas suplentes com potencial de voto. Os vereadores, assim, nocautearam o Tribunal Superior Eleitoral, que determinara o corte de quase nove mil vagas em todo o país em 2004.

O que torna as quatro cidades diferentes de Santos, fora a reação popular, é que a resposta do eleitor teve como um dos alicerces a Internet, via redes sociais. É uma nova forma de praticar política, eventualmente conectada com entidades de classes, mas de costas para partidos e seus interesses.

O fenômeno se desenrola há meses, com uma série de protestos organizados via virtual. As causas são múltiplas. Da liberdade de expressão à descriminalização da maconha. Dos protestos contra o machismo e a violência doméstica à repulsa aos corruptos de Brasília. De pedidos pela saída de Ricardo Teixeira da CBF à construção de conjuntos habitacionais.

Em vez de grandes manifestações, marchas e caminhadas com um número menor de pessoas, mas com lutas específicas. A exceção é a Parada Gay que, embora em caráter festivo, não deixa de ser um evento político.


Não se sabe ao certo o que acordou o gigante. O que se percebe é o uso efetivo das redes sociais para a consciência coletiva. É claro que muitas das pessoas envolvidas seguem inertes nos teclados e se limitam a “curtir” ou repassar a mensagem. De certa forma, representa um avanço diante da despolitização cadavérica dos últimos anos. Repassar uma mensagem implica, ao menos, que o sujeito teve contato com ela e pôde refletir sobre o problema.

As redes sociais, como instrumento político, são uma arma contra os oportunistas de gravata e mandato. Por enquanto, um armamento leve, restrito a poucos campos de batalha, que torna primordial estabelecer mira cirúrgica para o próximo ano. Na Baixada Santista, os vereadores poderiam sentir que caminham com um ponto vermelho eleitoral na testa. A sensação de estar sob a mira do eleitor aumentaria os riscos para os anfitriões da farra.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A delicadeza



(...) A delicadeza não é causa de nossa humanidade, é efeito dela. Não é meio, é finalidade. O homem não é necessariamente delicado - daí a urgência de se preservar, na vida social, as condições para a vigência de alguma delicadeza. 


Erramos ao chamar os atos que nos repugnam de desumanos. O homem, não o animal, usa de violência contra seu semelhante. O homem inventou o prazer da crueldade: o animal só mata para sobreviver. O homem destrói o que ama - pessoas, coisas, lugares, lembranças. Se perguntarem a um homem por que razão ele se permitiu abusar de seu semelhante indefeso, ele dirá: eu fiz porque nada me impediu de fazer. O abuso da força é um gozo ao qual poucos renunciam. 


Além disso, o homem é capaz de indiferença, esta forma silenciosa e obscena de brutalidade. O homem atropela o que é mais frágil que ele - por pressa, avidez, sofreguidão, rivalidade -, sem perceber que com isso atropela também a si mesmo. 


As palavras acima foram escritas pela psicanalista MARIA RITA KEHL. São o início de Delicadeza, texto publicado no livro A CONDIÇÃO HUMANA, organizado por Adauto Novaes. É um olhar tão profundo quanto rico sobre o ser humano.  

sábado, 17 de setembro de 2011

Nós, os corruptos

A absolvição de Jaqueline Roriz escandalizou pela vitória da corrupção no Congresso Nacional. O desfecho desta história aumenta a pilha de sujeira que mancha a instituição e a torna mais impopular perante a opinião pública. Mas, desta vez, o contexto é outro: serviu de gatilho para protestos contra a postura dos políticos. Milhares de pessoas, em várias capitais brasileiras, marcharam pelo fim da corrupção. E pouco importa se muitas delas não sabem dos detalhes nos palácios do cerrado.

A reação funcionou como primeiro passo diante da ausência de limites dos engravatados de Brasília. As marchas não foram organizadas por partidos políticos. Brotaram nas redes sociais, fator bastante comum nos últimos meses, para as mais variadas causas. A maioria dos manifestantes creditou a corrupção como um comportamento exclusivo de políticos. Nada fora do normal, porque conversa e conclusão semelhantes acontecem na sala de jantar, nas padarias e nos botecos. Aí se esconde a máscara.

É preocupante crer que a corrupção se caracteriza como uma doença distante, que contamina e apodrece instituições em um reino fora da realidade. Os políticos são efetivamente representantes e reflexos da sociedade, seja pela decepção, seja pela atmosfera de impunidade que respiram. Eles podem nos parecer inalcançáveis como fonte de poder, mas lembram – como espécie - cada vez mais cópia escarrada de muitos cidadãos comuns.

A corrupção se alojou em todos os níveis sociais. Tão promíscuo quanto a deputada gravada recebendo propina são os deslizes diários, nas relações cotidianas. Proporção financeira ou status não alteram o escorregão ético. Estamos acostumados em achincalhar a classe política como um elemento externo, enquanto fazemos vistas grossas para os favorecimentos e privilégios que acontecem dentro do quintal.

O jeitinho brasileiro é valorizado como uma característica peculiar, positiva dentro de um pacote de criatividade e improviso. Na burocracia, aceitamos com relativa passividade a ideia de que ter dificuldades é inerente à venda de facilidades.

Criticamos e elogiamos leis que combatem o nepotismo, mas somos cínicos quando separamos o público e o privado para criar dinastias particulares, por exemplo, no ambiente de trabalho. Na política miúda, uma visitinha ao gabinete de qualquer vereador – você se lembra em quem votou há quatro anos? – mostra que muitos eleitores os procuram para pedir emprego, jamais para cobrá-los pelas funções do cargo.

Encaixar alguém no serviço público vira moeda de troca entre o parlamentar e seu voto em corpo de gente. E depois reclamamos que a máquina vive inchada, numa hemorragia contínua. Eleitores alegam que políticos são assim mesmo, habitantes da lama, e que por isso os abordam apenas por coerência com o histórico de atitudes.

A descrença no modelo pode nos conduzir a reproduzi-lo e a gostar de praticá-lo. Criticamos a meritocracia quando ela não nos beneficia. Temos dificuldades de pensar coletivamente e caímos na tentação de abrir a porta que resolve o problema. O imediato como sinônimo do individual.

Protestar contra a corrupção é exercício de cidadania, mas ainda atado a um alvo genérico. Combater a politicagem na casa do vizinho é saudável, só que implica em limpar a própria sala antes. Estamos prontos para cortar fundo a própria carne?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Procura-se uma parede

O Corinthians precisa de um grande goleiro. Não é de um goleiro de bom nível, mas de um profissional que se aproxime da perfeição, que flerte com o incontestável. Julio Cesar amargou anos na reserva e soube aproveitar a lacuna deixada por Felipe, hoje no Flamengo. Rafael Santos, por exemplo, falhou seguidas vezes e acabou no Avaí, time que enviou Renan, incinerado após três partidas e três escorregões.

Mais de 10 goleiros passaram pelo Corinthians desde a saída de Dida. Pouco afeito ao marketing, nada voador, gelado embaixo das traves, Dida foi o último grande goleiro a defender a camisa 1, no Parque São Jorge. A passagem durou dois anos, e Dida levou os campeonatos brasileiro e mundial.



Antes dele, o único a segurar a responsabilidade foi Ronaldo, tão seguro quanto tenso na relação com zagueiros e atacantes. Permaneceu uma década à frente do cargo de confiança. Talvez o temperamento tenha brecado sua trajetória rumo à seleção brasileira. Ronaldo liderava, junto com Neto, o elenco mediano que faturou o primeiro Brasileirão, em 1990.


Depois de Dida, uma sucessão de profissionais corretos, mas nenhum capaz de gerar medo nos adversários. Todos suscetíveis à irregularidade, a maioria adepta do modelo contemporâneo, espalhafatosos para as fotos, instáveis para os zagueiros, rebatedores cotidianos.

Felipe, é verdade, agüentou o velório, o enterro e a ressurreição. Foi ao inferno da segunda divisão e retornou à elite com o Corinthians. Mas vivia de birra com dirigentes e torcedores. Nunca conseguiu ser popular, sequer se aproximar da unanimidade. E encarna o modelo.



O clube optou por revelações da base, como Rubinho (irmão de Zé Elias) e Marcelo; por reforços de clubes grandes, como Nei (ex-Fluminense), por ídolos de outras equipes, como Fabio Costa (Santos) e Silvio Luiz (São Caetano); revelações do interior, como Maurício; veteranos como Jean (ex-Bahia) e incógnitas, como Doni, hoje no Liverpool, da Inglaterra.

Nenhum deles deixou saudades. Tive que fazer uma pesquisa e contar com a ajuda de colegas para chegar em alguns destes nomes. Todos acabaram destinados à vala comum da história do clube, com importância secundária.

O problema se agrava quando o Corinthians olha para os vizinhos. O Palmeiras é uma escola de goleiros. De Valdir Joaquim de Moraes a Leão. De Veloso a Zetti. Marcos, às vésperas da aposentadoria, já tem dois sucessores, Deola e Bruno, sem contar a formação de goleiros de ótimo nível como Diego Cavalieri, hoje no Fluminense.

O São Paulo mantém Rogério Ceni, que não gera a menor preocupação com o posto. Em raros casos de ausência do titular, Denis tem cumprido o papel à altura. O Santos revelou Rafael, depois da lacuna gerada pelo fim da era Fabio Costa. Rafael tem chances reais de ir às Olimpíadas, no próximo ano. Quem acompanha o dia-a-dia do Santos garante que o reserva Vladmir tem a mesma competência.

Julio Cesar subiu de degrau no início do Campeonato Brasileiro. Acompanhou o desempenho do time, que havia disparado na liderança. Também enfrentava a concorrência de Renan. Só que se tornou irregular nas últimas partidas, assim como o restante da defesa.



A falha no último jogo, na derrota para o Fluminense, não confirma ou ameniza a ideia de que o Corinthians precisa de um profissional de ponta. Os riscos são mais antigos. O titular atual derrapou em confrontos decisivos, como a semifinal contra o Santos, pelo Campeonato Paulista.

Falta a ele ainda a liderança, tanto para organizar a defesa, como para dizer aos atacantes quem manda dentro da grande área. Sem impor a Julio Cesar o peso da comparação, mas Rodolfo Rodriguez – por exemplo – chegou a expulsar centroavantes do seu território, que se transformaram em meias tamanho o pavor do uruguaio, na Vila Belmiro.

Grandes goleiros falham. Engolem frangos vergonhosos. O que os diferencia dos goleiros normais é que escolhem a dedo as partidas em que vão afundar o time. Assim como também decidem com critério cirúrgico quando funcionarão como paredes contra os adversários. Não é o caso, infelizmente, de quem veste a camisa 1 do Corinthians hoje.

sábado, 10 de setembro de 2011

O consultório

Resolvi tomar vergonha na cara e fazer um check-up. O primeiro sintoma é perceber que o caminho da saúde exige paciência. Para verificar as condições reais da máquina gasta, fugi de percepções pessoais que se baseavam em exercícios de auto-engano. E ouvir quem tem algo consistente e especializado a me dizer.

Para alcançar as palavras de sabedoria (ou de alerta), é necessário esperar. Horas para pegar autorização do plano de saúde. Horas para que o auditor – uma entidade invisível até para médiuns - decida se eu posso fazer o exame que ele julga extra. Horas para ter o sangue transferido para vários tubinhos, por uma moça de branco que acredita estar diante de um homem apavorado. Não adianta deixar claro que agulhas são parte da rotina. A premissa é que, se você não desmaiou, ainda vai desmaiar.

A peregrinação pelo universo dos uniformes brancos termina na sala de espera do consultório. Aguardar para levar uma bronca previsível, por causa do comportamento que desconfio ser desviante por natureza.

A sala de espera não é exatamente um local animado. Doentes ou em consulta de rotina, todos exalam tédio. A secretária é o abrigo de todas as reclamações, comentários sobre o tempo, o futebol do final de semana, os políticos como seres desprezíveis, a doença do Gianechini.

A doença? Todas as conversas desembocam em enfermidades. O primeiro passo é justificar a presença na ante-sala.

— Minhas dores na perna não me deixaram dormir no final de semana.

— O tempo mudou! A bronquite atacou de novo!

— Não sei exatamente o que tenho. Se não tenho algum problema, vou ter. Por isso, vim aqui.

A etapa seguinte é a troca de experiências. Na verdade, uma corrida para definir quem sofreu mais. Inicialmente coletiva, a conversa reduz o tom e se divide em diversos diálogos. Pequenos duelos em que vence o dono da maior lista de enfermidades.

A exceção fica por conta da estada em UTIs e outras experiências como cânceres, derrames e enfartos. Enumerar tais casos quase garante a vitória por nocaute do adversário. Mas existem os golpes baixos. Apela-se para as internações de parentes e amigos. É o gatilho para tirar o foco da derrota e se manter vivo no ranking dos doentes.

Quando se esgota a etapa das moléstias, os pacientes viram os holofotes para o médico. De herói à abnegado ou até desorganizado, o médico tem sua vida escarafunchada como se fosse uma celebridade aos olhos e bocas dos fofoqueiros da TV.

É o momento em que a secretária volta ao enredo no papel de advogada. Cabe a ela explicar o que será visto com desconfiança. Como o médico se atrasou? Como ele tem vida própria e vai viajar no feriadão? Ou, oficialmente, estará em Congresso?

A conversa sem futuro ultrapassa os limites quando se rompe a regra de ouro: um paciente é chamado na frente dos outros. A fila informal, repassada por neurose a cada 10 minutos, se reconstrói na união de olhares que deixariam o felizardo em coma. Enquanto é atendido, o paciente é o novo e último assunto. A condição de saúde alheia passa por mais especulações do que pregão da Bolsa de Valores.


Ao sair, o remédio é o silêncio ou boa tarde em voz baixa, para atravessar ileso o corredor polonês. Assim, me libertei temporariamente para enfrentar outro catálogo de doenças: a farmácia.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O dia em que recebi cartão vermelho (e não vi)

Resolvi ser jornalista por causa do futebol. E não me arrependo de ter me afastado dele. Passei 16 anos sem escrever sobre este esporte, parte por me contentar com os papéis de torcedor e de peladeiro de final de semana, parte por não querer me envolver com a previsibilidade que marca a cobertura diária nos clubes.

No ano retrasado, por estímulo de um amigo escritor, comecei a escrever sobre o assunto, coerente com as perspectivas que me estimulam no trabalho jornalístico. Tento – e eventualmente fracasso – olhar para o jogo além da opinião acelerada, quase que confeccionada à beira do campo.

O jogo pode ser visto além dos resultados imediatos, da perspectiva pontual que forma ídolos e vilões a cada final de semana. Creio na possibilidade de sentir o futebol com a poesia que o tortura nos detalhes, que o mantém vivo pela gangorra que sustenta personagens paradoxais e, exatamente por isso, tão apaixonantes.
No mundo contaminado pelo excesso de dados, escrever sobre futebol implica, para mim, observar entrelinhas e buscar ângulos que saiam do lugar-comum da informação crua ou do sensacionalismo que impregna o espetáculo. Opinar significa assumir riscos e expor certa dose de paixão consciente, que apimenta o caldeirão de divagações.

Observar o futebol e pensar sobre ele me abriu, por outro lado, uma porta dolorosa. O futebol me ajudou a compreender como a paixão pode encobrir sentimentos nada nobres. A paixão como doença provoca cegueira e nos deixa sem olfato para sentir a podridão que cerca o esporte. Torcedores se tornam presas fáceis para as sanguessugas e os falsos profetas, que fazem juras eternas de amor, tão fugazes quanto o falso craque que nasce a cada rodada de domingo.

A paixão pelo futebol mascara – e aí reside o problema mais grave – a perversidade humana. Torcer por um time está bem distante da intolerância de desejar o extermínio do outro. Como se fosse possível minimizar que parte da história de um clube só se sustenta com a trajetória dos principais rivais. O que seria do Flamengo sem o Fluminense? Do Corinthians sem o Palmeiras? Nada mais angustiante do que esperar e vivenciar as horas que antecedem um clássico, mesmo que a partida valha pouco. Sempre vale muito. Ressuscita ou enterra técnicos e jogadores.

A paixão cega – mas não tão vendada assim – esconde a violência impregnada naqueles que utilizam o esporte e seus atores para extravasar preconceitos e desejos agressivos. A intolerância conduz ao autoritarismo, que se escora em grupos para promover crueldade, usando como desculpa o amor pelo esporte.

Massacrar o outro – seja psicológica ou fisicamente – indica o quanto o futebol serve de válvula de escape para quem não consegue exercitar o nível mínimo de civilidade e traduz a selvageria na surdez diante de uma palavra diferente ou de outro tipo de amor. O diferente traz em si tamanha ofensividade que ele precisa ser extinto, precisa sair da frente, ainda que resulte no vazio da ausência de alguém para se postar como contraponto.

A intolerância em torno do futebol exige devoção absoluta. Este tipo de gente age de maneira tóxica até quando é enganado descaradamente por dirigentes, jogadores e imprensa. Prefere perpetuar o estelionatário do que questionar o alvo de sua paixão. O fanatismo que conduz ao auto-engano. E ser fanático não significa ser otário.

O fanatismo também se traduz na impossibilidade de reconhecer méritos no adversário e em elogiar ídolos de outras equipes, que contribuem inclusive para a manutenção da rivalidade, independentemente do resultado. Vencer o ídolo do outro valoriza a vitória assim como reforça a formação dos nossos próprios ícones.

Resolvi pensar com serenidade sobre futebol e intolerância porque, recentemente, fui adicionado a um grupo de torcedores do Corinthians, ato de generosidade de um amigo. Ele havia lido textos meus sobre futebol, parte deles sobre o Corinthians, e achou por bem me colocar em contato com outros torcedores. Um dos textos era uma declaração de amor ao clube.

Fui testemunha de vários casos de jornalistas que criaram mecanismos de mediação em seus blogs por causa da agressividade de torcedores, incapazes de separar a análise da arquibancada. E acabei envolvido em experiência semelhante, embora desconfiasse que aconteceria cedo ou tarde, fato alertado pelo amigo-escritor.

O primeiro conflito se deu quando questionei o time atual. Foi como ter dilapidado um dogma. Quebrei a imagem de um santo. Enfiei a espada no próprio São Jorge. A ordem é vomitar a euforia pela desqualificação do autor, sem avaliar os argumentos dele, enquanto se encobre as feridas. Mal sabia que me comportava como um herege, passível de julgamento inquisitório.

A confirmação do meu comportamento de blasfêmia se deu quando resolvi escrever sobre Rogério Ceni (veja texto logo abaixo neste blog). Qualquer sujeito de bom senso consegue perceber a importância do goleiro do São Paulo para o futebol brasileiro, seja pela qualidade técnica, seja pela liderança.

Sabia que soaria como provocação dividir minhas impressões do ídolo alheio com torcedores corintianos, mas tinha a ingênua esperança de que torcedores poderiam ser racionais. O texto provocou reações ofensivas contra o adversário tricolor. Não recebi ataques diretos, mas senti a intolerância silenciosa. Sem aviso, acabei expulso do grupo na rede social. Notei que havia um cartão vermelho diante de mim quando não conseguia mais ver as reações dos “coleguinhas” do Timão.

A despedida sem solenidade me fez refletir sobre porque misturamos e confundimos a paixão pelo futebol com a violência diante do outro. Minha história, lógico, pouco representa perante as batalhas campais em torno de estádios ou as humilhações contra jogadores que pensam ou agem fora do padrão.

O futebol, na prática, funciona como catalisador de vários lados que nos marcam. Ele é o que somos (ou desejamos ser). Espelho cultural que, infelizmente, absorve como falso responsável as fraquezas de quem mal consegue olhar para além de si próprio. Quanto mais ouvir quem veste camisas de outras cores. Ou a mesma camisa, mas escolheu olhar para o lado.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Os ensinamentos de Rogério Ceni

Os 21 anos de carreira de Rogério Ceni no São Paulo, traduzidos em mil jogos e mais de cem gols, não indicam apenas recordes. Mais do que simplificá-lo em números, o goleiro é um modelo de jogador que, infelizmente, existe como exceção e que, por isso, deve nos servir de referência. É preciso aproveitar o que Ceni representa para entendermos o que se pode aprender com ele.

A lição mais óbvia é a longevidade. Goleiros, pelas características peculiares do cargo, duram mais tempo. Mas a sobrevivência em equipes de ponta é para poucos, inclusive porque a idade reduz a agilidade e os reflexos. Rogério Ceni percebeu as dores do tempo e as trocou por senso de colocação e maior capacidade de organizar a defesa e, assim, se expor menos aos atacantes. Faz menos defesas por jogo, e as torna mais decisivas. 


O segundo ensinamento diz respeito ao amor por um clube. Ceni e Marcos, do Palmeiras, são exemplos raros de relação afetiva com uma camisa. A cada temporada, times são desfigurados e recompostos, muitas vezes, por jogadores que beijam distintivos e fazem juras de amor da mesma forma que o fazem por marias chuteiras nas boates.

Rogério Ceni reinventou (e ampliou) o papel dos goleiros. Depois que a Fifa proibiu que o goleiro pegasse com as mãos bolas recuadas por atletas do mesmo time, a falta de habilidade de quem representa o anti-futebol ficou escandalosa. Muitos erros grosseiros passaram a preencher programas esportivos. Até um passe lateral, para certos colegas de Ceni, parece parto prematuro.

O goleiro do São Paulo não somente se adaptou à nova função como se transformou em líbero, que o permite reduzir a distância entre ele e os zagueiros, como também ajeitar a defesa e acelerar a saída de bola, sem chutões para frente como se apostasse na loteria. 



Outro aspecto técnico é que Rogério Ceni representa o final de uma linhagem de goleiros. Goleiros treinados para segurar a bola e interromper de vez uma jogada adversária. Goleiros com senso apurado de posicionamento, que utilizam outras partes do corpo para executar uma defesa. Ceni e Marcos, por exemplo, estão sendo substituídos por goleiros voadores que vivem de rebatidas e que se esparramam no chão, ainda que a bola esteja na direção deles. Ou que voam sem necessidade, sabendo que não têm chances de executar a defesa.

Rogério Ceni, assim como outros goleiros de hoje, sabe que vestir a tarja de capitão não tem a função exclusiva de reclamar com o juiz e ter chiliques com os companheiros de time. O goleiro, privilegiado – neste caso – por participar menos do jogo, simboliza o técnico dentro do campo. É um porta-voz, capaz – eventualmente – de alterar o desenho tático de um time, fortalecido pela proximidade e pelo diálogo horizontal com os colegas. É mais efetivo do que muitos treinadores que ficam sem fôlego de tanto berrar à beira do gramado.

Os desafetos consideram Ceni falastrão. Prefiro vê-lo como bem articulado. São poucos os jogadores, hoje, capazes de romper o pacto previsível da obviedade de perguntas e respostas nas entrevistas. Aqueles que o criticam são muitas vezes os mesmos que se entediam com conversas sem surpresas e declarações insípidas do mundo do futebol. Não é preciso concordar com as palavras dele, mas ao menos teremos certeza de que algo consistente será dito pelo goleiro do São Paulo.

A capacidade de falar bem nos conduz a outra característica importante do goleiro. Ceni consegue entender, com boa dose de clareza, o contexto do futebol globalizado. A maioria dos colegas de profissão dele é incapaz de descrever o próprio papel no cenário do esporte. Não conhecem o mercado e se tornam presas fáceis para empresários e demais aproveitadores, que estragam carreiras promissoras, com escolhas profissionais ruins, em troca das comissões de compra e venda de atletas. 


A compreensão do universo do futebol inclui também dispensar as falsas premissas do show business. O goleiro se esquiva da rotina de muitos jogadores-celebridades, pois tem consciência de que as tentações são proporcionais aos pecados. Neymar, por exemplo, personifica o jogador cuja vida é um reality show. Ceni nos ensina como ser atleta de ponta e preservar a privacidade pessoal e de seus familiares. Lição dada pelo seu antecessor, o ex-goleiro Zetti.

Associar Rogério Ceni a um excelente cobrador de faltas é reduzi-lo como profissional de futebol e, inclusive, desqualificá-lo tecnicamente como goleiro. Enxergá-lo como goleiro de excelente nível é um elogio, mas insuficiente como senso de justiça. 

Rogério Ceni é fora de série porque, além da capacidade técnica, colaborou para colocar os goleiros em outro patamar, que engloba novas prerrogativas e exige que sejam um tipo de jogador mais participativo e influente dentro e fora do jogo em si. Por isso, me esforço para esquecer as estatísticas e admirá-lo como um novo goleiro; pena que mais próximo da extinção do que da clonagem.

Bonitas e gostosas

Por Luciana Sampaio e Rochelly Diniz*

O que leva a mulher a andar a poucos milímetros de chão? Percebe-se a ousadia de inúmeras moças em escala mundial, das mais velhas às cada vez mais novas, das patricinhas às “piriguetes”. Desfilam em sua maioria com modelos, cores e, principalmente, marcas diferentes.

As sandalinhas infantis da Barbie já vêm com saltinho. Modesto, vamos admitir, mas ainda assim presente. Teria necessidade uma menina que mal aprendeu a andar ter que de equilibrar sobre um minicubano rosa de plástico? Além da enorme variedade de marcas, sendo os carros-chefe as francesas e italianas Louis Vuitton, Prada, Dior, Gucci, Christian Louboutin e seus solados vermelhos, a altura está cada vez maior. Já se pode comparar às bailarinas nas pontas de suas sapatilhas, só que com Luis ou Stiletto 12, 15.

Este texto retrata uma crítica à indústria? Ou critica as grandes marcas? Estas que influenciam a grande massa ao consumo exacerbado a cada mudança de estação? Ou talvez um julgamento maior à moda mundial que dita coleções, tendências e as cores da tabela Pantone Inc. as quais só as “madames” de classe AA+ acompanham direta e rigorosamente as vitrines da Oscar Freire?

Não! Só queremos falar mesmo sobre essa obsessão feminina que acompanha a história desde o antigo Egito. O poder transpassa à mulher, mexendo com a nossa vaidade, nos deixando mais sexies ou assim os homens nos fazem acreditar. Revira também a cabeça destes seres de Marte, já que sexo está ligado ao salto alto e acompanhado de uma cinta liga nas mais íntimas fantasias.

Claro, relacionamos à complexidade da mente feminina à nossa própria altura. Se somos baixas, queremos ter uns centímetros a mais que podem facilmente ser resolvidos com um par de Anabelas. Se somos altas, por que não um pouco mais de “poder”?

No fim das contas, o que o queremos mesmo é estar nas alturas e dizer: “Eu sei que eu sou bonita e gostosa, e sei que você me olha e me quer...”

* Texto produzido na Oficina de Crônica, na disciplina Leitura e Produção de Textos, do curso de Produção Multimídia (UNISANTA)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ser ou não ser de ninguém ...

Por Camila Ortiz*

Saudade de uma época quando o amor não era apenas palavras e a conquista era a magia da sedução. Como saber se hoje esse sentimento tão puro não está se perdendo nos olhares das pessoas? Uma questão ainda a se resolver, pois – a cada dia - a ilusão desse sentimento vem crescendo pouco a pouco e o tornando cada vez mais raro entre homens e mulheres.

Uma vez Renato Russo disse com sabedoria ímpar: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão". Pretensiosamente, assino embaixo. Os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias. Na hora de cantar, todo mundo enche o peito nas boates e gandaias, levanta os braços, sorri e dispara: “… eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também…”

No entanto, passado o efeito da manguaça com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração tribalista se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.

A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu. Beijar na boca é bom? Claro que é! Se manter sem compromisso, viver rodeado de amigos em baladas animadíssimas é legal? Evidente que sim. Mas por que reclamam depois?

Será que os grupos tribalistas se esqueceram da velha lição ensinada no colégio, de que toda ação tem uma reação? Agir como tribalista tem conseqüências, boas e ruins.

Embora já saibam namorar, os tribalistas não namoram. “Ficar” também é coisa do passado. A palavra de ordem hoje é “namorix”. A pessoa pode ter um, dois e até três namorix ao mesmo tempo. Dificilmente está apaixonada por seus namorix, mas gosta da companhia do outro e de manter a ilusão de que não está sozinho. Nessa nova modalidade de relacionamento, ninguém pode se queixar de nada.

Caso uma das partes se ausente durante uma semana, a outra deve fingir que nada aconteceu; afinal, não estão namorando. Aliás, quando foi que se estabeleceu que namoro é sinônimo de cobrança? A nova geração prega liberdade, mas acaba tendo visões unilaterais. Assim, como só deseja a cereja do bolo tribal, enxerga somente o lado negativo das relações mais sólidas.

Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas, e a troca de cumplicidade, carinho e amor.

Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer boa noite, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar.

Já dizia o poeta que amar se aprende amando. Assim, podemos aprender a amar nos relacionando. Trocando experiências, afetos, conflitos e sensações. Não precisamos amar sob os conceitos que nos foram passados. Somos livres para optarmos. E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém.

É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento…

É arriscar, pagar para ver e correr atrás da tão sonhada felicidade.

É doar e receber, é estar disponível de alma, para que as surpresas da vida possam aparecer.

É compartilhar momentos de alegria e buscar tirar proveito até mesmo das coisas ruins. Ser de todo mundo, não ser de ninguém, é o mesmo que não ter ninguém também.

Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo – beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja, é preciso comer o bolo todo e, nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc.

* Texto produzido na Oficina de Crônica, na disciplina Leitura e Produção de Textos, no curso de Produção Mutimídia (UNISANTA)

sábado, 3 de setembro de 2011

Frases de banheiro

Por Guilherme Nascimento*

As frases de porta de banheiro são mais um dos muitos frutos do tédio humano, assim como os rabiscos de caderno. Ou os programas televisivos de domingo. O fato é que, assim como eles, as frases de banheiro — chamadas de agora em diante para fins de agradabilidade visual e por preguiça do autor — possuem várias características em comum.

O primeiro ponto é a própria origem. Se alguém dedicou o tempo a marcar uma porta com estilete ou corretivo líquido, uma das duas hipóteses é certa: esse alguém tem pouco o que fazer fora do banheiro ou muito o que fazer dentro dele.

O segundo ponto é que as frases de banheiro se enquadram em um grupo limitado de temas. Uma boa parte das mensagens trata de atributos físicos ou psicológicos do autor ou de alguma outra pessoa, geralmente mulher. Às vezes, são fornecidos meios de contato. Em outras, é determinado data e horário para um possível encontro com o leitor. Mas existe uma pequena parcela de autores que prefere deixar uma mensagem curta dizendo o que foi feito no banheiro para que tal autor tivesse tempo de deixar a mensagem. É desnecessário dizer que a única ação excluída do relato é própria inscrição da mensagem.

Por último, e não menos importante, as frases de banheiro não precisam seguir regras de correção. É até mais característico que não sigam. Um “s” pode ser trocado por “z”, um dígrafo pode perder uma letra considerada desnecessária. Aliás, hoje mesmo vi um Manji, símbolo oriental de boa sorte, desenhado numa porta. Provavelmente, foi feito por alguém que queria desenhar uma suástica e fez ao contrário por engano.

A propósito, faço parte do grupo que não tem muito o que fazer no mundo exterior. Só queria deixar isso claro antes de encerrar.


* Texto produzido na Oficina de Crônica, na disciplina Leitura e Produção de Textos, no curso de Produção Multimídia (UNISANTA).

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A morte do abacateiro

Culpei, de início, o mau tempo. Dias chuvosos costumam mantê-las em casa. Mas elas também estavam ausentes quando o sol castigava. Pensei que o silêncio fosse conseqüência dos dias de escola, com agenda digna dos executivos. Mas o vazio persistia no final de semana, quando as crianças deveriam correr por ali, na avenida Pedro Lessa, em Santos.

As crianças desapareceram. O sumiço se deu por conta do ponto de encontro, maculado pelos adultos. Adultos armados de moto-serras e jalecos de serviço público. O abacateiro, referência para brincadeiras como esconde-esconde, de casa para a escola imaginária e de porto seguro para a volta das viagens fantásticas, morreu. De morte simbólica. De vida podada.

A árvore, tão antiga quanto às casas da quadra, resolveu interferir no desmando dos homens. Seus braços, articulados na desordem milimétrica da natureza, insistiam em tocar a rede de energia elétrica. A solução previsível foi a amputação. Até o toco. Até se tornar impossível para as escaladas infantis.

Escrevi sobre o abacateiro neste espaço há seis meses. A árvore havia transformado a rotina de uma dezena de crianças, acostumadas à prisão domiciliar e à inércia permanente dos jogos eletrônicos.

A liberdade, tão ilusória quanto permanente, parecia um indulto de Carnaval. As crianças exalavam infância, enquanto suas roupas encardidas de terra e poeira serviam de termômetro para o dia de exaustão voluntária. A queixa de muitas mães vinha acompanhada de um sorriso quando seus filhos desmaiavam mais cedo, sem interrupções, sem enrolações para embarcar no sono. A árvore carregava, de certa forma, a culpa por mudar aquela caminhada metódica de férias.

Hoje, o abacateiro se tornou mais um espécime na multidão verde, em fila na avenida. Sem braços, a árvore não gera a apreensão de quem precisa abrir mão de seu filho para o mundo, ainda que seja na porta de casa, à beira do asfalto. Ficou mais fácil justificar as chaves, as trancas, as grades, o medo do desconhecido, que anda travestido de segurança e precaução.

O abacateiro foi assassinado. Simbolicamente. Perdeu seu papel no enredo daquelas crianças, incapazes de perceber que suas vidas foram sacudidas com tão pouco. Infelizmente, a ingenuidade as fez improvisar suas brincadeiras em garagens, atrás de portões, cercadas por quatro paredes. Não se protesta, nessa idade, por batalhas perdidas. Muda-se a zona de combate.

A turma se dividiu. Cada prédio com sua gangue, reduzida a quase exércitos de um menino só. Muitas crianças se distanciaram e, quando se encontram, ficam tomadas pela vergonha como se estivessem diante de quem acabam de conhecer. O muito prazer do sorriso acanhado, que apagou os apelidos, as histórias e os personagens dentro de um script não-escrito e aberto às sugestões de qualquer um. E com uma árvore de cenário único!

A morte do abacateiro retirou da avenida o improvável. Entregou de volta à Pedro Lessa o cotidiano de via comercial, onde a velocidade cai ao ponto morto depois das 18 horas. As crianças desapareceram. O barulho de pés em movimento, os gritos que permeiam as aventuras sumiram. O som é exclusivo dos carros de passagem. Como exceção, as gargalhadas embriagadas diante dos dominós que sacodem o tabuleiro, em frente ao boteco na outra calçada.

O abacateiro permanece como testemunha, refém da própria inércia do mundo moderno. Ele sabe que, com algum esforço, as crianças podem ser encontradas. Basta que a árvore se lembre da infância, outra vez encarcerada em um pavilhão de brinquedos que ditam brincadeiras, e não o contrário.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Juninho, o discreto

Ao ligar a TV no último domingo, esperava assistir ao clássico entre Palmeiras e Corinthians. Partida em Presidente Prudente, critério perfeito para a transmissão. De saída, me senti lesado ao ver imagens do Rio de Janeiro, do clássico entre Flamengo e Vasco.

Entediado, optei por continuar com a TV ligada. Daquele jogo, poderia sair alguma jogada diferenciada. Mais fruto da memória do futebol carioca como jogo cadenciado e artístico do que confiança no nível atual do campeonato brasileiro.

A partida terminou 0 a 0, o técnico Ricardo Gomes acabou internado, mas a cereja do bolo foi acompanhar Juninho Pernambucano em campo. Sempre tive admiração pelo meia, hoje com 36 anos. Jeito clássico de atuar, ele desfila de cabeça erguida, com consciência de que o campo possui atalhos anti-correria.

Juninho é um atleta sério, com elevado profissionalismo, exceção em tempos de crianças mimadas com agendas de estrelas do rock, seres mais próximos da imortalidade. Mesmo longe da Europa, Juninho carrega o cetro real na França. Sete vezes campeão francês, foi um dos responsáveis por colocar o Lyon no mapa das competições européias, o que contrastava com a entressafra na seleção francesa.



Ao retornar o Brasil, o jogador ganhou mais créditos quando aceitou jogar pelo time do coração, o Vasco, pelo salário de R$ 600. Um pouco mais do que um salário mínimo. Juninho queria provar que, aos 36, poderia jogar no mesmo nível dos demais colegas de clube, sem privilégios ou exibições esporádicas para a torcida e imprensa. E sem lesar os cofres alheios.

Juninho poderia servir de exemplo para outros tipos de monarcas ou jogadores “fabulosos”, que voltam ao Brasil em péssimas condições físicas ou machucados e sangram as finanças dos clubes de São Paulo sem entrar em campo.

Mesmo rico pelos anos na Europa, o meia do Vasco merecia aumento de vencimentos. O jogador era o único capaz de mudar os semblantes da defesa e do goleiro do Flamengo. Colocava medo no adversário. Juninho é o melhor batedor de faltas do país, superior – inclusive – ao volante Marcos Assunção (Palmeiras) e ao goleiro Rogério Ceni.

No clássico contra o Flamengo, Juninho teve três chances. Ficava nítida a preocupação excessiva dos homens da barreira. O goleiro Felipe tentava armar a proteção de modo diferente, com mais gente e com maior abertura além da trave-base. Na primeira cobrança, a bola passou a centímetros do gol. Felipe se manteve imóvel. Tirou a bola com os olhos, como diz o clichê.


Na segunda tentativa, a bola atingiu a trave direita do goleiro, que saltou para a fotografia. A última, assim como a primeira cobrança, também foi para fora. O fato é que, em todas as situações, o gol do Vasco nunca esteve tão perto.

Seria injusto afirmar que o meia do Vasco se limita a bater faltas. Sequer justificaria este texto. As três cabeçadas defendidas por Felipe partiram de escanteios batidos por Juninho. O efeito faz com que a bola saia da pequena área, o que deixa os zagueiros adversários de costas para os atacantes e o goleiro impossibilitado de cortar o cruzamento.

Além de transformar cada bola parada em apreensão para o Flamengo, Juninho reinava entre as duas intermediárias. Todas as jogadas do Vasco passam por ele. Muitas vezes, ele buscava a bola perto da grande área de defesa para ditar o ritmo da equipe.

Juninho jogou por 80 minutos. E correu como um garoto com a metade da idade. Não possui, evidentemente, a velocidade de antes, mas cresceu em precisão (erra poucos passes) e verticalidade. Raramente partem dele toques laterais, prática tão disseminada entre os meio-campistas brasileiros.

É uma pena que o meia esteja em vias da aposentadoria. Deve jogar, no máximo, mais uma temporada. Juninho foi uma daqueles jogadores injustiçados na seleção brasileira. Participou apenas de uma Copa do Mundo, como reserva. Caladão, discreto, nunca integrou as turminhas de carteado ou soltou fogos de artifício para jornalistas puxa-sacos.


Com o império da visibilidade empresarial, em que jogadores “ucranianos” de segunda linha – por exemplo - freqüentam as listas de convocações, Juninho Pernambucano bem que poderia ter tido mais oportunidades na seleção brasileira. Bastava que técnicos convocassem por critérios técnicos, sem pensar em vitrine nos principais centros da Europa. Ou se abandonassem a obsessão por volantes que apenas destroem as jogadas e mal sabem o que fazer quando a bola queima em seus pés.

Juninho Pernambucano, Alex e tantos outros serão lembrados e idolatrados por torcedores específicos de clubes. Ao olhar para o futebol carioca, o tédio é imediatamente substituído pela admiração. Admiração que precisa sufocar o lamento de quem terei poucas oportunidades de testemunhar o meia do Vasco ensinar como se arma um time; mais do que isso, como se joga futebol sem robotização ou força bruta.